Boneca de Gelo
35 Capítulo 35
Notas iniciais
Jack estava sentado a mesa da cozinha, uma fileira de papéis ao seu lado, lia e relia cada linha, embora tentasse se concentrar a dor de cabeça irritante não o deixava, riscou uma frase na qual estava errada colocando um ponto de interrogação logo ao lado, uma mão morna e feminina pousou no seu ombro o que o fez levantar a cabeça rapidamente.
— Te chamei duas vezes — Elsa falou o encarando, Jack fechara o olho respirando.
Ela colocou Emma sobre um tapete de EVA colorido que havia no centro da cozinha, e ela engatinhou desajeitada, quase se arrastando, em direção a alguns brinquedos, a loira andou em direção ao armário retirando duas canecas, colocou o pó de café dentro da máquina e se voltou a direção de Jack que parecia concentrado.
— Está tudo bem? — ela perguntou e o viu levantar a cabeça.
— Tenho que terminar de corrigir as provas essa semana — ele falou colocando a caneta vermelha sobre a pilha de provas e sorrindo cansado em direção a loira.
Elsa correspondeu o sorriso de Jack, se virou indo em direção a geladeira a abrindo, retirou a manteiga de amendoim e pegou um pedaço de pão, preparou o sanduíche com calma, o colocou em um prato, Zac havia passado a manhã inteira entretido em um novo jogo que Jack havia dado a ele, encheu um copo com leite e o colocou na mesa a frente de Jack que levantou o olhar, andou em direção a escada gritando a criança, voltou para a cozinha pegando Emma no colo, ela se remexeu em protesto por estar novamente nos braços da mãe.
— Oi — a voz infantil de Zac a fez se virar.
— Querido já jogou o suficiente por um dia, coma um pouco, vamos sair — ela falou e Zac sorriu satisfeito.
— Onde vai? — Jack perguntou levantando uma sobrancelha em direção a loira, se levantou da cadeira se espreguiçando, sentiu os ossos estralarem, seu olhar foi em direção a Zac que começava a comer, esticou o braço bagunçando o cabelo do garoto que sorriu com a boca cheia.
— Vamos um pouco no parque — ela o respondeu se aproximando, no mesmo momento a máquina de café fez um barulho mostrando que havia terminado, ela lhe entregou Emma, a criança foi de bom grado para o colo do pai, Jack a sustentou com um braço enquanto ela brincava com o novo par de óculos que Jack começara a usar alguns dias atrás.
— Vou junto com vocês — Jack falou escutando a filha tentar balbuciar algo, seus olhos ainda estavam em Elsa que se virou com duas xícaras já contendo café, ela se aproximou lhe estendendo uma.
— Não tem que terminar de corrigir as provas? — ela perguntou e ele suspirou cansado antes de dar o primeiro gole no café, sempre procurava uma maneira de acompanhar Elsa nos lugares, a um tempo atrás havia pedido para instalar câmeras em casa e ao redor para que ele pudesse monitorar através do celular, sabia que Elsa achava tudo isso estranho e sempre quando ela perguntava o porque ele apenas a respondia que era por precaução.
— Posso continuar mais tarde — ele a respondeu inclinando a cabeça em direção a loira lhe dando um rápido selinho, ela apenas sorriu em sua direção antes de se sentar ao lado de Zac.
(...)
A bela garota estava sentada embaixo de uma árvore, a sua frente Zac e Jack brincavam, o loiro estava sentado no chão enquanto Zac subia em suas costas, ela sorriu, a criança em seu colo dormia tranquilamente, passou as pontas dos dedos nos tufos claros que eram os cabelos de Emma.
Só ela e Jack sabiam o quanto fora difícil os acontecimentos na vida deles, as vezes se pegava lembrando da noite em que tudo começará, seu eterno pesadelo, sempre que algo assim ocorria ela tentava se distrair e por sua sorte Jack sempre estava ao seu lado para lhe acalmar.
— Ei — ela escutou o grito de Jack e levantou a cabeça — Vai continuar sentada? — ele perguntou sorrindo enquanto se levantava com Zac sentado em seu ombro.
