Born to die

4 Throught the dark


—Onde estamos indo Gabriel? – perguntei assim que ele dobrou o segundo corredor no segundo andar.
—Num lugar, é bom conversar lá.
Eu ainda não tinha tido nenhuma aula com Gabriel naquele dia e assim que eu sai da sala para o intervalo ele estava lá me esperando.
Ele andava na minha frente apressado e então seus passos diminuíram assim que chegamos a uma porta afastada de todas as outras.
Eu não disse nada, só esperei ele abrir e então me chamar para entrar.
A sala era escura, e mofada, a pouca luz que vinha de uma janela fechada iluminava uma escada arredondada e enferrujada. Gabriel fechou a porta e tudo ficou mais escuro do que já era e a única coisa que eu via era poucas réstias e nossas respirações.
—Gabriel? – chamei.
—Tem um celular ai? – ele respondeu.
Procurei meu celular no bolso do moletom e liguei a lanterna dele iluminando o garoto em minha frente. Passei o celular pra ele e então ele iluminou a escada.
—Eu ou você? – ele perguntou.
—Vai você. – sugeri e ele foi.
Subi logo atrás dele. A escada rangia e parecia que iria ceder a cada passo dado. Terminamos de descer a escadas e Gabriel me entregou meu celular, ele foi até uma janela e então a abriu, era gigante e dava pro telhado do jardim onde nos conhecemos. Ele subiu em cima da janela e então virou pra mim.
—Não vai subir?
—Pode fazer isso? Tipo, a gente nem podia entrar nessas salas. – eu ri nervosa.
—Eu acho que não podemos mas ninguém ta impedindo.
Dei uma olhada na sala em volta e só tinha algumas carteiras e mesas. Desliguei a lanterna do meu celular guardei no bolso e então fui até a janela. Pulei e sentei nela e depois me virei de frente a ele que estendeu a mão para me ajeitar no telhado. E então sentamos e fitamos os outros telhados em nossa frente.
—Seu pai me interrogou ontem.
—Por quê? – eu perguntei sem olhar.
—Algum fofoqueiro disse que eu estava pra fora da sala na hora.
—Não fui eu! – me defendi.
—Não estou te acusando. – ele deu de ombros
—E você viu alguma coisa? Onde você estava?
—Eu não estava lá em baixo, tava no banheiro aqui de cima eu não vi e não sei de nada. – ele dizia num tom defensivo.
—Calma! Calma não to te acusando é que eu tava conversando com minha mãe e sei lá só meio que fez sentido algumas coisas que ela disse.
—Que coisas? – ele agora olhava pra mim.
—A menina que morreu ia na psicóloga e... por falar nisso era sua mãe. – eu parei de falar e olhei pra ele também.
—Sim ela ia na minha mãe. – ele concordou.- Mas continua Belissario.- ele me apressou.
—Ta,ta. Ai ela disse que ela tinha dito coisas sobre suicídio e depois foi morta e não foi a primeira isso aconteceu com a menina que morreu antes dela.
—Serio? – seu olhar desviou-se do meu e se perdeu no ar.
E eu fiquei ali, só olhando ele pensar o que era uma coisa legal porque ele fazia caretas a cada pensamento novo. E quando ele parou e olhou para mim novamente e eu percebi que estava sorrindo.
—Você...Você ficou em transe por um tempo. – eu disse ainda sorrindo.
—Desculpe, estava pensando.
—E eu posso saber no que? – mordi o lábio inferior ainda rindo.
—Que tudo isso é bem bizarro. Sei lá, mas saber disso da vontade de comprar uma maquina de mistério achar mais duas pessoas um cachorro e sair por ai solucionando tudo.
Gargalhei e ele gargalhou também mas ele parou antes que eu e fitou o céu.
—Gabriel – chamei baixo.
Ele resmungou um ‘hum’.
