Borrões

8 Capítulo 8


As náuseas me atormentavam a cada vez que pensava na possibilidade de colocar minha família num grande escândalo e como isso poderia afetar minha (sobrevivência) vida.

Até essa manhã, eu não entendo aquela manhã. Era quase que como se tivessem me dopado e guiado meus passos até você. Não me lembro de ter me preocupado com nada, nem mesmo com uma mala grande. Tudo que levei, cabia na bagagem de mão. Que tinha eu na cabeça? Não era óbvio que você não me receberia bem? Não era óbvio que você estaria com outro alguém? Como te encontraria? Só me questionei sobre tudo isso, quando já desembarcava do avião. Corri para um telefone e tentei seu número antigo. Nada. Mas quem sabe, sua mãe continuava naquela casinha com flores na parede. Liguei. Ela me atendeu, atenciosa, sempre preocupada perguntou muito de minha filha e se eu estava bem. Mas de você, ela pouco sabia. Disse-me que tinha se envolvido com uma garota asiática e desde então, não era o mesmo. Isso partiu meu coração em incontáveis pedaços. E mais uma vez, sem motivo aparente, meu corpo me levou ao Grooves, nosso restaurante preferido das noites de sábado. A diferença é que nessa noite de sábado, eu não esperava te encontrar lá. Nem em mil anos imaginaria que você fizesse de teus outros relacionamentos uma cópia barata do que foi o nosso. Você me amava, amava de verdade, não é mesmo?

Seus olhos encontraram os meus e a intensidade com que nos olhamos, foi a mesma de anos atrás. Mesmo você parecendo muito confuso. Talvez por conta de minha aparência, querendo ou não, depois do casamento tradicional, da filha, eu havia mudado muito. Física e psicologicamente, eu estava amadurecida. Corri de encontro ao teu abraço. Mas parece que mesmo depois de um olhar que seria capaz de provocar faíscas, não era de teu interesse receber-me em teu calor. Você apenas puxou o braço da garota pelos braços e saiu dali. Garota essa que também era uma cópia de mim. Os cabelos, as tatuagens e o jeito de menina-moça. Por que estava fazendo aquilo? Entenderia qualquer tipo de ressentimento por um suposto abandono, mas foi você quem não quis que eu ficasse. Naquele dia, todas as minhas forças foram depositadas em lágrimas. Teria eu, perdido tudo mesmo? Agora não podia nem voltar para casa, a vergonha era muita. Mas para minha surpresa, ao amanhecer do dia, quando sai do hotel, você fumava encostado na parede da fachada. Nunca tinha parado para refletir, mas eu era mesmo um tanto quanto previsível, como você disse naquela manhã quando lhe questionei como tinha me achado. Por momentos, esse foi o único diálogo que tivemos, até você dizer que sentia muito pela minha filha.

"Sinto muito por nós." — Respondi ansiando que pudéssemos passar uma borracha nas marcas do tempo.

"Então por que me deixou?"

"Por não me sentir amada."

A saudosista,

Dorathy.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.