— Emma está dormindo — ela o respondeu, Jack correu em sua direção, a criança em seu ombro chacoalhava e ria, o loiro parou ao seu lado retirando Zac de seus ombros.
O loiro esticou as pernas sobre a grama quente de verão e colocou Zac em seu colo.
— Jack — uma voz gritou e ambos viraram a cabeça na direção da voz onde um casal se aproximava, a silhueta contornada pelo sol de fim de tarde, Jack apertou os olhos, o casal se aproximou tomando forma — Iríamos dar uma passada na sua casa — Hiccup falou enquanto se aproximava, se sentou ao lado de Jack.
Merida que tinha o pequeno Adam em seu colo se sentou ao lado do marido colocando a criança na grama, o pequeno começou a puxar alguns pedaços da grama e sorria cada vez que arrancava uma quantidade ainda maior, a ruiva parecia cansada, duas bolsas arroxeadas eram visíveis abaixo de seus olhos, Elsa franziu a testa encarando a amiga.
— Está tudo bem? — ela perguntou e Merida bocejou colocando a mão frente a boca.
— Andrew não dormiu a noite toda — a voz de Hiccup soou e ela concordou com a cabeça, Jack sorriu de lado, Merida já era cabeça quente e seus dias bons imagina com mau humor, preferiu guardar qualquer comentário para si mesmo.
— Não sei o que está acontecendo com ele — a ruiva choramingou baixo — Quando ele conseguiu dormir aquele gato idiota derrubou as louças que estavam em cima da pia e Hiccup se desesperou correndo para o andar de baixo — ela falou lançando um olhar raivoso em direção ao moreno que suspirou cansado, a dois meses ele havia insistido para que eles pegassem um animalzinho para brincar com Adam, o que foi prontamente negado por Merida mas infelizmente essa guerra Hiccup havia vencido.
— Achei que era alguém — Hiccup falou encarando a ruiva, em seus olhos uma leve sombra se formou quando uma nuvem cobriu o sol.
— Isso é ridículo e você sabe disso — ela falou, Jack ajeitou Zac em seu colo enquanto via a criança começar a fechar os olhos, preferia não se preocupar com o começo de uma nova briga do casal de amigos — Stefler não vai invadir nossa casa — ela falou mais alto, o rosto tomando uma tonalidade vermelha, Jack ao escutar o nome proferido por Merida virou o rosto imediatamente em direção ao casal, Hiccup percebendo fez um sinal com o olhar em direção a Merida que percebera, ela mesma já havia se controlado para não falar a verdade para a amiga e agora, em um momento de fúria havia acabado com um dos maiores segredos de Jack.
— Stefler? — Elsa perguntou, os olhos arregalados, a pele um pouco mais pálida que o habitual, Jack a encarou e viu a expressão de pânico que a muito tempo estava evitando, a loira respirou fundo, trouxe o corpo da filha mais para perto de seu peito, sentia o vento frio passar pela nuca fazendo seus pelos subirem e soube que não era pelo vento e sim a sensação de vulnerabilidade, virou o rosto encarando pela primeira vez Jack, os olhos azuis por trás das lentes de óculos, ele a estudava, cada reação sua, seus lábios estavam entreabertos como se ele quisesse lhe dizer algo — Você sabia disso? — ela perguntou lhe encarando.
— Jack não queria lhe contar Elsa — Hiccup quem respondeu pelo amigo — Você havia acabado de sair do trabalho de parto quando eu contei a ele — o moreno levantou o olhar para a loira.
— Acabado de sair do parto? — ela perguntou encarando diretamente Jack, o loiro abaixou o olhar por um segundo — Isso faz seis meses, teve todo esse tempo para me falar a verdade e não o fez — ela falou enquanto ajeitava Emma em seu colo prestes a se levantar.
Jack passou Zac para o colo de Hiccup com cuidado antes de se levantar e encarar a mulher a sua frente que mexia no cabelo nervosamente com uma das mãos enquanto sustentava Emma em outro braço, a essa hora a pequena já abria os olhos curiosa pelas vozes altas.
— Estava tentando lhe proteger — ele falou a encarando, pousou a mão sobre o braço dela o segurando.
