Born to Die | Exile

2 Born to Die | Off to the Races


O F F T O T H E R A C E S

Faixa dois

My old man is a bad man/But I can't deny the way he holds my hand/And he grabs me, he has me by my heart/He doesn't mind I have/A Las Vegas past/He doesn't mind I have/A L. A crass way about me/He loves with every beat of his cocaine heart.


Havia algo em Bucky.
Willa não sabia dizer o que era. Ela buscava encontrar essa resposta sentada no banco de couro velho vermelho, mordiscando uma maçã com um olhar discreto sobre a figura incomodada e séria de Barnes. Ele tomava o café da manhã, silenciosamente, a algumas mesas de distância de Fairchild, acompanhado de Steve e ele nem percebia o seu olhar, o que por algum motivo lhe frustrou. Sobre o que eles conversavam? Será que ele lhe contava o que aconteceu na noite passada? Isso deixou Willa um pouco ansiosa, tencionando os músculos dos seus ombros.

Wanda tagarelava em seu ouvido o quanto o café americano era calórico, pesado e estranho. Fairchild concordou com tudo. Percebendo como a amiga estava distraída, Maximoff insistiu no assunto com maior seriedade. Recebendo uma resposta desinteressada, Wanda falou sobre ter percebido a ausência de Willa no quarto ao acordar naquela manhã, até perguntou onde ela havia passado a noite com um tonzinho malicioso, mas a americana apenas grunhiu algo perto de um ‘por aí’.
Então, Wanda resolveu implicar com a californiana, questionando se ela lhe emprestaria sua katana para treinar alguns movimentos irresponsáveis ao vento e recebendo uma confirmação sem titubear. Wanda estranhou, considerou que a amiga estivesse doente, e acabou por seguir o seu olhar, descobrindo o motivo de sua distração. Maximoff não maliciou, mas por algum motivo se sentiu sozinha, um sentimento que ela não experimentava há um tempo — ou seria aquilo saudades?

Willa analisava as suas emoções após a tumultuada noite. Ela sentia um senso de proteção em relação a Steve, mas por Bucky era outra coisa. A sua dor era parecida com a dela? Ela sentia simpatia por ele, por conta de seu sofrimento, quase como uma pena? Ela estava deixando seu coração amolecer por uma causa nobre? Ela estava tomando gosto em ser a ancora de pessoas como ele, como Jessica, como Wanda?

Se fosse isso, ela estaria reforçando o motivo para ter abandonado os preceitos de seu mestre. O seu mestre, o vice líder da organização milenar A Casta, sempre lhe ensinou que sentimentos atrapalhavam o nosso raciocínio e buscou ensinar Fairchild o que ele aprendeu com o seu mestre e líder do clã, Stick. Willa precisava livrar-se das suas emoções, como quem se livra de um livro comido por traças. Isso nunca deu certo para Willa. Parecia errado estar viva e não sentir, nada. Nem compaixão, nem carinho, afeto, empatia, tristeza, raiva, respeito, felicidade, amor. Isso não era uma vida, era ser uma arma, mas esse não era a intenção de Stone o tempo todo? Ela não era mais a pupila de Stone, ela era a sua própria mestre.

Com isso inferido, ela jogou fora o que restou de sua maçã, avisando a Wanda que iria para o quarto tomar um banho e descansar a sua mente um pouco, e partiu sem dizer nada aos homens dos Anos 40 e nem percebendo que agora era ela a observada pelo misterioso amigo de Steve.

O grupo tinha descolado alguns quartos num hotel de estrada, com poucos frequentadores e nenhum contato externo com o mundo. Com uma mercearia próxima não tendo muito mais que comida industrializada, um caixa eletrônico e alguns produtos de higiene pessoal, eles aguardavam a próxima etapa a seguir. Responderiam as agressões verbais de Stark e seu grupo? Tentariam buscar refugio? Buscariam uma forma de deixarem sua mensagem ao povo? Continuariam fugindo e recrutando forças para essa inevitável Guerra Cívil? Seguiriam a pista a uma célula próxima da Hidra dada por Sharon?

