Born to Die | Exile
20 One Shot | Long & Lost
Notas iniciais
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Oficialmente, o inverno não chegara à Nova York. Os primeiros flocos de neve levitavam intrusamente pelos céus da cidade, tomando cada canto da cidade como um tapete branco, frio e macio ao caminhar.
O cemitério não perdera a sua melancolia e abandono, mesmo com aquele toque anuviado e angelical.
Willa caminhava na calçada, os seus cabelos presos em uma bela trança e um cachecol protegendo sua garganta sensível ao frio. O sobretudo dava-lhe um ar fino, lapidado por uma meia calça e um salto fino. Quem a olhasse a distância, a imaginaria perfeitamente como uma mulher dona de um grande império. Não era uma ilusão. A ocasião para tamanho requinte era à missa de sétimo dia do falecimento de Elektra Natchios com poucos amigos e nenhum familiar.
Nem Matt fora. Fairchild não esperava pela sua presença. Ele podia ser um homem sem medos, mas quando se perde alguém que se ama não existe bravura capaz de retirar-lhe da angústia da perda. Cada um encontrava a sua maneira de sobreviver ao luto e ela contava que Matt tivesse encontrado uma maneira saudável para isso.
Após a missa na paróquia de Hell's Kitchen, Willa comprou um buquê de rosas brancas e seguiu a pé para o cemitério. Elektra gostava de orquídeas, mas Willa sempre lhe dava rosas. Elas eram solitárias, como ela e Elektra.
Fazia pouco tempo que estivera naquele tumulo, logo ela lembrava bem o caminho a seguir. À distância era imperceptível, entretanto estando cara a cara com a lápide, Willa viu o que fez as batidas de seu coração cessarem por alguns milésimos e o ar faltar em seus pulmões.
Agachada, ela admirou cada detalhe ali cravado na terra.
A lápide estava intacta, entretanto existia um buraco a céu aberto onde deveria, supostamente, estar o caixão de Elektra.
Deveria estar...
O seu caixão foi retirado.
Não arrancado por algum vândalo.
A terra mostrava isso.
Willa abandonou o buquê dentro da cova e o seu caminhar tranquilo foi substituído por passos ágeis e um olhar de terror. Ela pensou em alertar a administração sobre o roubo de um corpo, mas ela travou os seus passos e seguiu para a avenida movimentada de Manhattan. E se isso fosse uma jogada de Stick? Ou pior, do Tentáculo? Eles perderam a sua sucessora, a sua Céu Negro, para uma morte não arquitetada. Eles deixaram bem claro a sua importância para o clã e agora, o seu cadáver desaparece? Misteriosamente? Willa podia sentir em cada fibra do seu corpo o que havia por trás daquilo: magia. Da pesada. Talvez, por ela mesma ter sido fruto de um encanto dessa estirpe — ou pior. Mas não estamos aqui para falar sobre os sentimentos controversos de Willa Fairchild com o seu post mortem e sim com o desaparecimento de Elektra Natchios.
Entre Midtown e Hell's Kitchen, ela decidiu que precisava, imediatamente conversar com alguém sobre isso é porque não justamente com a outro lado da moeda, o lado que necessitava saber o que acontecera, o quanto antes?
Ela odiava chegar assim, portando as notícias ruins, mas alguém precisava fazer isso é antes ela, um rosto semiconhecido do que um administrador mal humorado de um cemitério.
Matt Murdock estava em seu apartamento em Hell's Kitchen e Willa não teve minúcias ao invadir o lar do advogado, utilizando a porta secundária, do telhado. Ele estava tomando café da manhã, acompanhado de uma jovem loira de cabelos longos e enrolados, um corpo esbelto e dona dos olhos azuis mais hipnotizantes e brilhantes que Willa já vira. Ela vestia uma camisa dele e lia o jornal, com um tom de escárnio, arrancando algumas risadas de Matt. Ele parecia feliz com ela. E ela parecia completamente enfeitiçada pela presença do advogado. Willa a desconhecia por completo. Primeiro a enfermeira, depois a tal Page e aí a eterna Elektra e agora... A princesinha de Nova York que podia mover coisas com a mente?
Ela deixou um sorriso cair no canto dos lábios ao assistir a loira mover uma caneca de café esfumegante com uma fina película azulada de energia, guiando até as suas mãos. Bucky tinha razão: agora todo mundo tinha algo de especial.
