Borusara - O Preço do Olhar
5 Lembranças Queridas
O sol ainda não havia nascido completamente quando Boruto chegou ao complexo Hyūga.
O ar da manhã estava frio o suficiente para que sua respiração formasse pequenas nuvens de vapor. Normalmente, acordar tão cedo seria tortura. Mas nos últimos dias, o sono vinha difícil demais, interrompido demais, para que importasse muito.
O portão principal do complexo já estava aberto. Hanabi Hyūga o esperava no pátio de treinamento — um espaço amplo de chão batido, cercado por árvores antigas e marcado por anos de prática do Jūken. Ela vestia o tradicional kimono de treino do clã, os cabelos presos em rabo de cavalo alto, e tinha aquela expressão que Boruto já aprendera a reconhecer em apenas dois dias de treino.
A expressão que dizia: você vai sofrer hoje.
— Atrasado — disse ela simplesmente, embora Boruto tivesse chegado cinco minutos antes do horário combinado.
— Bom dia pra você também, Hanabi-san — respondeu ele, tentando soar casual enquanto se posicionava no centro do pátio.
Hanabi não sorriu. Apenas o observou com aqueles olhos brancos característicos do clã — não ativados ainda, mas avaliadores mesmo assim.
— Tire a camisa.
Boruto piscou.
— O quê?
— Tire a camisa — repetiu ela, sem paciência para constrangimento adolescente. — Preciso ver como seus músculos estão se movendo. O Jūken depende de precisão anatômica absoluta. Se sua postura estiver errada por um centímetro, o golpe não funciona.
Boruto hesitou por apenas um segundo antes de obedecer, retirando a camisa de manga longa e deixando-a de lado. O ar frio da manhã imediatamente arrepiou sua pele. Os curativos no tronco haviam sido removidos no dia anterior, as feridas do Rasengan agora eram apenas cicatrizes irregulares, marcas espirais que provavelmente nunca desapareceriam completamente.
Hanabi se aproximou, andando ao redor dele em um círculo lento, observando.
— As cicatrizes estão bem curadas — comentou clinicamente. — Mas a musculatura ainda está compensando. Vejo tensão aqui — tocou levemente as costelas do lado esquerdo — e aqui. — Tocou o ombro direito. — Seu corpo está protegendo as áreas feridas inconscientemente, o que está desalinhando sua postura.
— Não tá doendo — disse Boruto.
— Não precisa doer para estar errado. — Hanabi voltou a ficar de frente para ele. — O Jūken não funciona com força bruta. Funciona com precisão cirúrgica. Cada golpe deve atingir um ponto de chakra específico no corpo do oponente. Se sua postura estiver desalinhada, você erra o alvo. E errar no Jūken significa desperdiçar movimento e energia.
Ela se posicionou na forma básica de combate Hyūga — pernas afastadas na largura dos ombros, joelhos levemente flexionados, mãos abertas com os dedos estendidos, corpo ligeiramente inclinado para frente.
— Copie.
Boruto tentou imitar a postura.
Hanabi balançou a cabeça.
— Joelhos mais flexionados. Costas mais retas. Ombros para trás. Dedos juntos, não separados. — Ela se moveu ao redor dele, ajustando cada parte manualmente. — O centro de gravidade do Jūken é mais baixo que o seu estilo usual. Você luta como seu pai — agressivo, frontal, baseado em força de impacto. O Jūken é diferente. É sobre controle. Sobre redirecionamento. Sobre saber exatamente onde tocar para desabilitar completamente um oponente.
Ela bateu levemente no pulso de Boruto com dois dedos.
— Aqui, um ponto de chakra. Se eu atingir com precisão... — Ela aplicou pressão mínima.
Boruto sentiu seu braço inteiro formigar e perder força instantaneamente, caindo inerte ao lado do corpo.
— ...você perde o membro — completou Hanabi, soltando. A sensação voltou gradualmente, mas a mensagem estava clara.
— Isso é assustador — admitiu Boruto, flexionando os dedos para recuperar o controle.
— É eficiente. — Hanabi voltou para sua posição. — E é exatamente o tipo de técnica que você precisa aprender. Você confia demais em poder bruto. Rasengan, clones, ataques de chakra concentrado. Mas contra oponentes que absorvem chakra — como aquela mulher que Konohamaru enfrentou — ou que se movem rápido demais para você acertar com força — como o ninja mascarado — você precisa de precisão.
Boruto assentiu lentamente. Fazia sentido. Doía admitir, mas fazia sentido.
— Então... me ensina.
As primeiras Horas haviam se passado, mas já pareciam dias para Boruto. Hanabi não começou com técnicas avançadas, começou com o básico absoluto.
— O Jūken se baseia no Byakugan — explicou, ativando seus próprios olhos. As veias ao redor das têmporas saltaram, e seus olhos ganharam aquela intensidade focada característica. — Com o Byakugan, vemos o sistema de chakra completo do oponente. Cada ponto. Cada meridiano. Cada ponto de fluxo. É como ver o mapa interno do corpo deles.
Ela apontou para Boruto.
— Ative seu Jōgan.
Boruto respirou fundo. Esse era sempre o problema.
O Jōgan não era como o Byakugan ou o Sharingan. Não ativava por vontade consciente — pelo menos não de forma consistente. Às vezes surgia em momentos de perigo extremo. Às vezes quando ele sentia ameaças específicas. Às vezes... simplesmente aparecia, sem razão clara.
