Bored.

1 Capítulo Único.


Do Diário de John Watson.

Era noite quando cheguei do hospital, sem saber o que o 221B da Baker Street me reservava.

Abri a porta da sala, esperando ouvir tiros ou algo esdrúxulo do tipo. Apenas silêncio, quebrado pelo ruído de estática da televisão.

― Esse canal está fora do ar― observei.

Me arrependi logo depois. Comentários retóricos eram algo que precisava evitar em momentos como aquele.

― Brilhante dedução― ele murmurou entre dentes.

Estava largado no sofá, o roupão sobre o pijama amassado e os cabelos em desalinho. Eu não tinha ideia da última vez que ele tinha tomado banho ou ingerido algo além de cafeína e chá. A expressão desolada em seu rosto magro denunciava que ele já tinha ultrapassado os limites do tédio, e se entregava resignadamente ao próprio desespero.

― Quis dizer que você devia mudar de canal― disse sem muita paciência, indo até o aparelho e apertando o botão da força. ―Ou simplesmente desligar. É um barulho irritante.

― Ele me relaxa.

A voz veio abafada. Ele tinha se encolhido em concha no sofá como uma criança birrenta, sem dar maiores mostras de querer continuar a conversa. Liguei a televisão novamente e o deixei entregue à sua estranha terapia ocupacional.

Não me entendam mal, eu podia imaginar o sofrimento dele. Sabia que um cérebro tão incrível podia cobrar taxas cruéis se não estivesse em uso constante. Além do mais, um ex-combatente de guerra sabe como estímulos externos podem viciar o organismo de uma pessoa a estar sempre em ação. Portanto, não era empatia que me faltava ao lidar com meu colega de apartamento naqueles dias.

Era paciência mesmo.

E qualquer um que tenha uma mínima ideia de quem seja Sherlock Holmes pode entender do que estou falando.

Fazia pouco mais de um mês que as coisas em Londres andavam tranquilas. Bom para a população da cidade. Ruim para o detetive. Tudo o que eu temia era que Sherlock tivesse um ataque de euforia histérica quando finalmente Lestrade procurasse sua ajuda com um caso – as pessoas que o julgavam um maníaco teriam a mais perfeita prova disso.

Não que a opinião delas realmente tivesse algum valor para Sherlock. Talvez o conceito de reputação social fosse uma das coisas que ele tinha deletado de sua cabeça, ou que simplesmente escapavam ao seu entendimento.

Depois de um banho e de me aventurar na cozinha em busca de algo comestível que não tivesse vindo de um necrotério, voltei para a sala. Estava tudo revirado e de modo geral em completa desordem. Pilhas de jornais misturavam-se a béqueres e objetos indistintos que pareciam ter sido jogados a esmo pelo tapete. Apenas as paredes estavam intactas. Por precaução eu havia descarregado minha arma, e ao que parecia ele não tinha ido atrás de novas balas. Difícil saber se ele realmente havia tentado, ou achara a tarefa de sair de casa entediante demais.

― Seus adesivos de nicotina acabaram?― tentei restabelecer o contato, me largando na minha poltrona.

Ele respondeu num murmúrio ininteligível e se estirou, mirando o teto com seus olhos rodeados de olheiras profundas.

― O que disse?― indaguei.

― Eles não adiantam― ele lamentou. ― Nada adianta. Em todos esses anos, o único enigma que não pude resolver foi encontrar um substituto à altura. Começo a pensar que simplesmente não existe.

― Isso é bem desanimador.― Observei as pilhas de jornal adiante.― Nada interessante hoje também?

―Crises econômicas, escândalos entre celebridades... Nada que valha a pena o trabalho de ler as manchetes.

― Fazer o quê. Não é todo dia que você vai dar de cara com um gênio do crime...

“Um dia ele vai se cansar de resolver crimes”, uma policial me disse certa vez. “Um dia, ele mesmo vai praticá-los, só para acabar com o próprio tédio.”

Aquelas palavras sempre vinham à mente em momentos como aquele, mas estavam mais para uma lembrança automática do que um temor real. Sherlock era dono de uma sociopatia funcional declarada, mas eu sabia que estava longe de ser um psicopata. Suas crises de tédio podiam afetar estoques de cigarro num raio de quilômetros, danificar as paredes da Sra. Hudson ou ameaçar a minha sanidade, mas jamais fizeram mal a alguém.

Naquela noite ele não pediu nada além de chá. Fui me deitar prevendo um quadro de desnutrição em meu amigo, muito em breve.

Acordei no meio da madrugada, a garganta reclamando de sede. Desci até a cozinha e enquanto apanhava um vaso na geladeira, dei uma olhada rápida na sala.

― Sherlock?

A tv ainda chiava, seu clarão iluminando fracamente o recinto.

Ele estava estirado no sofá, um braço pendendo para fora. Respirava pesadamente. Me aproximei, achando algo estranho na cena, e só quando a sensação do sono esvaeceu e me acostumei com a iluminação precária, pude ver o que era.

Sherlock havia tirado a manga do roupão, deixando apenas a do pijama, que era mais curta. Seu antebraço magro pendia molemente, marcado por pequenas irritações que ponteavam a pele. Sua mão parecia ter deixado cair uma seringa no tapete. Eu a apanhei, notando um resto de líquido ali dentro.