Matt sorriu para a loira de olhos brilhantes e subitamente, travou os seus movimentos. Ela notara e questionara o que ele pressentiu. Matt percebera a presença da ninja e não comunicou à sua companhia.
Willa abandonou o seu posto no corredor para o telhado e fechou a porta atrás de si com leveza, seguindo pelas escadas com um caminhar controlado para o telhado. Não queria criar uma indisposição entre ele e a sua convidada.
Sob os céus de Hell’s Kitchen, eles teriam privacidade para conversar. Se é que ela devia falar sobre. Ele parecia tão à vontade com aquela mulher, talvez estivesse seguindo em frente com seu luto e Willa atrapalharia tudo. Ou pior, diferente dela, talvez ele nem se importasse com a informação que ela tinha e seria um desperdício dos seus tempos. Ela deveria simplesmente ir embora. Ele depois a procuraria e ela daria uma desculpa qualquer.
No entanto, agora era um pouco tarde, pois Murdock estava no telhado, arrumando a sua gravata com as suas ruguinhas de preocupação marcando a sua testa e o canto dos seus olhos, agora escondidos pelos seus óculos escuros.
— Você não deveria franzir tanto a testa, vai acabar parecendo o Yoda antes do tempo. – Willa abandonou o seu olhar contemplativo a cidade e olhou o advogado comprimindo um sorriso afetuoso.
— E você não deveria invadir o apartamento das pessoas... – Ele ralhou caminhando até poucos passos dela, repousando as suas mãos na cintura.
— Mas velhos hábitos são tão difíceis de perder. – Ela dramatizou um choramingo, recebendo uma risada abafada dele. — E eu não queria atrapalhar o seu encontro com a Barbie de Nova York. – Ela não poderia deixar de comentar com uma leve malicia em seu olhar. — Você gosta de loiras ou é só uma coincidência perturbadora você sempre ter uma ao seu lado?
— Se você não tivesse um pretendente no seu coração, eu diria que você está enciumada. – Willa não conteve uma gargalhada, mas a verdade por trás das suas palavras a fez cessar lentamente, crispando os lábios em uma careta.
— Enciumada? Hm, não, só um pouco chateada por não ser complicada o suficiente para chamar sua atenção. – Ela implicou, apoiando a sua mão sobre a base de sua bolsa. — E para a sua informação, não tem ninguém no meu coração.
— Isso é uma proposta? – Ele questionou com um misto de jocosidade e sedução.
— Não, agora quem não quer sou eu. – Ela respondeu altiva.
— E você pode tentar se enganar, mas você sabe que tem alguém sim, aí no seu coração. – Ele completou com um sorriso afetuoso.
— É, mas ele não está aqui. – Willa respondeu melancólica, colocando uma mecha atrás da orelha. — E nem sei se um dia vai estar.
— O que aconteceu? – Matt perguntou franzindo o cenho.
— Nada, eu não... – Ele não estava questionando sobre a sua presença ali, e sim sobre o seu amor interrompido pelas barreiras do tempo. E Willa não estava pronta para falar sobre isso. Não ainda. Ela meneou a cabeça em negativa e concentrou-se no presente. — Eu não quero ter de fazer isso, não quero ter de estragar o seu seguir em frente com a Miss lá embaixo, eu estou feliz que você ouviu meu conselho de seguir o seu coração e lutar por quem ama depois de tudo que aconteceu...
— Ela é uma amiga e mesmo se não fosse, você é a minha amiga também. – Matt com a sua fala mansa a assegurou disso e ela se sentiu grata pela sua recém-conquistada confiança. — Se tem uma coisa que Elektra me deu de bom, além de nossas poucas, mas boas lembranças foi me apresentar a você, me dando a oportunidade de ganhar a sua amizade. – Ele percebeu. O coração de Willa apertou um pouco em seu peito com a menção a sua amiga. — É alguma coisa sobre a Elektra? – Willa não respondeu fechando os seus olhos e lutando contras as possibilidades ali. Matt deu um passo na sua direção, mostrando pela primeira vez a sua fragilidade por conta da perda da grega. — Não me enrole, seu coração derrapou só com a menção do nome dela.
Maldito coração molenga.
— Depois do enterro, você a visitou? – Willa lançou um olhar inquisitivo, guardando as suas mãos nos bolsos do sobretudo, ansiando por aquecê-las.
