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11 What Really Happened


Notas iniciais
Uma pequena nota: Finalmente a fic chega ao seu final. Sei que torturei algumas pessoas com a minha mania de ser preguiçosa e enrolada para escrever. Sou assim e não nego! KKKK Mas a verdade é que eu adorei escrever essa fic. Foi a primeira vez que eu tive coragem de compartilhar algo que eu tinha escrito com as pessoas. E eu só fiz isso por causa desse fandom maravilhoso! O incentivo que eu recebi das pessoas aqui, os elogios e as amizades que eu descobri do nada é algo que eu não esperava, mas que hoje eu já não vivo sem. Por isso muito obrigada todos que acompanharam a história e me incentivaram a escrever, foi algo maravilhoso! Tenho dois agradecimentos especiais: Bia e a Mari. Que tipo foram as pessoas mais fofas e perfeitas que eu conheci! Muito obrigada meninas, por terem paciência comigo e por me cobrarem (até essa parte eu gosto de vocês). O capitulo final é inteiramente dedicado a vocês, espero que não desaponte. Ps: Agradeçam a Amanda por eu estar postando o ultimo capitulo aqui, eu tinha totalmente abandonado (esquecido), até que ela veio cheia de palavras fofas e lindas

Amar é, sempre, ser vulnerável.
Para que nunca se sofra com isso, aconselha-se não se amar algo, ou mesmo, alguém.
Se sugere proteger a si mesmo nos próprios hobbies, mimos e zelos, evitar qualquer envolvimento com as pessoas, guardar o coração na segurança do caixão do próprio ego.
Dessa forma, nessa tumba segura e tenaz, sem movimento ou ar, o seu coração provavelmente mudará para melhor. Sim, sim, ele não se partirá, antes se tornará indestrutível, impenetrável, invencível ou inalienável!: ele nunca precisará de algum perdão.
Mas essa comprável alternativa sistemática de proteção de tragédias, é preciso que se diga, é condenatória.
Isso, porque o único lugar que existe além do céu, onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os acidentes e perturbações do amor, é o inferno

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Sherlock não tinha ideia do que estava fazendo e por que estava fazendo. Ele estava entediado, isso era um fato. E John havia lhe deixado, não para sempre, mas definitivamente o apartamento ficava mais monótono e sem graça sem seu melhor amigo.

Ele sabia que Mary não havia lhe roubado o amigo, até por que a mulher incentivava muito as aventuras dos dois, talvez até por que ela às vezes precisava de um tempo longe deles. Mas mesmo assim, não era a mesma coisa. Sherlock Holmes estava sozinho de novo, e pior do que isso: ele estava entediado.

Fazia tempo que ele não se deparava com um caso realmente interessante e não havia ninguém que pudesse enfrenta-lo ou distrai-lo mentalmente. Isso era extremante perigoso! Por que quando Sherlock ficava muito entediado ela tendia a usar o seu ultimo recuso para aliviar a mente: drogas. Ele não era viciado, por mais que John e Mary se preocupassem, ele sabia bem o que usava, quanto usava, e como usava.

Não gostava de apelar para essa saída, mas quando sua mente não lhe dava um descanso ele se via pensando nessa velha amiga.

Sherlock se lembrou da ultima vez em que usou. Não foi algo muito agradável. Seus amigos acabaram descobrindo e seu plano para inventar um ponto de pressão não tinha dado muito certo. Mas dessa vez ele não faria por um caso, faria por que queria mesmo, e por que precisava.

Ele estava quase convencido da ideia quando se lembrou de um pequeno detalhe da sua ultima experiência com drogas: Molly. Três tapas! Três tapas bem dados que só de pensar ele sentir seu rosto marcado mais uma vez pela pequena mão da patologista.

Foi por se lembrar disso que ele se encontrava na situação atual: indo fazer ‘visitas’ rotineiras a médica. Ele tentou não pensar muito no por que ele estava fazendo isso, mas por algum motivo ver Molly parecia ser mais interessante do que usar drogas de novo.

Ele apreciava ver Molly trabalhando, nunca teve tempo para reparar nisso, mas ela realmente era muito boa no que fazia. Talvez por isso seu subconsciente tenha gostado tanto dela.

Tentar acompanhar Molly foi uma experiência bem interessante, por mais que ele fingisse que não estava ali interessado nela ele se surpreendeu quando ela notou que algo estava errado nessas idas dele ao necrotério.

‘Ela não era só um rostinho bonito’- Sherlock se assustou quando sua mente formou essa frase.

Em primeiro momento, quando ela ofereceu, ele não acreditou que ela realmente poderia fazer algo para poder lhe tirar do tédio. Não havia nada na vida comum e rotineira da pequena mulher que lhe chamasse atenção ou que pudesse lhe acrescentar algo. Ela sempre pareceu comum aos seus olhos, e não havia nada que ela pudesse fazer para mudar seu humor.

Mas ainda sim Sherlock atreveu a desafia-la a tentar, isso por que seria no mínimo engraçado. E também se havia algo que ele ainda não havia tentado era fazer programas ‘normais’.

Sherlock se excitou com a ideia. Ele havia arranjado algo para fazer, algo diferente do que ficar fazendo experimentos e observando Molly. E era ainda mais interessante isso por que ele simplesmente adorava ver como ela se comportava perto dele. Era um tanto quanto engraçado... e fofo. Fofo? Sherlock reprimiu essa ideia sobre Molly.

Contudo a decepção chegou antes do que ele esperava. A chuva conseguiu estragar tudo, e Molly simplesmente não ajudava!

Ela havia o chamado para ajudar, não?! Ela disse que poderia lhe tirar do tédio. Por mais que ele não acreditasse que ela fosse capaz de tal coisa Sherlock se sentiu revoltado quando ela resolveu ignora-lo só por causa de uma bobeira que ele falou. Ela tinha que fazer algo para tira-lo do tédio, isso não era justo.

Por um momento ele pensou que dois poderiam jogar esse jogo. Ele também poderia ignora-la. Talvez seja isso que as pessoas fazem para passar o tempo, jogam joguinhos infantis com as pessoas. Ele já estava acostumado a manipular e jogar com a mente de todos, logo ele tinha certeza tiraria isso de letra.

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Em uma hora ela notou que estava errado.

Sherlock simplesmente não aguentava ficar em um lugar fazendo nada e sendo ignorado por alguém. Molly parecia muito feliz com seu livro, mas ele sabia que isso era uma tortura particular que ela estava o fazendo passar. Seu subconsciente falou que ele merecia, mas Sherlock de imediato o mandou calar a boca.

Ele não estava acostumado a ceder. Geralmente as pessoas a sua volta que tinham que abrir mão das suas coisas e principalmente dos seus sentimentos para lhe fazer contente. No fundo, as pessoas que o conheciam sabiam que às vezes Sherlock Holmes não passava de uma criança mimada.

Molly com certeza sabia disso!

Mas ele a impressionou quando cedeu naquela noite. Havia algo de errado com ele, pois ele não estava aguentando ficar no mesmo local que Molly e ser ignorado por ela. Talvez fosse isso que ela sentia quando ele fazia o mesmo. Ele teve que admitir secretamente que isso realmente era crueldade de sua parte.

A primeira coisa que cruzou em sua mente quando ela explicou o jogo era como isso soava absurdamente ridículo. Será que Molly havia se esquecido de que ele era um detetive? Não apenas qualquer detetive, mas sim Sherlock Holmes? Apesar de ser um jogo sem sentido Sherlock pensou que isso poderia tirar seu tédio por um breve período, até ele conseguir pensar em outra coisa o a chuva parar para ele poder voltar ao seu apartamento e largar essa ideia ridícula de se aproximar de Molly.

Porém, na primeira pergunta que ela fez Sherlock pode entender rápido por que eles estavam jogando esse jogo. Não era para ele, mas sim para ela. Molly queria saber algumas coisas, e esse era o modo dela poder perguntar. O jogo de repente se transformou em algo muito interessante. Ele queria ver até onde ela queria ir, o que ela tinha curiosidade e como ele poderia tirar proveito disso tudo.

Sherlock decidiu que iria responder qualquer coisa que ela perguntasse da forma mais sincera possível. E não demorou nada para Sherlock perceber, pela inquietação e o medo que os olhos dela mostravam toda vez que era a vez dele, que Molly tinha algo a esconder. Ele iria descobrir o que era! Mas não sem antes brincar um pouco com a situação.

Quando a pediu para que recitasse um poema seu intuito era tirar ela da sua zona de conforto. Ela estava segura de si, achando que estava a salva de qualquer coisa, pois nunca iria escolher verdade. Porém ela não esperava que ele fosse aprender a jogar esse jogo tão rápido.

O sorriso malicioso que formou em seus lábios não pode ser evitado. Era sádico admitir isso, mas ele adorava ver Molly desconfortável com sua presença, com o que ele falava e em como ele se portava com ela. Sherlock não ia perder essa oportunidade, ele aos poucos ia fazer ela se expor.

Contudo o resultado que ele esperava não era esse que se apresentou.