Steve não levou a decisão a grupo ainda, então Willa guardaria sua opinião até ser questionada sobre. Por ora, ela só queria tomar um banho quente. Por Deus, ela se sentia esgotada como se tivesse passado a noite inteira brigando e enchendo a cara. Não exatamente nessa ordem.
Os seus músculos doíam, seus ossos pareciam ressecados com suas articulações sempre estalando e latejando e nem vamos falar sobre as suas costas... Com certeza uma massagem cairia bem agora (e sempre, amém!). É, lição aprendida: se ela fosse dormir naquela poltrona dura do quarto do James novamente, seria bom colocar alguns travesseiros, ela pensou abrindo os botões do seu casaco de jeans e semicerrando os olhos para sua imagem no espelho triscado do banheiro pequeno e mofado, julgando seu próprio pensamento.

Ela realmente acabou de pensar nisso? Ela sabia que Bucky estava tendo noites difíceis. Enquanto os outros conseguiam dormir, Bucky revivia memórias do seu passado como James Buchanan Barnes e como Soldado Invernal e não houve uma noite que Willa não tenha acordado com os gritos de horror do Sargento, mas Steve sempre estava lá por ele. Todavia houve uma noite, onde Bucky acordou de um dos seus pesadelos e o seu estresse pós-traumático com pequenas dosagens de ansiedade e síndrome do pânico, acabaram por deixá-lo paranoico. Ele atacou Steve, destruiu parte do quarto e apenas conseguiu se acalmar, após a interferência de Sam e Willa. Sam conseguiu ajudar Steve a conter Bucky e Willa o acalmou, com suas palavras. Esse era um dos prós de ser hábil em ouvir o coração das pessoas, ela sabia exatamente o que elas precisavam ouvir.

Depois desse dia, Bucky mudou completamente de postura com Willa. Uma mudança positiva. Se antes ele mantinha uma postura sisuda, distante, introspectivo e séria de todos, em raros momentos até mesmo com Steve, agora ele conquistara uma curiosa tranquilidade em seus ombros e um olhar discretamente suave quando Fairchild cruzava o seu caminho. Eles não tinham se transformado em melhores amigos só por conta daquela noite. Não ficavam dividindo memórias dos Anos 40 ou conversando sobre a complexidade do mundo moderno há horas a fios. Ao conhecimento de Willa, ela sentia que a relação deles tinha crescido consideravelmente nos últimos dias por ele, simplesmente, permitir a sua existência em seu universo. Ele antes falava com ela apenas duas palavras: sim ou não, isso quando não lhe lançava um olhar vazio com semblante mal humorado e apenas anuía, entretanto agora ele falava umas cinco sentenças e tinha aquele olhar indescritível sobre ela, sabia o seu nome, até revelou ter lembranças com ela e não tinha aquele olhar de dor ao estar perto dela. E às vezes eles se falavam sozinhos. Um grande crescimento para quem normalmente apenas a olhava a distância, como se ela fosse lhe dar um choque com as pontas de seus dedos.

E retornamos para o grande conflito de Willa: o tratamento de Bucky com ela. Ela tirou os coturnos, a calça jeans e abriu a torneira, levando um choquinho causado pela péssima eletricidade ou quem sabe, o destino. Parada na bancada, ela pensou que tudo bem se ele lhe tratasse igual à Wanda, ela entenderia. Eles não se conheciam, no normal leva tempo para se confiar em alguém, ainda mais depois de tudo que ele viveu e estar num novo mundo, ao lado daquelas pessoas estranhas vivendo no meio de uma guerra com heróis e vilões. Se ele tratasse apenas ela diferente, obviamente Willa se sentiria ofendida, mas não seria a primeira vez também. Todavia, a questão aqui era outra: Além de Steve e Sam, Bucky só conversava com ela. Bucky costumava manter-se introspectivo, quieto e isolado do grupo, evitando qualquer contato social, todavia com Willa e Steve ele não se repremia. Ele a ajudava nas pequenas tarefas impostas a ela, como cortar lenha ou preparar o jantar. E agora, ela havia lhe ajudado na noite anterior, com seus pesadelos, O que ela podia entender disso?

Para entender tais conflitos, ela precisava relembrar o gatilho iniciador de tais sentimentos.

