Borrões

3 Carta 3


Após encontrar-te, é certo que me tornei um pouco mais infantil. Parecia-me com uma adolescente perdidamente apaixonada que esquecia-se de tudo que já havia aprendido sobre a realidade. Não faz ideia do ciumes que senti daquela ruiva cuja risada se misturava com a sua entre beijos e danças. Ah, que bobinha eu! Nós nem nos conhecíamos de verdade, como poderia me iludir tanto? Eu sempre critiquei as pessoas que caíam em profundo êxtase ao conhecer alguém e era exatamente assim que eu estava agindo. Tiranias da vida. Pus-me a aproveitar as coisas vazias da festa, porque era o que me restava. E já quase no fim, reconheci tua voz soprando um pedido em meu ouvido:

–Vamos sair daqui... –Eu fiz um doce, falei da ruiva e você não demonstrou nenhum interesse pela minha conversa de menininha. Eu cedi. Como não cederia? Encostado naquela parede, tua beleza era inegável, teu corpo magro sob aquela luz despertava em mim o mais profundo afeto. Passei os dedos pela sua clavícula, tua tatuagem na costela e teus ossos do quadril, ergui os olhos para tua face, mas você estava concentrado demais no cigarro para perceber todo meu encantamento. Mais uma vez, falamos de tudo um pouco. Nos descobrimos mais um pouco. Descobrir sobre Julian, seu pão de estimação, me fez admirar-te ainda mais. Toda aquela postura de garoto durão, escondia um doce de coração que eu devoraria inteiro. Até que, talvez aumentados pelo efeito da maconha, meus impulsos sexuais deram-me coragem para botar os lábios nos teus. E de repente, teu gosto amargava todos os outros. Teus lábios eram manchas encardidas em meu corpo. Teus toques eram o mais sublime prazer.

–Nunca desejei alguém assim. –Os dias se passaram, mas as rotinas jamais foram estabelecidas porque para nós, mesmo uma tarde observando o teto era um momento inesquecível. Tu fostes minha felicidade plena, deveria eu ter escutado o que os velhos há muito me falavam: Pegar a contramão pode ser mais rápido, mas é arriscar uma colisão. Eu colidi com a dependência. Das tuas pernas entrelaçadas nas minhas no momento de dormir. Dos teus carinhos. E eu até pensava que ninguém jamais saberia tocar meus seios como você tocava. Um mês, dois meses, três e as coisas já se aproximavam do caos. Não que isso fosse ruim, adorava quando você saia de fininho de manhã e eu me sentia profundamente traída. Dos teus empurrões e minhas palavras duras, de quando dizia que não me queria e me possuía em teus braços logo em seguida. O problema, veio depois.

Sinto sua falta,

Dorathy.