— Não, eu não... – Ele se calou ponderando as suas palavras. — Não tive tempo por causa de um trabalho. – Ele lançou sua atenção a cidade movimentada e o seu coração acelerado entregava o desconforto por ser inquirido a isso, por Willa, mas ela não entregou a ele de bandeja o seu dom, muito menos quis colocá-lo nessa posição desconfortável de saber que ela sabia que ele sofria ainda e muito. — Eu até iria na missa hoje, mas... Eu precisava dar um auxílio à...
— Garota que move coisas com a mente? – Willa completou arqueando as sobrancelhas e Matt abriu os lábios, sem palavras para contornar aquela situação. — É, eu bisbilhotei e sim, achei legal, mas meio desgastado, eu conheço uma bruxa bem mais poderosa do que a loirinha. – Willa implicou e Murdock abafou uma risada, se a sua amiga ouvisse isso, Willa seria com toda certeza atirada a lixeira mais próxima, seria uma viagem e tanto. — Matt, não tem jeito mais fácil de lhe contar isso, mas o tumulo da Elektra foi violado. – Matt pareceu sinistramente confuso. — Eu... Eu não avisei a administração porque eu simplesmente pirei e não achei prudente alertar do meu conhecimento. Não sei se isso foi um golpe do Stick, do Stone, do Tentaculo, do Édipo, mas não há resquícios de ter existido um caixão naquele tumulo e eu tenho medo do que isso pode significar.
— Você contou a mais alguém?
— Eu posso contar em uma mão as pessoas que conhecem a minha história com a Casta e em três dedos quem sabe da minha história com a Elektra. – Willa revelou e Matt enrugou o cenho, apenas destacando mais as suas rugas de preocupação e confusão. — Se você não entendeu, eu estou falando de você.
— Será que ela foi exumada?
— Com uma semana? Acho improvável. – Willa comprimiu os lábios em uma careta de duvida. — Os cemitérios estão sem espaço, mas existem regras ainda. – Matt ficou quieto, pensativo. — Você acha que devemos falar com a administração, saber se tem mais dados sobre isso?
— Nós? Não. – Ele meneou a cabeça em negativa, cruzando os seus braços. — Não seria prudente, e se foi Stick e ele mandou silenciar quem descobrisse ou pior, ninguém nem sabe ainda disso? Nós temos uma vantagem sobre quem fez isso. – Ele voltou a ficar quieto, naquela sua imersão pensativa. Lançou um olhar por sobre os ombros e retornou a concentrar-se em Fairchild. — Acho que posso conseguir ajuda nisso de forma discreta. – Willa assentiu, recebendo confiança. — Se o corpo dela foi roubado, porque fariam isso, você tem alguma ideia?
O tempo que Matt conviveu com o Mestre da Casta não se comparava ao tempo em que Willa viveu com eles. Se havia alguém que os conhecia profundamente, esse alguém era Fairchild.
— Eu pensei em algumas possibilidades nada agradáveis. – Ela arqueou as sobrancelhas desgostosa com aquelas possibilidades em sua mente.
— Eu... – Matt caminhou, apoiando sua mão contra o parapeito de pedra, incapaz de olhar a cidade, ele a sentia. — Eu tenho tido sonhos com ela. Sonhos onde ela está fugindo do seu passado obscuro, serpenteado pelas mortes acusadas por ela e as suas armas. Ela renasce dos mortos e se torna um espírito vagando na terra e buscando escapar desses fantasmas... E me assombrando. – Willa suspirou pesadamente, sentindo em seu coração a realidade por trás daquelas experiências. Seria ousadia de sua parte dizer que ela vivia algo similar, mas com outra pessoa não tão morta, quanto Natchios? — Ela morreu por mim, Willa.
— Eu sei, eu estava lá. – O sarcasmo de Willa foi recebido com um sorriso torto de Matt. Willa apoiou as costas contra o muro de pedra, olhando-o de soslaio pensativa. — E eu nunca pensei que Elektra podia amar alguém, além da própria imagem e criação, mas paguei com a língua quando ela me falou sobre você. Ela morreu por você, por te amar e você não deve se odiar por ter sobrevivido, deve agarrar isso e honrar a vida dela, através da sua.
