Born to Die | Exile
23 Exile | Cunning
Notas iniciais


CUNNING
Esperteza; habilidade de quem não se deixa enganar.
HONG KONG
China
Meditação para Willa consistia em se exilar no bosque aos fundos da Mansão da Casta.
Ela portava duas katanas e a companhia de alguns alunos interessados em aperfeiçoarem suas técnicas com a favorita do Sensei Stone. As árvores bloqueavam parcialmente a vista e paisagem, o que não deixava de ser uma obra de arte da natureza. Os alunos cercavam a tutora em um círculo. Giravam suas katanas e arma de escolha com prepotência e desafio. Arrogância de um principiante. Eles treinavam golpes e contra golpes. Movimentos de luta misturada com golpes administrados pelas suas armas. Suas sombras dançavam no chão, refletidos como em um teatro de cartolina e madeira. Todos contidos e rebatidos por Willa. Para aqueles que queriam aprender, Willa sugeria contragolpes e técnicas para os seus ataques. Para aqueles que acreditavam ter todo o conhecimento do mundo, ela lhes davam o inferno. Esses treinamentos acabavam por atinar a curiosidade dos outros alunos e até alguns Senseis conhecedores das histórias da órfã americana adotada pelos Sensei divinos da Casta. Quando o grupo se apercebia tinham uma pequena plateia torcendo e vibrando por cada novo golpe e contragolpe da Favorita de Stone, a garota de cabelos de ouro.
Quando o sol encontrava o norte, Willa encerrava o treinamento. Raramente se sentia fadigada e dolorida, por conta do seu alto nível de stamina e as suas sessões de treinamento de longas horas, administrado pelos senseis, mestres árabes e o próprio Capitão America, ao longo dos últimos anos. Os seus alunos buscavam por água e descanso em alguma sombra, acreditando que nunca mais sentiriam suas pernas como antes. Diferente do seu treinamento, ela permitia tais regalias, mas não deixava de sentir em sua nuca os olhares julgadores de um e outro Sensei. A Casta não treinava ninjas, eles treinavam Deuses. Quando Willa permitia que eles tivessem garrafas de água em mão e sombras para se refrescar, ela dizia que eles teriam ajuda na dor e sofrimento. Na sua época de treinamento, se ela sentia sede após um treino, Stone a enviava para buscar sua própria água no rio... E ele ficava a 15 quilômetros da encosta da montanha. Ela podia não ser o exemplo perfeito de uma shinobi da Casta, mas era o melhor exemplo dela mesma. Ela não queria treinar assassinos. Ela queria treinar... Melhores versões dela mesma. Parecia presunçoso, mas a sua experiência na Casta era tenebrosa. Não era como se ela não tivesse tido sorte. Quer dizer, ela não era como o Matt Murdock ou a Elektra Natchios, isso era ter mais do que sorte, era ter uma chance, mas ela teve... Algo melhor do que nada, o que não deixava de ser um pensamento infortúnio. Ela aprendeu a sobreviver a qualquer situação de perigo eminente. Ela se tornou mais forte do que o carvalho, ela era inquebrável como uma rocha e mesmo com todas as adversidades, ela era boa. Ela não se deixava levar pela dor, pela perda, pela derrota. Ela superava e sobrevivia. Um benefício aprendido na Casta ou já impregnado em sua pele? Ela não sabia dizer. Era uma daquelas coisas sobre a sua natureza que ela desconhecia. Ela não queria soar ingrata. Stone fora um grande mestre para ela e a sombra de um pai. Ele sabia disso. Não em palavras e declarações. Ele estava acima de tais sentimentos mundanos.
Um olhar de respeito de Willa e Stone sabia o seu significado naquele coração atormentado.
Aqueles alunos, aqueles futuros shinobis queriam ter ao menos, um pouquinho dos movimentos e lições apreendidas pela garota de cabelos de ouro, mas para isso, eles teriam que perder tudo o que tinham, teriam que ser tocado pelo divino, teriam que tocar o coração de Stone com sua história e determinação para sobreviver.
Eles nunca conseguiriam isso.
Em um mundo onde existia uma Willa, não existia espaço para outra.
Sem contar que Stone era um homem intenso com as suas emoções.
Era difícil racionalizar com uma pessoa que via o mundo turvo.
Ou talvez, ela fosse o problema.
xxx
Após tomar um banho agradável, Willa trocou o seu kimono reservado para treinamentos por um par de jeans escuro com uma camisa verde musgo escondida por um casaco de couro preto. Na cama sua mochila de viagem estava semipreparada. Amarrando parte dos seus cabelos em um coque alto, sua mente passeou nas suas lembranças. Uma memória recente ganhou destaque: a sua discussão com Stone. Os seus olhos encontraram a escrivaninha onde um envelope pardo estava repousado. Ela tomou o papel entre os dedos, refletindo e contemplando o jardim impecável da Mansão. Era um belo dia de verão e Willa apenas via as nuvens negras aproximando lenta e sinistramente.