Ele estava indo longe demais.

― Sherlock― disse com mais energia, acendendo todas as fontes de luz na sala. ―Está me ouvindo?

Voltei ao sofá e tomei seu pulso, que batia espaçadamente. A pele estava fria e mais pálida que de costume. Verifiquei os reflexos dos olhos, buscando algum sinal que me dissesse que ele não estava prestes a entrar em choque. Enquanto o fazia, ouvi sua boca produzir sons estranhos.

― O que...?― indaguei.

― Estou ouvindo você, John― ele disse num resmungo quase inaudível.

― Por Deus, o que você andou fazendo?

Tive que ajudá-lo a se sentar, pois estava extremamente fraco. Suas pálpebras estavam semicerradas, e ele teve certa dificuldade em me focalizar à sua frente.

― Estava entediado― disse apenas.

― E por isso se drogou?― exclamei indignado. ― Sério, é isso que você faz quando acha que não tem mais nenhuma alternativa? Parte pra auto-destruição?

Ele inspirou o mais profundamente que pode e abriu mais os olhos claros, quase transparentes, contrastando com as olheiras sob eles.

― Sim, John, é o que eu faço― disse numa voz pastosa. ― Pode parecer estranho pra você, mas eu não posso fazer nada melhor que isso quando a minha mente parece estar dilacerando a minha cabeça por dentro. Então, é, um pouco de auto-destruição vai muito bem agora.

Disse tudo isso num tom bem mais lento que o de costume, geralmente mais acelerado quando ele se irritava. Estava me encarando com um ar de desolada frustração, como se o fato de uma mente limitada como a minha não ter ideia do que ele estava passando fosse o bastante para deixá-lo ainda pior. Mas apesar disso, eu não senti vontade de socá-lo por ser o cretino obcecado que ele era. E sentir essa vontade era algo que me ocorria diariamente, um fato corriqueiro que demonstrava o quanto ele era uma criatura adorável e a nossa amizade, extremamente sadia.

Não, dessa vez eu senti raiva de mim mesmo.

Por realmente ser apenas uma mente limitada. Por não ser capaz de fazer muito por ele em momentos como aquele. Com todos os seus defeitos e malditas excentricidades, Sherlock ainda era meu amigo, e eu faria qualquer coisa por ele.

Mas às vezes, a minha amizade não era o bastante.

― Quantas você usou?― perguntei.

― Essa aí― ele respondeu, a voz estremunhada de sono.

Deitou sobre a almofada novamente, envolvido pela ação entorpecente da droga. Eu puxei as pernas dele e as acomodei de volta ao sofá, e desliguei a televisão. Peguei o vaso de água e pus na mesinha de centro, junto com um copo.

― Esvazie essa jarra assim que acordar amanhã― recomendei. Olhei ao redor, tentando encontrar o local de onde ele tirara a seringa.― Você tem outras dessa?

Ele balançou a cabeça muito lentamente, em sinal de negação.

― Ela é minha... Saída de emergência― balbuciou.

― Certo. Fico feliz em ouvir isso. Não ia ser muito bom que Lestrade fizesse uma batida aqui e encontrasse suas saídas de emergência.

― Já disse... Era só essa. E depois... Ele nunca iria encontrar. Não... Onde eu escondi.

Tive receio em saber onde era o tal esconderijo.

Resolvi então aquecer a sala o máximo possível. Ele precisava eliminar aquilo de alguma maneira, e fazê-lo pelo suor era a única alternativa viável no momento. Acendi a lareira e fui até seu quarto em busca de um cobertor grosso.

Ao voltar à sala me deparei com Sherlock sentado novamente, o tronco cambaleante enquanto seus olhos erguiam-se com dificuldade na minha direção.

― Obrigado... John― ele conseguiu dizer.― Você é... Um bom amigo.

Vencer o efeito de um entorpecente por um momento, apenas para demonstrar sua gratidão, era uma das coisas que me faziam crer que Sherlock era um ser humano notável. E aquilo nada tinha a ver com sua mente magnífica. Ia bem além disso.

― Certo― sorri contrafeito, empurrando-o com cuidado de volta ao sofá. ―Vou me lembrar disso, da próxima vez que eu sentir vontade de te socar.

Ele só precisou deitar novamente para apagar de vez, ressonando com força. Cobri-o com um edredom de lã grossa e o fitei por um momento.

Lamentava profundamente que meu amigo só conseguisse paz de espírito enquanto estivesse dopado daquela maneira, ou envolvido em algum caso aparentemente insolúvel – como a série de assassinatos que resgataria seu ânimo na manhã seguinte. Tudo que eu podia fazer era permanecer ao seu lado, e ajudá-lo como pudesse.

Podia não ser grande coisa, e foi o que pensei diversas vezes naquela noite.

Mas naquela mesma noite, também pensei que talvez fosse apenas isso de que ele precisava.

Notas finais
*Uma tirinha do Deviantart me inspirou a escrever essa fic.
Você que leu, muito obrigada! Se puder deixar um comentário com sua opinião, agradeço mais ainda.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!