—Você tem medo que, algo aconteça com você...tipo... como aconteceu com as pessoas que desapareceram, que foram mortas?
Ele desviou o olhar do céu e olhou para mim.
—Eu não tenho medo de morrer, porque no final dessa historia todo mundo morre então, mais cedo ou mais tarde não faz diferença.
Ele disse naturalmente, como se fosse normal você morar numa cidade cheia de acontecimentos terríveis e não ter medo de morrer.
—Por quê? – ele perguntou.
—Não sei, é só que... da medo as vezes. – eu ri no final pra não parecer tão criança.
—É você que cria seus próprios medos, então se você tem medo que te matem vai pensar nisso toda hora e será mais provável que aconteça.
Por um momento era assustador ficar com Gabriel Langdon.
—Você me da medo as vezes. – eu disse sem pensar e escutei a risadinha dele.
—Se quiser ir fique a vontade. – ele ficou serio novamente.
Sua brusca mudança de humor me deixou confusa.
—Disse que você me dava medo, não que eu não queria ficar com você. – empurrei de leve o ombro dele com o meu e ele sorriu.
Ficamos por mais algum tempo ali escutando o barulho da conversa lá em baixo, o barulho dos pássaros na arvore e o barulho do vento nas folhas verdes. Era primavera e as folhas iam começar a cair.
—Como vamos saber que o sinal já bateu? – perguntei.
—Eu sei quando vai bater.
—Mais e se você enganar?
—Daphne, relaxa, eu não vou deixar você chegar atrasada na aula.
Senti o rubor em minhas bochechas e desviei meu olhar do dele.
—Será que essas mortes tem algo ligado?
—Talvez. Mas se pensavam em se suicidar elas estão felizes agora.
Eu havia chegado a conclusão de que os assuntos que tratamos com tanta delicadeza para ele é como falar na novela que passou ontem.
—Queria saber qual o prazer de matar alguém inocente. – comentei.
—Talvez elas não fossem inocentes. Sei lá, vai que aprontaram algo.
Eu olhei pra ele e ele olhou para mim. Ele nunca tinha dó das coisas e tratava tudo aquilo com tanta normalidade que era quase assustador.
Por mais assustador que era ter uma conversa com Gabriel Langdon eu gostava de ficar com ele, porque mesmo sendo meio maluco ele era verdadeiro. E hoje em dia pessoas assim são loucas.
—Escuta – eu o chamei sem perceber que ele ainda estava olhando para mim – qual é o lance dos fantasmas?
—E uma coisa meio escrota sabe? Tipo historia clichê de terror.
Eu assenti e então ele continuou.
—Um psicólogo casou com uma enfermeira e a irmã dele também era medica, ai eles decidiram montar um negocio e o que mais dava dinheiro naquela época eram os hospícios e manicômios. E ai, eles construíram um e adivinha a onde era? – ele olhou pra mim esperando uma resposta.
—Isso aqui era um hospício? – eu perguntei sorrindo e ele assentiu sorrindo também.
—As cosias foram boas durante trinta anos, até um cara chegar aqui e matar todo mundo. Ele foi preso na solitária desde quando chegou e um dia ele fugiu de lá, e matou todo mundo.
—Quer dizer que... – eu o interrompi – tem milhares de almas psicóticas soltas por aqui. – eu dizia sorrindo e ele assentia da mesma forma.
—Ficou fechado por anos, só que a única escola que era pra cima do primário encheu e eles tinham que colocar os adolescentes em algum lugar. Então, reformaram isso e aqui estamos.
—E você tem medo do espíritos que ficaram aqui? – eu disse debochada e ele me olhou serio.
—Eu falo com eles.