Sua missão estava na distância de um rasgo.
Uma batida de coração agitado cortou o ar em uma mínima distância de milésimos. Ela não tinha por que esconder o envelope. Willa comprimiu um sorriso reconhecendo o seu visitante apenas pela batida do seu coração e tratou de esconder tal gesto; Seu visitante tinha um ego muito sensível – no sentido negativo.
— Desaprendeu a abrir um envelope? – Pietro questionou com o seu sotaque carregado deixando uma batida na porta e fechando-a após entrar.
Recostou a vontade na escrivaninha mordendo uma maçã com uma fome exacerbada.
— Você precisa parar de roubar comida da cozinha. – Ela resmungou meneando a cabeça em negativa.
— Em primeiro lugar, eu não roubei essa maçã da cozinha. – Ele levantou o indicador para ilustrar as suas palavras. — Segundo lugar, eu ganhei da Xin que estava colhendo na horta.
— Pomar. – Ela o corrigiu, cruzando os braços após a menção de Xin, uma nova aluna do Sensei Star.
— E terceiro... – Ele levantou três dedos comprimindo um sorriso malicioso. — Você fica tão sexy me corrigindo. – Willa revirou os olhos e ele sustentou o olhar charmoso sobre ela, inclinando o seu corpo para ela. Ágil, ela bateu na sua mão. Desajeitado, Pietro perdeu a posse da maçã e Willa a pegou no ar. – Ei! – Ela mordeu com satisfação. — Era minha.
— Agora não é mais. – Ela caminhou com um convencido balançar dos seus quadris, observado por Maximoff com um sorriso gostoso. Ela retornou a sua atenção ao envelope, assombrada, a ruguinha em seu cenho retornou. – Eu vou precisar viajar.
— Para onde? – Essa novidade pegou o Sokoviano de surpresa. Acontecera alguma coisa? O esconderijo dela foi comprometido? — Por quê?
— Eu vou descobri o lugar aqui dentro e por que... – Ela apontou para o envelope e Pietro uniu as sobrancelhas, um pouquinho mais confuso com todo o mistério. — Eu devo um favor ao Stone e eu preciso pagar.
— Por favor você quer dizer, assassinar alguém? – Ele inclinou a sua cabeça com aquela ruguinha pesando o seu semblante.
— Eu ainda não sei. – Willa não se atreveu a olhá-lo. Era como se Pietro fosse um espelho e ela acabaria encarando os seus maiores temores naquele olhar elétrico.
— E você não abriu esse envelope ainda, por estar com dúvida sobre o que terá que fazer? – Viu? Um espelho e ele fala.
— Eu estou prestes a repetir um padrão aqui. – Ela proferiu suspirando o ar que puramente acalmou as suas emoções. — É só retornar para a Casta e eu me vejo atrelada nas suas missões escusas e eu não quero isso para mim. – Willa deixou o seu olhar caiu e a sua voz embargou com um desconhecido sentimento dominando o seu coração. — Eu só queria... Um lugar seguro.
— Eu acho aqui seguro. – Pietro comentou com doçura e ela lançou um olhar capaz de desconcertar o homem mais seguro. — Quer dizer, vocês fazem a sua própria comida. – Ele estava falando dos alimentos orgânicos produzidos pelos Senseis, mestres e alunos. — Até tem uma academia e uma sala de meditação. – Eram coisas que qualquer lugar no mundo poderia ter, só precisavam de alguns pesos e um espaço para sentar, fechar os olhos e meditar. — E o pessoal aqui é bem legal. Simpático. – Nisso, Pietro tinha razão. As pessoas da Mansão estavam longe de serem as melhores pessoas do mundo, mas também não estavam muito distante de serem consideradas bem intencionadas. — Nas poucas vezes que você falou sobre a Casta sempre soou como algo tão ruim...
Era um engano de principiante.
— Esse lugar não é a Casta. – Ela abraçou o corpo com um sutil balançar de sua cabeça. — Pense nisso como uma filial. Uma filial de uma empresa nunca funcionara como a sede oficial, entende? O podre de uma empresa sempre estará no solo de sua origem. — Pietro foi acometido por compreensão e ela mordiscou a ponta dos lábios, pensativa. — Você vê o lado bom da Casta, pois esse lugar emana isso, e por você também ter uma visão positiva sobre as coisas.
— Eu nem sempre sou assim. – Ele deixou o seu olhar vagar, reflexivo.
Se ela soubesse das tormentas em sua consciência.