— Você acha que... – Matt não queria pensar nisso. Ele queria ser como Willa, queria ter esse ímpeto para a vida, mas ele só se sentia fraco, cansado, um fracasso e um demônio sobrevivendo pela essência da vida de Natchios. — Stick trouxe ela de volta?
— Eu sei tanto quanto você sobre as habilidades extraordinárias dos mestres da Casta. – Ela comentou com uma risada rouca, quase escarnecedora de si para si mesma.
— O que seria...? – Ele sugeriu inclinando o seu rosto para ela.
— Nada. – Ela assentiu pesadamente e Matt mordiscou o canto da bochecha. — Nós não podemos fazer muito, agora. – Ele concordou e ela prosseguiu. — Mas, como disse, eu não podia carregar esse conhecimento sozinha. Eu odiaria que você soubesse isso por outra pessoa ou pior, visitasse o tumulo e o encontrasse como eu encontrei. – Matt enrugou o cenho, ele estava ali se lamentando como se fosse a grande vitima daquela linda história de amor, quando na realidade, não era uma história tão bonita e Willa era a outra ponta do triangulo. Ela conhecia Elektra, foi o que ela teve mais perto de amiga e família e sofreu com a sua morte tanto quanto ele e encontrar seu tumulo vazio deve ter sido... Desolador. — Você merecia saber isso e por mim.
— Obrigado. – Ele agradeceu com sinceridade, repousando sua mão contra o ombro dela com carinho.
— Não há de que. – Ela sorriu, inclinando timidamente o seu rosto. — Eu sinto que você faria o mesmo por mim. – Ela arqueou as sobrancelhas, pensativa. – Você consegue ler textos e mapas com o toque de sua mão, não é? – Willa lembrou que Stick disse algo sobre isso e Matt confirmou. Willa mexeu na bolsa e retirou um cartão de papel, apoiou no parapeito e anotou alguns dados nele. — Quando seu ajudante conseguir uma resposta da administração do cemitério, me envie o que ele descobrir para esse e-mail. Ele é descartável, fica no ar por 72 dias e não estou nem na metade do uso.
— Todo cuidado é pouco para você. – Ele riu com o tamanho da discrição da ninja e não existia uma forma mais fácil de explicar os seus motivos para isso.
— Eu vou embora de Nova York, Matt. – Ela comprimiu um sorriso, suspirando e não era por alivio, tinha um sentimento de temor de estar deixando algo para trás, algo que ela deveria ir atrás e se agarrar. Algo que ela nem sabia que possuía mais. Mas ela não tinha nada... Ninguém a se apegar.
— Ah. – Matt murmurou, surpreso. — Eu pensava que você tinha desistido disso depois do que houve...
— Não, eu... – Ela meneou a cabeça negativamente, sentindo a comoção em Matt. — Eu não posso desistir. Eu estou sendo procurada pelos quatro cantos do mundo e Nova York pode ser uma cidade grande, mas não o bastante para me esconder desse pessoal.
— Os seus amigos super poderosos não podem te ajudar a sumir do mapa? – Ele sugeriu arqueando uma sobrancelha sugestivo.
— Eles estão tão lascados quanto eu e alguns até podem me ajudar, mas... – Ela ponderou, comprimindo um sorriso esperançoso. — Eu ainda quero ter controle da minha liberdade.
— E a sua prima? – Matt perguntou enrugando o cenho.
— Jess vai ficar bem. – Willa sentiu um nó em sua garganta e Matt se arrependeu por ter mencionado-a. Deveria estar sendo uma luta para ela deixar a única parente viva sozinha. — Vou me despedir dela depois daqui, é caminho. – Ela semicerrou os olhos, prestando atenção na postura entristecida de Matt e ela repousou sua mão carinhosamente contra o seu rosto. — Não fique triste, Mattie. Eu não vou desaparecer da sua vida. Eu pretendo voltar para te infernizar.
Com isso dito, ele a puxou para um abraço de despedida, mais longa do que ele esperava e desejava. Willa aproveitou cada segundo daquele gesto carinhoso e beijou a bochecha dele, sorrindo para o novo amigo, com saudosismo.
— Espero mesmo. – Ele comentou com um sorriso doce. — E se precisar de um advogado ou de um ombro amigo, você sabe onde me achar.
— Não se preocupe, eu vou manter contato. – Ela deu uma piscadela. — Para onde vou, poderei ter respostas sobre o que aconteceu com Elektra e sobre camadas ainda desconhecidas de mim.