Ele fechou os olhos, tentando se concentrar. Tentando alcançar aquela sensação estranha que sempre acompanhava a ativação — como se algo dentro de seu olho direito estivesse abrindo, expandindo, vendo além do que deveria ser possível.
Segundos passaram. Nada.
— Não tá funcionando — disse Boruto, frustrando-se.
— Continue tentando.Boruto tentou se lembrar de quando o Jōgan havia ativado antes. No exame jōnin, quando percebera a ameaça de Momoshiki. Durante a missão, quando vira o fluxo de chakra dos inimigos. Sempre havia sido reativo. Nunca proativo.
— Eu não sei como fazer ele ativar — admitiu. — Ele só acontece.
Hanabi cruzou os braços, pensativa.
— O Byakugan é ativado por controle consciente de chakra ocular. O Sharingan também, embora dependa de emoções fortes inicialmente. Mas o Jōgan... — Ela pausou. — Hinata-sama e eu pesquisamos sobre ele. É um dōjutsu extremamente raro. Praticamente não há registros. Mas baseado no que observamos, parece responder a algo diferente.
— A quê?
— Intenção. — Hanabi se aproximou. — Não vontade de ver, mas necessidade de ver. O Jōgan parece ativar quando você precisa perceber algo além do visível. Ameaças. Fluxos de chakra anormais. Distorções dimensionais. Não é sobre querer usar o poder. É sobre precisar da informação que ele fornece.
Boruto processou isso.
— Então... eu preciso... precisar ver?
— Exatamente. — Hanabi se posicionou em guarda. — Então vou te dar um motivo para precisar.
E atacou.
O golpe veio rápido, não letal, mas sério o suficiente. Boruto desviou por instinto, recuando. Hanabi não parou. Avançou novamente, uma sequência de golpes precisos direcionados aos pontos de chakra que ela sabia que desabilitariam seus movimentos.
Boruto bloqueou o que pôde, desviou do resto. Mas estava na defensiva completa. Cada vez que tentava contra-atacar, Hanabi simplesmente não estava mais lá, se movendo com a economia de movimento característica do estilo Hyūga.
— Você não consegue me acertar porque não sabe onde eu vou estar — disse ela, atacando novamente. — E não sabe onde atacar em mim porque não vê meu chakra. Ative o Jōgan, Boruto. Precise dele.
Boruto tentou. Mas pensar conscientemente sobre isso não funcionava. Era como tentar forçar o sono — quanto mais tentava, menos acontecia.
Um golpe passou por sua guarda e atingiu seu ombro.
O braço inteiro formigou e caiu.
— Merda! — Boruto recuou, usando apenas o braço esquerdo agora.
— De novo — ordenou Hanabi.
Ela atacou mais rápido.
Boruto estava perdendo. Sabia disso. Só tinha um braço, estava na defensiva, e Hanabi claramente não tinha intenção de facilitar.
Eu preciso ver, pensou desesperadamente. Preciso saber pra onde ela vai. Preciso—
E então aconteceu.
Não gradualmente. Instantaneamente.
Seu olho direito queimou — não dolorosamente, mas intensamente — e o mundo mudou.
O Jōgan ativou.
E Boruto viu.
O chakra de Hanabi não era apenas visível, era óbvio. Linhas azuis brilhantes percorrendo todo seu corpo, concentrando-se em certos pontos, fluindo em padrões específicos. Mas mais que isso, ele podia ver o movimento do chakra antes dela se mover. Via a concentração se formando em seu pé direito uma fração de segundo antes dela pivotar naquela direção.
— Ali! — Boruto se moveu, bloqueando o ataque antes dele chegar.
Hanabi sorriu — um sorriso pequeno, mas genuíno.
— Bom. Agora mantenha.
Eles continuaram por mais dois minutos.
Com o Jōgan ativo, Boruto conseguia acompanhar. Não perfeitamente, Hanabi ainda era muito mais experiente, mas o suficiente para não ser completamente dominado. Ele via onde ela atacaria, via os pontos de chakra em seu próprio corpo que ela mirava, conseguia antecipar movimentos.
Mas então a dor começou.
Primeiro foi só uma leve pressão atrás do olho. Depois ficou mais intensa. Depois começou a latejar. Depois a queimar. Boruto perdeu o foco por apenas meio segundo. Foi o suficiente.
Hanabi o atingiu no centro do peito, não forte, mas preciso. Boruto sentiu seu chakra inteiro tremer, destabilizar, e ele caiu de joelhos, ofegante.
O Jōgan se desativou sozinho.
— Quanto tempo? — perguntou Hanabi, cronometrando mentalmente.
— Dois... talvez três minutos — respondeu Boruto, ainda recuperando o fôlego.
— É pouco.
— Eu sei! — Boruto esfregou o olho direito, que ainda doía. — Sempre foi assim. Não consigo manter por muito tempo. Depois de uns minutos, começa a doer demais e ele se desativa sozinho.
Hanabi ajudou-o a se levantar.
— Isso é porque seu chakra está desbalanceado — disse ela. — Sente aqui.
Levou-o até um banco de madeira à sombra. Boruto se sentou, ainda massageando o olho.
Hanabi se sentou ao lado, assumindo um tom mais didático agora.
— Você sabe o que é Yin e Yang em termos de chakra?
Boruto assentiu vagamente.
— Tipo... energia espiritual e energia física?