Quando Molly tomou coragem para recitar o poema ele não esperava por aquele poema. Sherlock nunca foi fã da literatura nem de arte e do drama inglês. Contudo quando a voz da pequena patologista soou pelo apartamento repetindo frases que uma vez ele viu presas em um pedaço de papel Sherlock perdeu alguns dos sentidos.

Poesia! Uma coisa tola que aqueles com sentimentos exagerados cismavam em escrever e declamar. Ele sempre achou o nome ‘drama’ perfeitamente colocado para esse tipo de coisa. Palavras rimadas e fúteis sobre um amor idealizado e almejado nunca conseguiram lhe tocar.

Até aquele momento.

Até ele ver Molly. Até ouvir as palavras que saiam de seus pequenos lábios dela em forma de melodia. Sherlock notou, pela primeira vez, Molly como mulher. Tudo nela era pequeno e delicado. Sua pele parecia porcelana, seu nariz arrebitado lhe dava um toque engraçado, um tanto quanto gracioso. Cada traço do seu rosto era simétrico e perfeito, tudo combinando e harmonizando para formar a imagem da frágil patologista que estava a sua frente.

Sherlock não entendeu por que, mas ele se encontrou encantado por aquela mulher.

Sem pensar muito ele já havia mudado de lugar, sentiu uma necessidade desesperadora de por ouvi-la de mais perto; vê-la de mais perto.

O poema que ela recitava era claramente uma declaração de devoção. Sherlock nunca duvidou da adoração que Molly tinha por ele. Sabia perfeitamente que em qualquer ocasião a médica viria ao seu socorro sem pedir nada em troca. Mas ali estava ela, admitindo através de palavras que estavam mortas há 500 anos o quanto ela não se importava com o jeito ríspido dele, e o quanto ela se via feliz por poder ajuda-lo, mesmo que fosse só um pouco.

Molly verdadeiramente se importava com ele.

Quando ela abriu os olhos a respiração dele falhou. Ele viu a única coisa que faltava para ver. Seus olhos tinham uma cor maravilhosa e só agora ele pode perceber isso. Muitos achariam ‘castanho’ uma cor bem comum, e Sherlock concordava plenamente com isso! Porém os olhos dela não eram simplesmente castanhos. Não! Os dela tinha uma cor que lhe lembravam chocolate, tinham um brilho mágico e seu olhar era quente.

Seus olhos refletiam o que Molly era: feliz, apesar de tudo na vida, muito feliz.

Ele só conseguiu recuperar o folego quando ela finalmente se silenciou. Ela estava pensado, provavelmente analisando o seu rosto. Suas feições deviam ter mudado, pois ele sabia muito bem o que estava sentindo: Desejo!

Ele não sentia isso há muito tempo. Conseguiu se manter a afastado disso muitas vezes. Em algumas seu corpo lhe traiu e ele ficou encantado por determinadas mulheres. Não muitas. Contudo nenhuma delas pode lhe dar o que precisava ou só lhe destruíram aos poucos. Sherlock sabia que desejar alguém, sentir algo ‘especial’ por alguém, era se machucar e se tornar vulnerável.

Não, ele não ia permitir isso de novo.

Por mais que os lábios de Molly parecem uma boa razão para se permitir e arriscar ele não iria abaixar a guarda. Ele não podia! Por mais que sentisse um desejo irracional e urgente de toma-la ali ela não iria fazer tal coisa.

Pelo menos não desse jeito, ele não sai se expor. Mas ele ia conseguir esse beijo que seu corpo pedia, provando para si mesmo que isso era um mero desejo tolo.

Molly definitivamente tinha saído da sua zona de conforto e parecia mais corajosa. Isso era bom! Por que, pelo que pelos planos que ele tinha guardo para Molly ela ia precisar de coragem.

A pergunta que ela fez ele já esperava uma hora outra. Sherlock não quis perder muito tempo recordando da Mulher. Não era agradável e ele não tinha muitas lembranças boas sobre ela. A curiosidade de Molly não irritou, porém ele definitivamente não ia gastar muitas palavras para falar sobre Irene Adler. Ela não merecia isso e o seu próximo movimento era muito mais interessante!

Era sua vez mais uma vez, e Sherlock não hesitou em fazer sua proposta. Ele queria beija-la; seu corpo precisava! Mas ele não ia admitir isso, nem para Molly e nem para si mesmo. Por isso ia ser um desafio.

Ele mal acreditou que ela teve coragem para fazer isso. Ali estava ela se aproximando dele, e quando ele sentiu o calor da mão dela em seu rosto, Sherlock não pode deixar de abrir um sorriso. Ela ia beija-lo, e eles iam por fim nisso de uma vez por todas.

Mas aparentemente Sherlock estava errando em todas as deduções que fazia sobre Molly. Isso era assustador!

Quando ele sentiu os lábios macios dela pressionados contra os dele de uma forma suave algo dentro dele mudou. Ela tinha um gosto doce, algo que lembrava morango. Pela primeira vez ele achou o cheiro dela inebriante, e seus olhos não podem aguentar ficar abertos enquanto ele sentia um leve perfume de baunilha que vinha dela.

Seu corpo queria mais do que esse simples encontro que estavam tendo. Ele a manteve ali até que ela tivesse coragem de lhe beijar verdadeiramente. E ela não o decepcionou. O beijo que ele recebeu foi calmo e tímido, mas Sherlock podia sentir o desejo que ela tinha por ele, e por um momento se permitiu responder com o seu desejo.

Seus sentidos ficaram mais perdidos do que a primeira vez. Seu corpo lhe enviava emoções que ele achou que já tinha superado a muito tempo atrás, e o calor dos lábios dela eram totalmente viciante. Sherlock estava caindo em uma tentação que ele nunca havia experimentado, e seu corpo reagia mais do que positivamente a isso.

Ela quebrou o beijo logo. Por mais que ele soubesse que tinha que se afastar dela ele não queria. Ele queria sentir mais uma vez, talvez para tentar provar para o seu corpo que uma segunda vez ele não iria se sentir assim. Ou uma terceira, ou uma quarta... Ou quantas vezes fosse preciso para se livrar desse vicio que já parecia ter tornado seu corpo dependente.

Depois daquilo Sherlock não ligava mais para o rumo desse jogo. Ele só queria Molly mais uma vez! Queria poder toca-la, sentir sua pele fina e delicada. Queria passar os dedos em seus lábios e poder ter certeza da textura que ele havia sentido antes. Queria enrolar os dedos nos cabelos dela e a tomar de um jeito possessivo. Seu desejo pela morena a sua frente havia não estava mais sobre o seu controle!

Só que ele se lembrou de que ela estava escondendo algo!

Ele resolveu que as ‘brincadeiras’ acabavam ali. Aquilo não era mais um passamento para o tédio. Sherlock se encontrava realmente envolvido nisso tudo, ele iria até onde pudesse para entender Molly e o que ele aparentemente estava sentido por ela.

O medo dela era claro e ele se atreveu a perguntar o que ela estava tentando esconder dele. Ele realmente queria saber o que Molly achava que podia esconder dos seus olhos que viam tudo. Mas ela não respondeu.

Sherlock não entendeu o que tinha acontecido. Ela parecia estar tão presa no jogo quando ele; ela queria tanto quanto ele continuar, podia ver isso nos seus olhos. Mas todo aquele brilho sumiu quando ele perguntou, e de repente ela não queria mais estar com Sherlock. Sem protesto algum ele foi embora. Não conseguiu pensar em nada no caminho para casa. O tempo estava muito frio e a única coisa que Sherlock conseguia ver em sua mente ela, Molly, perdendo o sorriso quando ele perguntou o que ela escondia dele.

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Foram cincos dias sem conseguir dormir. Não que ele se importasse com isso, dormir sempre foi uma perda de tempo. Mas ele quase implorou para Deus, se ele realmente conseguisse acreditar em tal coisa, que lhe fizesse apagar em sua cama. Sherlock não estava mais aguentando ficar acordado, por que a única coisa em que ele conseguia pensar era em Molly.

Em primeiro momento ele tentou negar. Falou para si mesmo que só estava interessando cientificamente nas reações dela, e intrigado no segredo dela. Era uma experiência, ele não tinha nenhum sentimento envolvido nisso. Holmes nunca seria estupido o bastante para se entregar a falsos sentimentos e fracos desejos que seu corpo parecia querer.

Isso ia passar!

No terceiro dia ele notou que estava errado de novo. Sua mente começou entrar em pane, ele não conseguia pensar mais em nada e realmente começou a ficar assustado quando notou o quanto já tinha errado desde que esteve com Molly. Sua mente estava começando a ceder a aquilo que ele sempre conseguiu se manter distante, isso era terrivelmente amedrontador para ele!

Quando teve vontade de procurá-la Sherlock se viu se censurando! A melhor saída que achou para isso foi procurar no meio dos seus antigos livros algo que pudesse substituir essa vontade de ir visita-la.

Ironicamente a única coisa que lhe chamou atenção no meio da poeira e das paginas amarelas foi Shakespeare.

Em um dia Sherlock já havia devorado o livro. Drama pela primeira vez fez sentido. E só fez sentido por causa de um par de olhos achocolatados e cintilantes que ficavam vindo á sua mente.

Ela o estava assombrando e isso o deixou irritado por muito tempo.