— Espero que você encontre todas as respostas que busca. – Ele disse com sinceridade.
Ela seguiu calma e tranquilamente para a escada de incêndio por onde havia vindo.
— E eu também espero e você, vermelho... – Ela virou de costas com um sorriso adorável. — Cuidado de noite, não deixe os bandidos acertarem esse rostinho lindinho e... – Ela apontou o indicador para ele com malícia adornando os seus lábios. — Por favor, sossega com esse coração e escolhe logo com quem você vai ficar.
— Você está muito interessada na minha vida amorosa... – Ele implicou sugestivo.
— Me dá urticária ver um homem indeciso. – Ela respondeu fazendo uma careta de nojo, arrancando uma deliciosa risada de Matt, uma das poucas dada por ele desde o incidente da Elektra. Willa parou o seu caminhar, estalando os dedos por conta de uma lembrança. — Ah, nesse cartão tem dois números de celular... São pessoas como eu e você...
— Ferradas emocionalmente?
— E insanamente heroicas. – Willa completou e assentiu, diplomática. – Se a coisa apertar e você precisar de ajuda, não hesite: Elas podem te ajudar.
Matt agradeceu e Willa sorriu, feliz por ter tido o timing de lembrar disso. Se existem três pessoas que precisavam se conhecer e com certeza, fariam um bom time, era o cara forte, a garota que voa e o demônio.
— Ei, Justiça. – Willa segurou a porta e olhou por sobre o ombro e assistiu Matt acenar para ela, sorrindo. — Até breve.
— Até, vermelho. – Ela acenou em retorno e repousou a mão sobre os olhos, afligidos pela claridade outonal. — Ah, e se você encontrar o tal Justiceiro, avisa a ele que me deve um bastão novo. Ele despedaçou o meu naquela última vez e o desgraçado não cumpriu com o combinado.
Matt riu assentindo.
— Eu vou tentar me lembrar, Willa.
Willa chegou após o almoço no Alias Investigations. Bom, deveria ser, mas quando Fairchild bateu na porta de vidro, acordando uma Jessica mal humorada. Nada de diferente por aqui. Willa esperava por isso e levou um copo de café bem quente sem açúcar e só por via das duvidas, alguns cheeseburgers. Sal e açúcar eram uma ótima arma contra uma ressaca. Sem cerimônias, Willa se aninhou no sofá da sala, conferindo apoiando os pés na mesa de centro, enquanto Jessica bebericava café e um pouquinho de vodka surrupiada do seu armário. Largada no sofá, Jess ofereceu o café com vodka e Willa negou, devorando pedaços do seu sanduíche. Retirou da bolsa um envelope pardo, pesado e passou para Jones. A detetive segurou o pacote com uma ruguinha confusa em sua testa e ao abrir o envelope, compreensão dominou seu semblante, como também negação.
— Não, eu não posso aceitar. – Ela fechou o envelope, devolvendo a sua dona.
— Como não? – Willa negou, empurrando para Jessica.
— É muito dinheiro. – A detetive comentou com um olhar terno sobre a amiga. — Você pode precisar...
— De onde veio esse tem muito mais. – Willa respondeu com uma tranquilidade. Jessica arqueou as sobrancelhas e a ninja apenas curvou os lábios em uma careta.
— Você trabalha para a máfia, ou algo assim? – Jessica implicou e ela deu de ombros.
— Algo assim. – Ela riu com sua resposta e Willa inclinou seu rosto com um sorriso terno. — Jess, você é a minha prima, eu vou embora dessa cidade perdida e não tenho ideia de quando retornarei. – A amargura em sua voz era marcante, mas ela buscou suavizar isso em seu olhar. Ela sabia que era o certo a fazer por ela e as poucas pessoas as quais ela ainda tinha apreço. — Deixa eu ter na minha consciência a tranquilidade que você está segura financeiramente.
— Eu acho tão engraçado quando você me chama assim...
— Assim como? – Willa perguntou franzindo o seu cenho.
— De prima. – Willa sentiu o tempo parar por um instante não compreendendo o seu sarcasmo, talvez ironia o que ela queria dizer com aquilo?
— Ué, é o que somos... – Fairchild não compreendia a sua lógica ali.