— Simplificando muito, mas sim. — Hanabi juntou as mãos. — Toda pessoa tem ambos. Yin é a energia da mente, da imaginação, da criação espiritual. Yang é a energia do corpo, da vitalidade física, da manifestação material. Normalmente, essas energias existem em equilíbrio natural. Mesmo que você tenha mais de uma que da outra, elas trabalham juntas harmoniosamente.
Ela o encarou.
— Mas você tem duas fontes de poder conflitantes. O Jōgan e o Karma.
Boruto tocou instintivamente a palma onde o selo do Karma costumava aparecer.
— Hinata-sama e eu examinamos seu chakra com o Byakugan ontem enquanto você dormia — continuou Hanabi. — O Jōgan parece ser predominantemente Yin. É um poder ocular, ligado à percepção, à visão além do físico. Mas o Karma...
— É Yang? — tentou Boruto.
— Mais complexo que isso. O Karma é alienígena. Não segue as mesmas regras do chakra humano normal. Mas a forma como ele se manifesta em você — aumentando força física, velocidade, regeneração, permitindo absorção de ninjutsu — tudo isso são características Yang. — Ela pausou. — E eles estão competindo dentro de você.
Boruto franziu o cenho.
— Competindo como?
Hanabi levantou as duas mãos, separadas.
— Imagine que seu corpo é um recipiente. Normalmente, Yin e Yang existem assim. — Ela moveu as mãos em círculos opostos, mas sincronizados. — Balanceados.
Complementares. Mas no seu caso... — Ela moveu uma mão rápida numa direção, a outra lenta em outra. — Eles estão puxando em direções diferentes. Quando você ativa o Jōgan, está puxando fortemente para o lado Yin. Mas seu corpo, influenciado pelo Karma, está naturalmente inclinado para Yang. Isso cria tensão. Stress. E é por isso que seu olho dói. É por isso que você não consegue manter por muito tempo.
Boruto processou lentamente.
— Então... eu preciso balancear eles?
— Exatamente. — Hanabi assentiu. — O Jūken pode ajudar com isso. O estilo de luta Hyūga é fundamentalmente sobre equilíbrio. Ataque e defesa. Agressão e controle. Força e precisão. Ao aprender o Jūken, você não está apenas aprendendo uma técnica de luta está aprendendo a harmonizar energias opostas dentro do seu próprio corpo.
Ela se levantou.
— Mas isso leva tempo. E prática. Muita prática.
Boruto também se levantou, determinação renovada apesar da exaustão.
— Então vamos praticar.
Hanabi sorriu levemente.
— Descanse cinco minutos. Depois começamos os katas básicos.
Mal pode descansar, logo Hanabi voltou com novas ordens. Se Boruto pensava que a parte do combate havia sido difícil, estava completamente despreparado para o tédio brutal dos katas.
Hanabi o posicionou no centro do pátio novamente.
— O Jūken tem sessenta e quatro posições básicas de mão — explicou. — Cada uma corresponde a um ângulo diferente de ataque aos pontos de chakra. Você vai aprender todas. Hoje, começamos com as primeiras oito.
— Só oito? — Boruto tentou soar animado.
— Você vai repetir cada uma cinquenta vezes. Com precisão absoluta.
O ânimo morreu.
Hanabi demonstrou — mão aberta, dedos unidos, palma voltada para frente, cotovelo levemente dobrado, pulso reto.
— Essa é a posição mais básica. É um golpe direto ao centro do chakra do oponente. Atinge o plexo solar ou o coração, dependendo da altura. — Ela executou o movimento em câmera lenta. — O poder não vem do ombro. Vem do core. Você rotaciona o quadril, transfere o peso, e a palma se projeta naturalmente.
Boruto imitou.
— Não — disse Hanabi imediatamente. — Seus dedos estão separados. Junte-os.
Ele ajustou.
— Pulso torto. Endireite.
Ajustou novamente.
— Cotovelo muito reto. Leve dobra.
Ajustou.
— Quadril não rotacionou. De novo.
E de novo.
E de novo.
Cinquenta vezes.
Boruto perdeu a conta em algum lugar perto de trinta, mas Hanabi não. Ela observava cada repetição com atenção cirúrgica, corrigindo micro-ajustes que Boruto nem percebia estarem errados.
Quando finalmente chegou à quinquagésima repetição — executada com precisão suficiente para Hanabi aprovar — o braço de Boruto estava tremendo de fadiga.
— Bom — disse ela simplesmente. — Próxima posição.
Cada uma exigiu as mesmas cinquenta repetições. Cada uma teve suas próprias correções intermináveis. E com cada posição, Boruto sentia músculos que nem sabia que existiam começarem a protestar.
O Jūken não era sobre força bruta, mas sobre controle muscular preciso. Cada dedo tinha que estar na posição exata. Cada rotação do pulso tinha que ser no ângulo perfeito. Cada transferência de peso tinha que ser suave, mas decisiva.
Era exaustivo de uma forma completamente diferente de lutar.
Quando finalmente chegaram à oitava posição, Tenketsu Oshi (Pressão de Ponto), Boruto estava suando profusamente apesar do frio da manhã. Seus braços tremiam visivelmente. Suas pernas queimavam de manter a postura baixa por tanto tempo.
— Água — ordenou Hanabi, apontando para a caneca que havia trazido.
Boruto praticamente cambaleou até lá, bebendo metade de uma vez.
— Como... — ele ofegou — ...como vocês fazem isso todos os dias desde criança?
Hanabi pegou sua própria água, bebendo calmamente.
