Borboletas
1 Borboletas
James prendeu a respiração.
Em todos os seus anos trabalhando naquela pequena empresa de papel, nunca tinha visto algo tão bonito. Não era muito difícil, afinal, ele passava o dia todo no escritório fazendo ofertas por telefone e fingindo que aquilo era o assunto mais importante do mundo.
“Você tem que considerar, senhor Ramirez — ele disse uma vez ao cliente. — que sem o papel nós não poderíamos nem ter esta conversa! Ora, se o senhor não tivesse comprado um bloco de notas para a sua secretária ela não teria anotado o meu número na sua agenda, e não estaríamos tendo esta conversa sobre a importância do papel.”
Ele vendeu 50 pacotes naquela ligação.
James não era um amante de papel, não se engane, ele só tinha muitas contas para pagar desde que saiu da faculdade. Ele se inscreveu para a vaga que parecia mais fácil, ele sempre foi bom com números e tinha uma habilidade social adequada, parecia perfeito.
Seu plano era fazer a sua obrigação enquanto usava a internet do escritório para procurar vagas em algo que realmente o interessasse, mas tudo mudou quando ela chegou.
Era uma quarta-feira normal, o pior dia em sua opinião já que marcava a mesma distância entre o começo e o final da semana, tudo que você faz numa quarta-feira não tem real importância, é como um vórtex temporal. Entretanto aquela quarta-feira foi uma exceção.
A antiga secretária, Dóris, tinha se aposentado com direito a festa na hora do almoço e tudo. O chefe do escritório seguia fazendo entrevistas para uma substituta, enquanto isso James foi eleito como O Recepcionista, por suas qualificações que eram: ser o mais novo ali e saber mexer em um computador.
Ele aproveitava o espaço que o balcão lhe oferecia longe dos olhos dos outros funcionários e lia seu livro, jogava palavras cruzadas e até organizava suas finanças para definir quando finalmente podia pedir demissão. James, naquela fatídica quarta-feira, estava focado procurando a última palavra em seu Caça palavras quando uma voz chamou a sua atenção.
“Oi, eu vim para a entrevista.”
James agradeceu que já estava sentado, senão teria caído para trás ao ver aqueles olhos verdes, ela soltou um sorriso gentil que ele retribuiu sem nem se dar conta do que fez. Sua voz era suave como uma brisa de verão, seu sorriso parecia ter o poder de curar todos os seus problemas e as pequenas sardas no nariz…
“A vaga já foi preenchida?”
“Não, ainda não. Eu sou um vendedor na verdade, mas fui escolhido como substituto da secretaria.”
“Uau, e você recebe para fazer dois trabalhos?”
“Na verdade eu não recebo nem por um deles direito. “- ela riu antes que James percebesse que provavelmente não é isso que alguém quer ouvir na entrevista de emprego, mas a risada dela o lembrava de correr pelo parque no verão, sentido a brisa quente, o sol queimado a ponta do nariz e a grama roçando seus pés. Ela ficaria ainda mais linda longe das luzes artificiais do escritório.
Será que ele já estava encarando ela por tempo demais? O que será que os outros funcionários estavam enxergando? Será que todos a enxergaram como a pessoa mais bonita que já andou naquele humilde chão de carpete? James voltou os olhos para o computador procurando o arquivo com os currículos que tinha organizado, correu os olhos sobre todos os que tinham foto mas nenhum parecia com ela.
“Qual é o seu nome?”
“Pamela. Mas todo mundo me chama de Pam.”
James mandou um recado para a sala do chefe com o currículo dela em anexo.
“É…fica a vontade, o chefe vai te chamar já.”
Não demorou muito e ela foi levada pelo corredor até a sala de reuniões, não sem antes mandar um olhar de expectativa para James como se questionasse: será que eu vou servir pra isso? Ele só assentiu e levantou o dedo em sinal positivo dizendo “Você consegue.”
E Pam conseguiu, foi contratada naquela tarde. No dia seguinte teve a oportunidade de se apresentar formalmente.
“Sou o James, mas todo mundo me chama de Jim.”
E teve o prazer de fazer o tour e apresentar todos os outros colegas de trabalho. Mas sua maior alegria foi descobrir que sua mesa era em paralelo com a dela, e só Deus sabe quantas horas de trabalho ele perdeu lançando olhares para lá, planejando e tentando juntar coragem para convidá-la para sair.
Até que em uma terça-feira, algumas semanas depois, ele não teve mais que esperar.
Era mais um dia comum, eram 9 da manhã e todos ainda estavam chegando para começar seus turnos e fazendo a peregrinação diária: deixar o carro no estacionamento, vestir seus casacos e cachecois, carregar suas maletas pelo elevador até o 4 andar, deixar seus almoço na geladeira da copa, sentar em sua mesa e ligar o computador. Foi no meio do caminho que ele foi encontrado por ela.
Pam estava na copa procurando algo em sua bolsa, quando não encontrou se voltou frustrada, quando o viu seu rosto mostrou um sorriso desapontado.
“Pelo visto vou ser levada para casa numa ambulância hoje.”
“É a maneira mais rápida de cortar o trânsito. — ele concordou. — Mas será que é a mais barata?”
“Hm…tem razão, alguém teria que pagar a gasolina né.”
“Seu carro quebrou?”
“Não, é que eu esqueci meu almoço em casa e não vale a pena voltar para buscar.”