— Mas o seu coração é. – Ela deixou o seu indicador bater no coração de Pietro e ele comprimiu um sorriso com a sua gentileza. — A Casta é... Um pesadelo.
— Fica em uma montanha, não é? – Ele lembrou de alguns dos poucos detalhes contados por ela.
— Em lugar que não é nem aqui, nem lá. – Ela proferiu com melancolia.
— Fácil de localizar pelo Google Maps. – Pietro rebateu jocoso e Willa riu sem muito humor, mas com um prazer acomodado em seu coração.
— Eu queria muito que isso desse certo, mas... – Ela suspirou arqueando uma sobrancelha com mágoa. — Eu acho que me enganei.
— O que você quer dizer?
— Depois que eu resolver essa missão, eu vou embora daqui. – Ela sussurrou dividindo aquele segredo com ele.
— E os seus alunos? – Pietro cruzou os braços, em conflito entre os pros e contras daquela decisão.
— Eles receberão novos professores.
— Como você pode dizer assim, como se fosse nada? – Ele gesticulou incrédulo. Como ela podia não se sentir conectada àquelas pessoas na sua vida nesses últimos meses? — Eles se importam com você!
— Pietro, a única pessoa que se importa comigo dentro dessas paredes é você e o Stone. – Pietro abriu os lábios, mas fechou, refletindo as palavras dela. — Os alunos estão apenas interessados nas minhas histórias de batalha e como eu consigo acertar uma adaga a 25 metros de distância, sem errar o alvo.
— Não é verdade... – Willa uniu as sobrancelhas, agora era ela quem nutria duvida das palavras do amigo. — Eu posso ter falado com um ou outro aluno e eles sempre mostram uma tremenda admiração por você. – Ele revelou coçando a nuca deixando um sorriso torto brincar com os seus lábios. — A Xin mesmo, ela me disse que você trata todo mundo bem, como igual e não como um gado. Ela falou que as suas aulas são as melhores e suas lições a guiam para ser uma ninja melhor, como você.
— Pietro... — Willa tinha as suas dúvidas sobre o que fora dito pelos alunos e o que era alterado pelas emoções dele.
— Você não acredita em mim? É verdade. – Ela comprimiu um sorriso pouco animador e Pietro gesticulou com descrença. — Você quer que eu a traga aqui?
— Não. Não precisa disso. – A insistência de Pietro levou ela a segurar os seus braços. Era uma precaução para o rapaz não ser dominado pelo seu espírito de impulso e surrupiar a pobre Xin dos seus afazeres, o que provavelmente, causaria um enfarto na garota. — Eu acredito em você, eu só... – Ela calou, refletindo os seus sentimentos quanto àquilo. — Eu acho que eu só não consigo me ver aqui, com um futuro, quando eu sequer tenho certeza do meu presente.
— Eu consigo te ver fazendo isso, sabe? – Pietro comentou com um distinto embaraço, ao notar a surpresa condensando no semblante dela. — Ensinando e guiando jovens perdidos. Não só para ser ninja, sabe, mas com a vida mesmo. Você é boa nisso, em ajudar as pessoas.
— Como eu posso ajudar alguém quando não consigo ajudar a mim mesma ou o Bucky ou os nossos amigos? – Ela proferiu pesarosa.
— Que tal ajudar quem está no seu alcance? – Ele deixou a sua mão repousar na cintura dela e abraçou com carinho. — Você é importante para eles, Willow. Você é importante para mim também. – Ela encontrou conforto nos seus braços e aconchegou melhor em seu corpo. — Olha, eu não sou um grande entendedor sobre os caminhos da vida e essas baboseiras, mas eu acho que se você se focar no que você tem, aquilo que você almeja ficará mais fácil de alcançar.
Eles se distanciaram e ela sustentou o seu olhar com um sorriso torto.
— Eu não acho que ajudar um bando de ninjas a aprender a usar uma katana me ajudará a destruir o gatilho no cérebro do Bucky.
— Você não acha isso hoje, mas quem pode te garantir que treiná-los não te levará a resposta? – Willa refletiu com as suas palavras. — A vida tem dessas coisas. Às vezes a resposta está diante de si e você só precisa de um empurrãozinho para se dar conta disso.
— Eu acho que você tem razão. – Ela arqueou as sobrancelhas e distanciou do Sokoviano, retornando a sua atenção para o envelope temido.
— Eu sempre tenho. – Ele proferiu convencido zapeando diante dela para surrupiar o último pedaço de maçã.
— Você é impossível, sabia?
— E irresistível. – Ele completou com um sorriso charmoso.
— É o que as garotas te dizem? – Ela arqueou uma sobrancelha com um sorrisinho sapeca por conta da sua implicância.
