Born to Die
7 Capítulo 6 - Amargo jantar
Notas iniciais
Capítulo 6 – Amargo jantar
Liliana passou o resto do dia a dormir e no dia seguinte Kol tinha aparecido com o seu chocolate quente habitual e disse-lhe que não podia sair do quarto porque a casa toda estava iluminada e vampiros estavam impedidos de apanhar sol, porque queimavam. Como opção, Kol entregou-lhe um dos livros de Teresa, Sonhos Proibidos, um livro enorme, de seiscentas páginas e Liliana ficou entretida o dia todo.
Quando o final da tarde chegou, Liliana não queria largar o livro de tão bom que estava a ser, mas decidiu que estava na hora de outro chocolate quente com sangue humano e marcou a página em que estava, levantando-se do seu cadeirão azul-escuro de veludo.
Saiu do quarto e desceu as escadas, pensando que a cozinha seria no andar inferior, como era costume. Na sala, de frente para a lareira que estava ainda a arder com fervor, Kol estava sentado numa poltrona branca, com Teresa ao seu colo, enrolada num cobertor. Ambos estavam a dormir, mas Liliana notou que o cabelo de Teresa não tinha sido penteado e cheirava a cloro. Na verdade, os dois cheiravam a cloro. Era uma situação deveras estranha, mas vendo os rostos tão cansados, decidiu não os incomodar.
Andou de porta em porta pelo piso, até que encontrou a cozinha, finamente apetrechada. Não foi difícil encontrar os ingredientes para o seu jantar. No frigorífico, encontrou um pacote de ravioli por fazer e mordeu o lábio, indecisa. Queria muito um chocolate quente, mas os ravioli estavam a sorrir para ela. Pegou neles num instante, pegou numa panela e colocou a água a ferver.
Para Liliana, que ainda se estava a acostumar á sua nova perceção de tempo, a água pareceu demorar anos a ferver, mas quando isso finalmente aconteceu, atirou todos os ravioli lá para dentro. Procurou por mais algumas coisas no frigorífico e retirou um iogurte grego, queijo cheddar e leite. Os sabores não iriam combinar inteiramente, mas Liliana não queria saber. O seu estômago pedia por algo reconfortante.
Aqueceu o leite no micro-ondas e enquanto ele aquecia, ralou o queijo cheddar. Quando o micro-ondas soou, misturou o chocolate em pó e o cheiro foi maravilhoso. O seu olfato estava muito mais apurado. Retirou os ravioli e colocou-os num prato. Colocou o queijo ralado por cima e uma colher gigante de iogurte grego ao lado dos ravioli. Sentou-se em cima da bancada da cozinha, com um garfo numa mão e o prato na outra. Começou a degustar a sua pequena iguaria.
Não era apenas o olfato que estava mais apurado, o seu paladar também. E este dizia-lhe que tudo combinava na perfeição. Talvez um dia tivesse paciência para personalizar os seus próprios ravioli. O leite ficou morno, então colocou-o mais um pouco no micro-ondas e foi logo de seguida procurar as natas e batê-las fervorosamente.
Lavou o prato, a panela e o garfo até o micro-ondas voltar a soar. Colocou as natas por cima e encontrou o chocolate na despensa. Ralou-o com desejo para cima das natas batidas e levou a caneca e uma colher para o seu quarto, a fim de saborear aquela iguaria quente.
Descobriu que no seu quarto havia uma coleção de CDs e uma aparelhagem. Só havia músicas clássicas, e Liliana colocou Bach em volume baixo. Ouviu Klaus chegar e pouco depois a ir em direção ao seu quarto.
–Tenho um presente. Isto é para ti. Para andares à luz do sol – disse ele, entregando-lhe o anel com a pequena pedra lápis-lazúli.
Liliana levantou-se da cama e caminhou até Klaus.
– É lindo – murmurou a loira, observando a joia. – Obrigada, Klaus.
Colocou o anel no seu dedo anelar e caminhou até á janela, onde as cortinas estavam fechadas. Abriu-as e tudo o que viu foram os últimos raios de sol.
