Borboletas do Céu Noturno - EDITADA
1 Noites Paradisíacas
Notas iniciais
Bem-vindo a Silent Hill.
Silent Hill, uma pequena cidade turística às margens de um lago.
Estamos felizes em tê-lo.
Tire algum tempo de seus compromissos e desfrute de ótimas férias tranquilas aqui.
Quadras após quadras de belas casas antigas, uma paisagem montanhosa maravilhosa e um lago que mostra lados diferentes de sua beleza com o passar do dia, desde o amanhecer até o entardecer e o anoitecer.
Silent Hill conquistara você e o enchera com um sentimento de paz profunda.
Espero que sua estadia aqui seja prazerosa e que suas memórias durem para sempre.
Esta era a mensagem que estava num panfleto turístico de boas vindas da cidade. Na parte inferior do verso, uma caligrafia caprichada assinava a seguinte mensagem:
“Não esqueça de conhecer a vida noturna de Silent Hill; encontre-me no Heaven’s Night, no Vale Sul e venha apreciar e deixar que eu lhe mostre a beleza de uma Noite do Paraíso. Venha me sentir. – Maria. ”
***
Após anos de convivência com essa maldita cidade, ela finalmente conseguiu me encurralar. Faziam dias que eu já estava tentando fugir daqui. Queria voltar para o lugar de onde eu vim. Obviamente não iria ficar lá para sempre também, se eu quisesse não teria fugido de lá para começar. Nasci no meio de uma família tradicional religiosa, cheia de pudores e tabus, para meu azar. Meus pais sempre tão rígidos e tão caretas influenciados pela “anarquia” da igreja, coisa que eu nem sei o que significa. Pobres pessoas. Queriam que eu aderisse as regras cristãs onde consistia em me casar virgem e escolherem com quem eu iria me casar quando crescesse. Ainda bem que eles morreram.
Pena eu ainda ser jovem quando isso aconteceu, única filha. Por um lado, me senti sozinha e insegura, por não sentir a presença deles para completar minha imagem e referência de família completa. Reunidos nas refeições, banho tomado e vestes impecáveis para o culto, histórias ao dormir e o lanche pronto pela manhã. Tirando o fato que isso nunca acontecia. Mas eram coisas desse tipo. E por outro eu me senti livre. Pela primeira vez eu pude respirar aliviada, vestir roupas que me atraiam, ir em locais proibidos, tomar bebidas que me deixavam bêbada no primeiro gole, dormir em horários extremos e comer qualquer tipo de bobagem. Que jovenzinha inocente eu fui. Querendo ou não, eles eram tão perfeitos e eu não os merecia. Ou eles que tiveram uma filha muito à frente de seu tempo. Nunca iriam me entender.
Estive morando com minha tia depois que deixei meu passado para trás e vim morar em Silent Hill. Algum tempo depois ela ficou louca e sumiu. Uns dizem que ela se matou. Ou que simplesmente ela foi embora. Mas para mim, ela foi sacrificada para aqueles rituais que os loucos faziam escondidos, por trás da igreja. Eu sabia de tudo... espiei sem querer, um dia. Sem querer não, eu estava saindo com um rapaz que fazia parte deste culto. Ela era uma boa pessoa e eu tenho certeza que eles ainda fazem estes sacrifícios. Sequestram aqueles que vão contra sua ideologia dentro dos seus mandamentos ou simplesmente pegam estes turistas desavisados e motoristas de caminhões que veem de todos os cantos do país para comprar madeira da reserva.
Essa cidade era tão vazia quando eu vim morar para cá.
Presenciei o crescimento da violência e da pornografia neste lugar. Eu estava no meio de uma cruzada que queria apensar fazer a cidade lucrar a qualquer custa, seja com turismo tradicional, religioso ou sexual. Eu fazia parte de um destes ramos. Porém, ser conhecida como a mulher mais bonita da cidade me fez ter certo poder e influência em determinadas pessoas, assim como correr riscos. Apesar de pequena, essa cidade esconde muitos rostos, e todos eles não são o que aparentam ser, muito menos eu.
Praticamente foi assim; eu morava com meus pais caretas e perdidos no século passado em outra cidade, após a morte precoce deles eu vim atrás da minha tia em Silent Hill, ela também morreu (supostamente) e em seguida eu acabei me envolvendo com aquilo que eu realmente queria. Não tinha como eu fugir do meu próprio caminho, mesmo que isso custasse mais vidas de pessoas que eu gostasse. Conheci algumas garotas que seriam a minha nova família. Elas estavam com um projeto, de fundar uma casa noturna na parte mais baixa da cidade. Baixa pois era mais que uma região boêmia. Cheia de motéis, estabelecimentos de fachada, bares, becos e criminalidade, muita criminalidade. Mesmo assim o projeto era promissor e ambicioso, era uma região sempre frequentada independente de seus perigos. As pessoas são corajosas. Ou loucas.