— Me proteger? — ela perguntou, o desespero tomando conta de si a cada segundo, as bochechas agora vermelhas por conta da raiva — Me proteger como? Não me contando nada.
— Tenho feito tudo que posso, mandei colocar as câmeras — ele falou já começando a se exaltar, era tão difícil assim ela ver seu lado.
— Elsa pega leve — a voz de Merida se estendeu entre a tensão que havia ficado no ar, a loira abaixou o olhar para a amiga, tenatava manter as mãos firmes enquanto segurava Emma em seus braços, todo seu medo havia voltado, sabia que Stefler conseguiria ser pior que o irmão, toda a raiva, agonia, desespero que havia prendido a tanto tempo estavam a tona, virou de costas respirando fundo.
— Vamos para casa — ela sussurrou já começando a andar, não olharia para trás, sabia que todos a estariam encarando e o que menos queria era ver os olhares preocupados sobre si.
Jack se abaixou frustado retirando Zac do colo de Hiccup, a criança ainda dormia, o colocou com calma em seu colo e começou a seguir a mulher que estava a sua frente, dando passos bambos sobre a grama.
(...)
Entraram na casa, Jack colocou Zac no sofá com calma enquanto observava Elsa colocar Emma dentro do cercadinho, ambos em silêncio, o loiro lhe deu as costas trancando a porta, escutou os passos de Elsa se distanciar enquanto encarava a trava dourada que ele se lembrava de a trancar todas as noites, escutou o barulho de panelas e a seguiu em direção a cozinha, a observou colocar uma chaleira no fogão. Abriu desajeitadamente uma caixa de saquinho de chá e arfou de susto quando elas caíram da caixa se espalhando pelo balcão, ele sabia que ela estava a beira do desespero, pois apenas com esse pequeno acidente ela desabou sobre o balcão.
Os punhos estavam cerrados, nós dos dedos esbranquiçados pela força com que a mão estava fechada, ela estava lutando para não chorar, não depois de tudo que já havia passado, mas parecia inútil, essa batalha já estava perdida, respirou fundo e endireitou os ombros, todo seu corpo parecia doer.
Jack suspirou, não podia mais ficar parado a observando de longe, caminhou até a loira a puxando para si, abraçou-a enquanto ela estremecia em seu braço, ele a abraçou com mais força, a chaleira assobiou e ele a ignoraram, ele podia sentir o corpo pequeno tremendo de medo e por conta do choro.
— Por que esta acontecendo de novo? — ela sussurrou.
— Não sei — foi a única palavra que ele conseguiu falar, e era a mais pura verdade — Nada vai acontecer Elsa, já se passou meses e nada aconteceu — ele sussurrou enquanto a soltava, segurou seu rosto o levantando, os olhos agora vermelhos e as bochechas marcadas por linhas de lágrimas, beijou sua testa com calma tentando a reconfortar — Nada — ele sussurrou antes de a abraçar novamente, seria capaz e dar sua vida para proteger sua família.
(...)
As crianças já estavam dormindo, Emma fora a que mais demorara para pegar no sono, estava manhosa e queria apenas o colo da mãe, o dia fora se arrastando devagar depois que ela ficara sabendo da volta de Stefler, as vezes se pegara durante o dia olhando para fora da janela tentando ver alguém rondando a casa, passou a mão no vidro tirando o suor que havia se impregnado no espelho por conta da água quente, viu a imagem de uma mulher diferente que vira no período da manhã, parecia mais cansada, se desenrolou da toalha colocando o pijama que havia levado pro banheiro, soltou os cabelos e abriu a porta encontrando Jack sentado na cama, a cabeça entre as mãos, agora que ela sabia a verdade ele não escondia mais o desespero apenas para si, se aproximou e o viu levantar a cabeça, tentou sorrir em sua direção mas soube que não saíra como imaginara.
— Vamos dormir — ela falou e o viu concordar, deu a volta na cama se deitando, Jack a imitou trazendo o corpo feminino para perto, a abraçou com força, abaixou o olhar encarando a testa franzida dela e soube que ela estava pensando em algo.