— Bom, eu não sou do tipo de fofocar... – Ele balançou os ombros de um lado a outro e sorriu. — Mas não ligaria se você dissesse.
— Pietro... – Ela sussurrou cuidadosa. Ela não queria magoá-lo, mas não era a pessoa mais indicada para rejeitar as intenções de um cara como Pietro, um cara bom.
— Willa. – Ele deixou a sua mão vagar em um toque gentil no rosto dela. — Pague a sua dívida com esse seu Sensei de nome engraçado. Faça o que você tiver que fazer para quitar isso e quando tudo acabar, se esse sentimento de repetir um padrão continuar te assombrando, você toma uma decisão.
— E se a minha decisão for partir?
— Nós vamos procurar o tal lugar seguro buscado por você. – Ele não precisa se incluir nessa proposta e Willa não conseguiu conter sua alegria em saber que não estava sozinha nessa. — E é claro, eu vou sentir muito por esse pessoal, mas é a vida, não é? – Ela voltou a olhar para o envelope e Pietro encaixou a sua cabeça na lateral do corpo dela. — Vai abri esse cara mal, então?
— Vamos ver o que me aguarda. – Ela abriu a ponta do envelope e retirou um pedaço de papel, entregando o papel pardo ao rapaz.
Ele abriu o envelope encontrando apenas o ar dentro dele. Willa lia o papel entre os seus dedos, reflexiva.
— Essas missões costumam sempre ser assim... Um endereço em um envelope e aí você recebe a missão em um óculos de sol que explodirá 5 segundos depois que transmitir o dossiê? – Pietro brincou e ela não deixou de rir gostosamente.
— Tipo isso, só que com ninjas assassinos e clãs imortais.
— Para onde você vai? – Ele parecia incerto se teria essa resposta e contava com ela, pois ele não entendia kanji nem se a sua vida dependesse disso.
— Tóquio. – Ela inclinou a cabeça, pensativa. — Estranho.
— Por quê?
— Stick e Stone viajaram para lá hoje, para resolver negócios com os Clãs aliados e inimigos.
O que Stone estava aprontando para ela?
— Você acha que eles têm um plano para eliminar algum inimigo e precisam de você para eles não saírem como possíveis suspeitos? – Pietro precisava parar de assistir filmes de ação dos Anos 80.
— Isso soa mais com algo que o Stick faria do que com a atitude de Stone. Talvez, essa missão acabe mais interessante do que um fardo afinal de tudo...
Ela acendeu a lareira, para queimar aquele pedacinho de papel. Pietro torcia para que a memória dela fosse tão boa ao ponto de decorar aquelas informações recém-adquiridas. Mal ele sabia que ela conhecia intimamente o endereço naquele papel.
— Toda vez que você fala os nomes deles, eu penso naquela musica, Stick and Stone may break my bones... ♪
— Nunca os deixe te ouvir falar isso. – Ela o interrompeu repousando os dedos na boca dele e acabou por rir por conta da surpresa no semblante dele.
Ela seguiu para a beira da cama, conferindo o conteúdo da sua mala.
— Então, vamos para Tóquio? – Ele atirou a questão, como quem não quer nada, pois ela não fez nenhuma menção e ele não estava nada à vontade com a ideia dela se jogar nessa missão louca sozinha.
— Você não precisa ir comigo.
— Como também não preciso estar aqui, mas estou, porque eu quero. – Ele murmurou com determinação, segurando um sutiã de Willa entre os dedos e ela pegou com um rubor em suas bochechas. — Se você não me quiser lá, eu entendo e vou te dar esse espaço. – Ela enfiou o sutiã no meio das roupas e pensou nas suas palavras. — Agora, se você não me quer lá, por desconfiar das minhas intenções, saiba que eu estou indo por desejar estar ao seu lado e não por você, unicamente. Existe uma diferença enorme entre estar ao seu lado e estar por você, sabia?
— É, eu sei. – Ela concordou e acreditava nas suas intenções. — Isso pode ser perigoso.
— Meu nome do meio é perigo. – Eles riram e ele sentou na cama, refletindo nas suas próximas palavras. — E isso só reafirma que talvez seja bom eu estar lá por você. Lembra? Governos por todo o mundo estão procurando você; eu posso ser útil.
— É, pode.
— Mesmo? – Ele mostrou surpresa pela sua concordância e ela sorriu, com espontaneidade.
— Sim. Se Stone e Stick estão lá e precisam da minha presença para alguma missão deve ser algo muito delicado e definitivamente perigoso para a manutenção do status do Clã. – Ela analisou a situação até então, apresentada a ela. — Todo cuidado é pouco. Por mais perigoso que seja eu acredito que você pode acabar me auxiliando nesse trabalho.
— Como um parceiro? – Ele sugeriu com um sorriso sapeca.
