Born to Die
57 Primeiro passo
Notas iniciais
*Narrado por Gabriela Hopper
Passamos metade da noite discutindo sobre a tal guerra que eles pretendiam iniciar. Jesus dizia que estava na hora, as três comunidades não poderiam passar mais tempo submissas e começavam a se unir. Ele também explicou que a função deles nisso tudo era nos manter um passo à frente do inimigo, já que Negan parecia visivelmente superior, tanto no armamento quanto no preparo.
Também conversamos sobre os pontos fracos dos dois lados e o que precisávamos fazer para derrotar os Salvadores. Quanto mais eu ouvia aquilo, tinha uma sensação maior de que essa guerra estava muito próxima, e sabia que ela era inevitável.
Eu só conseguia pensar que deveria manter a minha família segura. Avery estava do lado de fora, desprotegida, sem saber de nada. Antes eu pensava que ela estaria segura dentro dos limites da base, mas talvez ela estivesse melhor do que todos nós. Mesmo assim, eu não conseguia deixar de me preocupar com a possibilidade de ela ser capturada ou algo do tipo.
– O que está te preocupando? – Daryl perguntou sentando ao meu lado. Ele me conhecia o suficiente para saber que eu estava preocupada.
– É a Avery – respondi, logo em seguida perdendo toda a tranquilidade. – Ela está sozinha lá fora, nem sabemos onde ela está! Eles podem capturar ela, os meninos podem se perder, eles podem se separar ou encontrar errantes... Ela está longe de mim!
– Confie um pouco na sua filha. Ela já está grande, sabe se virar sozinha, sabe se defender – Daryl colocou a mão no meu ombro. Eu compreendia o que ele queria dizer. Mesmo não querendo admitir isso, minha filha já era uma adulta e, desde os 12 anos, já sabia se cuidar. – Se não confia no Carl, pelo menos confie no Scott. O pobre coitado deve estar aguentando os dois de pegando pelos cantos...
– Como você pode dizer isso? – disse me irritando um pouco. – Eu já estou preocupada, e você fica fazendo gracinhas?
– Onde você foi arranjar uma mulher tão careta assim? – Malcom brincou para tentar descontrair, e só então me lembrei que não estávamos sozinhos.
– Eu não encontrei, ela veio até mim. Não tenho culpa de nada – Daryl deu de ombros.
– Podemos parar de falar sobre isso? – falei mais irritada do que antes.
– Então falaremos sobre o quê? Não vamos ficar aqui parados esperando o Jesus voltar de sabe-se lá onde – Rose disse.
– Por que o chama de Jesus? – perguntei de súbito.
– Já olhou bem para ele? Parece o próprio Jesus Cristo! – Malcom falou. – “Ele irá nos guiar até o Paraíso” – ele ironizou como se repetisse as falas de um padre ou pastor. – Acho que ele deveria ser o líder do Alto do Morro, mas Jesus parece estar satisfeito sendo “embaixador”.
– Achei que você estava brincando sobre essa coisa de nos guiar – Rose comentou. – Mas Jesus já é o líder, mesmo que as pessoas não saibam. Gregory não é nada além de um covarde, parece até que ele está satisfeito com a submissão.
– Desculpem a demora – Jesus falou ao entrar e encerrando a nossa conversa. – Tive que olhar o muro para conferir se o Kal estava dormindo, ele costuma fazer isso às vezes. Vocês precisam voltar para o Santuário. Gabriela, você poderia me acompanhar até o Reino?
– Reino? A outra comunidade? – perguntei me sentindo como se estivesse na faculdade e voltasse depois de faltar às aulas e perdido toda a matéria.
– Exatamente. Tenho uma reunião marcada com Ezekiel, e é bom que você fique por dentro dos assuntos. Mas é importante que ninguém saiba dessa reunião, muito menos dos nossos encontros. O futuro da missão depende desse segredo.
Engoli em seco e me limitei a balançar a cabeça positivamente. Guardar esse segredo seria uma tarefa muito difícil, principalmente quando era algo de tamanha importância. O peso da missão parecia ter caído sobre as minhas costas, e eu poderia soltá-lo a qualquer momento. Seria difícil esconder isso, fingir que Daryl ainda era um inimigo. Sam ainda pensava que o pai estava morto, e eu precisava fazê-lo acreditar nisso, acreditar em uma mentira. Contudo, seu futuro dependia daquela omissão.