— Não se preocupe — ele sussurrou beijando o topo da cabeça de Elsa, sentia a respiração quente dela em seu pescoço, fechou os olhos tentando encontrar um sono que não viria nessa noite.
(...)
Jack abotoava os botões da camisa social em frente ao espelho, havia feito alguns dias desde que a revelação havia ocorrido, Elsa parecia mais calma, embora ele sempre a visse observar os jardins de meia em meia hora, escutou o choro infantil ecoar pela casa e logo a imagem de Zac apareceu refletida no espelho, ele virou o rosto encarando a criança que se sentara na cama já com a mochila nas costas.
— O que houve? — ele perguntou ao ver a cara emburrada do menino.
— Eu to com sono, queria ficar em casa, mas a mamãe não deixa — ele falou e Jack sorriu de lado.
— Acho que ninguém dormiu campeão.
— A Emma chorou muito — Zac resmungou ainda emburrado, Jack se aproximou abaixando na frente da criança para o encarar.
— Eu sei, mas ela não está bem, então o que acha de irmos tomar café em algum lugar e hoje eu te levar para a escola? — ele perguntou e a criança concordou descendo da cama, pegou a mão do pequeno indo em direção ao quarto ao lado onde encontrou Elsa andando de um lado para o outro com Emma no colo, a pequena resmungava baixo enquanto a loira cantarolava, ela parecia ainda mais cansada que ele e Zac juntos, se aproximou e percebeu que ela notara sua presença — Vou levar Zac para a escola — ele falou e a viu concordar com a cabeça.
— Pode preparar o café dele? — ela perguntou ainda chacoalhando a bebê que permanecia com a bochecha no ombro da mãe.
— Não se preocupe, vamos comer em algum lugar — ele falou e se aproximou lhe dando um rápido selinho a viu mexer os lábios em um pedido mudo de agradecimento, acariciou os cabelos da filha — Tranque tudo — ele sussurrou e ela concordou com a cabeça.
Zac se aproximou abraçando rapidamente a pernas da loira antes de sair do quarto, ela voltou sua atenção a pequena que parecia mais calma, a colocou no berço lhe estendendo um mordedor que foi aceito pela pequena, foi em direção ao banheiro no corredor colocando a banheira de plástico para encher, voltou ao quarto da filha vendo que ela estava distraída, suspirou aliviada, desceu as escadas as pressas trancou a porta da sala e foi em direção a cozinha, suspirou cansada ao ver um restante de louça dentro da pia, iria comer algo rápido.
Ligou o fogo colocando uma frigideira sobre ele, pegou duas fatias de pão e um queijo, o colocou na frigideira, um misto quente seria seu prato mais rápido, olhou em direção a janela da cozinha, o sol brilhava sobre a grama verde, a cozinha parecia quente, mesmo com os pés desnudos sobre o chão frio, apertou com um garfo o sanduíche na frigideira quente ouvindo a manteiga chiar, fechou os olhos o abrindo logo em seguida, havia esquecido o chuveiro aberto, largou o garfo sobre a pia correndo escada acima, se xingando mentalmente por permitir se distrair tão facilmente nesses últimos dias, estava esquecendo as coisas rápido e o cansaço da noite mal dormida não ajudava, entrou no banheiro encontrando a banheira transbordando, desligou o chuveiro, o corpo cansado e a mente mais ainda a deixava com uma vontade imensa de chorar, despejou o excesso de água na banheira, saiu do banheiro sentindo um cheiro estranho no ar, fechou os olhos, os abriu descendo as escadas com calma dessa vez, ao chegar na cozinha encontrou a mesma com uma pequena quantidade de fumaça se formando, desligou o fogo enquanto respirava o cheiro de coisa queimando, tossiu se esticando e abrindo a janela, a fumaça começou a se dissipar, olhou para aquilo que iria ser seu café da manhã- sem salvação — jogou a frigideira junto com o sanduíche queimado dentro da pia, o nervosismo nem lhe dava a chance de comer algo,.
Andou em direção as escadas a subindo, a cada passo sentia seu corpo reclamar, entrou no quarto de Emma a encontrando sentada no berço, a pegou e assim que a pequena viu o rosto da mãe fez um biquinho manhoso.