— Mais como um disfarce. – Ela contornou a situação com jocosidade.
— Tipo, como uma missão de espiões? – Curiosamente, isso o deixou muito mais empolgado do que a ideia deles serem um casal.
Coisas de Pietro.
— É, algo assim.
— Oba, roleplaying.— Willa riu com a espontaneidade do velocista. — Parece divertido.
— Vamos conversar sobre isso no avião. – Ela avisou, tentando enredá-lo para a seriedade por trás daquele trabalho.
— Podemos ir sabe... – Ele sugeriu apontando para as pernas. — Com as minhas pernas.
Pietro conseguia ser imperceptível para as câmeras e até para a percepção humana, em muitas das vezes. Por isso, ele utilizava livremente as suas habilidades, mas ele mantinha um certo cuidado ao utilizá-los em público, por exemplo. Mas, em situações como essas, eles podiam abrir uma exceção.
— Você já esteve em Tóquio? – Ela questionou dobrando uma camiseta social que combinaria com o clima na capital do Japão.
— Não, mas... – Willa levantou o indicador e gesticulou em negativa.
— A ultima vez que você resolveu nos transportar para um lugar desconhecido foi para Cuba e paramos em Nova Guiné, no meio de uma tribo.
— Foi alucinante. – Pietro bradou acertando um soquinho no ar com ânimo.
— Eu quase levei uma flechada no olho. – Ela semicerrou um olhar desafiante ao rapaz.
— Eu acho que bem vi uma cascavel naquela floresta. – Ele recordou avoado nas suas lembranças.
— No meu olho, Pietro! – Ela apontou para o olho esquerdo.
— Pode ser classe econômica? – Ele pediu com uma careta nos lábios. – Não acho que as minhas pernas vão aguentar duas horas naqueles bancos apertados.
— Vai ser a primeira classe. – Pietro arregalou os olhos. Isso era definitivamente muito melhor do que a classe econômica. — É mais difícil os nossos documentos acabarem levantando alguma suspeita nas mãos da segurança. Partimos ainda hoje, se a internet e a companhia aérea permitirem isso.
— Vou a Sokovia, pegar meu passaporte e minhas coisas. – Ele bateu as mãos nas coxas e levantou, deixando um beijo no topo da cabeça de Willa. — Já volto.
— Ok.
E a porta fechou e Willa se encontrou sozinha no seu quarto.
Ela contemplou momentaneamente aquelas paredes, os móveis, o vento balançando as cortinas harmoniosamente e ela buscou aquela sensação ansiada de segurança. Se ela encontrasse esse sentimento de conforto e carinho, ela poderia até reconsiderar o seu anseio de buscar asilo em um novo lugar.
20 segundos depois... A porta abriu em um estrondo e os cabelos de Willa atingiram o seu rosto. Ela arrumou as mechas encontrando Maximoff deitado de lado na cama. Sua mala estava na chão e ele balançava o seu passaporte falso forjado por um dos tantos amigos de caráter duvidoso de Fairchild.
— Pronta? – Ele reparou na mala de Willa, sem alterações. Ele fez um biquinho nos lábios, com o seu orgulho alcançando os céus. — Meio lentinha, não acha?
— Você vai ver o lentinha já já. – Ela deu um cascudo na cabeça dele.
Deixou a cama, abrindo as gavetas e retirando as suas poucas roupas convencionais, não deixando para atrás o seu kimono de cerimônia e a sua katana cativa.
— Uh, isso é uma promessa?
Ele comprimiu um sorriso, lançando um olhar desafiante para Maximoff.
— Você bem queria.
Bem queria mesmo.
Ela colocou os últimos itens na bolsa. Deu uma última conferida no quarto, pegando aqueles itens esquecidos de última hora, como touca e tesourinha de unha. Com tudo certo, ela retornou a admirar aquelas paredes a espera de um sinal. Na altura do campeonato, se um pombo pousasse no parapeito ela aceitaria isso como um sinal para ir nessa missão e retornar para a Mansão.
Nada aconteceu.
O vento continuou a balançar as cortinas.
E o incomodo crescente a ruminar no seu coração de Fairchild parecia crescer, cada vez que a ideia de seguir em frente e buscar respostas para o seu passado se tornava o seu melhor plano.
Seria esse o seu sinal pedido?
— Para de olhar minha bunda. – Ela grunhiu entre os dentes para Pietro e ele comprimiu um sorriso levantando as mãos em defesa e ela colocou a alça da bolsa no ombro seguindo para a saída.
— Para de andar na minha frente.