Sherlock tentou dizer para si mesmo milhões de vezes nesses cinco dias que ele não podia cair nessa armadilha que ela Molly Hooper. Isso iria o destruir, iria fazer mais dano do que ele tinha experimentado. E ele tinha certeza que com ela não iria ter volta!

Seu corpo precisava entender isso: Molly não iria lhe fazer bem, e ele não iria fazer bem a ela. Ele nunca ia se permitir sentir algo mais do que esse ‘simples desejo’, pois qualquer coisa além disso era arriscado demais.

Mas mesmo assim, não só seu corpo, mas sua mente já estava rendida a imagem da pequena patologista e a todas as sensações que ele teve quando ela o beijou. Ele precisava dela, desesperadamente! E no quinto dia ele parou de negar isso.

Ele precisava mais uma vez, e ele ia conseguir isso.

Na quinta manhã ele não hesitou ao mandar aquela mensagem. Não foi tão difícil deduzir que ela provavelmente havia sonhado com ele. Ele sabia que ela já tinha esses sonhos bem antes dos acontecimentos da semana passada. Era fácil ver como o rosto dela corava quando ele entrava no necrotério algumas manhãs, e seus olhos evitavam os dele sem mesmo ele ter dito algo ou insinuado alguma coisa.

E a brincadeira com Shakespeare foi um anto quanto inevitável. Essa oportunidade não podia ser deixada, e ele estava se sentido tão confiante! Sherlock estava realmente empenhado em conquistar Molly.

Ele sabia que ela não iria responder, apesar de algo dentro de si estar implorando pela resposta dela. Porém, apesar de Molly ter uma quedinha por ele, ela não ia ser tão fácil assim. Provavelmente ela estava achando que ele queria provoca-la só por que ele estava entediado ou por que ele estava fazendo um experimento. Sherlock por um momento tentou concordar com essa ideia.

Ele estava entediado.

Mas mesmo assim ele sabia que não era exatamente por isso. Seu tédio só tinha um motivo, e esse motivo tinha nome e sobrenome. Sherlock sabia que a única coisa que seu corpo e sua mente ansiavam era por ela.

Sherlock estava perdido em seus pensamentos sobre Molly quando ele ouviu a voz de John falando com Mrs. Hudson. Só agora ele percebeu que já era tarde e que ele passou quase o dia todo sentado em sua poltrona pensado sobre a mulher que não sai de sua cabeça.

“Deixe a criança e saia.” Sherlock falou sem abrir os olhos quando John atingiu a porta da sala.

“O que?”

“Eu não vou ficar ouvindo você perguntar sobre a Molly pelo resto da tarde.” Ele encarou o amigo com impaciência, “Mas isso não quer dizer que Ellie tenha que sofrer e ser castigada a passar uma tarde inteira com você.”

“Não seja um idiota.” John respondeu rindo.

Contra todas as possibilidades Sherlock era sim um bom tio. Ele ignorou o amigo sentado em sua poltrona por um bom tempo e estava realmente entretido com a menina no chão da sala. Ele tentava ensinar coisas interessantes para a criança, mas acabava não resistindo ao charme dela e sempre brincava de coisas com a menina que, para ele, não fazia sentido algum.

“Então, o que aconteceu entre Molly e você?” John perguntou depois de algumas horas, olhando o amigo por cima do jornal.

“Um novo recorde John.” Sherlock nem virou para encara-lo, continuava focado em construir um prédio de blocos com Ellie, “30 minutos, você está ficando bom nisso!”

“Sério Sherlock!”

“Nada aconteceu.”

“Não é o que pareceu hoje.” John falou em tom provocativo e teve a reação que queria de Sherlock. O detetive agora estava focado nele e na conversa

“Como assim?”

“Bem eu fui expulso de caso por que aparentemente Molly tinha que conversa com Mary.” Sherlock olhou mais uma vez para a garota no chão e ao constatar que ela estava distraída ele se levantou e se sentou em frente ao amigo, “Eu não seria expulso se ‘nada’ tivesse acontecido.”

“Molly está na sua casa?” Ele perguntou curioso descansando as mãos em forma de prece em cima da boca.

“Yeap. Você tem algo a dizer sobre?”

“Mulheres tendem a conversar mais do que homens.” Sherlock apenas sorriu ironicamente e John desistiu de perguntar mais.

Ellie e John ficaram no apartamento por mais algum tempo. John falava sobre algo interessante no jornal e Ellie fazia alguns sons brincando ou as vezes tentava chamar a atenção dos dois homens na sala. Porém Sherlock estava totalmente afundado em seus pensamentos. Ele não fazia ideia do que estava acontecendo a sua volta. Sherlock só foi voltar a realidade quando o celular de John tocou.

Era Mary, Sherlock tinha certeza disso. Molly saiu de lá!

Assim que o amigo desligou Sherlock o enxotou do apartamento. O médico tentou insistir em ficar, falando que ele não precisava ir embora só por que Mary ligou, mas Sherlock disse que não havia necessidade e que ele não estava mais suportando as conversas desnecessárias que ele tentava manter.

Sem perder muito tempo, Holmes conseguiu expulsar John do apartamento. Assim que ele ouviu a porta bater seus dedos trabalharam freneticamente no celular. Ela ia vir! Ela precisava vir!

Sherlock sabia que ela estava nervosa só por ouvir as oscilações dos passos dela ao entrar. Não que ele fosse admitir para si mesmo, mas ele também estava nervoso. Porém era muito mais fácil para ele manter e fingir a imparcialidade e naturalidade. Assim, apesar de estar nervoso, e um tanto quanto confuso com sobre o que ele ia fazer, Sherlock tentou manter o controle da situação que ele sempre tinha.

Mas as coisas com Molly ultimamente pareciam muito mais complicada do que o normal. Todo o controle que ele achava ter sumiu quando ela ameaçou ir embora. Ela não podia ir embora; Sherlock não queria que ela fosse.

E o seu súbito ato de desespero para tentar impedir que ela fosse foi respondido por um beijo dela. O beijo que ele tentou, durante toda a semana, negar que havia gostado. Esse não foi como o outro, pois Sherlock não teve tempo para pensar em qualquer reação, Molly apenas pressionou os lábios contra os dele e não obteve nenhuma resposta. Pelo menos não uma resposta imediata.

Assim que Sherlock voltou a ter sentido sobre as coisas seu corpo reagiu da única maneira que era possível reagir: implorar por mais.

Holmes abandonou naquele momento, sem nenhum remoço, toda a sua racionalidade e deixo o puro desejo lhe guiar. Aquele beijo não aera o bastante, ele precisava de muito mais, e naquela noite ele iria parar de negar isso.

Apesar de nunca ter feito isso, ter corrido atrás de alguém ou tomar um posição mais ativa em relacionamentos, Sherlock se deixou guiar pelo que estava sentido. Ele podia ver claramente que ela também o queria e esse era o único incentivo de que ele precisava para poder seguir em frente.

Ele nunca pensou que algum dia seria capaz de desejar alguém tanto quanto ele estava desejando Molly naquele momento. A cada beijo que ela retribuía, a cada toque que ela o permitia fazer e a cada gemido que escapava da garganta dela, ficava mais difícil para Sherlock se controlar. Ele ia descobrindo e gravando mentalmente cada lugar que ela gostava de ser tocada, cada som que ela vocalizava e cada feição que ela fazia.

Sherlock não negou que amava cada pequena coisa nela.

Estar com ela naquela noite foi uma experiência que não se comparava a nada que ele já havia feito. O jeito que ela o tratou e a paixão que ela o deu não se pareciam com nada que Sherlock já havia recebido de alguém. Até mesmo as poucas vezes em que ele abaixou a guarda, ele não tinha recebido algo parecido com que Molly estava lhe dando.

Era longe de algo físico; da pura química de seu corpo.

Era algo mais! Ele teve certeza disso, pois quando ele foi dormi naquela noite, agarrado ao corpo da pequena patologista, a única coisa que ele conseguia pensar era: ‘Minha’!

Molly era mais forte do que qualquer droga que ele já havia provado. Porém ao sentir seu corpo colado ao dela, ao sentir o calor e tudo o que ela pode proporcionar a ele, Sherlock por um momento pensou que não seria uma coisa ruim se viciar em Molly.

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Molly não percebeu quando ele levantou de madrugada. Apesar de não dormi direito por 5 dias, Sherlock não precisava mais do que três horas de sono para já se sentir bem melhor. Ele saiu da cama com todo cuidado para não acordá-la e foi para a cozinha para satisfazer sua urgente necessidade por um copo de água.

Eram quatro da manhã e Sherlock Holmes estava sentado em sua poltrona na sala, olhando o nada e deixando sua mente divagar e pensar sobre a presença da pequena mulher no seu quarto em um sono profundo.

A primeira coisa que ele notou era que sua mente não estava mais confusa e bagunçada, quer dizer, tirando os pensamentos e sensações estranhas que ele estava tendo sobre Molly. Mas ele se sentia tranquilo e relaxado. Todo seu corpo e cérebro pareciam calmos e felizes. Não só por que Sherlock havia cedido ao desejo por Molly, mas principalmente por que ela estava ali, em seu quarto, dormindo tranquilamente, perto do seu alcance e de seus cuidados.