Willa era boa de cama. Dormia com facilidade, mas tinha o sono leve. Qualquer barulho e ela despertava, como um bebê manhoso; ela culpava inteiramente a sua audição sensível por ter vivido num lugar tão remoto por tantos anos. Não foi diferente naquela noite. Ela ouviu o que parecia ser um urro de dor. Eles estavam no hotel, não seria a primeira vez que ela ouviria urros e gemidos de prazer, mas sua intuição lhe cutucou no cantinho de sua mente lhe soltando a temível pergunta: E se fosse algo mais?
Com isso, Fairchild deixou a cama com movimentos leves, não desejando despertar Wanda, que dormia virada para o canto, dormindo profundamente. Pensando na delicadeza da situação, dormir confortável não estava no seu top de necessidades. Jeans e uma camiseta de regata eram as suas roupas, calçou os coturnos e colocou a camisa preta de manga comprida, deixando o quarto com o seu par de adagas escondidos nos bolsos do seu casaco. O corredor era idêntico ao do filme iluminado e ela estava pronta para tacar a adaga na cabeça das gêmeas, por sorte dela e delas, não havia ninguém ali. Era apenas ela, a luz vacilante e a máquina de gelo barulhento. Seus olhos analisaram cada extremo do corredor, recordando onde os seus amigos estavam dormindo. O silêncio era a sua companhia. Então, ela teve um clique. O urro veio do quarto ao lado do seu, o quarto onde Bucky dormia sozinho.

Willa respirou fundo. Ela sabia que aquilo não era uma boa ideia, tinha até comentado com Sam que achava que Bucky não devia ficar sozinho. Ela odiava ser a do contra, um papel interpretado por ela com regularidade, todavia ela tinha razão e entendia de pesadelos. Ela tinha se tornado afeiçoada por eles há quase três anos e eles lhe abandonavam por pequenos períodos e quando retornavam, eram uma tortura. Por esse detalhe, ela sabia que sobreviver a eles sozinha, era inumano. Bucky tinha amigos ali e esse era o momento ao qual ele mais precisava de cada um deles, com suas peculiaridades e distinções. Bucky não precisava de perdão. Ele não precisava que alguém lhe dissesse que tudo ficaria bem no final do dia, com a promessa que voltaria a ser quem era à quarenta anos atrás e seguir o caminho ao qual fora destinado. Não, não seria tão fácil assim. Ele precisava de alguém para lembrá-lo quem ele era antes de ser o soldado invernal, para saber quem ele seria. Não parecia ser tão difícil de compreender a ideia, na prática não era bem assim que funcionava.

Não seria mais fácil para todo mundo se eles simplesmente me ouvissem? Willa pensou revirando os olhos com uma discreta impaciência.

Fairchild olhou para a porta com os braços cruzados, como quem encara uma estatua do império romano e tenta entender o que passava na cabeça do escultor ao criar aquilo que era, por algum motivo, chamado de obra de arte. O quarto de Bucky estava tão silencioso quanto o corredor. Se não fosse pelo som metálico instável do ventilador, qualquer um desconfiaria que o quarto estivesse disponível. Sua intuição ainda lhe cutucava perversamente. Ela podia dar as costas e ir para o seu quarto, como podia dar três passos a esquerda e bater na porta de Steve, avisando a ele que seu amigo estava precisando de ajuda. Se ela fosse Steve, gostaria de saber que o seu recém-encontrado melhor amigo precisava de seu apoio, num momento delicado. Todavia, ela estava ali, então o que lhe custava ao menos tentar? Não fazia muito tempo que no meio do seu caos, alguém lhe estendeu a mão. O cosmo deveria estar lhe entregando uma oportunidade de retribuir tal gesto e ela não era de olhar para o outro lado quando o destino chamava pela sua atenção.

— James, sou eu, Willa. – Ela não bateu na porta. Não queria assustá-lo, muito menos ser recepcionada com uma adaga voando no meio da sua cara. A suavidade e naturalidade em sua voz foi mantida, mas seus braços estavam tensos cruzados em seu corpo, protetoramente. – Podemos conversar?

O silêncio respondeu. Willa respirou fundo, unindo as sobrancelhas, pensou em chamá-lo novamente, mas não desejava parecer uma intrometida e desrespeitosa. Moveu os pés em poucos centímetros para ir ao seu quarto, mas ela ouviu o estalar da tranca sendo liberada e a porta foi aberta. Ninguém lhe recebeu, mas ela compreendeu o convite.