– Vou te ver novamente? – perguntei me aproximando de Daryl, num tom mais desesperado e infantil do que eu queria. Não poderia ficar longe dele por mais tempo, não depois de tudo que acontecera.
– A minha felicidade depende disso. Mas a missão depende da nossa cautela – ele uniu nossos lábios em um beijo rápido e depois continuou. – Tenho que ir.
O trio se retirou, me deixando sozinha com Jesus naquela sala por pouco tempo. Ele esperou que eles se afastassem para abrir a porta para que fôssemos em direção ao local onde sua moto estava estacionada. Olhei para o veículo por alguns instantes antes de emitir um suspiro de derrotismo.
– O que foi? – ele perguntou se sentando nela.
– Odeio motos.
– Não foi o que me pareceu quando estávamos vindo pra cá – andei até ele e me sentei atrás.
– É diferente – falei antes que a moto começasse a andar. Ir com Daryl era uma coisa, sem ele era completamente diferente. – Esse Reino fica muito longe?
– A alguns quilômetros daqui. Quando o Sol nascer chegaremos lá.
*Narrado por Avery Hopper
Acordei ao som de um trompete tocando. Isso me lembrou o “despertador” do acampamento de férias no Tallahassee. Joguei os braços para os lados tentando desligar o aparelho, só então me lembrei que eu não estava em casa, eu estava no Reino. O colchão em que eu estava era bem melhor do que o meu na base, mas eu sabia que não podia continuar dormindo, mesmo que o Sol ainda estivesse nascendo no horizonte.
Olhei para os lados. Carl estava deitado com o chapéu sobre o rosto tentando ignorar o trompete. Scott já estava de pé, mas seus cabelos estavam desgrenhados e ele tinha um aspecto sonolento.
A porta se abriu e um homem com armadura prateada e um trompete nas mãos entrou. Ele parecia muito bem disposto, provavelmente já estava acostumado a acordar nesse horário, e talvez estivesse satisfeito por ter uma tarefa tão divertida como acordar as pessoas cedo.
– Acordem, Sua Majestade irá para o refeitório, e todos devem se curvar durante a sua passagem – ele falou lentamente, provavelmente decorara essa frase havia muito tempo.
Achei aquilo muito estranho, mas me levantei e peguei a minha mochila. Obedecer parecia melhor do que questionar a loucura deles e, afinal, eram nossos anfitriões e precisávamos respeitar suas leis.

Espremi-me pelo corredor e os outros dois garotos me acompanharam. Havia várias pessoas ali, homens, mulheres e crianças que mais pareciam sardinhas enlatadas naquele espaço estreito, todos com os olhos brilhando. Eles pareciam realmente reverenciar e idolatrar Ezekiel. Só então consegui entender o porquê de tudo aquilo. A comunidade e a segurança dos moradores dependiam da existência de um líder forte, um líder que faria qualquer coisa por eles.
E eram muitos os moradores, aquele era apenas um corredor da escola. Deveria haver dezenas de habitantes e tudo parecia fluir com bastante harmonia, o que me deixava ainda mais encantada. Em nossa base eram apenas dezenove pessoas e fazia séculos que não víamos outras pessoas. O Reino me remetia à prisão de anos atrás e provava que a humanidade poderia se unir contra a ameaça dos caminhantes.
Ezekiel cruzou o corredor com passadas compridas e solenes, a postura ereta de um verdadeiro rei medieval. Os guardas pareceram congelar posicionando suas lanças, ou qualquer outra coisa parecida, para o alto e endireitaram a postura. Os súditos apenas abaixaram a cabeça em sinal de respeito, movimento que eu repeti. Nenhuma palavra foi dita e depois da passagem do rei todos o seguiram até o refeitório.
Quando eu achava que nada mais me surpreenderia, eu me deparei com aquele imenso refeitório.
Ele deveria ter o dobro do tamanho do refeitório da minha antiga escola. Havia tantas mesas que nem me dei ao trabalho de tentar estipular um número. Ao fundo, uma enorme bancada ocupava o espaço entre duas paredes, possuía panelas, pratos, talheres e muita comida.