Era uma sensação estranha, pois ao mesmo tempo em que ele adorava essa ideia parte de si tinha medo.

Ele sabia que estava apaixonado por Molly Hooper. Depois daquela noite, ele não podia negar mais. Ele tinha um sentimento forte por ela e tinha uma vontade enorme de nunca mais sair de perto daquela mulher. Sua mente se lembrava de cada toque delicado dela, de como ela se entregou e confiou nele por um momento, e de como era maravilhosa a sensação de ter Molly Hooper para si.

Mas junto com esse sentimento de amor havia um outro... Medo! No meio da madrugada, enquanto se deixava levar pelos sentimentos pela patologista, Sherlock sentiu medo. Ele se lembrou das ultimas vezes em que se permitiu amar algo ou alguém. De quando ele se permitiu ter algum sentimento na vida, e como isso o destruiu todas as vezes.

‘Sentimento é um defeito químico encontrado no lado dos perdedores’. Isso foi o que ele disse para A Mulher... Irene Adler. A última pessoa que lhe causou medo.

Não era a mesma coisa que ele estava sentido agora. Não, o que Molly estava o fazendo sentir era muito maior, por isso o medo era extraordinariamente maior. Da ultima vez que Sherlock permitiu sentir algo por alguém tudo terminou como ele já esperava: machucado.

Sherlock aprendeu muito cedo de amor é, e sempre foi, uma desvantagem perigosa. Ele aprendeu bem pequeno à não ficar apegado as coisas a sua volta, como Redbear. Seu irmão sempre lhe mostrou que era perda de tempo tentar socializar com os outros, ou se permitir ser como eles. Mycroft sabia disso por que ele era totalmente superior a esses sentimentos tão normais, mas Sherlock apreendeu isso pela dor.

Sherlock nunca foi superior ou imune a sentimentos! Ele teve que aprender a ser, teve que se controlar e se isolar o máximo possível de tudo e de todos.

Sherlock Holmes aprendeu pela dor, pela decepção que as pessoas lhe fizeram passar, que sua única proteção era a solidão. Ele não sabia lidar com sentimentos, principalmente aqueles que o machucavam, logo ele precisava se afastar de todos os sentimentos. Até mesmo aquele que o faziam temporariamente felizes.

Isso funcionou por um tempo, até ele conhecer John. Sherlock nunca teve um amigo, e não se lembrava de bem por que ele resolveu tentar ser amigo de John Watson, mas o médico com certeza havia conquistado seu coração.

John se tornou a única pessoa que ele confiava e se importava. A única pessoa que ele podia chamar de amigo, e que ele sabia que realmente iria fazer o possível para não o decepcionar. Pela primeira vez ele se permitiu estar em uma amizade, e viu que não era tão ruim assim.

Porém isso o fez fraco. Sherlock sabia que ele tinha um ponto fraco, e além de John Watson se tornar uma das pessoas mais importantes em sua vida a amizade do médico o tornou fraco para que outros sentimentos, por outras pessoas, surgissem.

Por muito tempo ele conseguiu ignorar as estranhas sensações que ele passou a ter quando estava perto de Molly. Não era tão difícil assim, já que ele não precisava passar muito tempo perto dela. Mas logo apareceu Irene Adler!

Ela não tinha sido a única a se deixar levar pelo jogo deles. Sherlock não pode evitar aos charmes e encantos que Mulher tinha sobre ele. Fosse curiosidade, desejo, sentimento ou qualquer outro nome que ele deu para isso, Sherlock Holmes acabou caindo na tentação e cedeu àquela mulher fascinante.

Até hoje ele se arrependia por isso.

Adler não era nada além de fascinante, a primeira vista. No final ela só conseguiu o machucar, assim como todos os outros que ele já havia permitido entrar em sua vida. E definitivamente ela não era o que ele precisava e nem o que iria talvez lhe salva da escuridão que era sua vida.

Não! No final ela apenas conseguiu destruir o pouco que ele entregou de si para ela. Ela conseguiu o que queria e de reprende Sherlock não era tão interessante assim. Ela o machucou por que ele permitiu isso.

Sua racionalidade gritava para ele não permitir isso agora! Não deixasse Molly Hooper lhe quebrar da mesma forma que Irene havia quebrado, ou talvez pior... não dê oportunidade para que você quebre Molly Hooper. Ela não merecia, ele não merecia, e isso provavelmente era algo já condenado a cicatrizes.

Ele a amava e ela o amava, mas isso não iria evitar o inevitável final disso.

Sherlock começou a ficar nervoso e irritado. Ele não queria se sentir assim. Ele queria não ser tão racional e poder deduzir todo o possível futuro entre Molly e ele, mas era quase impossível para uma pessoa como ele não fazer isso.

Sherlock deixou a sala furioso por causa dos seus pensamentos, mas assim que entrou em seu quarto sua mente acalmou e ele não pode evitar admirar a pequena mulher que dormia calmamente em sua cama. Toda a lógica e lembranças horríveis sobre o seu passado sumiram quando ele viu o rosto calmo e relaxado de Molly.

Sherlock se aproximou em silêncio mais uma vez dela, se agachou no chão e aproximou do rosto dela para analisar cada traço e escovar seu dedo pelo seu rosto. Ela era perfeita. Ele sem dúvidas a amava, e Molly nunca seria capaz de machuca-lo, não de proposito, não como a Mulher fez. Sherlock precisava de Molly desesperadamente, e ele quis negar a logica que dizia que eles não iriam dar certo. Eles não iriam, mas mesmo assim Sherlock a queria mais do que tudo.

Sem pensar mais nisso ele foi para debaixo do lençol e puxou possessivamente o corpo de Molly contra o seu mais uma vez. Com a cabeça enterrada entre o pescoço e o ombro dela, Sherlock respirou fundo o doce cheiro inebriante que vinha dela. Por maior que fosse seu medo ele não queria a deixar ir embora. Nem que fosse só por agora, só por poucos momentos antes de tudo dar errado.

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O seu sonho foi assustador. Por um momento Sherlock acordou desesperado com medo de Molly ter ido embora, de ela não estar ali, assim como ela tinha ido embora no seu sonho. Ele se afastou para conferir a presença dela ali. Um sorriso bobo atravessou seus lábios e ele achou engraçado ela fingir estar dormindo. Ela estava com medo ainda, o mesmo medo que ele tinha. Contudo, Sherlock não ia pensar nisso e também não ia deixar Molly pensar nisso.

Pelo menos não por agora. Agora ele só a queria.

Foi algo novo para ele, passar a tarde toda fazendo absolutamente nada com alguém. Algumas vezes ele tinha ficado entediado a tarde toda enquanto John perdia tempo atualizando aquele maldito blog, mas com Molly era diferente. Ele realmente se via interessado em passar tempo com ela! Essa ideia não aprecia nem um pouco chata ou monótona, muito pelo contrário, cada palavra dela lhe prendia atenção, cada ação e cada olhar.

Cada momento com ela parecia diferente de tudo aquilo que ele já havia experimentado. Ele estava realmente adorando a ideia de pode conhecer Molly e pode passar um tempo de qualidade com ela, mesmo que fosse para fazer nada.

“Eu queria saber o que você pensa”

Sherlock achou intrigante não ser capaz mais de ler Molly. O detetive ainda conseguia ver o básico de suas expressões, porém a mente dela viajava toda hora para algum lugar, e ele daria tudo para descobrir cada um dos pensamentos dela.

Foi quando ele teve a ideia.

Ele podia ser sincero, e não via problema algum em responder as perguntas dela. Já havia respondido uma vez, não? Só que agora Sherlock não queria desafios em troca. Ele queria as verdades dela. Queria entender um pouco dela, de uma forma que ele nunca parou para entender.

No começo ele realmente não viu nenhum problema. Ela iria perguntar o mesmo tipo de pergunta que ela havia feito no ultimo jogo deles. Pelo menos era o que ele esperava. Porém quando Molly começou a perguntar, Sherlock começou a se sentir inconfortável. Não eram perguntas sobre ele, como foi da primeira vez. Eram perguntas sobre ela. Sobre o que ele sentia por ela.

Sherlock queria ser sincero, ele estava se esforçando para isso, pois ele queria que ela também fosse. Mas a cada pergunta que ela fazia, ele se sentia mais e mais acuado pelos sentimentos que tinha por ela e pelo medo que ainda se fazia presente. Isso não foi o que ele planejou, não queria pensar nisso agora, pois sabia que ia chegar à mesma conclusão que havia chegado de madrugada. E ele também não queria admitir para ela que a amava; ele não queria ficar vulnerável.

Dava para ver que Molly estava preocupada com o jeito com que ele respondia, mas Sherlock estava tentado ao máximo afastar qualquer emoção para poder responder.

Em sua mente só vinha o medo de se expor do mesmo modo que ele se expôs para a Mulher. Por mais que ele soubesse que Molly era totalmente diferente dela, ele sabia que isso seria o fim da linha para ele. Ele não podia, não queria, permitir que ela chegasse tão próximo dele.

Não agora. Ele não estava preparado, e talvez nunca estivesse.