Pietro pegou as suas coisas e seguiu a poucos passos atrás dela, respeitando o seu pedido, mas não deixando de acreditar que talvez, aquele pudesse ser o seu tão sonhado sinal para um reinicio, entre eles.
xxx
TÓQUIO
Japão
Stone atraia facilmente atenção por onde passava, ele deixara o banco do passageiro, arrumando a lapela do seu terno. Por conta da sua altura desproporcional e músculos imponentes. Discretos, os japoneses estavam acostumados com o escandaloso e o extraordinário, mas não alguns não conseguiam esconder o seu assombro e olhares divertidos por vislumbrarem um homem de tamanho e forma tão incomum. Ao lado do líder da Casta o magro e esquálido Stick acompanhava os seus passos com os seus sentidos aguçados para qualquer aproximação inesperada. Longe de ser um descendente de japonês, o idioma deixava os seus lábios impecavelmente. Ele era um homem grande e forte, mas sereno e muito educado. Stick, por sua vez, parecia incapaz de ferir uma mosca por conta da sua deficiência. Mal sabiam eles.
Stone fez todo o procedimento requisitado para entrar no prédio empresarial. Passou pela revista, por um sistema eletrônico e deixou um documento como garantia de sua boa fé. Foi guiado por um atendente simpático (e nervoso) até um elevador exclusivo para a cobertura. Até o andar 44, eles teriam dois minutos para relaxar e preparar para aquele encontro orquestrado. O elevador era de um metálico dourado, com um carpetaria avermelhada. Em um apertão, eles poderiam parar em qualquer andar ou parar o elevador. Era exclusivo, por ser utilizado apenas pelo dono do prédio e os seus convidados. Tanto que dentro dele tinha algumas regalias, como jornal do dia e revistas da semana. Uma televisão com notícias jornalísticas e rede livre de internet para manter os convidados entretidos. Só que Stick e Stone tinham um assunto com potencial de entretimento e conflito para tratar e nada melhor do que colocar Stone contra a parede, do que trancado dentro de um elevador.
— Nós precisamos falar sobre o elefante no cômodo. – Ele murmurou em inglês.
— Se você enxerga um, sou incapaz de dizer o contrário. – As câmeras de segurança filmavam as suas ações para a segurança dos funcionários e clientes, mas para manter a privacidade do dono da empresa e a sua clientela, o som não era transmitido.
— Você acredita que a sua preciosa Yanagi é capaz de cumprir a missão dada a ela? – Stick proferiu tais palavras por entre os dentes. Stone continuou inexpressivo.
— Ela tem tudo o que é necessário para isso.
— Menos a coragem. – Stick cutucou a onça com vara curta.
O seu pupilo inclinou singelamente o pescoço arrumando a gola com um estranho olhar transpassando a sua fisionomia.
Ele ouvia passos. Altos, retumbando no solo. Saltos finos, saltos curtos, sapatos planos.
E ele ouvia... O nada.
— Ela é uma das guerreiras mais destemidas que já pisara na Casta. – Ele respondeu Stick sem dar muita abertura para interpretações do seu mestre, um apaixonado por conflitos.
— Bobagem. – Ele sibilou batendo a sua bengala no chão metálico, mantendo a sua cabeça dignamente erguida para o horizonte. — Ela era. – Ele contornou a sua postura, recebendo um olhar de soslaio e curioso de Stone. — Depois que ela partira, após toda aquela comoção por conta de mim...
— Você matou ela. – Stone o interrompeu unindo quase imperceptível as suas sobrancelhas.
A cada novo andar o elevador manejava um clique. A cada novo andar os saltos e sapatos, as conversas, os choros, as brigas ganhavam distância da audição de Stone. E o nada iniciava a sua dominação nos sentidos de Stone. E não apenas o dele.
— E você a trouxe de volta a vida. – Stick rebateu com um sorriso convencido. Stone e o seu coração mole. Ele não sabia dizer com quem ele aprendeu aquilo. — Pois bem, depois de tudo aquilo, ela se demandou no mundo e resolveu criar uma consciência. Babaquice.
— Como o Murdock? – Stick grunhiu guturalmente. — Como a Elektra?
Stone atingiu o mestre onde lhe doía mais. Mesmo que ele não transparecesse isso, Stick entortou um sorriso pouco feliz, pouco malicioso. Era a sua diferença da maioria. Ele não chorava ou era possuído pela raiva do luto, ele sorria quando a dor o afligia. Era um desafio, era um pedido para ela fazer o seu pior apenas para ele mostrar-lhe que era impenetrável.
— O Murdock sim, mas o problema dele não é apenas o caráter, mas é a sua maldita fraqueza para causas impossíveis. – Stone não se opôs a isso. — E Elektra... – Stick refletiu as suas próximas palavras. — Ela estava perdida antes de mesmo de ter a chance de ser encontrada.
— Yanagi disse algo a mim sobre termos entregado Elektra ao seu destino e me questiono se ela não tem razão.