Passei os olhos pelo local à procura de Patrick enquanto Carl e Scott se dirigiram até a fila para pegar o café da manhã. Eram tantas pessoas que eu acabei ficando desnorteada, até que meu olhar focou em um grupo de pessoas que atravessava o local até uma porta. Ezekiel ia à frente, seguido por um homem de cabelos longos e claros, uma barba grande e olhos azuis. Atrás dele ia uma mulher que eu não demorei a reconhecer. Com toda a certeza era a minha mãe. Ela estava dispersa, olhando para todos os lados com admiração.
– Mãe! – gritei enquanto corria em sua direção. Quando a alcancei, ela pareceu não acreditar no que via.
– Avery! – minha mãe exclamou enquanto corria até mim.
Ela envolveu meu rosto em suas mãos enquanto seus olhos brilhantes me fitavam com atenção. Mesmo com o grande sorriso em seus lábios eu não podia deixar de notar o profundo cansaço que suas feições transmitiam. Sorri de volta enquanto minha mãe distribuía vários beijos pela minha testa e cabelos.
– Também senti sua falta – brinquei.
– Precisei tanto de você... – ela disse com uma voz entristecida e olhando o chão, sem querer me encarar.
– O que aconteceu? Você está bem?
– Só estou cansada de tanta dor e sofrimento – a resposta fora vaga o que só serviu pra aumentar minha preocupação e curiosidade. – O que você está fazendo aqui? Achei que estivesse na cidade, cumprindo a missão.
– É uma longa história. Por que não nos sentamos e eu te explico tudo?
Com essa sugestão sentamos em uma das várias mesas cinzentas, não antes de nos servimos de pão e café. Todas as mesas eram compridas, distribuídas em fileiras por todo o ambiente.
– Então, como você veio parar aqui? – ela perguntou depois de tomar um pouco de café.
– Estávamos na missão e tudo corria bem, até que encontramos o Patrick – meu tom de voz se tornou mais animado ao pronunciar as últimas palavras. Resolvi não explicar a história da manada para não preocupá-la, mas minha mãe pareceu não se importar depois de ouvir o nome de Patrick.
– Patrick? O nosso Patrick? – ela continuava abismada.
– Claro que é o nosso! Foi ele quem nos trouxe aqui. Essa comunidade é muita estranha, parece que eles voltaram para a Idade Média – falei. – Agora me explica essa história de dor e sofrimento. O que aconteceu com você?
– É complicado...
Minha mãe suspirou e começou a falar, primeiro sobre a suposta morte de Daryl, e depois sobre a sua reaparição. Quando ela contou sobre os Salvadores e que Daryl estava do lado deles, quase não acreditei, porém a voz chorosa e os olhos marejados dela confirmavam a história. A simples lembrança daqueles acontecimentos havia feito com que ela chorasse, mostrando o quão sofridos haviam sido aqueles últimos dias em que eu estivera ausente.
Abaixei a cabeça, mas voltei a erguê-la segundos depois. Senti uma fúria enorme tomar conta de mim. Daryl não poderia ter feito isso, não era algo típico dele. Além de ter traído todo o grupo, eu sentia pena pela minha mãe. Ela não merecia isso, não podia passar por uma coisa dessas.
– Sinto muito – foi o máximo que consegui dizer.
– Eu sei que sente, mas me prometa uma coisa: você vai ficar comigo e nada de missão até resolvermos isso. Estamos lidando com uma força muito maior do que qualquer coisa que já enfrentamos.
– Quer dizer que vamos entrar em guerra?
– Os caminhos que estamos tomando podem levar a isso, mas nada foi decidido.
– Mas o que você faz aqui? – indaguei. Eram tantas perguntas que eu nem sabia por onde começar.
– Jesus me trouxe – demorei um pouco para raciocinar depois de ouvir aquelas palavras. Por alguns segundos pensei que minha mãe tivesse virado crente. – Ele é membro de outra comunidade, nos encontramos na floresta e Jesus me contou algumas coisas – naquele momento, o mesmo homem de cabelos longos que a acompanhava apareceu atrás dela. Ele parecia com as imagens de Jesus que eu vira em algumas igrejas, então o nome fazia o todo sentido. – Jesus, essa é minha filha, Avery.
