Born To Die
1 Capitulo Único
Notas iniciais
Conheci Ralph no ultimo ano do ensino médio. Era um garoto diferente dos demais, eu nunca soube enxergar no quê exatamente, mas isso era fatídico dentro do seu comportamento. Usava óculos torto na cara, olhos azuis claríssimos, pernas e braços longos, e as linhas do rosto... As coisas mais lindas que já vi nesse mundo. Encontramos-nos várias vezes até que me rendi á esse bobão e começamos a namorar, quando entramos na faculdade. Algumas coisas aconteceram e o fizeram abandoná-la e abandonar também seu jeito. No início eu até achei legal... O óculos virou algo modesco, o preto sua cor favorito e a moto, sua amante. Depois de muita insistência, ele trocou-a por um impala creme 80', e eu fiquei mais tranquila. Temos muita história pra contar de dentro daquele carro... enfim, estamos vivendo como eu imaginava, ou mais ou menos. Não há um problema, não exatamente um problema... Ás vezes ele é agressivo, muda de humor, eu suporto tudo isso... Eu não me imagino sem ele mas, só tenho medo que ele acabe tomando dois minutos de insanidade e perca a cabeça.
Sabe... Nunca soube dizer se era amor. Até digo que o amo mas sinto que é da boca pra fora, não sei lidar lá muito bem com sentimentos. Você me recomendou um tempo de distância dele. É meio impossível, ele aparece do nada, consegue me dominar com aquele romantismo barato, umas carícias e acaba sendo minha válvula de escape. Acho que nossa relação é um pouco baseada na troca de papéis... Ele é quem deveria ser a mocinha desequilibrada e romântica, e eu, o cara frio, sem sentimentos que se deixa levar por essas coisas sentimentalistas. Eu não sei, é tudo muito confuso. Ao mesmo tempo que nos divertimos, fazendo coisas erradas, escondidas, quebrando as regras... É perigoso e eu tenho medo, parece que ele não tem limites. No fundo, somos dois covardes, dois bobalhões e dois loucos. O que há de errado agora é que não estamos sendo isso juntos. Quando eu me torno covarde, ele enlouquece; quando eu enlouqueço, ele fica bobo e quando eu fico boba, ele se torna covarde! Não faz sentido algum mas é quase isso. - Bem, foi tudo isso que eu disse á psicóloga.
Ralph acha isso perda de tempo, diz até que as coisa pioraram depois que passei á frequentá-la. Eu disse que quem precisava de ajuda era ele também... Isso o ofendeu, mas não hesitei.
Estávamos pensando em passar as férias em Las Vegas, mas o chefe dele apareceu com alguns imprevistos e como sempre, Ralph se irritou, por pouco não fora demitido. Passado alguns dias, algumas noites que dormi em sua casa, os móveis quebrados, as garrafas de cerveja espalhadas, misturadas ás camisinhas, encontrei verdades no fundo falso de um guarda roupas que abri por infelicidade. Discutimos e fomos sinceros, eu talvez um pouco hipócrita, por cobrar tais coisas, erros. Me faltou piedade, a própria falta de formalismo e moral, quem sou eu pra falar de alguém? Pois é... Me disseram que "quem ama tudo supera". Então eu teria de ser conivente com seus atos? Acho que realmente eu nunca o amei.
Ralph comprou seu diploma do colegial com a grana de um furto que executou com a ajuda de uns playboys da época. Questionei até sobre a compra da moto, se seria fruto de um furto também... E tudo isso pra desistir da faculdade, foi inútil. É, ele não era quem eu pensava ser, tão bobo quando eu pensei que era... A roda girou e quem ficou boba fui eu, de não ter resistido pela milésima vez ás suas carícias e caí na tentação. É comum a transa depois das brigas entre alguns casais, mas nós estávamos pondo isso em rotina, num ciclo vicioso. Ele disse que estava me perdendo e eu só respondia pra mim mesma, "Não é pra menos".
No dia da nossa folga, decidimos nos encontrar á noite num terreno baldio onde ele gostava de estacionar com o impala. Eu não estava no clima de nada, pois seus erros do passado se comprometeram com os do presente e se encrostaram em minha mente... Isso o enfureceu, o fez ligar o carro e sair pela estrada rumo ao Alabama. Discutimos no carro, ele tentava se justificar e usou de todo sentimento pra me convencer que isso não tinha nada a ver conosco, que poderíamos ser perfeitamente felizes sem pensar no passado... Eu ia me referir ao presente, ao agora, mas ele se descuidou do volante enquanto olhava pra mim, e me marcou com seu olhar, que brilhava intensamente e com o toque da sua mão em meu rosto. O carro capotou e eu entrei em coma desde ali e ele me tirou do carro antes dele explodir.
Quando acordei, vi meu pai cochilando numa poltrona branca, como todo o cenário em volta e entrei em pânico quando me vi cheia de fios e agulhas sob meu corpo. Depois do meu pai acordar, assustado comigo, falando sozinha, eu pedi explicações á ele. Eu dormi por três dias inteiros, Ralph me trouxe e foi logo embora, não sofreu um arranhão se quer e não ficou ali comigo... Também sumiu por três dias inteiros. No quarto dia eu tive alta, fui pra casa do meu pai, onde recebi umas dezenas de ligações de Ralph, as quais não queria atender. Ele apareceu na tarde seguinte, me implorando perdão como se soubesse o tamanho de sua imprudência. Sua irresponsabilidade foi longe demais, eu poderia ter morrido! Você precisa de ajuda, não vamos mais ficar juntos pois não podemos dar certo nessas circunstâncias... Nem eu nem você sabe o que fazer.
E ele chorou e escandalizou na rua onde meu pai morava. Acabou, pelo menos m tempo, ou pra sempre, mandei-o embora sob ameaças e em seu ultimo olhar, vi toda mágoa que um ser humano poderia testemunhar nos olhos de outro. Fui infeliz novamente quando deixei meu orgulho falar mais alto do que a preocupação com as palavras que o agrediram.
Eu queria ficar sozinha, então voltei pro meu apartamento, pensando sem parar, aonde foi que chegamos? Eu sou tão louca assim á ponto de querer ser a garota louca que ele tanto almeja? u o amo de verdade pra deixar de lado os seus erros? Sou certinha demais? Egoísta? Hipócrita? Acho que sim.
A primeira coisa que fiz foi entrar no banheiro, encher a banheira e repousar, pois além do meu corpo, minha cabeça também doía. Senti um aperto grande no peito, um frio na barriga... Liguei o chuveiro e esperei a banheira encher enquanto eu me despia. Ralph entrou no meu apartamento sem que eu percebesse, pegou o revolver que meu pai me dera quando eu saí de casa, pra que eu pudesse me proteger... Entrou no banheiro e atirou, me fazendo cair, acertada no peito, estirada ao chão com olhos de arrependimento. Não tinha mais nada a fazer. Ele se deitou ao meu lado, no chão frio e molhado, transbordado da banheiro e agora misturado ao sangue, e o segundo tiro foi dado, agora em sua cabeça, que também que atingiu. Ali se encerrou todos os nossos problemas, acabou-se as desavenças e finalmente poderíamos ficar em paz. Era que o que a gente queria.
Fale com o autor