— Você? – Stick abafou uma risada jocosa. — Um grande credor de destinos e profecia duvidando de sua crença pela garota de cabelos de ouro? – Stick meneou a cabeça em negativa, separando os seus pés em um ângulo de 90º e Stone desenlaço as suas mãos. — Você mudou muito, Stone.
— São através das grandes mudanças que evoluímos, Sensei. – Ele proferiu com idealismo.
Fechou as mãos em punhos, atinando os seus sentidos apenas para escutar o nada.
Sem passos, sem conversas, sem emoções, sem respirações, sem batimentos cardíacos.
Isso não era bom.
— Você sabe o que nos aguarda atrás dessa porta, certo? – Stick proferiu suavemente levantando minimamente a sua bengala.
— Quinze homens armados com katanas, shurikens e ganchos em correntes. Pelo ausência de batimento cardíaco e a transparência na sua estratégia de aproximação, nós estamos lidando com os melhores ninjas do Tentáculo.
— Enviados pelo novo liderzinho? – Stick debochou entre os dentes fechando a sua bengala e guardando ela no seu bolso.
— Duvido. – Stone investigou cada detalhe da vida daquele rapaz. Ele tinha o sangue do seu pai, mas não era ele em sua alma. — Nós fomos traídos.
— É um ótimo motivo para quebrarmos o nosso contrato com essa empresa. – Stick respondeu arqueando as sobrancelhas. – Acho ótimo, nunca gostei daqui mesmo. – Ele repousou a mão no ombro do pupilo e assentiu. — Você sabe o que isso significa, garoto?
— Eles sabem. – Stone proferiu frio e inconformado pelos seus motivos descoberto pelos seus inimigos de séculos.
O seu semblante lentamente modificou diante do seu reflexo no metálico da porta do elevador.
De inexpressivo e equilibrado para dominado por uma fúria desconhecida por um homem comum.
As portas metálicas abriram em um apito robótico e um homem vestindo um kimono vermelho em padrão ninja atirou um gancho em uma corrente metálica acompanhado de uma adaga, com o propósito de atingir e matar Stick.
Stick movimenta o corpo para longe do gancho e Stone se coloca a sua frente, para protegê-lo da adaga. A arma branca e pequena rasga o seu terno, atingindo a pele do seu peito. Sem cortar um centímetro da sua pele, a adaga contorce caindo no chão, inutilizável. O ninja da Tentáculo arregala os olhos, confuso.
— Ops, o seu nome não é tão autoexplicativo o quanto pensávamos. – Stick comentou com uma gargalhada jocosa. Stone lançou um olhar pouco amigável para o Sensei e ele percebeu isso, ficando subitamente desgostoso. – Você não tem graça.
Eles deixaram o elevador. Como se uma onda do mar gélido buscasse tocar os seus pés, os ninjas distanciaram do alcance deles. O pupilo e o Sensei se entreolharam. Stick sorriu. Stone respirou fundo. Eles retornaram a sua atenção àqueles homens. Um ninja adiantou, ágil e imperceptível conseguiu acertar um soco no rosto de Stone e caiu ao chão, berrando pela dor em seus ossos partidos e esmigalhados por conta do contato com a pele impenetrável do Sensei da Casta. Os dedos do ninja regenariam? Sim, mas demoraria alguns minutos bem dolorosos para o ninja do Tentáculo, a famosa A Mão. E os seus gritos seriam apreciados por Stone com uma enorme satisfação.
O elevador apitou, anunciando que desceria, em poucos instantes.
— Quem é o próximo? – Em japonês, Stick convidou com um convencido e animado sorriso adornando o seu semblante diabólico.
As portas metálicas do elevador cerraram.
E a batalha prontamente iniciou.
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A morte era fria, fria como a noite de natal em Nova York. Os seus lábios tinham gosto de ferro e o seu corpo não respondia aos seus comandos. Um som arranhado e agonizante de dor escapou de sua garganta e o seu peito subiu e desceu em uma respiração ofegante e muito dolorosa. A menina era um anjo sob a neve. Os seus cabelos dourados entravam em contraste com a densa e congelante neve. O azul do xadrez de sua camisa e o bege com fru- fru do seu casaco se destacava no branco e vermelho, do seu sangue. Ela chamou pela sua mãe, mas a voz não deixou os seus lábios. Era um grito arranhado. Gritou pelo pai, mas só saiu um ganido. Então, pensou em seu irmão e ela o chamou e a sua voz deixou os seus lábios em um doloroso sussurro, urgente e desesperado. Respondido poucos instantes depois em ecos. Ela abriu os seus olhos azuis pálidos encontrando a brisa gélida cobrindo os céus em nuvens afuniladas com uma ventania de grande escala com a capacidade de encobrir a paisagem e ela nunca vira isso antes. Seus dedos responderam ao seu comando após muito ela insistir, mesmo com a dor, mesmo com o cansaço querendo levá-la para a inconsciência e ela sentiu a neve em sua pele. Incapaz de seguir o som daquela voz desconhecida, ela buscou pela presença do seu irmão no seu redor dominado por neve e ventania e quando o encontrou surpreendentemente, ela sentiu as lágrimas escorrerem pesadamente em seu rosto cheio de sardas. A brisa e a neblina impediram os seus olhos de enxergarem com clareza o seu irmão, a profundidade de sua distância e o seu estado, mas ela conseguiu ver camadas do garotinho de cabelos cheios, espessos e tão loiros quanto os dela e os seus olhos verdes se encontravam arregalados em horror e medo.