Elsa sorriu cansada para a filha, a levou em direção ao banheiro a colocando sobre o trocador, retirou sua roupa com cuidado, fez a massagem para cólica que Merida havia a ensinado.
— Ainda tá ruim meu amor? — ela perguntou e a criança resmungou silabas distorcidas como resposta, ela sorriu abaixando o rosto beijando a barriga redonda e macia de Emma que se contorceu dando um gritinho fino, a colocou com calma na banheira, o ritual fora o mesmo de sempre, a esfregou com calma e cuidado, tentando limpar cada dobra que aparecia, enxaguou os cabelos claros com calma enquanto a pequena batia as mãos sobre a água feliz, a retirou a secando com calma pegou um conjunto simples e confortável, uma calça de flanela e uma blusinha de calor, após já vestida, a pegou indo em direção ao quarto da filha, se sentou na poltrona de amamentar expondo o seio que logo foi aceito por Emma, começou a cantarolar baixo enquanto a via lhe observar com os olhos azuis quase se fechando, assim que a pequena soltou seu seio já adormecida ela se levantou, a colocou com cuidado no berço, foi em direção ao seu próprio quarto se deitando na cama, o cansaço a fazendo dormir em alguns segundos, isso era resultado da noite de apenas duas horas de descanso.
(...)
Elsa despertou ofegante, o vestido encharcado de suor, os cabelos loiros grudados na testa, o coração aos pulo, levantou-se da cama e foi em direção a janela, respirou fundo percebendo que dormira por alguns minutos, tempo suficiente para a fazer ter um pesadelo, o toque do telefone a fez dar um pulo assustada, o atendeu antes que acordasse Emma, a respiração se normalizando e o coração voltando ao normal.
— Alô
— Elsa, queria saber como está Emma — uma voz feminina soou e ela respirou aliviada.
— Ainda não melhorou, estou fazendo os exercícios para cólica que você me ensinou — ela suspirou cansada, olhou em direção a babá eletrônica em silêncio — Acho que ela está querendo ficar doente.
— Não se preocupe, é só uma fase, Adam as vezes fica desse modo — a voz de Merida parecia distante.
Ela saiu do quarto indo em direção ao da filha, abriu a porta e se aproximou do berço, ela dormia calmamente, passou a mão no rosto sentindo o suor grudando seu cabelo, saiu do quarto da filha fechando a porta, em meio o silêncio da casa e a voz de Merida escutou um ruído, arregalou os olhos, o barulho estava vindo de dentro ou fora da casa? Afastou o telefone do ouvido enquanto escutava a voz de Merida ao longe, agora totalmente concentrada nos sons ao seu redor, o coração mais acelerado que antes.
Dirigiu-se com calma pelo corredor, tentando fazer o minimo de barulho possível.
— Elsa? — a voz de Merida a chamava ao longe, ela não a respondeu, continuou com o telefone pendido ao lado do corpo, a respiração acelerada.
Os pés descalços silenciosos sobre o chão de madeira, a cada passo o ruído ficava mais alto, podia escutar as batidas de seu próprio coração , desceu as escadas com calma, olhou rapidamente em direção a sala, estava totalmente vazia, conferiu a porta que permanecia trancada, agora o som mudará, não era mais um ruído de algo se arrastando e sim de passos, se virou o coração prestes a sair pela garganta, as mãos tremendo seguravam o telefone frente o corpo, andou em direção a cozinha, quando estava a poucos passos parou no mesmo local, de costas para ela próximo a janela aberta estava a silhueta de um homem e ela a reconhecia.
A respiração sobressaltada de Elsa o fez se virar, um sorriso estampado em seus lábios, por um instante eles se encararam, ela podia ver seus olhos negros e o sorriso maldoso.
Ela moveu-se primeiro, correu em direção a sala.
— Elsa não corra, não estou com pressa — a voz que soou a fez sentir um arrepio, podia escutar os passos a seguindo, subiu os primeiros degraus da escada com pressa tropeçando em seus próprios pés- Já disse para não correr — ela o escutou falar e sabia que ele estava se aproximando, com passos lentos e precisos, e então o estampido alto, o telefone agora mudo voou longe.