– Agora vou poder caminhar lá fora! – exclamou Liliana, entusiasmada, sorrindo triunfante para o crepúsculo.
–Vou ver como a Teresa está – informou ele. – Aproveita o sol.
Liliana sentiu uma gargalhada começar a borbulhar na sua garganta, mas reprimiu-a. Ainda não sabia se podia confiar totalmente em Klaus – certo, ele tinha-a feito esquecer-se dele quando era humana, para segurança de Teresa, mas de qualquer forma, se alguém estava tão habituado a fingir que tais coisas, também estava acostumado a esconder os seus maiores segredos.
Kol entrou no seu quarto, sorrindo.
–Ouvi dizer que tens uma nova joia.
–Sim – Liliana mostrou-lhe o anel, que permanecia no seu dedo anelar. – É ótimo! Amanhã posso ir apanhar sol! Posso ir à piscina, posso dormir a cesta na espreguiçadeira.. – suspirou alto, abraçando o Original com força.
Kol foi surpreendido com o gesto tão inesperado da jovem vampira, mas retribuiu abraço, notando que o seu cabelo cheirava a camomila. Sem pensar muito no gesto, acariciou o cabelo loiro e sedoso. Liliana não se mexeu, mas mordeu o lábio inferior, nervosa.
O que estava a acontecer ali? Seria demasiado entusiamo? Liliana sentia-se confusa. Desde que tinha virado vampira, as suas emoções estavam mais intensas, tinha notado nesse pormenor. Tinha mais fome, como aquele impulso que teve de fazer o jantar.
–Klaus! Klaus, para! – Liliana ouviu Teresa, com a sua audição apurada. Era como se estivesse a chorar. – Klaus, estás a magoar-me!
Liliana afastou-se para o fitar atentamente. Ela sabia que o Original também tinha ouvido o apelo da amiga. Viu os olhos de Kol escurecerem e uma chama de ira crescer no seu olhar.
Kol saiu do quarto na sua velocidade sobrenatural, e abriu a porta do quarto de Teresa.
–NÃO! – gritou ele, tirando o corpo de Klaus de cima de Teresa.
– Oh, Céus – murmurou Liliana, entrando no quarto de rompante e vendo a sua melhor amiga quase sem vida em cima da cama.
– Kol – avisou Klaus. – Larga-me.
– Não! – voltou Kol a gritar e com isso conseguiu partir o pescoço do irmão, deixando-o inconsciente.
Liliana parou a centímetros do corpo de Teresa, vendo a mordida ainda a deitar sangue. O cheiro era demasiado tentador, afinal, o seu jantar não tinha incluído a bebida cheia de vida.
– Kol… eu não posso.
– Liliana, sai daqui – mandou o Original, sentando-se na cama e erguendo o corpo de Teresa pela nuca. Mordeu o seu pulso e levou-o à boca da humana.
Teresa bebeu, sem pensar duas vezes. Era a segunda vez que estava à beira da morte em menos de 24 horas e tinha a certeza de que não queria morrer.
Liliana permaneceu, olhando para o corpo de Klaus, sem saber o que fazer.
Kol fez um carinho nos cabelos de Teresa e pousou o seu queixo no alto da cabeça da humana.
– Liliana, telefona a Rebekah e Elijah, os meus irmãos. Eles precisam de vir urgentemente – disse ele, dando-lhe o telemóvel com a mão livre.
Liliana pegou no telemóvel com mãos trémulas e procurou na lista de contactos os nomes que Kol lhe tinha dado. O primeiro nome que apareceu foi Elijah. Clicou na tecla verde e a chamada começou.
Enquanto isso acontecia, Teresa tinha colocado as suas mãos no braço de Kol, aproximando o pulso da sua boca.
– Teresa, está na hora de me largares – murmurou Kol, começando a afastar o pulso dos lábios de Teresa.
Teresa parou de beber e olhou para Kol sonolenta.