Tudo piorou quando a voz de John ecoou pelo lugar. O médico não podia ver Sherlock com Molly. Simplesmente não podia! Seu amigo com certeza ia saber que ele sentia algo pela patologista no momento que visse ela ali.

Sem pensar duas vezes ele a expulsou. E quando John pareceu no apartamento, Sherlock tentou agir o mais normal possível, tendo como único objetivo expulsar o amigo logo do local.

“Hey! Como você está?” John entrou no apartamento e Sherlock estava parado no corredor pesando na garota escondida em seu quarto. Ele só notou o que John tinha falado quando percebeu que o amigo estava parado em sua frente esperando uma resposta já por algum tempo. “Bem, bem, bem! Como está Mary e Ellie?”

“Está tudo ok.” O médico respondeu um pouco desconfiado com jeito estranho que Sherlock tinha respondido.

“Hmm. Então por que você está aqui?”

“Eu vim te visitar-” O médico já tinha se estabelecido em sua poltrona para relaxar. Sherlock deduziu rápido que ele estava cansado por ter passado a noite em claro, provavelmente cuidando de Ellie. Devia estar em Baker Street por que queria sair um pouco da casa, talvez fazer algo diferente de trocar fraldas, “algum problema?” John perguntou mais uma vez desconfiado.

“Não! Não, não. Nenhum, eu só–” Sherlock se sentou em frente o amigo e percebeu que não estava agindo muito normal. Isso não era bom, pois John tinha uma grande tendência em ficar preocupado quando ele não parecia normal, “prefiro ficar sozinho.”

“Alguma coisa errada?”

“Não John. Estaria errado se eu não quisesse ficar sozinho.”

“Tem certeza? Você está assim ainda por causa da Molly?”

“Por que estaria? Ela não fez nada.” Sherlock rolou os olhos não acreditando que John estava querendo conversar sobre Molly enquanto ela estava trancada em seu quarto. Provavelmente Mary contou o que Molly falou para ela, e agora ele tinha vindo checar o amigo... Que perfeito!

“Você conversou com ela ontem?”

“Não.” Sua resposta veio seca.

“Por que não? Vocês dois deveriam– ”

“Eu não tenho nada para conversar com ela, John! Ela não me deve nada e muito menos eu á ela. E melhor para os dois que ignoremos um ao outro.” Sua resposta seca cortou o amigo e assunto sobre a patologista acabou ali.

John ainda ficou no apartamento puxando assunto por mais algum tempo. Algumas histórias antigas sobre Ellie, que ele já havia ouvido antes, outras coisas sobre o trabalho, e até uma tentativa de fazê-lo pegar um caso para que ele tivesse o que fazer. Sherlock devia estar muito estranho, por John não parava de sugerir coisas e não parecia querer deixa-lo sozinho. O médico estava preocupado com o amigo, mas mesmo assim Sherlock conseguiu expulsá-lo.

Durante toda conversa Sherlock só conseguiu pensar em Molly. Ele não era um especialista em mulher, mas nessa altura ele já sabia que não ia ser um clima muito agradável quando ela saísse do seu quarto. Ele não tinha pesando quando agiu, mas agora sabia que as coisas não iam ficar nem um pouco bem.

Quando ela saiu do quarto com raiva, Sherlock tinha certeza que tudo ia acabar ali. Respirando fundo ele montou sua mascara impassível mais uma vez e tentou tomar o controle da situação. Uma cosia que ele sabia que não ia conseguir.

Cada pergunta, cada acusação, o colocava mais distante. Sherlock tinha vontade de falar, colocar as coisas para fora e responder as pergunta com o sentimento que tinha, da maneira que uma parte de si tinha vontade de responder. Ele sabia que estava perdendo Molly naquele momento, mas a sua racionalidade falava alto: ‘Antes agora do que depois, quando você estiver muito mais envolvido nisso;, ‘Agora não vai machucar’; ‘Você não vai se permitir ficar vulnerável e tudo vai acabar do jeito que tem que acabar, só que com muita dor evitada.’

Sua decisão foi clara: melhor agora!

“(...) Você me ama?” o coração dele perdeu uma batida e o ar ficou escasso. Ela olhava para ele de um modo em que Sherlock podia ver toda dor que ele estava a causando. Por um momento ele desejou levantar da cadeira e abraça-la bem forte e finalmente tomar coragem para responder essa pergunta. Uma pergunta que ele acha que ela não tinha coragem para fazer, mas agora que fez.

O silêncio respondeu por ele.

Sherlock assistiu Molly sair de sua vida, no que ele acreditava ser para sempre. Mais uma vez sua mente repetiu para si que era melhor assim, mas o coração dele respondeu alto que não estava nem um pouco melhor.

Sherlock resistiu à tentação de correr atrás dela mais uma vez e a impedir que saísse do apartamento. Essa era a escolha lógica e racional e ele era um homem lógico e racional. Molly Hooper não ia mudar isso! Pelo menos era isso que ele queria.

______________________

Só havia um jeito de preencher seu tempo: casos!

A ideia de drogas lhe soou absurda pela primeira vez e Sherlock não queria recorrer a isso. Ele não ia substituir um vício por outro, não adiantava, pelo menos não quando o seu outro vício era Hooper. O que ele precisava era se manter ativo, tirar sua mente de qualquer sentimento tolo e superar o que tinha acontecido.

John não podia acompanha-lo em todas as aventuras, e para falar a verdade Sherlock deixou de chama-lo diversas vezes, visto que depois de um tempo o amigo começou a falar que ele estava fazendo insanidades por alguns casos. O detetive discordava completamente, ele estava perfeitamente normal! John que tinha ficado caseiro e não conseguia mais manter seu ritmo.

Sherlock podia negar, mas ele realmente começou a fazer alguns absurdos. Alguns casos que ele estava aceitando não faziam parte do padrão ‘normal de casos’. Grande parte deles envolvia brigas, tiros, perseguições, ações perigosas, pessoas perigosas e situações completamente sem sentido e muita exposição ao perigo. O detetive não conseguia ver isso, mas ele estava obcecado por adrenalina.

Esse era o seu modo de manter a mente longe de tudo, e impedir que seus sentimentos fossem ouvidos mais uma vez. Manter-se ocupado era a saída, e apenas os casos que o faziam se sentir vivo eram os que conseguiam lhe fazer tirar a mente e esquecer de Molly.

Sherlock não contou para John, mas ele só pegava esses tipos de casos por que nas noites em que ele não tinha absolutamente nada para fazer, ou ninguém para conversar, a única coisa que ele sentia era vontade de ligar para Molly.

Isso não estava certo, não era para ele se sentir assim. O detetive se recusava a se sentir assim, pois falava para si mesmo que ele não tinha se permitido ficar vulnerável por ela. Nas piores noites Sherlock descobria que ele que não se salvou, que era tarde demais já para falar que não ia se tornar vulnerável.

Quando Molly saiu pela aquela porta já era tarde demais.

Não havia como não amá-la mais.

Por isso Sherlock precisava focar em outra coisa. Doía toda hora em que sua mente parava de trabalhar e os sentimentos vinham átona. Doía mais do que a bala que havia se alojado em sua coxa depois de dois meses sem a patologista.

Quando isso aconteceu Sherlock teve que parar com seu ritmo intenso de adrenalina. Não podia sair do hospital logo depois da cirurgia e volta a resolver crimes, e até que ele não achou tão ruim ficar no hospital, por que com a morfina que eles davam para ele, era perfeitamente possível dormir sem antes pensar no que nos últimos dois meses estava sendo inevitável pensar.

Por isso Sherlock avisou para John não falar nada sobre o seu acidente para Molly. Ele conhecia a mulher e ela não pensaria duas vezes em ir visita-lo. Porém ele não queria isso, ele não estava preparado para isso. Sherlock só queria por um tempo aproveitar a pequena paz que o hospital estava conseguindo lhe trazer.

Mas Molly apareceu.

Seu primeiro pensamento foi vago. Sua mente ficou branca por um momento e ele não sabia o que fazer ou o que falar. Ele só conseguia a olhar como se ela fosse um ‘fantasma do natal passado’ que tinha vindo cobrar coisas dele. Sherlock realmente se viu perdido.

Seu segundo pensamento foi muito mais consistente: matar os Watson’s.

Ele estava nervoso, não havia como não ficar. Por mais que tentasse, Sherlock não conseguia deduzir nada ou ler qualquer coisa no rosto dela. Isso já não estava sendo tanto uma novidade, mas naquele momento era muito desesperador não saber. Era mais assustador do que o normal, pois ela podia fazer coisas que ele não estaria preparado para receber.

O clima tranquilo e amigável que Molly criou entre eles não era algo verdadeiro. Ambos sabiam disso, e Sherlock sabia que ela queria falar algo. Molly não estava ali para fazer piadas sobre ele estar internado de novo, por mais que ele achasse agradável que ela fizesse, não era por isso que ela estava lá.

Palavras podiam doer. Sherlock não estava acostumado com esse tipo de dor, e quando Molly começou a falar sobre as coisas entre eles, sobre como ela se sentia a respeito disso, ele tentou ficar firme na sua postura distante. Contudo a cada coisa que Molly dizia, Sherlock sentia um nó se formar em sua garganta, e seu controle sobre suas emoções parecia uma missão quase que impossível.