— Fazemos. É por isso que o Jūken é tão efetivo. Não é talento natural. É milhares de horas de repetição até que cada movimento seja automático. Até que seu corpo saiba o que fazer antes mesmo do seu cérebro pensar sobre isso.
Ela olhou para o sol, agora mais alto no céu.
— Descanse quinze minutos. Depois vamos aplicar em combate.
Quando Boruto voltou ao centro do pátio, Hanabi havia colocado cinco postes de madeira ao redor dele — cada um marcado com círculos pintados em posições específicas.
— Esses círculos representam pontos de chakra — explicou. — Seu objetivo é acertá-los com as posições que acabou de aprender. Mas há uma regra: você tem que se mover entre os postes usando apenas os passos do Jūken. Sem pulos. Sem corrida. Apenas o movimento de pés que eu vou te ensinar agora.
Ela demonstrou — um passo deslizante, baixo ao chão, que permitia mudança rápida de direção sem perder a postura de combate.
— É chamado de Shunshin no Ashi — disse. — O passo do corpo-tremulante. Mantém seu centro de gravidade constante enquanto permite mobilidade rápida. É essencial fechar a distância sem telegrafar seus movimentos.
Boruto tentou imitar. Quase caiu.
— Joelhos mais flexionados — corrigiu Hanabi. — E pare de subir quando se move. O topo da sua cabeça deve permanecer na mesma altura.
Levou dez minutos só para Boruto conseguir atravessar o pátio usando o passo corretamente.
Então Hanabi adicionou o desafio real.
— Agora, vá para o primeiro poste. Acerte os três círculos marcados usando as três primeiras posições que aprendeu. Depois deslize para o próximo poste. Quando terminar os cinco postes, volte ao primeiro. Continue até eu dizer para parar.
— E você vai fazer o quê? — perguntou Boruto.
Hanabi ativou o Byakugan.
— Vou te atacar.
Foi brutal.
Boruto tentava se concentrar em acertar os círculos, o que já era difícil, porque seus braços ainda estavam cansados das repetições anteriores, mas cada vez que se focava no alvo, Hanabi atacava.
Não forte o suficiente para machucar seriamente. Mas forte o suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio, errar o golpe, desperdiçar movimento.
— Você tem que aprender a processar múltiplas ameaças simultaneamente — disse ela, atacando novamente. — No campo de batalha, você nunca terá o luxo de focar apenas em um inimigo. Você precisa atacar, defender, se mover, e manter consciência situacional, tudo ao mesmo tempo.
Boruto bloqueou o golpe dela, tentou atacar o círculo, errou por centímetros.
— Foco dividido! — gritou Hanabi. — Seu corpo executa o ataque. Sua mente rastreia ameaças. Separe as tarefas!
— Mais fácil falar do que fazer.
Mas aos poucos — lentamente — Boruto começou a pegar o ritmo. Seus movimentos ficaram menos pensados, mais automáticos. Ele parou de olhar para os próprios pés ao se mover. Parou de telegrafar cada golpe com o ombro.
E então Hanabi aumentou a dificuldade.
— Ative o Jōgan — ordenou. — E mantenha.
Boruto respirou fundo, alcançando aquela sensação de necessidade. Precisava ver os ataques dela. Precisava antecipar. Precisava de motivações, então buscou no fundo de suas memórias uma lembrança. Rapidamente, uma memória veio a sua mente, um sorriso, uma conversa.
O Jōgan ativou.
E imediatamente, tudo ficou mais claro. Ele via o chakra dela se movendo. Via os pontos que ela mirava. Porém, logo a dor começou. Mas ele ignorou.
Continuou se movendo. Atacando os alvos. Bloqueando Hanabi. Deslizando entre postes.
Três minutos.
Quatro.
A dor aumentou. Como agulhas sendo enfiadas atrás do olho.
Cinco minutos.
Suas mãos começaram a tremer. O Jōgan piscou — perdendo foco.
Seis minutos.
— Mantenha! — gritou Hanabi. — Não deixe desativar!
Boruto cerrou os dentes. Cada segundo parecia uma eternidade. A dor era quase insuportável agora.
Sete minutos.
Oito.
E então simplesmente não aguentou mais.
O Jōgan se desativou. Boruto caiu de joelhos, a mão cobrindo o olho direito, que latejava como se tivesse sido perfurado.
Hanabi parou imediatamente. Aproximou-se, ajoelhando ao lado dele.
— Oito minutos — disse, e havia aprovação em sua voz. — Ontem você conseguiu três. Hoje conseguiu oito. Isso é progresso.
Boruto tentou responder, mas a dor ainda era muito intensa.
Hanabi colocou a mão em seu ombro.
— O limite vai aumentar com o tempo. Quanto mais você pratica harmonizar Yin e Yang, mais tempo consegue manter. — Ela pausou. — Mas nunca force além do que consegue. Se você quebrar algo no seu sistema de chakra ocular tentando superar o limite muito rápido, pode causar dano permanente.
Boruto assentiu lentamente, a respiração ainda irregular.
Hanabi o ajudou a se levantar.
— Descanse meia hora. Depois vamos trabalhar na teoria.
Hanabi havia preparado uma área de estudos sob uma árvore, tapete estendido no chão, papéis com diagramas do corpo humano mostrando os 361 pontos de chakra do sistema tenketsu.
Boruto se sentou, ainda esfregando o olho ocasionalmente.
— O Byakugan permite ver todos esses pontos — explicou Hanabi, apontando para o diagrama. — Mas o Jōgan... você disse que vê chakra de forma diferente?