– Muito prazer – ele assentiu com um pequeno movimento de cabeça e eu sorri para retribuir o cumprimento. – Gabriela, precisamos ir.
– O que vocês vão fazer? – questionei.
– Temos uma reunião com Ezekiel – Jesus respondeu antes de ir embora, seguido pela minha mãe.
– Não suma! – ela recomendou antes de partir.
*Narrado por Sarah Grimes
– Sejam bem-vindos ao Reino! – um homem exclamou logo que chegamos.
A viagem de Alexandria até essa comunidade fora um pouco longa, mas valera à pena. Depois da nossa conversa com Douglas, ele havia explicado que teria uma reunião com o peculiar líder do Reino, e que gostaria da nossa presença para que pudéssemos expor nosso plano. Não havia um plano, pelo menos eu não sabia de nada, porém Rick e Abraham conversaram em voz baixa durante todo o trajeto, provavelmente já estavam combinando algo.
– Eu sou Richard e irei levá-los até o Rei Ezekiel para a reunião – ele prosseguiu assim que descemos do carro e começou a nos guiar pela comunidade.
O local era tão admirável como Douglas havia descrito. A nossa criação de animais e plantação não chegavam nem aos pés do que o Reino possuía. Havia muitos habitantes lá, e tudo era perfeitamente organizado. Por um instante, era como se Negan não existisse mais, o lugar onde eu me encontrava parecia um verdadeiro sonho em meio às trevas que nos perseguiam.
A sala de reuniões era o antigo auditório da escola, o centro do Reino. O trono de pedra localizado no centro do palco era tão surreal quanto os homens com armaduras e lanças que vira na porta. Sentado no trono estava um homem com aspecto majestoso e imponente, porém amigável.
– Velho amigo, deve ter ocorrido algo muito importante para você vir aqui depois de tanto tempo – o homem se levantou, caminhando até Douglas, que sorriu de volta, confirmando a relação sólida que os dois possuíam.
– De fato, meu caro. O povo de Alexandria está sem comida, e tudo por culpa daqueles malditos... – ele não conseguiu terminar a frase. De repente a porta por onde havíamos entrado foi aberta novamente.
Um homem de estatura mediana veio na frente com passos apressados. Seus cabelos castanho-claros ultrapassavam os ombros, e sua barba longa cobria parte da face. Atrás dele veio Gabriela, o que me deixou tão surpresa quanto meu marido e o Sargento Ford.
– Meu rei – ele fez uma rápida reverência, enquanto Gabriela apenas fez um movimento com a cabeça em sinal de respeito. – Creio que vieram tratar do mesmo assunto que eu.
– Jesus, é um prazer revê-lo. Estes são Rick, Sarah e Abraham, da Base Militar – Douglas nos apresentou. – E quem seria a sua acompanhante?
– Gabriela Hopper. O que vocês estão fazendo aqui? – ela indagou se aproximando.
– Viemos falar sobre o Negan. Mas e você? – Abraham falou por nós.
– Jesus me trouxe até aqui... – Gabriela começou, mas foi interrompida por Jesus.
– Ela estava sozinha na floresta, e eu procurava a sua comunidade. Logo acabamos falando sobre Negan e eu resolvi trazê-la para mostrar as outras comunidades, com o intuito de que as informações fossem repassadas aos outros membros.
– Agora que as apresentações e explicações já foram dadas, creio que podemos voltar ao assunto principal – Ezekiel retomou a palavra. – Douglas, o que dizia?
– Não podemos mais continuar desse jeito. Você sabe que eu detesto violência, mas precisamos agir logo.
– Mas o que mudou? – ele questionou.
– Agora temos ajuda. A Base Militar tem armamento e pessoas capacitadas. Se vamos fazer algo, tem que ser rápido – Douglas concluiu seriamente.
– Antes estávamos no escuro, mas agora temos algo a favor. Consegui a localização do Santuário – Jesus comentou. – Parece que os ventos estão soprando a nosso favor agora. Já esperamos de mais, agora é a hora de acabar com isso.
– Jesus está certo. Tudo o que precisamos fazer agora é lutar. Não podemos simplesmente aceitar Negan. Já passamos por muitas coisas, não iremos cair, ainda não. Garanto que, da minha parte, terão todo o apoio possível. Agora estamos juntos, e a nossa união é o que temos para vencer os Salvadores. Sozinhos a nossa força é inferior, mas se juntarmos as nossas forças as chances são bem maiores – Rick falou convicto, tomando a iniciativa.