Não demorou muito para ele entender onde isso tudo ia terminar, no que ela realmente queria falar, e por isso Sherlock se forçou mais ainda a se manter frio.

Molly já havia lhe abandonado a 2 meses atrás. Só que agora ela estava desistindo de vez dele. Molly estava falando que ela estava abrindo mão disso tudo, que ela estava cansada disso e que sabia que ele nunca iria responder ao sentimento dela do modo que ela desejava.

Era coisa certa a se fazer, ele não esperava por isso, mas Molly estava sendo racional. Porém Sherlock não esperava que isso fosse lhe machucar tanto.

Sherlock nunca pensou que ele seria capaz de ter tanto sentimento assim por alguém. E quando Molly foi embora, com aquelas ultimas palavras, ele não quis admitir por algum tempo, mas ela tinha levado seu coração junto.

Ele não a merecia; e ele não podia deixa isso lhe tornar fraco.

Mesmo assim Sherlock não conseguiu evitar as lagrimas que foram mais fortes pela primeira vez em muito tempo. Quando Molly saiu, Sherlock finalmente deixou um pouco do que sentia sair do lugar de onde ele escondia, e as lagrimas vieram sem nenhum esforço.

Ele perdeu Molly. Uma hora isso ia acontecer.

______________________

John a Mary apareceram no outro dia com Ellie. Eles iam lhe visitar pelos menos umas três vezes por semana, às vezes até mais. Essa era a segunda vez naquela semana, e nenhuns dos Watson’s foram muito bem recebidos.

“Hey companheiro! Como estamos hoje?” John perguntou enquanto colocava Ellie no chão para a que ela andasse pelo quarto.

“Irritado com vocês!” Sherlock cuspiu a resposta raivoso, “Tirando a Ellie...”

“Por que querido?” Mary riu achando engraçada a atitude, e se sentou ao seu lado.

“Bem, algo haver com Molly aparecer aqui, mesmo quando eu pedi para que ninguém falasse nada.” Ele dizia ironicamente e Mary podia quase ver uma espuma de raiva se formando em sua boca. Se fossem animais, Sherlock já tinha atacado os dois, “Algo vem a mente de vocês?”

“Oh, isto–” Mary disse já se sentindo culpada quando o quarto todo voltou á atenção para um barulho estridente de um pote de alumínio caindo no chão.

Os três adultos olhavam para uma pequena criança que não conseguia conter o riso por causa do barulho que ela fez. No chão estava uma bacia de alumínio e do lado uma menina culpada. A cena era em si era muito engraçada, e Sherlock até deixou um riso escapar quando viu a cara malandra de Ellie.

“Ok! Você toma conta daquela criança” Mary falou para John apontando para Ellie e depois apontou para Sherlock. “que eu tomo conta desta.”

“Por que eu sempre tenho que ficar com a que grita e quebras as coisas em volta?” O médico protestou.

“Você quer trocar? Quer ficar aqui conversando com ele enquanto eu vou brincar com a Ellie?”

Mary respondeu ironicamente o marido, esperando que a mente dele funcionasse logo. Ele tinha que escolher entre distrair Ellie do lado de fora ou ter que conversar com Sherlock . O detetive não teve muitas chances na escolha, “Vem com o papai Ellie! Vamos lá fora brincar!” John pegou a menina no colo sem pensar muito e saiu o mais rápido que podia, já sabendo o quanto Mary iria falar na cabeça do amigo.

Na saída, aproveitado que Mary estava de costas para a porta, John fez um joia para Sherlock e gesticulou com a boca um ‘Boa Sorte’. Não iria ser uma conversa muito boa.

“Então,” Mary começou, “ela veio te visitar?"

“Graças aos meus melhores amigos...”

“Vocês conversaram?”

“Nós não tínhamos nada para conversar.” Ele respondia seco e irônico.

“Por favor Sherlock... Achei que já tínhamos passado dessa fase onde você achava que podia mentir para mim.” Sherlock voltou o olhar para a loira e ela sorria para ele. De fato era um pouco mais difícil mentir para Mary do que para os outros. Ela era esperta que nem e ele, e quando se tratava de sentimentos ela parecia ser capaz de ver através dele, “Eu sei que há algo de errado entre você dois. E que ambos estão evitando isso.”

“Estávamos.”

“Então vocês se resolveram?”

“Ela resolveu os problemas dela.” Sherlock fugiu o olhar para os monitores do outro lado, tentando ficar indiferente ao se lembrar do que Molly tinha dito.

“E você não?”

“Eu não tenho problemas com ela.”

“Que mentira!” A loira acusou Sherlock e ele a olhou surpreso. “Pare de fingir Sherlock! Apenas pare.” Ela o fitou nos olhos e o detetive temeu pelo que ela poderia estar lendo dele, “Eu não sei bem o que há entre vocês, mas dessa vez parece ser bem sério. Então não se comporte como uma criança. Não tente ser o que você não é! Por mais que você queria negar ou fingir que não existe, os seus sentimentos por Molly são reais.”

“Eu sou diferente Mary.” O detetive não esperava aquelas palavras, mas mesmo assim não se deixou tocar, “Eu não sinto ‘sentimento’. Eu sinto curiosidade e às vezes desejo, mas esse é o máximo que eu sou capaz.”

“Não é verdade.” A voz de Mary era suave contra a agressiva e sarcástica de Sherlock.

“Como você poderia saber disso?”

“Por que nós somos iguais...”

“Isso é um abs-” Antes que ele tivesse a oportunidade de atacar Mary pegou sua mão e cortou sua fala.

“Você e eu afastamos, por muito tempo, todos que tentaram se aproximar. Nós tentamos cada vez mais esconder qualquer tipo de sentimento por causa do tipo de vida que escolhemos ter.” Sherlock ficou um pouco nervoso, pois viu uma tristeza no olhar dela. Ele reconhecia essa tristeza, era bem familiar. “Nós não podemos nos permitir ter distrações, e muito menos podemos criar pontos fracos.” A voz de Mary era um pouco falha e Sherlock se viu nos olhos azuis dela. Ele nunca tinha olhado no espelho para ver qual era a sua aparência quando se sentia com medo ou frágil, mas com certeza era a mesma expressão que ele viu em Mary. “Eu sei como é não querer se tornar vulnerável, fraco, permitindo que alguém se aproxime.” Mary deu um sorriso triste “E eu ainda sei como é a dor de quando pessoas como nós permitimos pessoas como John e Molly se aproximar e depois nos machucar.”

Sherlock se lembrou de como Mary ficou quando ele e John descobriram sobre ela. Seu amigo ficou praticamente meses morando em Baker Street, evitando falar ou encontrar com a sua mulher, praticamente a abandonado gravida por um longo período. O detetive sabia que John sentia saudades dela, e que se preocupava muito com o estado dela e do bebe. Mas ele estava machucado, e por alguma razão fazia sentido ele se manter longe, mesmo se isso o machucasse mais.

Pessoas como John e Molly se machucavam fácil, ainda mais quando rodeados por pessoas como Sherlock e Mary. Porém só os dois sabiam o quanto pessoas como eles podiam ser machucados profundamente por esses sentimentos cativados.

“Eu fiquei mais do que perdida quando John e eu brigamos. O medo de ele me deixar foi assustador.” Sherlock sentiu um nó da garganta, o mesmo que sentiu quando viu pela ultima vez Molly. Ele sabia o quanto isso era assustador, “Meu amor por John é minha fraqueza. Qualquer um pode me machucar, e me machucaram, usando ele. Pessoas como nós aprendemos a muito tempo que somos mais fortes sozinhos.”

Isso era verdade. Ele viva muito melhor sozinho, isso até se permitir sentir algo por Molly Hooper.

“Mas não há nada Sherlock, nem mesmo o medo ou a possível dor, se que se compare a sensação que eu tenho toda vez que eu acordo e vejo John ao meu lado.” Mary apertou a mão dele e o sorriso dela agora era feliz. Ele sabia que John era a vida dela, que ela faria tudo por ele. Porém só agora Sherlock entendeu o sentimento que ela tinha! Quando Mary falou isso, ele se lembrou de como foi acordar ao lado de Molly. De perceber que pela primeira vez a mulher ao seu lado não era um sonho, e se permitir por um momento ser feliz por ter um sentimento forte por ela, “A vida só faz realmente sentido quando ela é compartilhada com alguém! Quando permitimos os sentimentos falarem alto uma única vez. Por mais que ele possa quebrar meu coração a qualquer momento... não há nada que se compare a sensação de estar junto á ele.”

Não há nada que se compare a sensação de estar ao lado de Molly.

Sherlock apertou a mão de Mary de volta e abaixou os olhos para tentar evitar com que ela visse seus olhos marejados. Engraçado que ele havia conseguido segurar isso quando estava com Molly, porém Mary estava o expondo. Alguém pela primeira vez despiu Sherlock Holmes a fundo e estava conseguido ler o que ele costumava esconder apenas para si.

Mary era que nem ele.

“Você deveria se permitir essa felicidade. Isso não te faz mais ou menos humano, se é isso que te preocupa. Isso te faz completo Sherlock.”