Quando Willa entrou no quarto, encontrou Bucky voltando para a cama, onde sentou na beirada, tenso, frustrado e cansado, passando a sua mão no rosto e Willa não sabia dizer se ele estava tentando acordar, não permitir que ela visse seus olhos ou despertar do pesadelo. Fairchild lhe deu alguns segundo, trancando a porta. Caminhou sem pressa pelo quarto, até se sentar ao seu lado. Ela o olhou, discretamente, reparando nos seus pés descalços, os dedos levemente contorcidos, a calça de moletom preta parecia antiga e a sua regata cinza valorizava o seu torso bem malhado, destacando principalmente o seu braço metálico. Ele fungou o nariz, inclinando o seu rosto para distante dos olhos de Fairchild. Inconscientemente Willa segurou a sua mão num toque gentil e Bucky retraiu seus dedos, escapando-os do seu toque. Fairchild não lutou contra isso, mas encolheu seus ombros, e ele respirou fundo, acabando por manter suas mãos unidas num toque frouxo e incerto.

— Eu não quero conversar.

— Se não quiser não precisa. – O silêncio incomodou Willa. Ela mexeu os ombros com um leve desconforto, entortando os lábios. — Sabe o que funciona para mim, quando tenho pesadelos? – Ela afrouxou o seu toque, permitindo que ele se sentisse livre para cortar o contato, caso quisesse que ela simplesmente calasse a maldita boca.

— Além de ouvir música? – Ele lembrou não demonstrando muita emoção e Willa mostrou uma delicada surpresa por ele se lembrar da sua fascinação por música e apontou o indicador a ele, assentindo.

— Pensar em coisas que me fazem bem. – Bucky não reagiu bem a isso. Ele largou a sua mão para passar na sua nuca, apertando como se buscasse aliviar sua tensão. É claro, o que ela podia esperar? Ela tinha ideia das coisas que ele viveu, do que ele fez, do que ele viu e como sua mente foi desconstruída ao ponto dele não saber mais quem ele foi e quem ele era? E ela diz para ele pensar em algo bom? – Desculpa. Eu me esqueço que... é difícil. Dependendo do pesadelo é difícil conseguir pensar em algo bom, é difícil até querer continuar aqui. – Ela respirou fundo, passando as mãos na coxa e levantando. — Eu tento pensar em algo que eu ao menos, gosto. – Ela tentou explicar como aquilo funcionava. — Tipo, skittles. – A enorme interrogação se formando no rosto de Bucky despertou Willa a um importante detalhe: ele não tinha a menor ideia do que ela estava falando. — É uma balinha de vários sabores; as crianças comem muito. Eu costumo sempre ter um pacote comigo.

— Eu não sei do que gosto. – Ele sussurrou e Willa não se atreveu o olhar. Ela conhecia esse sentimento. — Não sei nem como apreciar a vida. Parece tão errado depois de...

— Não é. – Ela o interrompeu, antes que ele conseguisse completar aquele raciocínio. Todavia isso não a impediu de pensar nas suas próprias lembranças. — No entanto, eu costumava pensar assim. Eu costumava a agir assim também.

— E pensar em... Skittles te ajudou? – Havia algo nas palavras de Bucky que fizeram Willa sorrir.

— Minha prima me ajudou. – Ela contou com um sorriso saudoso com aquela lembrança brincando em sua mente e Bucky lhe olhava atento ao seu relato. — Nas noites mais difíceis ela estava lá. Eu ligava para ela e às vezes ela adivinhava, como se ela tivesse um clique para quando eu precisaria de companhia. Algumas noites ela ia acompanhada de uma garrafa de tequila e lhe garanto, não melhorava muito.

— E o que vocês faziam? – A ruguinha na testa de Barnes fez Willa admirá-lo um pouquinho, dobrando suas pernas comodamente sobre a cama.

— Bebíamos. Bebíamos muito. – Essa revelação fez o que parecia um sorriso aparecer no canto dos lábios de Bucky e a californiana riu com as muitas ressacas vividas com Jessica Jones. — Conversávamos. – Algo não muito comum entre ela e Jessica. Na realidade, elas tinham o que Willa chamava de acordo natural e mutuo: elas não falavam de sentimentos, pois estava tudo nas entrelinhas. Quando elas estavam mal, apaixonadas, ferradas, era tão claro quanto os raios de sol em pleno verão. — Quando eu queria falar dos meus pesadelos, ela me ouvia. Quando eu precisava de conselhos, nós bebíamos. Quando eu não queria nada além de silêncio, apenas ficávamos no meu terraço, assistindo a cidade e comendo Skittles com tequila.