— Nós não somos primas, mas acho engraçado esse apelidinho. – Willa empertigou sua postura, lançando a Jessica um olhar verdadeiramente estarrecido. — Tem gente que se chama de irmã, mas nós somos só parentes distantes. – Isso Willa conhecia, isso era o sarcasmo de uma Jones.
— O que você quer dizer com isso?
— O que? – Jessica a olhou, agora confusa. — Como assim?
— Você aí, falando que não somos primas, como assim? – Willa gesticulou com ênfase.
— Nós não somos primas. – As palavras de Jessica atingiram Willa. Ela não conseguia respirar. Digerir aquelas palavras e transformar em uma resposta se mostrava um desafio. — Não estou entendendo o seu assombro. – Jessica ficou de pé, pegando sua garrafinha de vodka e enchendo o seu copo generosamente. Parou, estarrecida. — Willa, que cara é essa?
— Jessica, nós somos primas. – Fairchild reinteirou com assombro em seu olhar.
— Não, não somos. – Jessica respondeu firme, olhando Willa com suspeita e cerrando suas mãos em torno da garrafa. — Você está me assustando.
— E você está me assustando e me magoando dizendo isso. – Willa se levantou delineando um olhar cuidadoso sobre Jones. — O Killgrave está morto, mas isso está me fazendo reconsiderar esse fato.
Jessica meneou a cabeça em negativo. Kilgrave estava morto. Elas trataram desse assunto com requintes de crueldade. Para ele voltar a vida, necessitaria de um novo corpo. Mas, ela tinha razão em tal lógica, ouvi-la falar daquele modo, soava como se Kilgrave tivesse retornado e manipulado suas mentes a acreditarem em uma realidade que não é real.
— Willa, eu não tenho nenhum parente vivo. – Jessica apoiou suas mãos sobre os ombros da ninja, olhando-a em seus olhos. — Só a Trish, mas você sabe, é adotivo. – Willa parecia incerta disso. Desgostosa. Enjoada. E confusa, como nunca se mostrara antes aos olhos de Jessica. Ela não estava brincando. — Eu achava que você me chamava assim de brincadeira, por conta daquela uma vez que saímos e bebemos horrores e você me chamou assim uma vez e achei que você resolveu seguir... – Fairchild estava atordoada. Por um instante, ela sentiu estar em um pesadelo e conferiu suas mãos, encontrando cinco dedos em cada, repleto dos seus anéis e esparadrapos por conta dos seus calos, pelo uso excessivo da Katana. — Willa, você realmente acha que nós...?
— Não. – Willa proferiu imediatamente. Então, riu. Bem atrapalhada, bem atípico a ela. — Eu estou tirando uma com a sua cara. – Ela apontou o indicador para Jessica com o seu riso frouxo nos lábios, mas o seu olhar... Havia algo de incerto ali. — Você acha que eu ia embora sem deixar uma memória? – Ela brincou, rindo suavemente. — Prima... E você caiu.
— Você me assustou! – Jessica começou a acompanhar a risada eufórica de Willa. — Por um segundo achei que você ia chorar ali... – Jessica implicou batendo o seu punho contra o ombro de Willa que riu, abafando um gemido de dor pelo golpe jocoso de Jones.
— Mas, agora preciso ir. – Willa murmurou diplomática, colocando a alça de sua bolsa no ombro. — Um avião me espera para Paris.
É assim que ela chamaria o seu método de viagem agora?
— Que chique. – Jessica comentou, caminhando até a porta com as mãos enfiadas no bolso do seu jeans. — Faça algo parisiense por mim.
— Pode deixar. – Willa assentiu, assistindo-a abrir a porta e virando para ela, com um olhar saudoso. — Fique bem, se cuida e se procurarem por mim, diga que estou fora do planeta terra. – Ela brincou com um ar misterioso em seu semblante.
— Do jeito que o mundo está, acreditarão. — Willa a abraçou carinhosamente, fechando os seus olhos e engolindo um secreto embargo em sua garganta. — Cuidado. – Ela sussurrou carinhosamente.
— Você também. – Jessica retribuiu e assentiu. — Qualquer coisa... – Jessica era uma merda com sentimentos.
Willa riu, assentindo.
— Eu sei como te achar.
A porta fechou nas costas de Willa e Jessica ficou momentaneamente contemplativa. O que tinha acontecido ali? Ela precisou de alguns segundos. Nhé, nada para se preocupar. Com isso, ela virou o seu copo de vodka, decidida a retornar para a sua cama.