— É... meio confuso — admitiu Boruto. — Não vejo pontos individuais como você descreveu. Vejo mais como... fluxos. Correntes. Como água se movendo por tubos invisíveis.
Hanabi considerou isso.
— Interessante. Isso sugere que o Jōgan vê o sistema de chakra de forma mais macro que o Byakugan. Nós vemos os pontos individuais. Você vê o fluxo geral. — Ela pegou outro diagrama. — Isso pode ser vantajoso. Se você consegue ver onde o chakra está fluindo, pode prever movimentos. Mas também significa que você precisa aprender anatomicamente onde os pontos críticos estão, já que não pode simplesmente vê-los diretamente.
Ela apontou para várias localizações no diagrama.
— Esses são os oito portões — disse, marcando pontos ao longo da coluna e cabeça. — Você já sabe sobre eles por causa do Guy-sensei e do Lee. Mas além dos portões, há pontos menores mas igualmente importantes.
Passou a próxima hora ensinando Boruto sobre anatomia de chakra. Onde estavam os pontos que desabilitavam membros. Onde estavam os que interrompiam técnicas. Onde estavam os que causavam dor paralisante sem dano permanente.
Era como aprender medicina, mas para incapacitar em vez de curar.
— Memorize pelo menos os vinte pontos principais — disse Hanabi. — Depois de dominar esses, podemos expandir para os secundários.
Boruto olhou para os diagramas, sentindo a enormidade da tarefa.
— Quanto tempo levou para você memorizar todos?
— Três anos. Mas eu comecei aos quatro anos de idade. — Hanabi sorriu levemente. — Você tem vantagem de ser mais velho e ter experiência de combate. Deve conseguir em menos tempo. Talvez seis meses se treinar diariamente.
Seis meses parecia uma eternidade.
Mas Boruto apenas assentiu.
— Então vou treinar diariamente.
Quando Hanabi finalmente disse que o treino havia terminado por hoje, o sol já estava começando a descer. Boruto mal conseguia sentir os braços.
— Amanhã, mesma hora — disse ela. — E traga os diagramas. Vou testar sua memorização dos pontos de chakra.
Boruto gemeu internamente, mas assentiu.
— Hai, Hanabi-sensei.
Ela arqueou uma sobrancelha ao ouvir o honorífico, mas não comentou. Apenas acenou e se retirou para dentro do complexo Hyūga.
Boruto pegou sua camisa, vestindo-a com movimentos doloridos. Cada músculo protestava. Ia ser uma caminhada longa até que ouviu uma voz ao fundo
— Boruto.
Ele se virou.
Konohamaru estava parado no portão do complexo, usando roupas de viagem — colete ninja completo, mochila nas costas, kunais visíveis no cinto. Pronto para partir.
— Sensei — disse Boruto, surpreso. — Pensei que você já tivesse saído.
— Estou saindo agora. — Konohamaru se aproximou. — Mas queria falar com você antes.
Eles caminharam juntos por um momento em silêncio, saindo do complexo Hyūga em direção às ruas principais de Konoha.
— Como está o treino? — perguntou Konohamaru finalmente.
— Fácil — respondeu Boruto com ironia. — Bom, estou aprendendo muito.
Konohamaru assentiu.
— Hanabi é excelente instrutora. Rigorosa, mas justa. — Ele pausou. — E você precisa disso agora. Precisa de estrutura. De disciplina. De algo para focar além de...
Não terminou a frase. Não precisava.
— Como está Sarada? — perguntou Konohamaru, e havia peso genuíno na pergunta.
Boruto engoliu em seco.
— Igual. Estável, mas ainda não acordou.
— Ela vai acordar — disse Konohamaru com convicção. — Sakura-sama está cuidando dela. E Sarada é forte. Mais forte do que qualquer um de nós.
Eles pararam em uma esquina. Konohamaru precisava ir em uma direção. Boruto em outra.
— Sensei — disse Boruto antes que se separassem. — A missão, você vai achar eles, né? A organização. O cara mascarado.
Konohamaru segurou o olhar do aluno.
— Vou. — Não havia hesitação em sua voz. — E quando achar, vou trazer respostas. Sobre quem são. O que querem. Como ficaram tão fortes. — Sua expressão endureceu. — E vou garantir que eles paguem pelo que fizeram.
Boruto assentiu lentamente.
— Quando voltar, quero ajudar. Na investigação. No que for necessário.
— Quando você estiver pronto — disse Konohamaru —, vai ajudar. Mas por agora, sua missão é ficar mais forte. É estar lá quando Sarada acordar. É cuidar de Mitsuki enquanto eu estiver fora. — Ele colocou a mão no ombro de Boruto. — Pode fazer isso por mim?
— Posso — respondeu Boruto.
Konohamaru sorriu levemente — o primeiro sorriso genuíno que Boruto vira nele desde a missão.
— Bom. — Ele apertou o ombro uma vez antes de soltar. — Cuide-se, Boruto. E dos outros. Volto em breve.
— Volte com segurança, sensei.
Konohamaru acenou e se virou, caminhando em direção aos portões de Konoha.
Boruto ficou observando até a figura do sensei desaparecer entre os prédios.
Então suspirou e começou sua própria caminhada.
Em direção ao hospital.
Como todos os dias.
As enfermeiras conversavam em sua recepção quando ouviram passos familiares ecoando pelo corredor. Nem precisaram olhar para saber quem era.
— Olá, como vocês estão? — A voz veio antes da figura aparecer completamente, carregando aquele tom de simpatia forçada que tentava esconder algo mais pesado embaixo.