Bem, erámos prostitutas e sempre vivíamos pelas ruas do submundo, sempre escondidas, sem ter um local fixo, rodando pelo Vale Sul entre caminhoneiros e turistas desavisados, até mesmo por moradores mais audaciosos. Conseguimos um dono para o estabelecimento e então fundamos o Heaven’s Night. O primeiro clube noturno com verdadeira qualidade de Silent Hill. Ou como preferíamos chamar “Inferninho do Paraíso. ”
O portão para o inferno estava aberto.
Foram dias maravilhosos, semanas inesquecíveis. Toda essa aventura valeu muito a pena e me renderam inúmeras coisas, histórias, memórias, amantes e muito dinheiro. Porém, o meu tempo de estadia nessa fase da minha vida foi bem breve, foram apenas três anos. Eu tive que ir embora, deixa tudo para trás, ou pelo menos tentei. Quer dizer, estou tentando até hoje. Mas fazer parte do clube e da família das garotas eu já não fazia mais. Eu acho melhor pular essa parte e não comentar sobre o assunto. Pois acabei descobrindo que não podia ir muito longe e nem ficar num mesmo lugar por muito tempo. Eu estava num lugar entre Silent Hill e o mundo real. Mas não era o suficiente.
Quando retornei para a cidade, fui anunciada como “Lady Maria” nas noites quentes da cidade, não sabia o motivo da importância que as garotas e os clientes estavam me dando. Mas logo eu fiquei sabendo, minhas amigas que ajudaram a fundar o clube não trabalhavam mais aqui. Já tinha se passado algum tempo desde a última vez que eu estive aqui. Uma das garotas havia sido estuprada até a morte. Uma outra garota, tomou uma overdose e seu corpo foi levado por alguém que estava no bar, nunca mais se ouviu falar. Duas foram embora pois casaram com clientes ricos que estavam de passagem. Uma outra simplesmente largou de tudo e foi morar na cidade velha buscando uma vida mais tranquila e normal. Então só havia sobrado eu, a “Borboletas” como costumavam me chamar. E lá estava eu novamente, relembrando cada momento que passei quando começamos no lugar, este estava tomado por putas com caras novas, simplesmente novatas no ramo. E eu, era eu. Mas tive que aceitar que já não era mais boa para aquilo, então tudo o que vinha em meu benefício eu tinha que aproveitar.
Ontem eu era apenas uma pirralha começando a vida, que não sabia tomar atitudes nem tomar conta de si mesma. Graças ao Heaven’s Night e as garotas eu pude me encontrar, amadurecer e fazer o que eu mais adorava. Até que, para um point de caminhoneiros, eu me dei bem. Claro que nem sempre me choveram rosas, mas na maioria das vezes eu fui feliz. Eu me via agora longe de mim mesma. Tentava fugir da cidade sempre que podia, mas de uma forma ou de outra sempre acabava voltando para ela. E quanto mais eu tentasse, mais as coisas acabavam dando errado, e cada vez eu mais gasta e entediada com essa situação toda. Eu era a veterana, era a garota bonita, eu era a mais cobiçada, eu era convidada a participar das reuniões particulares dos mais ricos da cidade. Mas eu precisava ir embora, sumir, ir para um lugar onde eu pudesse me livrar disso tudo. Eu tentei, por várias e várias vezes voltar para casa dos meus pais, mas sempre falhei. E até que um dia para piorar, infelizmente, eu conheci aquele estrangeiro pálido de cabelos dourados, alto, maxilar marcado, olhos verdes penetrantes e mãos grandes e quentes, que idolatrava demais a sua esposa.
James.
Eu realmente me entreguei àquela paixão, não havia mais nada que me dê-se forças para viver daquele jeito. James era apenas um garoto perto de mim, tão inocente, tão bobo. Coitado, juro que deixei apenas meu coração falar. Eu precisava dele. Ele era tão bom, eu via nele um porto seguro, alguém que realmente se importava comigo e poderia me tirar desse lugar. Mas tinha essa esposa no caminho. Ele era confuso e imaturo demais.