“Eu não posso Mary.” Ele tropeçou em algumas palavras e não conseguia achar voz para falar, “Eu não posso me expor–eu não sou capaz de me expor assim.” Sherlock tentava se manter o mais firme que conseguia, mas isso já não era sua expressão impassível. Seu único objetivo agora era evitar as lágrimas, “Ela apenas vai me machucar, e eu á ela.”

Sherlock sabia que Mary tinha o mesmo medo que ele tinha a respeito dos sentimentos, mas ainda sim eles tinham diferenças. Sherlock nunca ia se permitir, pois ele sempre achou que nunca fosse capaz de saber lidar com tudo isso. “Não há nada em mim que possa fazer bem à ela. Por mais que eu sinta algo, eu não vou conseguir ser quem ela precisa e ela não vai aguentar. Eu só sou escuridão”

“E talvez ela seja a luz...” Mary respondeu o detetive de imediato. “Não subestime Molly, nem o que você sente por ela.” Ela levou uma mão ao rosto de Sherlock e enxugou uma lágrima que ele nem tinha percebido cair, “Ela pode te machucar sim... mas a falta dela é melhor do que o risco?”

_________________

A família Watson não demorou muito para ir embora. Depois que John entrou no quarto e ficou questionando por que exatamente os olhos de Sherlock estavam vermelhos, Mary decidiu que era hora de dar um descanso para o detetive. Deixar que ele tivesse um tempo sozinho para pensar, sem que John ficasse enchendo de perguntas.

Já era final de tarde quando Holmes conseguiu ficar sozinho, mas dessa vez ele não sentia mais paz. Desde que Molly tinha ido lhe visitar ele não encontrava mais a calma que a morfina tinha conseguido lhe fornecer por um tempo. Só que agora a falta de paz era um pouco pior, por que Sherlock não conseguia parar de pensar nas coisas que Mary havia lhe dito.

Ficar sem Hooper era melhor do que arriscar?

Sherlock recusava a ideia de se abrir para alguém por que ele não sabia lidar bem com sentimentos, e por sua experiência, tudo sempre acabava muito mal. Se manter distante daqueles que podiam o machucar sempre foi sua estratégia. Seu modo de continuar vivo no mundo sem todos os ridículos sentimentos e sem as possíveis dores que alguém poderia lhe causar.

Holmes não era uma pessoa que podia ser amada ou poderia amar. Por toda sua vida, Sherlock acreditou nisso. Era um pouco impossível a ideia de alguém o amar por completo, aceitando toda a sua personalidade estranha, como também era impossível ele ser capaz de gostar de alguém acima de si mesmo. Era improvável ele trocar o sua barreira por algum sentimento, ou deixar que alguém o ferisse por causa disso.

Contudo era também impossível negar que Sherlock já estava ferido.

Por mais que ele ficasse repassando em sua mente como ele deveria agir, como ele sempre foi sozinho e como a vida devia ser melhor se ele se mantivesse distante dos sentimentos, Sherlock já não estava distante.

Era impossível negar que ele já havia permitido Molly se aproximar o bastante para que a saída dela de sua vida doesse mais do que o medo de se permitir estar com ela. Molly já havia quebrado essa barreira a tempo! Sherlock sabia que a amava, mas só agora ele notou que era impossível voltar atrás com esse sentimento.

Molly Hooper já havia mostrado ao detetive como era realmente se importar com alguém. Ela se tornou mais do que vulnerável por ele; ela nunca negou que ele era seu ponto fraco. Então seria tão ruim assim admitir que ela era o dele?

Ele poderia se machucar! Poderia ser muito feio, uma ferida que talvez fosse incapaz de curar. Mas a vida seria um inferno sem ela. A vida sem esse sentimento não teria mais sentido.

A vida sem Molly Hooper já o machucava mais do qualquer outra coisa.

Não valia apena rejeitar o amor dela para se manter seguro, pois ele não estava mais seguro. Nunca mais estaria.

Uma vez que conseguiu responder essa pergunta Sherlock não precisou pensar duas vezes. Já iria virar costume, e provavelmente da próxima vez em que ele fosse internado o hospital ia mandar prender seus pulsos no leito, mas o detetive já estava se arrumando para sair dali mesmo sem alta.

Sua perna já estava melhor, não estava 100% por cento, mas ele não ia perder mais tempo ali remoendo a dor física com a dor sentimental. Pelo menos uma delas ele era capaz de resolver agora, ou pelo menos tentar resolver.

Holmes saiu em disparado do quarto, e nem deu ouvidos para uma das enfermeiras que o reconheceu. “Senhor– ” e mulher tentou chamar sua atenção “Senhor, você não pode sair assim...”

“Jura? Observe então!” Sherlock deixou a mulher estática sozinha enquanto abandonava o prédio. Ele tinha pouco tempo até que John fosse alertado e começasse a ficar preocupado, logo ele tinha que fazer o que queria sem perder tempo e sem pensar bem naquilo.

_____________

O tempo em Londres estava muito feio. Nuvens cinzas e carregadas pairavam por todo o céu e não havia nenhuma uma nuvem amena no horizonte. A chuva começou a cair quando Molly colocou o pé para fora do hospital, e ela se agradeceu mentalmente por não ter tirado a sombrinha da bolsa.

O expediente de Molly havia acabado mais cedo que o normal. Era estranho, mas parecia que menos pessoas morriam quando Sherlock não estava disponível para poder analisar os casos, ou isso era apenas uma estranha coincidência mesmo. A patologista não ficou nem um pouco chateada por ter um tempo a mais para ficar em casa desancando, então no momento em que conseguiu se livrar de todos os fazeres, Molly foi direto para casa.

O azar foi de Sherlock ao tomar o primeiro táxi que encontrou na rua e ir direito para o Hospital Barts sem antes mesmo procurar saber onde Molly estaria.

Ele procurou a mulher em todos os cantos do local. Ele sabia que sua perna já estava doendo mais do que deveria, mas ele não conseguia focar na dor. Toda a sua atenção e energia estavam direcionadas a encontrar Molly Hooper.

“Sherlock?” Molly equilibrou o guarda-chuva em uma mão e com a outra atendeu o celular. Ela estranhou quando viu o seu telefone tocando com o nome dele na tela. Primeiro que o detetive nunca ligava, sempre eram mensagens de texto. Segundo que por qual razão ele estaria ligando para ela? Será que aconteceu algo de errado com ele no hospital?

“Onde você está?” Ele perguntou impaciente.

“Indo para casa.. Por que? Aconteceu algo? Você quer que eu passe ai?” Molly começou a ficar preocupada.

“Está tomando o caminho que você sempre toma?”

“Sim” ela estranhou a pergunta, “Por que, Sherlock?”

“Onde exatamente você está?” Molly podia ouvir a voz dele ofegante e o barulho do fundo tinha mudado. Sherlock agora parecia estar na rua e parecia estar correndo.

“O que está acontecendo?” Ela soou mais preocupada.

“Dá para você me responder?!”

“Não!” ela ficou irritada, “Que merda está acontecendo! Onde você está Sherlock?”

“Por favor, Molly–”

“Você está me deixando preocupada.” A essa altura da conversa Molly já havia arado no meio da calçada e as poucas pessoas que passavam correndo pela chuva a encaram estranhamente. Apesar de estar protegida não era normal ficar parada no meio da chuva, “Me diz o que está acontecendo.”. Sherlock não respondia, ela sabia que ele ainda está na linha por que podia ouvir sua pesada e longa respiração através do aparelho, “Onde você está?”

Ela teve que esperar alguns segundos a mais para ouvir o barítono dele de novo

“Atrás de você.” Sherlock soltou a frase recuperando a respiração.

No mesmo momento Molly olhou para trás e encontrou um Holmes molhado parado um pouco distante, na esquina da rua, a olhando enquanto o peito subia e abaixava numa frequência rápida tentando fazer com que a respiração voltasse ao normal.

Ela ficou sem reação. Seus olhos arregalaram, seu coração disparou e sua mente ficou em branco quando o viu cobrir a distancia que os separavam rapidamente. Mais de perto ela podia ver os cachos grudados na testa dele, o sobretudo pesado de agua e a camisa social roxa colado em sei peito.

“Você ficou doido?!” foi a primeira coisa que ela pensou. Na verdade a segunda, a primeira foi em como era possível a chuva o deixar mais sexy, “O que você está fazendo aqui? Você deveria estar no hospital!”

“Eu me dei alta. Já estou bem melhor.” Sherlock respondeu brincando com um sorriso no rosto.

“Vem, vamos sair da chuva.” Ela se virou já procurando uma marquise ou algum lugar onde eles poderiam se abrigar, quando a mão dele segurou o seu pulso e a impediu de se mover.

“Eu preciso falar com você!”

“Nós podemos conversar outra hora. A nossa prioridade agora é tirar essas suas roupas molhadas antes que você fique doente!” Molly ignorou mentalmente o duplo sentido daquela frase.

“Não!” Sherlock dessa vez foi firme e segurou seu pulso mais forte, determinado a fazer o que queria fazer, pouco se importando com a chuva que caia sobre si, “Minha prioridade não é essa! Minha prioridade é você agora.”

“Do que você está falando?”

“Apenas me ouça, ok?”