Jim segurou a respiração em uma vã tentativa de diminuir seus batimentos. O momento que ele tanto esperava havia chegado, ele se sentia vendo um arco-íris pela primeira vez, ou ao julgar pela sua frequência cardíaca, um urso pardo.
“Você quer sair para almoçar?”
“Pode ser, eu só preciso ver se o Roy não vai passar aqui no intervalo dele.” — Pam pegou o celular e começou a digitar, Jim continuou atordoado.
“Esse Roy…trabalha aqui perto?”
“Uns 10 minutos, ele consegue me dar carona pra cá todo dia, fico bem no caminho.”
Jim assentiu, por que aquele nome lhe parecia tão familiar?
Pam subitamente soltou uma risada e, levantando os olhos do celular, lhe disse a coisa que Jim mais temia.
“O Roy ficou com as duas sacolas de almoço, isso que dá preparar a mesma coisa pro seu namorado.”
Jim esboçou o meio sorriso mais falso da sua vida.
“Bem, — ela continuou sorrindo- ele disse que vai passar aqui e me devolver, se não conseguir eu aceito o seu convite.”
Naquele dia, Jim escolheu odiar terças-feiras.
Quando era criança, Jim leu para sua irmãzinha a história da Pequena Sereia, sob muitos protestos e promessas que ela finalmente iria dormir. Porém, ao escolher da pequena biblioteca ele pegou a versão original da história,ao invés da versão infantilizada. No conto original, Ariel troca a sua voz por pernas para poder se encontrar com seu grande amor, mas cada vez que ela andasse iria sentir como pontas de facas em seus pés. É claro que aquela história não ajudou sua irmã a dormir.
Jim nunca tinha entendido como alguém aceitaria sofrer tanto só por amar outra pessoa, até ter que conviver com Pam sabendo que nunca a teria. De repente a proximidade da sua mesa parecia mais um castigo do que um privilégio, seu coração saltava quando não havia opção além de olhar para ela quando ia fazer uma cópia, ou receber uma ligação. Só ali ele percebeu quanto tempo passavam juntos, em reuniões, almoços, confraternizações até o elevador para o estacionamento começou a parecer uma prisão.
Ele vivia em um grande dilema, querendo e ansiando toca-lá e finalmente descobrir se sua pele era tão macia quanto ele imaginava. E, ao mesmo tempo, querendo fugir dali para tentar esquecê-la, apagar suas digitais, mudar de nome e de país. Qualquer coisa para tentar ter uma vida normal amando alguém que realmente pudesse ter.
“O que você precisa é parar de ser um bundão! Deixa a sua cabeça de lado e aja com o coração uma vez, pra variar. Beija logo essa menina e faz ela esquecer do outro.”- era o que todos os seus,poucos, amigos diziam de uma forma ou outra.
Pam não era só mais uma garota, Jim já tinha namorado várias outras pra saber que ela não se parecia com nenhuma delas. Ela era gentil, engraçada, organizada, aguentava muita besteira do chefe mas sempre sabia quando se defender. Era Pam que lembrava dos aniversários de todo mundo e organizava uma vaquinha para comprar algo que eles realmente gostavam, ela dividia seu almoço quando mais alguém esquecia, até mesmo seu iogurte de frutas vermelhas. Ela dava bom dia pra todos quando chegava, elogiava o segurança toda manhã por ter mantido o prédio seguro durante a noite.
Mas eles não entendiam, ninguém entendia.
Pam era como uma obra de arte de museu, todos passavam e a viam mas poucos conseguiam enxergar o seu verdadeiro valor, nas instrincidades das suas cores, pinceladas e tons, cada um feito meticulosamente.
Ela era a obra de arte que Jim nunca poderia tocar, somente admirar. Mas era o suficiente pra ele.
Com o tempo, ele foi aprendendo lidar com a frustração e a dor que sentia, afinal Jim não queria fazer nada que afastasse Pam. Se contentou em serem amigos, porque era melhor do que não ser nada.
Em uma sexta-feira do final do mês, Jim achou que ia morrer de tédio. Todos tinham sido convocados para mais uma reunião que parecia eterna, uma infinidade de números foram ditos, multiplicados e divididos. Estatísticas foram lidas, relatórios foram aprovados, papel foi vendido e o emprego de muitos foram salvos. Jim estava tão concentrado em não parecer que estava dormindo com os olhos abertos que nem percebeu a cabeça deitada em seu ombro.
Foi só quando ele virou o rosto e enxergou o topo e uma cabeça com cabelo acobreado que se deu conta que Pam não tinha conseguido ficar acordada, Jim já tinha se acostumado com o seu perfume e, mesmo assim, inspirou profundamente uma última vez. Ele estava finalmente encostando na sua Mona Lisa, mesmo que indiretamente e de forma acidental, não importava.
Jim segurou a respiração para que seu ombro não se levantasse, focou nas apresentações e em ficar totalmente imóvel, sentiu como se uma borboleta tivesse pousado nele. Quando a reunião finalmente terminou e todos se levantaram que Pam acordou. Piscou os olhos confusa e começou a juntar suas coisas, lançou um sorriso confidente para Jim e saiu também.
Foi naquele momento em que ele decidiu que nunca desistiria dela, não se importava com o tempo que precisasse, Jim Halper sempre amaria Pam Beesly.
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