– Eles tem a força bruta, mas usam desordenadamente, sem estratégia. Além do armamento, precisamos contar com a inteligência para obter uma vantagem. Não podemos simplesmente ir até lá e tentar matá-los, creio que não daria certo – Abraham disse. – O primeiro passo é a preparação, mas para isso precisamos de tempo.
– Então o que sugere? – Ezekiel indagou.
– A melhor forma de distraí-los e atacando os postos avançados. A localização deles também foi descoberta, e isso facilita o nosso trabalho – Jesus respondeu.
– Se vamos mesmo atacar, precisamos nos lembrar de que também seremos atacados. Vi que aqui tem muitas crianças, nós também temos. Em comparação aos Salvadores, nós temos mais a perder. Devemos pensar na segurança deles antes de qualquer coisa – argumentei preocupada.
– Certamente pensarei em um meio para isso. Temos ônibus aqui, e poderemos evacuar se necessário. Sugiro que também procurem um meio de defesa – Ezekiel falou.
– E qual será o nosso primeiro passo? – Gabriela questionou.
– Recusaremos a “oferta” do Negan – Rick respondeu.
Pelo menos do nosso lado, a guerra já estava declarada. Naquele momento, não dava mais para voltar atrás, e tudo o que nos restava era usar tudo o que tínhamos para vencer, pois a derrota certamente valeria muito mais do que as nossas vidas.
– A partir de agora, estamos em guerra – Jesus concluiu.
*Narrado por Mika Samuels
A base estava vazia depois da saída de Rick, Sarah e Abraham. Como ainda era cedo, a movimentação era pequena. Meus pais tinham saído para observar o muro junto com Michonne, depois de conferir se tudo estava correto nas plantações e criações.
Eu também tinha minhas tarefas. Ajudar na cozinha e depois olhar os garotos. A segunda tarefa era sem dúvida a que eu mais gostava de fazer.
Grace, Samuel e David eram ótimos. Eu sempre gostara de crianças, e passar parte do dia com eles não era esforço nenhum para mim. Às vezes os três davam um pouco de trabalho, mas costumavam ser adoráveis. Grace era uma menina de ouro e parecia ter herdado da mãe o desejo de cuidar dos outros, só que as atenções da pequena eram voltadas para os animais; Sam era um pequeno adulto, responsável e um tanto independente; Hesh era o mais animado dos três, e costumava liderar os outros dois em suas pequenas aventuras.
Quando cheguei à cozinha, Rosita estava lá, trabalhando. Parecia muito melhor do que nas semanas anteriores. Aquilo era muito bom, contando com o atual estado do grupo. Meus pais haviam conversado comigo sobre os Salvadores. Para mim, o que todos decidissem estaria bom. Eu confiava em cada uma daquelas pessoas e, depois de tudo que haviam feito para sobreviver, tudo tinha que dar certo.
– Bom dia – falei sorridente enquanto me aproximava dela. – Como vai?
– Estou me sentindo bem melhor. Parece que eu dormi por uma semana! – realmente, Rosita parecia renovada, e as esperanças em relação ao parto aumentavam. – E você, como está?
– Bem... Só estou um pouco cansada das pessoas controlando a minha vida – disse me recordando do café da manhã.
Mais cedo meus pais haviam discutido sobre mim na minha frente, como se eu não estivesse lá. Meu pai dizia não gostar de me ver tão amiga de Scott, enquanto minha mãe apoiava e pensava mais no futuro, falando que já deveríamos estar namorando. Os dois tinham visões claramente opostas: enquanto ele me via como uma criança, ela pensava que eu já era bem mais madura. Não seria tão ruim assim se perguntassem o que eu achava daquilo. Eu não me afastaria de Scott, mas éramos apenas amigos.
Não me lembrava direito da minha adoção, fora depois da de Scott, mas de repente havia começado a chamar Tyreese de pai. Com Sasha viera depois, quando notei que ela era mais do que uma tia para mim. Os dois haviam me recebido muito bem, o que contribuíra para a minha adaptação.