— Eu achava que você fazia isso pelo Steve. – Bucky balbuciou olhando-a intensamente, com uma leve confusão em seu semblante.

Isso, você quer dizer...

— Eles têm medo de mim. – Bucky grunhiu as palavras. — Todos eles olham para mim como se eu fosse uma bomba relógio. – Willa não esperava, em nenhum instante do desenrolar daquela conversa que estaria ali, ouvindo tal revelação emocional de Barnes.Ela nunca imaginou que ele se importava com a opinião daquelas pessoas, com a sua opinião. — Eu percebo quando eles desviam o olhar de mim, com medo de terem de lidar comigo ou quando cochicham entre si que sou um caso perdido e um erro, — Willa era observadora e isso não era surpresa a ela. Na realidade, ela ouviu um comentário julgador sobre Bucky de Wanda há poucos dias e engoliu para não criar uma indisposição com a amiga, mas ela não ousava imaginar como deveria ser estar na pele do sargento. — Acham que Steve cometeu um erro ao ficar contra o governo por causa de mim e eu não discordo deles.

— Deveria. – Willa argumentou, firme.

— Por que, quando está tão claro que os dedos estão apontados em mim? – Ele rebateu, olhando-a com dureza e aquelas palavras corroendo com acidez e frieza.

— O mundo, nosso mundo estava fodido bem antes de você aparecer. – Ele se culpava. Willa não estava comovida por isso, ela esperava por isso. Estranho seria se ele não sentisse empatia por absolutamente nada. Aquela postura mostrava que ele não apenas se importava, como ele buscava um futuro ali. Ele não sabia. Ele não tinha a menor noção. 2016 não tinham absolutamente nada em comum com 1945. O que era um problema naquela época era a solução nessa e os maiores problemas eram tão grandes que as soluções eram indistintas de conhecimento. Ele mal sabia que como Steve, ele nunca se sentiria tão deslocado de seu mundo, mas também, ela contava que em algum momento não tão distante, ele se sentiria sortudo. Quantas pessoas tem a sorte de dizer que voltaram a vida a algumas décadas após sua morte, tendo a oportunidade única de viver no mundo moderno? Não muitas. – Aqueles que dizem serem os nossos líderes só precisavam de um gatilho e eles consideraram você a escolha perfeita para acionar essa bomba. Eles nos consideraram a bomba. Eles precisavam de um bode expiatório e o mundo precisava de um motivo para apontarem seus dedos e guerrilharem entre si entre o que eles acham certo e o que acham errado.

“Eles acham que depois de você, depois dessa guerra por conta de Sokovia e a briga em Washington eles têm as explicações às quais buscavam sobre tudo que estamos vivendo: aliens, hidra, espiões, pessoas sumindo, vigilantes, guerras de máfias, ninjas, pessoas com dons extraordinários... Eles não sabem de merda nenhuma. Esses babacas moralistas acham que isso tudo começou depois que o céu foi rasgado por uma nave alienígena em 2012, mas isso aconteceu bem antes da primeira guerra e você é prova de parte disso.”

Willa ficou calada. Por alguns segundos, o olhar de Bucky sobre si lhe desconcertou. Ela não soube interpretá-lo: parecia fascinado pelo seu rompante. Talvez confuso e assustado. Um pouco de tudo. O ponto era que Willa não estava acostumada a dar sua opinião tão abertamente e fazer isso com tamanha naturalidade e desenvoltura lhe fez questionar o tão confortável ela se sentia com Bucky.

— O que eu estou tentando dizer é que agora, se você quer colocar o peso disso sobre os seus ombros também, a escolha é sua. – Ela retomou, percebendo Bucky desprender seus olhos dela por meros segundos, ganhando um ar pensativo. — Mas se eu tenho a liberdade de opinar: você não tem nada haver com a burrice dentre os homens. – Isso pareceu agir em Bucky como um tonico. Ele ergueu os ombros e segurou as próprias mãos, deferindo um olhar cuidadoso sobre Willa. — Eu tinha medo de você também.

— O que você está fazendo aqui então? – Talvez esse não tenha sido o melhor timing de Willa para ser sincera. Bucky perdeu a recém-conquistada segurança e esperança num estalar dos dedos e o quarto foi tomado por uma tensão palpável. O olhar confuso de Barnes de algum modo fez Willa sentir seus ombros pesarem em algo semelhante a desconforto e culpa.