Boruto Uzumaki surgiu no batente, vestindo roupas simples — calça preta, camisa de manga comprida em tom neutro. Sem a bandana ninja. Sem o colete. Como se quisesse parecer apenas um garoto visitando uma amiga, e não um ninja carregando o peso de uma missão fracassada.
— Vim visitar o quarto 504 — disse, embora todas soubessem. — Sarada Uchiha.
A enfermeira mais velha sorriu com gentileza maternal.
— Pode ir, você já sabe o caminho.
Boruto acenou e seguiu pelo corredor, seus passos ecoando no silêncio característico daquela ala do hospital. Quando sua figura desapareceu ao virar a esquina, a enfermeira mais jovem cutucou a colega com o cotovelo.
— Ele veio durante todos esses dias — sussurrou, como se compartilhasse um segredo. — Sem falta. Sempre no fim da tarde, sempre trazendo algo diferente. Esse rapaz tem muitos sentimentos, né?
A mais velha apenas assentiu, seus olhos ainda fixos no corredor vazio.
— Tem. E acho que ele ainda não percebeu o quanto.
Boruto parou diante da porta do quarto 504.
Respirou fundo antes de empurrar a maçaneta. Não sabia por que fazia isso toda vez, como se precisasse se preparar, como se cada visita exigisse coragem renovada. Talvez porque, toda vez que entrava, uma parte dele esperava encontrá-la acordada. Sentada na cama, ajustando os óculos, reclamando de ter dormido demais.
Mas nunca estava.
Abriu a porta.
O quarto estava exatamente como deixara no dia anterior. Silencioso. Clínico. Preenchido apenas pelo som constante dos monitores marcando sinais vitais — bip, bip, bip — como um metrônomo medindo o tempo que se recusava a passar.
Boruto já estava acostumado com cada detalhe daquele espaço. A cadeira que sempre ocupava, posicionada ao lado direito da cama, próxima o suficiente para que pudesse falar baixo e mesmo assim ser ouvido. Se é que ela podia ouvir, pensou. As luzes frias do teto clareavam o ambiente com aquela luminosidade artificial que criava a estranha sensação de que ali dentro o tempo simplesmente não existia. A pequena mesa ao lado da janela estava coberta por pertences e lembranças das visitas: dele, de Mitsuki, de Sakura, de Konohamaru.
Seus olhos foram direto para as flores que havia trazido no dia anterior.
Murchas. As pétalas começando a escurecer nas bordas, curvando-se para dentro como mãos se fechando. Por sorte, havia trazido novas flores. Sakuras, suas favoritas.
Havia se lembrado delas durante o treino, quando a memória surgiu de forma inesperada, ajudando-o a ativar o Jōgan.
Muito tempo atrás, durante um treino que se estendera além do normal, eles haviam parado para descansar sob uma cerejeira. O sol já estava baixo, e o chão ao redor era coberto por flores recém-caídas. Sarada observava o cenário em silêncio, sentada ao lado dele, quando comentou quase de passagem, daquele jeito casual que usava sempre que não queria parecer sentimental.
Ela olhou para as pétalas de sakura descendo lentamente e ajustou os óculos antes de falar.
— As sakuras sempre florescem com tanta intensidade, mesmo sabendo que vão durar pouco.
Houve uma pausa breve, como se estivesse escolhendo as palavras.
— É como viver completamente, mesmo que por pouco tempo — completou, dando de ombros. — Minha mãe sempre gostou delas por isso.
Na época, Boruto não havia dito nada. Apenas ouvira, sem entender direito por que aquela frase ficara guardada em algum lugar fundo demais para ser acessado com facilidade. Achou estranho ela falar assim, tão filosófica.
Agora entendia.
Talvez fosse por isso que trouxera aquelas flores pela primeira vez. Não como um presságio, mas como um lembrete silencioso de vida, de força, de permanecer ali, mesmo quando tudo parecia frágil demais.
Trocou as flores cuidadosamente, descartando as velhas e arranjando as novas no vaso com mais atenção do que jamais dedicara a qualquer ikebana. Sarada gostaria de tudo organizado. Sempre gostava. Cada detalhe no lugar certo, cada estratégia pensada, cada missão planejada meticulosamente.
Não como ele, que sempre improvisava demais.
Talvez se tivesse planejado melhor. Talvez se tivesse sido menos impulsivo.
Parou. Não ia por esse caminho de novo.
Mas é difícil, pensou Boruto, sentando-se na cadeira ao lado da cama.
A poltrona parecia já ter se moldado ao formato de seu corpo. Três dias sentado na mesma posição, no mesmo lugar, provavelmente deixariam marca mesmo no estofamento hospitalar.
Por um longo momento, ele apenas ficou ali, observando-a em silêncio.
Sarada parecia diferente. Não pior, exatamente. Mas diferente do que quando chegara. A pele tinha mais cor agora, não tão pálida quanto naquele primeiro dia. O peito subia e descia com regularidade constante “Sem ajuda de aparelhos”, Sakura havia dito com alívio no dia anterior. A respiração estava normal. Forte, até.
Sinais bons. Progresso.
Mas ela ainda não acordava.
Os cabelos negros se espalhavam pelo travesseiro branco, criando um contraste marcante. Boruto nunca reparara nisso antes em como o cabelo dela era escuro. Óbvio, claro que sabia. Mas nunca havia reparado, de verdade. Agora, naquele quarto silencioso, com nada além do tempo para preencher, percebia detalhes que sempre estiveram ali.