O impacto da bala foi como um chute violento na parte de trás da perna. Ele a fez cair esparramada no chão, ela tentou se levantar, a mão pressionou o ferimento, o sangue quente escorria pela panturrilha e a perna cedeu sobre ela, com um gemido de dor ela caiu de joelhos, levantou o olhar encarando a porta do quarto da filha a alguns metros, virou o rosto escutando ele subir os últimos degraus da escada.
— Vai parar de correr? — ela escutou a voz se aproximando.
"Emma, esse era o único pensamento que passava em sua cabeça, tinha de chegar ao quarto da filha"
Ela começou a rastejar, a mão suja de sangue manchava o assoalho claro, parou em frente o quarto da filha empurrando a porta, se arrastou as pressas vendo Stefler se aproximar, bateu a porta com força a prendendo com o peso do corpo, a mão suja foi em direção ao fecho enquanto as lágrimas desciam de seu rosto, se afastou da porta se escorando na parede, a perna doía como se um de seus ossos estivesse sido fraturado.
— Para de brincadeira sua vadia, abre essa porra agora ou eu vou estourar essa merda e você vai se arrepender — o grito de fúria a fez fechar os olhos, o choro infantil preencheu o quarto, ela olhou em direção ao berço, seria capaz de proteger sua filha? O chute forte na porta a fez arregalar os olhos, ela não iria aguentar muito tempo, mais algumas tentativas de Stefler e ela cederia em milhões de pedaços, mancou em direção ao berço da filha, cada passo deixava um rastro de sangue pelo tapete cor-de-rosa, se agarrou no berço branco encarando o rosto banhado em lágrimas de sua pequena.
(...)
Jack havia acabado de sair da sala de aula quando o som de seu telefone tocando o fez parar, olhou para a tela vendo uma ligação de Merida, franziu a testa a atendendo.
— Jack — a voz desesperada o fez sentir seu coração acelerar — Aconteceu alguma coia com a Elsa, Hiccup já mandou policiais para lá — ela falava desesperada.
Ele sentiu seu mundo cair, como se um buraco tivesse sido aberto abaixo de seus pés, escutou Merida falar mais alguma coisa, só que não conseguia prestar atenção, já corria meio as pessoas no corredor, esbarrando em alunos e funcionários.
(...)
A porta se quebrou com um estampido, a frente a imagem de Stefler parado em meio aos escombros, ele entrou no quarto e ela arregalou os olhos, o corpo protetoramente em frente o berço onde Emma ainda chorava desesperadamente pelos braços da mãe.
— Falei pra não me irrita — o homem moreno falou se aproximando a agarrou com força pelo cabelo, a puxando, ela emitiu um gemido de dor quando alguns fios foram arrancados, ele a empurrou, seu rosto bateu com força no chão a fazendo ver pontos negros a sua frente, sentiu um peso sobre seu corpo, ambos os braços esticados, abriu os olhos, a visão embaçada a fazia encarar o rosto de Stefler próximo ao seu, o sangramento a fazia se sentir ainda mais fraca misturada com o baque da cabeça no chão — Eu to devendo isso ao meu irmão — ele falava com a voz fria — Vou fazer a mesma coisa que ele, te foder todinha depois vou mete uma bala nesse seu rostinho lindo e depois acaba com essa pirralha que não cala a porra da boca — ele falou pausadamente, como se fosse para ela gravar cada palavra.
Sentiu um arrepio passar pela sua espinha, não podia desistir agora, sabia que iria morrer de qualquer modo, sentia a arma fria próxima a sua cabeça, mas não podia se render, não sabendo que sua filha precisava dela, abriu os olhos encarando o sorriso no rosto de Stefler, dentes tão brancos que faria qualquer um sentir inveja, ela mexeu as pernas percebendo que estavam livres.
Virou o rosto encontrando a babá eletrônica caída ao seu lado, junto com a mesinha, Stefler soltou um dos braços da loira levando a mão livre em direção ao pescoço claro o apertando, Elsa respirou fundo sentindo a traqueia ser comprimida, esticou as pontas dos dedos que tocou o objeto, o ar começava a faltar em seus pulmões e a visão a escurecer.