— Tortura? – Willa tentou aliviar a tensão com sarcasmo, mas Barnes apenas semicerrou os olhos e por um segundo ela acreditou que ele fosse deixar o quarto ou jogá-la janela a fora. — Isso foi antes, James. – Willa olhou para os seus pés sobre a cama, brincando com o couro descascado e bufou, tirando os pés dali, sentindo-se mal por estar com aquela imundice sobre a cama dele. — Antes de saber quem você era, o que você passou e quem criou o Soldado Invernal. – Ela parecia falar de um segredo. Um segredo tão intimo que apenas deveria pertencer a eles. Sua voz se tornou um sussurro aveludado e os seus olhos azuis perolados encontraram lentamente e timidamente o semblante sério e analisador de Bucky. Era quase como se ela temesse o que fosse encontrar no seu olhar acinzentado.

— E saber, muda você ter medo de mim? – Willa tinha visto Bucky vulnerável, sem controle de suas ações, com medo, furioso e particularmente confuso, principalmente quando estava em contato com tecnologia, ela aprendeu que Bucky e o micro-ondas não funcionavam bem juntos. Todavia, ela nunca o vira assim antes e o jeito como aquilo lhe comovia era desconcertante.

— Muda. – Ela sussurrou aquela revelação com calma e reflexiva. — Eu temia o homem imbatível e desconhecido que quase me matou em Washington. O homem aqui ao meu lado não é ele.

— Não, não muda nada. – Ele não foi nem um pouco neutro. Ele grunhiu, levantando da cama e dominado por frustração ele caminhou pesado até a janela, apoiando as mãos pesadamente no patamar. Deixá-lo com raiva não parecia uma boa ideia. Ele podia entrar em modo Soldado Invernal e a última coisa que Willa desejava era ter que contê-lo. Então, ela se deu conta que era exatamente isso que todos pensavam quando estavam perto dele: ninguém queria se responsabilizar por isso, por ele. — Eu ainda posso ouvir ele, os comandos dados a ele, as conversas daqueles cientistas, o treinamento, os instantes antes do congelamento, eu ainda me lembro de como eu quase quebrei o seu pescoço...

— Que bom que eu tenho pernas longas. – Willa levantou da cama, confirmando a sua afirmação com leveza. Na realidade, o que impediu do Soldado Invernal de quebrar seu pescoço foi sorte. Ela não sabia muito bem até hoje o que havia acontecido. Seu golpe nas costelas o distraiu e por isso seus dedos afrouxaram de seu pescoço? O que ela sabe é que assim que seu corpo desabou ao chão, ela não deu tempo dele repensar seu ato, acertou um soco em sua pélvis, lhe deu uma rasteira e saiu de sua vista, usando toda a sua agilidade conquistadas com anos de treinamento.

— Eu estou falando sério. – Ele quebrou a leveza de Willa com a dureza em seu olhar. — Eu sou perigoso, Willa.

— Eu também. – Ele queria a verdade? Ele queria a dureza da realidade? Ele teria. Ela cortou o espaço entre eles. Ao seu lado, ela olhou em seus olhos, firme em sua postura e sincera em suas palavras. — Você não é aquele homem.

— Nós somos o mesmo homem. – Ele bateu a mão sobre o coração e Willa pode ter sobressaltado pela agressividade em seu gesto. Então ela parou, o olhou com a cabeça levemente inclinada e enrugou o cenho com um sorriso delicado pelo equivoco causado por ele.

— Não, não são.

— Como você pode ter certeza disso? – Ele virou o seu corpo, agora encarando a frente a frente e Willa não perdeu o seu sorriso, como Bucky não perdeu sua postura irritada, agora um pouquinho dominado por frustração. — Você não o conhece, não me conhece, não sabe o que vive aqui. – Bucky apontou para a cabeça com um olhar tempestuoso sobre Willa. Para a sua sorte, ela amava tempestades.