– Agora dorme. Em breve venho acordar-te e explico-te tudo – Kol hipnotizou-a e ela assentiu, aconchegando-se dentro dos lençóis e colocando a sua cabeça numa almofada.
– Elijah, Kol pede para voltar para Portugal imediatamente – disse Liliana e Kol tomou-lhe o telemóvel das mãos.
– Irmão, Klaus está descontrolado. Muitas coisas têm acontecido, mas tudo me leva a crer que ele desligou as suas emoções.
– O que o levou a fazer isso? – perguntou Elijah, indignado. – E quem era a pessoa que me telefonou?
– Uma das partes do “muitas coisas têm acontecido”. Vou telefonar agora a Rebekah, mas preciso de ti agora. Não o consigo deter sozinho por muito tempo.
– Vou já mandar prepararem o jato – disse Elijah. – Até breve, irmão.
– Até breve, Elijah – Kol desligou e telefonou logo a Rebekah.
– Kol! Já pensava que nunca mais me voltarias a telefonar! Não queres vir cá passar uns dias ao Rio de Janeiro? A minha anfitriã é uma delícia.
– Rebekah, tenho um problema em mãos. Preciso que venhas para aqui imediatamente.
– O que aconteceu? – o tom divertido de Rebekah tinha desaparecido por completo.
– Klaus desligou as suas emoções.
– Isso quer dizer que Teresa…
– Ele acabou de a atacar.
O silêncio durou apenas uma milésima de segundo.
– Estou a ir já para aí. Em sete horas estou aí, irmão. Tenta segurá-lo o máximo de tempo que puderes.
– É isso que vou tentar fazer, Bekah – desligou o telemóvel e virou-se para Liliana. – Temos que o levar para a cave.
– Vocês têm uma cave nesta casa enorme?
Kol pegou nos braços do irmão, sabendo que se Liliana se aproximasse muito do rosto de Klaus, ele seria capaz de a morder e para isso não haveria remédio, já que uma mordida de um lobisomem (e Klaus era híbrido – meio vampiro e meio lobisomem) é mortal para um vampiro.
– Vá, ajuda-me!
Liliana pegou relutantemente os pés de Klaus e ambos desceram as escadas com um Klaus desacordado a balançar desengonçadamente.
– O que lhe vais fazer?
– Por agora vou acorrentá-lo e drená-lo para o tornar fraco.
Liliana abriu a porta da cave e percorreram vários metros até chegarem a uma divisão que tinha uma porta reforçada a aço com uma janelinha que tinha grades verticais. Não havia qualquer iluminação naquela divisão porque já era de noite, mas de dia podia-se abrir uma pequena janela que estava bem perto do teto.
– E qual é o processo a seguir? – perguntou Liliana, ajudando Kol a colocar o corpo de Klaus na cadeira com aço reforçado.
– Torturá-lo – Kol pegou nas correntes e deu várias voltas ao corpo de Klaus. Liliana prendeu os tornozelos e os pulsos de Klaus com rapidez, com medo do híbrido acordar e fugir. – Torturá-lo tanto que ele será obrigado a sentir-se com raiva.
– O primeiro sentimento que irá despertar nele – concluiu Liliana.
– E com isso virá o arrependimento.
– E o amor – completou ela, olhando para o trabalho que ambos tinham feito.
– Mas por agora vamos deixá-lo sozinho – disse Kol e saíram os dois da cave.
– O que vai acontecer a Teresa?
– Desde que ela não morra, não haverá problema algum.
Liliana acenou, ainda um pouco chocada com tudo o que tinha acabado de acontecer.
– Os meus irmãos chegam dentro de um dia. Até lá, temos que distrair os híbridos dele que tentarão de tudo para o livrar da tortura – informou Kol, subindo as escadas que davam para o primeiro andar.
Liliana sorriu matreira e ele parou a meio da subida.
– Que ideia estás a ter? – Kol semicerrou os olhos e sorriu de lado.
– Ninguém resiste a uma vampira a apanhar sol lá fora.
©AnaTheresaC
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