Quando ele começou a não me obedecer, fiz o inferno em sua vida. Seu casamento foi estilhaçado, assim como a minha vida estava. James acabou matando sua esposa, em uma das várias vezes que estiveram em Silent Hill. E parecia ser culpa minha. Eu me sentia suja e pesada.
O vicio me dominava. James era tudo pra mim. Ele era a única coisa que eu tinha. Por medo de perdê-lo eu fiquei agressiva e violenta. Eu nem me reconhecia mais no espelho. Eu até cheguei a adotar um novo visual para ficar mais atraente, cortei e pintei os cabelos de loiros para que James gostasse mais de mim.
E no final de tudo, ele acabou tirando sua própria vida. Um ódio cresceu em mim sem dimensões. O desgraçado acabou com a minha vida, e era tudo culpa minha. Fiquei tão louca que tomei todos os tipos de medicamentos que encontrei pela frente, fiz um coquetel com os que eu já tomava e acabei entrando em coma. Fiquei um bom tempo sem acordar. E por azar o meu, ninguém ousou me levar ao hospital. Fiquei jogada lá, onde adormeci... No chão do Heaven’s Night. Onde tudo tinha começado, agora tudo havia terminado.
Eu deveria ter morrido, mas não, eu ainda estava viva e ao acordar muito tempo depois me encontrei sozinha. Não sabia onde todos haviam ido. Não sei se foram embora ou simplesmente morreram. Era para eu estar morta. Maldita vida. Maldita hora em que fui acordar.
Caminhei pela cidade, vazia. Abandonada. Nunca pensei que veria Silent Hill naquela situação. As casas saqueadas, carros acidentados. Um caos total. Eu não quis ir para a parte central, pois sabia que não estaria diferente desse lado do lago. Caminhei até o Rosewater e quando percebi estava em uma ruela atrás dos apartamentos Blue Creek. Já estava cansada de andar e não encontrar ninguém. Havia encontrado uma solução.
Minha espinha arrepiou quando engatilhei a arma em minha cabeça. Era isso que eu queria, era isso que eu merecia... depois de tudo. Já não restava nada e nenhum lugar para fugir.
Puxei o gatilho.
***
Quando acordei, estava sozinha novamente. ninguém havia retornado. Será por causa daqueles monstros lá fora? O que eu faço agora? Luto e sobrevivo? Ou deixo aqueles monstros me pegarem...
Não tenho nenhuma razão para viver. Mas... Estou com medo de morrer. Eu já deveria estar morta. Tenho medo da dor. Será que devo fugir?
Droga, quero pelo menos encontrar alguém. Não gosto de ficar sozinha. Mas será que restou alguém vivo?
Ernest Baldwin. Esse nome surgiu como um sopro. Foi o único nome que encontrei na minha memória e então fui atrás dele em busca de conselhos. Como eu costumava a fazer quando eu tinha minhas crises existenciais e tentava ir embora deste lugar. Ernest sempre me deu ouvidos e bons apontamentos sobre a vida. Ele era um amigo dos meus pais e sempre a gente vinha visitá-lo quando minha mãe vinha ver minha tia aqui em Silent Hill. Ele ficou me apoiando nos momentos difíceis, principalmente quando me tornei uma vagabunda e sem rumo depois da morte de todos eles.
Infelizmente Ernest estava morto também, para minha frustração. Mas eu soube disso só após conversar com ele. Estava do outro lado da porta e não quis aparecer para mim. Eu deveria achar isso estranho, mas se há monstros andando lá fora, deve ser normal conversar com pessoas mortas também. Eu não estava eu louca em falar com mortos. Seu espírito vagava por aquela velha e enorme mansão. Pobre Ernest sofreu tanto com a morte de sua filha que deve ter se matado.
Bem, talvez eu já esteja morta também. Para falar com um morto. Mas eu senti seu espírito muito vivo naquela casa. Era tão real. Ah... Merda! Esse é um assunto que não quero falar também! Se Ernest está ou não morto, eu quero respeitar suas memórias. Pelo menos ele.
Bem, já sabia o que deveria fazer, novamente. Ainda bem que tenho a fiel companhia desse revolver. Já não tenho mais motivos para viver. É a hora de ir atrás do meu James, eu sei que ele voltou para cá assim como Ernest fez.
Bem, não sei como ainda estou viva, ou realmente esteja morta afinal! Tudo isso aconteceu até eu perceber que você estava me olhando lá do outro lado. Então resolvi vir conversar um pouco. Por fim, meu nome é Maria, e essa é minha história. Qual o seu nome? O que você tem para me contar?
— James?!
FIM
Última Edição: 12/05/2017 – A L C Alves
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