Ele moveu os seus lábios. Ela não escutará.
Ela pediu para ele repetir.
A voz do menino ecoou agonizante na mente dela.
— Riddle, me ajude.
Em algum lugar entre a China e o Japão
Willa acordou espantada, abafando um grito em sua garganta.
O cinto apertou a sua cintura e a sua mão derrubou uma lata de pringles no chão, em um estrondo incomodo aos ouvidos dos passageiros insones. O ar parecia travado nos seus pulmões e a sua cabeça latejava como em uma enxaqueca, ininterrupta onde as palavras daquele garotinho desconhecido repetiam infinita e incomodamente.
Esse era o mal de viajar de avião. Ela sempre acabava com enxaqueca. Ao seu lado, Pietro catou a lata de pringles, abrindo para surrupiar algumas batatinhas para ele. O seu olhar estatelado em Willa era questionador.
— Eu não sabia que você tinha medo de avião. – Ele murmurou comendo uma batatinha e oferecendo para a ninja. Ela negou, caçando um analgésico em sua bolsa.
— Eu não tenho. Na realidade, eu sempre quis ser astronauta. – Ela tirou um comprimido da cartela, nem se preocupando em beber alguma coisa, apenas enfiando a pílula goela abaixo e buscando relaxar na poltrona. — Ter medo de altura seria um pequeno problema, não acha?
— Não foi o que você disse enquanto dormia. – Pietro ponderou devorando mais algumas batatinhas com um semblante divertido para ela.
— Eu não falo enquanto durmo. – Ela grunhiu abafando uma risada, então, notou o olhar contraditório do rapaz e ela ponderou. Como ela saberia se falava ou não? — Ou falo?
— Bom, pode ser coisa de primeira viagem, mas você estava murmurando que odeia aviões, que não consegue dormir quando viaja, o que é meio incoerente já que você estava de fato, dormindo e que você estaria comigo sempre, o que eu acho super legal da sua parte, mas um pouco claustrofóbico... – Ele explicou e Willa uniu as sobrancelhas, pegando uma batatinha da vasilha não lembrando de ter falado sobre nada daquilo. Seria o seu cansaço dificultando a sua consciência de guardar memórias recentes? Isso era bem comum em Workaholics. — E aí de repente, você ficou quieta e eu pensei: ela dormiu e aí você me surpreendeu ao acordar quase despertando metade do voo.
— Nossa, eu não lembro de nada disso, mas eu sonhei; e foi bem estranho.
— Faz sentido, você estava bem inquieta. – Ela o olhou, refletindo. — Quer falar sobre?
— Foi só um sonho estranho. – Ela deu de ombros, arrumando as cobertas nas pernas.
— Defina estranho. – Ele insistiu com um sorriso convidativo.
— Sonhei com o meu irmão, ao menos, parecia com ele. O meu subconsciente estava meio que me dizendo que era ele, mas não parecia em nada com ele.
— Estranho.
— Sim, foi estranho porque faz tanto tempo que não sonho com ele. – Ela afirmou suspirando em aceitação. – Mas só foi um sonho.
— Você só está saudosa, por ter retornado a Casta. – Pietro sugeriu acarinhando a mão dela. – Vai ficar tudo bem, Willow.
— É, eu sei.
Ela não sabia.
— Quer comer alguma coisa? – Ele repousou as mãos nos braços da poltrona, arqueando as sobrancelhas com animação.
— Não, não, eu estou bem. – Ela apontou para o caminho da copa do avião comprimindo um sorriso. — Pode ir lá se divertir.
Pietro concordou e seguiu para surrupiar alguns biscoitos e croassaints.
Willa abriu a divisória da janela, admirando os contornos do Japão vagarosamente conquistando a paisagem.
O que estiver esperando por ela em Tóquio não se compara em nada com o que vive em sua mente.
A sua intuição nunca falhava, havia algo assombrando ela – e não é o seu futuro.
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