Como as mechas caíam de forma ligeiramente assimétrica. Como havia alguns fios mais curtos próximos à testa, provavelmente de onde algum ataque quase a atingira em batalha passada. Como, mesmo inconsciente, havia uma tensão sutil em suas feições, a testa levemente franzida, como se, mesmo dormindo, ainda estivesse resolvendo algum problema.
Sempre pensando. Sempre planejando.
Descansa um pouco, quis dizer. Você não precisa resolver tudo sozinha.
Mas as palavras não saíram.
Em vez disso, Boruto se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas.
— Oi — disse baixinho, como sempre fazia ao chegar. — Sou eu de novo.
Nenhuma resposta. Nunca havia.
— Trouxe sakuras hoje. Aquelas que você gosta. — Ele olhou para o vaso na mesa. — Achei que ia gostar de ver quando acordar. Deixam o quarto menos... — Pausou, procurando a palavra. — ...hospitalar, sabe?
O monitor continuou seu bip constante.
Boruto respirou fundo.
— Comecei a treinar com a Hanabi-san ontem. — Sua voz soou estranha no silêncio, mas ele continuou. — Ela é bem rigorosa. Tipo, muito rigorosa. Acho que herdou isso da sua mãe. — Ele sorriu sem humor. — Me fez fazer o mesmo movimento umas cinquenta vezes até acertar. Meu corpo todo tá doendo ainda.
Fez uma pausa, como se esperasse que Sarada fizesse algum comentário sarcástico sobre ele reclamar de treino.
Nada.
— Mas tá funcionando, acho. — Continuou, a voz mais baixa. — Meu chakra tá... diferente. Elas disseram que tem algo a ver com o Jōgan e o Karma, que eu preciso aprender a equilibrar melhor. Yin e Yang, essas coisas. — Ele passou a mão pelo cabelo. —
Honestamente, metade do que a Hanabi-san fala ainda não faço ideia do que significa. Mas tô tentando.
Olhou para as próprias mãos.
— Porque eu preciso ficar mais forte. Você sabe disso. — A voz começou a ficar embargada. — Eu não posso deixar que aquilo aconteça de novo. Não posso—
Parou. Respirou fundo. Recompôs-se.
— Mitsuki passou aqui ontem à noite — disse, mudando de assunto. — Ele trouxe um livro pra você. Disse que você havia comentado que queria ler. Deixou ali na mesa. — Apontou vagamente. — Ele também tá... bem, ele tá processando tudo do jeito dele. Você sabe como ele é. Não fala muito sobre o que sente, mas dá pra ver que está preocupado.
O silêncio voltou.
Boruto recostou na cadeira, os olhos fixos no rosto de Sarada.
— Konohamaru-sensei partiu pra missão hoje cedo — continuou, apenas para preencher o vazio. — Ele queria ficar, mas enfim, tem coisas que precisam ser resolvidas, né?Não terminou a frase. Não precisava.
Outro silêncio.
Mais longo dessa vez.
Boruto olhou pela janela. O sol da manhã entrava em ângulo, criando um retângulo de luz no chão. Konoha estava lá fora, viva, movimentada, continuando como sempre continuava.
E aqui dentro, tudo estava parado.
— Sabe... — disse finalmente, a voz quase um sussurro. — Eu fico pensando em tudo que não te falei ainda. Coisas que eu deveria ter dito antes. E agora... agora você tá aqui, e eu não sei se você consegue me ouvir, mas...
Ele se inclinou para frente novamente, mais perto agora.
— Eu preciso que você acorde, Sarada. — As palavras saíram tensas, urgentes. — Não porque preciso da sua ajuda com treino, ou porque você precisa terminar suas missões, ou qualquer outra razão que eu tentaria inventar normalmente pra não parecer...
Parou. Engoliu em seco.
— Eu preciso que você acorde porque... porque eu...
Mas as palavras ficaram presas.
Em vez disso, Boruto apenas estendeu a mão e, cuidadosamente — tão cuidadosamente que parecia temer quebrá-la — segurou a mão de Sarada.
Estava morna. Um bom sinal, os médicos diziam. Significava circulação adequada.
Mas para Boruto, significava apenas que ela ainda estava ali. Ainda lutando.
— Por favor — sussurrou, tão baixo que mal era audível. — Volta pra gente. Volta... pra mim.
O monitor continuou seu ritmo constante.
Bip. Bip. Bip.
E então...
Algo mudou.
Sarada sentia suas forças se esvaírem. A cada tentativa de emergir à superfície, parecia descer cada vez mais fundo. A água gelada cobria seu corpo, invadia seus pulmões, preenchia cada espaço vazio dentro dela. Sua mente já não conseguia pensar em mais nada, apenas no frio, no peso, na escuridão que a puxava para baixo.
Talvez fosse para terminar assim.
O pensamento veio calmo, quase resignado. Sem luta. Sem desespero. Apenas... aceitação.
Afinal, o que eu poderia fazer?
Não era forte o suficiente. Nunca fora. As palavras que ecoavam naquele lugar distorcido estavam certas.
Fraca. Inútil. Fardo.
Mas então, enquanto a água a envolvia completamente, algo diferente começou a surgir. Não pensamentos, memórias. Fragmentos de uma vida que parecia distante demais para ser real, mas próxima demais para ser esquecida.
Ela sempre tivera tantos sonhos.