Escutou a risada alta de Stefler quando seus dedos agarraram o objeto eletrônico, o fechou na mão a levando com força em direção a cabeça do homem que se preocupava em a sufocar, escutou um rosnado de raiva e no mesmo instante seu pescoço foi solto, se virou de barriga para baixo respirando fundo, a visão voltando ao normal, tentou rastejar para o canto do quarto quando seu cabelo foi puxado com força.
— Sua vadia — ele gritou a puxando pelo cabelo, uma sombra apareceu na sua frente e ela soube de quem era, o metal frio foi em direção a sua têmpora e ela fechou os olhos sabendo que aquele era seu fim, o estampido foi alto, ela abriu os olhos.
Stefler estava agachado sobre Elsa, mas não mais segurava seu cabelo, a arma caiu de sua mão em um baque surdo no chão, algo gotejou sobre Elsa, sangue, quente e vivo. Mais não dela.
Ele cambaleou para trás caindo no chão, o local onde a bala acertara agora manchado de sangue, ela levantou o olhar ainda assustada vendo dois policiais na porta do quarto, respirou fundo, o barulho de uma viatura ao longe, viu um dos policiais se aproximar do corpo de Stefler enquanto o outro ia em sua direção.
— Elsa uma voz conhecida a chamou, o desespero presente nessa voz, ela levantou os olhos repletos de lágrimas vendo Jack passar pela porta desesperado.
Ele correu os olhos pelo horror que agora era o quarto de sua filha, seu olhar parou sobre Elsa que estava caída no chão, respirou fundo ao ver o rastro de sangue que saia de sua perna, viu o policial a ajudar a se levantar e correu em sua direção a tomando nos braços, a abraçou forte sentindo o medo se esvaindo a cada segundo, todo o medo que sentira ao pensar que poderia perder sua família para um assassino.
— Emma — a loira sussurrou fraca no ouvido de Jack, ele a soltou, olhou em direção ao policial que falava pelo seu comunicador, a colocou com calma novamente no chão e se aproximou do berço da filha, ela estava com os olhos arregalados assustada e algumas lágrimas silenciosas caiam de seus olhos, fora isso ela parecia bem, a pegou no colo a embalando com cuidado, sentiu o cheiro de sabonete infantil e permitiu que lágrimas viessem aos seus olhos, elas estavam bem.
O barulho de passos na escada o fez olhar em direção a porta onde dois paramédicos entravam com uma maca, olhou em direção a Elsa que começava a fechar os olhos, se desesperou, viu um dos paramédicos se aproximar dela verificando seu batimento.
— O que aconteceu? — ele perguntou alarmado, o homem apenas o encarou enquanto fazia um sinal para o companheiro, ambos colocaram Elsa com calma na maca — O que houve? — ele falou alto.
— Ela está apenas desacordada, precisa passar por uma cirurgia a bala a fez perder uma quantidade de sangue considerável — o homem falou sério o encarando, antes de saírem pela porta carregando Elsa, ele olhou ao redor do quarto, o coração acelerado, a mesinha que ficava próxima ao berço no chão, um rastro de sangue e marcas de mão ensanguentadas na parede, fechou os olhos respirando fundo, reconhecendo todo o terror que havia acontecido naquele local.
(...)
Jack abri a porta do quarto 216 e entrou, Elsa o encarou deitada na cama, trajando um fino avental hospitalar ela parecia ainda mais vulnerável, mesmo com o rosto cansado e a perna engessada ela conseguia continuar com uma beleza diferencial, ele sorriu em sua direção e se aproximou sentou na cama ao lado da loira pegando sua mão, a levou em direção aos lábios a beijando com calma a pele quente em contato com seus lábios, levantou o olhar a encarando, ela era a mulher mais corajosa que conhecera, e era essa coragem e determinação que a salvara, encarou os olhos azuis cansados e levou uma das mãos em direção a bochecha clara a acariciando.
— Acabou, prometo não deixar nada mais acontecer com você — ele sussurrou antes de inclinar a cabeça juntando os lábios de ambos e nesse beijo uma nova promessa de que nada mais os atormentaria.
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