“Sherlock isso é loucu– ”

“Você me deve isso!” Ele pediu sério, e seu olhar implorava para Molly permitir que ele falasse, “Você me deve 10 perguntas! Tudo que eu te peço é apenas que me ouça.”

Molly ficou receosa. Seu nervosismo não era apenas por que ela estava parada no meio da rua, com uma chuva sobre os dois e como Sherlock arriscando a sua saúde, e com grandes possibilidades de pegar uma pneumonia. Por incrível que apreça isso não era o maior problema agora. Sherlock tinha saído do hospital, atravessado o centro de Londres e havia corrido pelo menos 3 quarteirões apenas para alcança-la. O que quer que fosse tão importante assim talvez ela não quisesse ouvir. Ela teve medo de ouvir.

Mas mesmo assim Molly concordou lentamente com a cabeça.

Os olhos azuis dele a fitaram intensamente por um momento tomando de vez a coragem eu precisava para falar, “Eu não sei como as pessoas geralmente falam isso. Eu nunca achei que eu teria que procurar palavras e alguma vez falar sobre isso em voz alta... para outra pessoa.” Molly podia sentir o nervosismo dele, mas apesar disso dessa vez ela não estava fugindo o olhar, “Mas eu percebi que não podia deixar você falar tudo aquilo, não só o que você disse no hospital, mas nesses ultimas meses, e simplesmente ir embora. Demorou para eu perceber que eu tinha que falar com você, que eu tinha que ser sincero.” Sherlock tropeçava em algumas palavras e tentava pensar exatamente no que falar e em como falar. “Eu não sei se é tarde demais para isso. Contudo eu agora sei que não serei capaz de continuar se eu não te falar essas coisas.” Ele explicou um pouco preocupado com a possibilidade de ela lhe dar as costas e nunca mais querer o ver, e apesar das pequenas pausas que ele tomava para respirar Molly não perdia a atenção, “Eu não sei se seriei capaz de continuar sem você.”

A boca que Molly se abriu surpresa ou ouvir o que Sherlock tinha dito, mas ela não conseguiu falar nada. A cor dela parecia ter sumido, e Molly começou a parecer uma estatua parada no meio da calçada. Ele ficou preocupado com essa reação só que não deixou de continuar falando.

“A verdade Molly é que eu sou uma confusão. Sentimentos me aterrorizam e me fazem sentir fraco, vulnerável e inferior àquilo que eu acredito ser ‘perfeito’.” A chuva cai forte em cima dele, mas não parecia ter nada além dos olhos castanhos naquele momento, “Principalmente o amor. Eu sempre achei que o maior erro que alguém podia cometer era amar alguém. E eu ainda acho que é!” Sherlock riu um pouco nervoso, notando que o que ele estava falando muitas coisas sem sentido, “Amor é permitir as defesas caírem, e isso é completamente assustador para mim.” Ele tentou explicar, mas cada vez mais se enrolava com as palavras. Molly se impressionou com a possibilidade de Sherlock algumas vez ter problemas para falar.

“Mas eu não posso negar que eu te amo.” Ele decidiu falar de uma vez só, pegando a mão dela em um ato meio que desesperado, “Uma parte de mim quis, mais do que tudo, que eu não amasse. Uma parte de mim quis que você fosse embora e que esse sentimento sumisse! Mas essa parte é muito pequena comparada a parte de mim que implora por você.”

Molly arrepiou com o mero contato de sua mão com a pele molhada dele. Ela se sentia perdida, só conseguia ouvir as palavras dele, ela não conseguia raciocinar direito sobre isso. Sherlock Holmes estava se declarando para ela? Isso era verdade? Será que era um sonho de novo?

“Não posso negar que você ultrapassou todas as barreiras que eu coloquei, você quebrou todos os conceitos que eu tinha e todo o modo de vida que eu prezava. Você me descontruiu como ninguém jamais fez.” Ele sorriu ternamente para ela, “E eu não posso mais viver sem você.”

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Os corações de ambos estavam acelerados, e apesar do vento frio que atravessa Londres o corpo dos dois estava em uma temperatura absurda. O que era estranho principalmente para Holmes, que estava de baixo de uma chuva gelada.

“Todas as merdas que eu fiz, e todas as coisas que eu falei... ou não falei, foram por que eu não queria admitir que isso estava acontecendo, que eu estava permitindo você se aproximar de mim.” Sherlock apertou os lábios em uma linha fina e soltou um suspiro, “Mas a verdade era que você já estava mais próxima do que eu podia enxergar. Você sempre fez parte de mim, e só quando eu senti a dor de te perder aquela dia no hospital que eu pude notar isso.” Molly não notou isso, mas ela estava apertando forte a mão dele, e ficava cada vez mais tensa quando ele parava de falar, “Não adianta mais eu me esconder de você. Não tem como eu voltar atrás e me proteger do que eu sinto por você... e para falar a verdade eu nem quero.”

Sherlock se aproximou mais dela, agora ficando um pouco debaixo do guarda-chuva, e levou a outra mão para acariciar o rosto dela. Ele nunca ia esquecer como a pele dela era macia e suave, como ela era perfeita em todos os sentidos. E quando ela sorriu involuntariamente, em resposta ao toque dele, Sherlock pensou que talvez ela fosse mais do que perfeita.

“Molly eu realmente sou uma confusão! Eu não costumo me abrir para as pessoas, e eu não faço a mínima ideia de como é estar em um relacionamento.” Ele sabia que um relacionamento com ele era algo muito difícil e talvez Molly não estivesse tão disposta assim, “Eu sou ignorante, insensível, frio, egocêntrico e possuo tantos outros defeitos que você já conhece. Eu estou acostumando a ficar sozinho, e as vezes minha vida e minha personalidade é obscura.” Ele não tinha medo só por si, mas também por ela. “O que eu sinto por você me assusta de uma forma que eu não sei explicar. Eu tenho medo de me machucar. Talvez te machucar. Mas não há nada que me faça desistir de você agora. Nem mesmo esse medo.”

Sherlock pode ver os olhos dela brilharem mais uma vez. Os olhos de Molly estavam marejados e o sorriso que ele conseguiu arrancar dela desde o começo da conversa não conseguia ser desfeito.

Era muito estranho tudo isso, para ambos. Era algo difícil de acreditar, mas realmente estava acontecendo. Molly também amava aquele idiota molhado e horrível com declarações de amor. Ela queria esquecer Sherlock por que iria lhe poupar muita dor, mas tê-lo ali na sua frente falando tudo aquilo, era como se nada tivesse mudado.

Ela ainda ao amava do mesmo jeito.

“Eu não posso prometer que eu vou mudar, é quase impossível que eu perca todos esses meu defeitos e que eu vá ser uma pessoa totalmente diferente. Mas eu posso tentar ser o meu melhor por você. Eu posso, e estou disposto, a tentar de tudo para estar do seu lado, para te tentar fazer feliz. Se você apenas me aceitar, e me prometer que você vai cuidar bem do meu coração,” a mão dele caiu sobre o peito dele e ela levou uma das sobre a dele, olhando ternamente, “por que é isso que eu estou te entregando agora,” ele segurou a mão dela e apertou contra o seu corpo “eu sou capaz de qualquer coisa por você.”

Eles trocaram os olhares por alguns segundos, até que Sherlock falou mais uma vez sério, “Você me deve 10 perguntas! Mas eu troco todas elas por apenas uma.: Eu posso tentar merecer todo o amor que você sente por mim? Você me permite tentar?”

E sem mais uma palavra Molly o puxou para um beijo apaixonado. Os lábios frios dele roubaram todo o calor dos dela, e todo o seu corpo arrepiou quando ele entrelaçou os braços em volta dela, colando-a contra a sua roupa molhada. Ambos sentiam falta desse contado e dessa sensação. Ambos queriam um ao outro mais do que qualquer outra coisa.

Esse era o modo de Molly falar que sim, ela permitia. Que na verdade ele nunca desmereceu.

No meio da confusão de lábios, braços e corpos se agarrando, no meio da rua, o que seria muito estranho se ela estivesse com muita gente, a mão de Molly vacilou ao segurar o guarda-chuva, e antes que ela pudesse agir, ele já tinha voado com o vento forte da chuva.

Molly soltou um pequeno grito contra a boca de Sherlock quando sentiu a agua gelada sobre a sua cabeça e ele riu, afastando o rosto de dela para poder lhe encarar.

“Então isso foi um sim?” Ele disse em um tom irônico, levanto inutilmente o seu sobretudo molhado sobre a cabeça dela, tentando impedir a chuva.

“Isso foi um talvez” ela respondeu no mesmo tom, “Eu não sou tão fácil assim.” Molly riu e se aninhou mais no pequeno abrigo que ele tentava fornecer.

“Tem algo que eu possa fazer para tornar esse ‘talvez’ em um ‘sim’?”

“Sim... um pouco mais disso, e talvez eu mude de ideia.” Ela mal terminou a frase e já o beijo mais uma vez, procurando seus lábios com urgência. Sherlock respondeu ao beijo da mesma maneira, mas quebrando o contato só para olhar no fundo dos olhos dela e falar mais uma vez, agora com toda a certeza do mundo e sem nenhuma dor no coração, “Eu te amo demais Molly.”

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