Sonhara em mostrar que era digna de todo o potencial que seu clã carregava. Ser a última de seu nome não significava ser o fim. significava ser o recomeço. A primeira Hokage mulher. A primeira Uchiha a ocupar aquele posto. Provar que a história de seu clã não precisava terminar em tragédia.
Pensou em sua mãe. Sakura, que sempre cuidara tão bem dela, que sempre dizia o quanto se orgulhava, que sempre preparava sua comida favorita após as missões. Aquele sorriso cansado mas genuíno quando Sarada voltava para casa. As mãos que curavam feridas com a mesma delicadeza com que afastavam o cabelo de seu rosto.
Pensou em seu pai. Sasuke, mesmo longe, mesmo ausente. Ela sempre o amara. Gostaria de tê-lo mais perto, de conhecê-lo melhor, de ter mais tempo. Mas sabia ou pelo menos queria acreditar que de algum lugar, ele cuidava delas. Que cada ausência tinha um propósito. Que ele também carregava seu próprio peso.
Eu ainda tenho tanto a dizer para eles.
Os amigos surgiram em seguida. Chocho e seu jeito animado, sempre levando-a a restaurantes novos, sempre reclamando de dietas que nunca seguia, sempre fazendo-a rir quando menos esperava. Himawari, doce e atenciosa, que a acompanhava pelas ruas de Konoha quando ia comprar roupas e sapatos, que ouvia seus problemas sem julgá-la.
Mitsuki. Com seu jeito desajeitado de lidar com os próprios sentimentos, mas que sempre tinha tempo para ouvi-la sobre coisas que nem ele mesmo compreendia. Que a olhava com aquela curiosidade genuína, como se cada emoção humana fosse um mistério a ser decifrado e ela, de alguma forma, o ajudava nessa jornada.
E então
Boruto.
A imagem dele surgiu com clareza dolorosa. Boruto, que tantas vezes a irritava com seu jeito de ser. A maneira estabanada de lidar com táticas de luta, como sempre teimava com as decisões dela, como reclamava dos caminhos das missões, como nunca parecia levar nada a sério.
Mas era exatamente isso que a agradava nele.
Ele sempre tinha o jeito certo de agir, mesmo quando parecia estar improvisando. Nunca duvidava da capacidade dela, pelo contrário, confiava cegamente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Independente da situação, ele estava lá. Com aquele sorriso idiota estampado no rosto enquanto dizia para todos ficarem tranquilos.
Ela gostava daquele sorriso. Daquela risada. Da forma como os olhos dele brilhavam quando encontrava uma solução impossível para um problema impossível.
Eu queria ter vivenciado isso mais vezes.
Eu queria que ele estivesse aqui agora.
A água estava em seus ombros. Em seu pescoço. Cobrindo seu queixo.
Mas algo mudou.
Uma chama acendeu dentro dela. Pequena. Frágil. Mas real.
Ela tinha muitos sonhos. Muitos amigos. Muitas coisas ainda a dizer.
Eu não posso terminar aqui.
Eu não vou.
E então, como se respondesse ao seu pensamento, uma luz apareceu na superfície da água. Distante. Trêmula. Mas inegavelmente presente. Chamando-a. Puxando-a.
Seu corpo, que momentos antes parecia feito de chumbo, agora parecia mais leve.
Sarada esticou os braços. Puxou a água para baixo com toda a força que ainda restava, impulsionando-se para cima. Cada movimento era agonia. Cada segundo parecia uma eternidade. Mas ela não parou.
Não podia parar.
Tinha que ver o que havia do outro lado daquela luz.
Usou toda a força que tinha. E mais um pouco. E mais. Até que seus dedos atravessaram a superfície.
E então
Uma sensação pesada desceu sobre seu corpo. Como se um caminhão a tivesse atropelado. Cada músculo gritava. Cada osso doía. Tudo parecia errado, deslocado, quebrado.
Estava gelada.
Mas sentiu algo. Um toque. Quente. Firme. Em sua mão.
Acolhedor.
Tentou entrelaçar os dedos ao toque. Sentia que precisava. Como se aquele contato fosse a única coisa impedindo-a de afundar novamente.
Seus olhos tentaram abrir. As pálpebras pesavam toneladas. A luz, fria, clínica, impiedosa, perfurava através das frestas, impedindo que conseguisse abrir naturalmente.
Aos poucos, forçou-se a tentar de novo.
Linhas borradas. Formas indefinidas. Branco. Muito branco.
Ouvia uma voz ao fundo.
Distante. Abafada. Como se estivesse debaixo d'água ainda.
Mas reconhecia aquela voz.
A mão apertou a dela com mais força.
— Sarada...
A voz ficou mais clara. Mais próxima. Carregada de algo que ela não conseguia nomear completamente, alívio, medo, exaustão.
— Sarada, por favor
Ela conhecia aquela voz.
Seus olhos se abriram um pouco mais. O mundo ainda estava embaçado, mas formas começavam a ganhar definição. Paredes. Equipamentos. Uma janela com luz natural entrando.
E uma figura ao lado da cama.
Cabelo loiro desgrenhado. Olhos azuis arregalados. Rosto pálido, cansado, como se não dormisse há dias.
Boruto.
Ele estava segurando sua mão.
E quando percebeu que ela o estava olhando — realmente olhando, consciente — algo se rompeu na expressão dele.
— Você voltou — a voz saiu rouca, quebrada. — Euachei que...
Sarada tentou falar. A garganta estava seca demais. As palavras não saíam.
Mas conseguiu apertar a mão dele de volta.
E foi o suficiente.
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