— Mas sei o que vive aqui. – Ela tocou com a palma de sua mão sobre o coração dele e Bucky olhou aquele gesto com incredulidade. A delicadeza em suas palavras e gesto mexeu com suas emoções e ele estava buscando administrar aqueles sentimentos. A lua cheia era testemunha desse momento. Enquanto isso, Willa cortou o espaço entre eles e fechou os olhos, respirando levemente e entregando-se a concentração e despertando em si o conhecimento intimo dos seus dons provenientes de seu treinamento com Stone, no clã da Casta. – O soldado invernal não ouvia a voz do seu coração, ele nem sabia que podia sentir, mesmo com o seu coração buscando quebrar as barreiras construídas entre ele e sua mente. Mas o homem aqui a minha frente, ele escuta cada palavra vinda do seu coração e ele... Sente, sente muito. – Ela enrugou o cenho, sentindo-se levemente enjoada. Um nó formou em sua garganta e ela suspirando ao sentir aquelas emoções preencherem rapidamente a sua consciência.

— C-como você sabe disso? – A voz de Bucky, rouca e pesada por ter acordado recentemente pareceu tão distante aos ouvidos de Willa.

— Pela mesma razão que eu sei que você se sente extremamente confortável e seguro na minha companhia, mesmo que eu tenha uma dificuldade para entender o seu por que. – Ela não abriu os olhos, afastando a sua mão do peito de Bucky e entrelaçou as próprias mãos, entregue ao seu foco intimo a Bucky. — E agora você está levemente desconfiado e suas emoções estão um pouco conflituosas. Eu também sei que a última vez que você comeu foi no lanche, pois o seu bafo é de café, bolo e pasta dental e você tomou banho, o cheiro do sabonete do hotel está bem forte em sua pele. Não é desagradável, mas é questionável. – Ela abriu os olhos, encontrando Bucky lhe encarando completamente sem reação. Ela sorriu erguendo levemente as sobrancelhas, em admiração. Essa era a primeira vez que ela lhe causava esse sentimento e ela quis prová-lo por alguns segundos. Tal postura foi impulsiva, mas necessária. De duas ou uma: ou ele a afastaria por conhecer um pouquinho a fundo as suas habilidades ou ele a entenderia e quem sabe, ele abriria um caminho de mão dupla, onde ele a deixaria, em algum momento entendê-lo também.

E antes que Bucky pudesse dizer qualquer coisa e por demonstrar uma postura prestes a contê-la ali, Willa escapou de sua presença com passos inaudíveis e ágeis, uma mistura interessante para tal ação abrupta, seguindo diretamente para a saída.

Você...

— Nem todos os monstros fazem monstruosidades, James. – Willa olhou por sobre o ombro, sem perder a tranquilidade e o conforto por trás daquele seu discreto sorriso. — Agora durma. – Ela aconselhou com delicadeza. — Quem sabe da próxima vez, eu traga tequila.

Fica? Eu posso... – A mão de Willa travou na maçaneta e não apenas seus dedos, como todo seu corpo. Por outro lado, seu semblante era uma condensação de duas emoções: sono e ‘Espera, o que?’— Eu fico na cadeira, mas...

— Calado. – Ela afastou a mão da maçaneta, abanando em negação para Bucky, entretanto ela não o olhou, por algum motivo, seus olhos não permitiram tal coisa, mesmo que a luz da lua sobre a figura soturna de Barnes era convidativa para ser admirada. — Deita. – Ela surrupiou o lençol extra e agora o olhou, com uma leve desenvoltura, apontando para ele ficar a vontade na cama. — Eu me acomodo bem em qualquer lugar. – Bucky não tinha movido o pé do lugar, seu semblante neutro (não neutro Soldado Invernal pronto para lhe matar só por você existir) analisava Willa com evidente preocupação e questionamento, — Sério. É só uma noite numa cadeira: eu vou sobreviver.— E com isso, Willa foi surpreendida com algo que ela podia ser, algo semelhante a um sorriso crescer discretamente no canto dos lábios de Bucky. É...

Nós vamos sobreviver.

Notas finais
Willa e o seu passado chegou com tudo. Referências e mais referências nesse novo capítulo. Hmm, será que você captou todas elas? E sobre Bucky, o que você acha? Willa tomou uma atitude precipitada ou ela acertou em cheio com o Sargento? Tem alguém shippando Wicky (Willa + Bucky)? Só para contextualização: A história acontece DURANTE a Guerra Civil, com arcos desenvolvidos na versão cinematográfica como nos quadrinhos. Sim, se preparem para a chuva de feels por aqui! Oh, e vai rolar alguns FLASHBACKS durante a história para apresentar ao público o passado da nossa Willa. Não esqueçam dos seus comentários! Muito obrigada pela seu tempo, seu carinho e a sua leitura ♥