– Problemas com os seus pais? – Rosita perguntou e eu assenti. – Já passei por essa fase.
– Alguma sugestão?
– É sobre garotos, não é?
– Como você sabe? – indaguei surpresa. Não poderia estar tão óbvio assim.
– Geralmente é. Aliás, já vi Tyreese e Sasha discutindo sobre você e Scott algumas vezes.
– Eles não entendem que eu gosto do Scott como amigo, mas não sei direito se sinto algo a mais! – eu já estava vermelha depois do comentário sobre meus pais e, depois de dizer aquelas palavras, tive vontade de sair correndo de tanta vergonha. – Como você sabe que gosta de alguém?
– Na hora certa você saberá. Só não apresse muito isso – sorri em agradecimento pelo conselho, então ela mudou de assunto. – Bem, é melhor começarmos a fazer o almoço. Agora que a Sarah saiu e Gabriela desapareceu, temos mais coisas a fazer.
– O que você acha que tem que ser feito? – perguntei me lembrando do motivo da saída de Sarah.
– Temos que fazer o que for necessário. Não acho que seria bom aceitarmos a submissão. Talvez o melhor seja mesmo entrar em guerra.
De repente, ouvi vozes do lado de fora e, ao olhar para lá, vi que todos iam em direção ao portão. Provavelmente alguém estava chegando. Rosita foi o mais rápido que podia, e eu a segui.
Gabriela saiu do carro primeiro, o que me deixou assustada, já que eu nem sabia que ela tinha saído da base. Logo tirei isso da cabeça, já que, assim que ela foi para sua tenda, ou outros começaram a sair do carro. Inicialmente Rick, Sarah e Abraham, seguidos por Carl, Avery e Scott. Eu pensava que era só, então corri até Scott.
Esqueci-me de tudo enquanto saltava sobre o pescoço dele, até mesmo das discussões de meus pais. Eu havia me preocupado tanto com Scott que era difícil de acreditar que ele finalmente estava lá. O abracei com força, como se isso pudesse matar toda a saudade de uma vez só.
– Oi – ele falou antes de rir e eu o acompanhei. – Trouxe uma coisa pra você.
– Sério? – Scott não respondeu, apenas tirou sua mochila das costas e tirou algo do bolso da frente. Era um filtro de sonhos.
– Não está em bom estado... Ele passou por maus bocados durante a viagem, mas eu vi na loja e me lembrei de você. Pra te dar bons sonhos – peguei o presente e o abracei novamente.
– Eu amei! Obrigada!
Scott sorriu de volta, e o assunto morreu. Ficamos apenas nos olhando pelo que pareceu uma eternidade, e o silêncio acabou ficando meio embaraçoso. Isso estava acontecendo com muita frequência havia algum tempo. Antes conversávamos bastante e não havia segredos entre nós, mas ele e eu crescemos, e parece que algo foi mudando.
Eu preferiria ter continuado daquele jeito, pois, logo em seguida, o silêncio foi quebrado por uma rajada de tiros. Da última vez que isso havia acontecido, eram os Salvadores, e eu podia apostar que eram eles de novo para cobrar uma resposta.
Do lado de fora se encontrava um grupo com cerca de cinquenta homens, entre eles Daryl, ao lado de um casal com expressão agressiva. Eu ainda não conseguia entender sobre a traição, mas ele estava lá. À frente do grupo se encontrava um homem com metade do rosto queimada, e um olhar ameaçador.
– Vim cobrar a resposta que você me prometeu – ele falou. Aquela voz tinha algo que me assustava um pouco, talvez fosse a combinação entre o timbre e a aparência do homem.
– Sim, tive tempo para pensar muito bem – Rick respondeu rispidamente.
– E então?
– Minha resposta é não. Nós não aceitamos a oferta – ao ouvir aquilo, o homem e rosto deformado pareceu se irritar bastante.
– Ninguém recusa uma oferta do Negan! Agora é guerra, e não há guerra sem baixas. Tenho certeza que as suas serão bem maiores. Vamos destruir o seu grupo! Você vai se arrepender disso, Rick Grimes! – ele gritou antes de sinalizar para seu grupo, fazendo com que eles começassem a se retirar, porém sem dar as costas para a base.
Depois daquela declaração do fim da nossa paz, eu realmente precisaria de bons sonhos.
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