Willa seguiu para para elevador. Sozinha ali dentro, ela apertou para o térreo e assistiu às portas metálicas se fecharem e levou a mão aos lábios contendo o seu choro desesperado. O que acabara de acontecer ali? Jessica estava certa do que dissera, não havia dúvidas nas batidas de seu coração, muito menos no uso de suas palavras e as suas reações... Eram sinceras. Na mente de Willa passava memórias de dezenas ocasiões onde o parentesco delas era comentado e Jessica levava sempre na brincadeira, nunca na reciprocidade de Fairchild. Isso fez tanto sentido agora. Elas... Elas não eram primas. Como? Isso... Isso tinha que ter dedo do Kilgrave. Ele deve ter mexido na mente de Jessica para ela achar que era sozinha, que ela não tinha família alguma e Willa era apenas uma amiga brincalhona e o efeito ainda ficou ali, mesmo depois de morto, por conta dos meses que ele a controlou. Talvez isso fosse ir e vir ou talvez, Jessica precisasse de tempo para as suas memórias sobre o parentesco retornarem.
Ou talvez, ela tinha razão e elas não eram parentes.
Isso era... assombroso.
Willa viveu uma mentira, esses anos todos? Como? Porque? O que fez isso com ela? Ou melhor, quem?
Decidida e subitamente dominada por fúria, Willa optou por tirar as provas dos noves por conta própria.
Em seu dedo, ela enrolou um fio de cabelo preto da detetive. Ela pegou em seu ombro, imperceptível aos seus olhos.
Willa conhecia um cara em Berlim, ele faria esse teste sem dificuldades por um preço camarada e ela teria a confirmação. Elas eram ou não parentes? Isso era algo de Kilgrave ou era uma doença crescente em Willa?
Fairchild secou suas lágrimas e enrolou o fio em um lencinho de papel e guardou na sua bolsa. O seu passado era... Uma incógnita. E essa incógnita ganharia uma resposta.
As portas metálicas abriram em um estalo e Willa fechou seus olhos e respirou fundo dando o primeiro passo para deixar aquele pérfido prédio para tás e seguindo pela rua, sentindo a neve cair em sua pele e gelar não apenas seu corpo, mas adornar a sua alma e coração em crise. Uma coisa era certa: pela primeira vez em anos, ela sentiu em seu coração o quanto odiava a neve e o que ela significava para si: perda, morte. Só havia um detalhe: ela não lembrava de quem.
Isso deveria ser coisa de Nova York tentando prendê-la em seu feitiço. Com ela não funcionaria. Willa era dona do seu destino, capitã da sua vida. E a próxima parada era...
— Pietro? – Willa o chamou. O homem recostado contra a mureta de uma lanchonete contemplava a avenida movimentada de Nova York com um fascínio em seus olhos. Os cabelos pretos salpicados de branco estavam bagunçados, o que significava que ele chegara a pouco e a jaqueta de couro tinha um único propósito: amolecer o coração de Willa.
— Pronta para ir para Paris, draga? – Pietro questionou empoderado pelo seu sotaque Sokoviano e um belo sorriso charmoso, admirando-a ninja de cima abaixo e franzindo o seu cenho, com estranheza penetrando o seu consciente. – Está tudo bem?
— Tudo, tudo sim. – Ela desconversou, fechando os seus olhos e concentrando as suas prioridades e principalmente, as suas desregradas emoções. Ela abriu os olhos e comprimiu um sorriso, caminhando em linha reta. — Mudanças de planos, o que você acha de bebermos algumas cervejas em Berlim?
— Isso é música para os meus ouvidos. – Ele a seguiu rente, sorrindo malicioso.
Willa cessou os seus passos alguns metros adentro de um beco, Pietro parou próximo a ela e eles conferiram a proximidade, buscando por sinal de algum bisbilhoteiro. Certos de sua segurança, Pietro pegou Willa em seu colo, firmando suas mãos em suas pernas e cintura. Eles se olharam e por um instante Maximoff parecia perdido pela simples existência de Willa, em seus braços. Ela sorriu e riu, sentindo as suas bochechas aquecerem. Pietro ficou muito cheio de si por isso. Decidido, olhou para o horizonte e... Eles sumiram.
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