Já faziam quase duas semanas que eu estava naquele lugar, e todo dia no mesmo horário minha mãe estacionava o carro na frente do portão principal e ele sempre estava lá, no mesmo lugar me esperando. E então nos andávamos até o segundo andar e sentávamos no telhado. A cada dia que eu passava com Gabriel Langdon eu tinha mais certeza de que ele tinha alguma coisa diferente. Não era sempre as mesma conversa chatas sobre, quem matou fulana? quem matou cicrana? E ficar em silencio com ele não era ruim, afinal silencio e a virtude dos loucos.
Mas neste dia, Gabriel Langdon não estava lá. E como o combinado eu esperei até o sinal bater, mas ele não apareceu então eu entrei.
Foi estranho ficar esperando, e mais estranho ainda o aperto no meu coração assim que eu cheguei a conclusão de que ele não iria hoje.
Eu me senti, vazia, incompleta.
A aula parecia se arrastar mais do que as outras.Talvez porque já era a ultima e eu ainda esperava uma certa pessoa dar as caras por ali. O que não aconteceu, o sinal bateu e tumultuando a porta me fazendo esperar as cosias acalmarem para poder sair. Eu andava pelo corredor quase vazio se não fosse pelo idiota do Palmer atrás de mim.
—O Langdon te deixou Bellisario? – ele perguntou em deboche.
—Pode até ter sido – eu respondi firme.
—Esta arrependida? – eu me surpreendi quando vi que ele já estava ao meu lado.
—Nunca. – eu cuspi as palavras.
—Pois devia estar. – ele segurou meus braços e com um movimento rápido me encostou na parede. – Porque ninguém humilha Spencer Palmer.
Eu precisava revidar de uma forma que deixasse marcas. Mas eu não iria enfiar minhas unhas na cara dele então eu olhei no fundo dos olhos azuis dele e disse:
—Seu nome já te humilha. – eu sorri no final e ele travou os dentes de raiva.
—Escuta aqui Belissario, se eu fosse você não arranjava briga comigo.
—Porque Palmer? Ta com medo de perder. – eu o desafiei.
Se eu estivesse no lugar dele já teria me batido. Eu poderia sair dali sem discutir, poderia o ignorar e deixar a poeira abaixar. Mas eu gosto de encrencas.
—Olha garota eu to com uma vontade de socar sua cara, e se eu quiser eu posso fazer isso.
Eu continuei olhando para ele sem me intimidar.
—Eu não faria isso. – outra voz veio de trás de Spencer e ele virou a cabeça e gargalhou.
Eu queria ver quem era mas o cabeçudo brutamontes a minha frente impedia minha visão.
—Qual é Langdon?
Assim que escutei a ultima palavra meu coração disparou e eu tive que dar um jeito de tirar o cabeçudo da minha frente para apenas olhar pra quem ele dizia que estava ali.
—Ela é uma garota cara, o que ela pode fazer com você? Chutar seu saco? Grandes coisa. – ele dizia debochado.
—Cala a boca que você não sabe de nada. – Spencer apertou meus braços mais forte me fazendo soltar um gemido de dor abafado.
—Ninguém viu vocês discutindo, a não ser que suas namoradinhas tenham contado. – Gabriel falou novamente.
—Eu não posso bater nela mas em você... – ele parou – eu amaria quebrar sua cara Langdon.
E então Gabriel ficou em silencio, eu queria ver que tipo de olhar os dois trocava mas eu não conseguia.
—Tudo bem, pode quebrar.- Gabriel disse por fim depois de um tempo.
E então Palmer soltou meus braços e com um único movimento eu chutei suas partes baixas com tanta força que ele caiu sobre o chão e então eu consegui ver o rosto de Gabriel.
Ele mantinha os olhos em Spencer enquanto o mesmo agonizava de dor.
Dei a volta ficando ao lado de Gabriel só para ver a cara de dor do Palmer. Seus olhos estavam serrados a boca entre aberta, ele segurava o local atingido e o suor escorria pelas laterais de sua testa.
—Sua. Vadia. – ele disse entre os dentes.
—Sou mais macho que você. – retruquei automaticamente.
E então Gabriel riu alto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.