Boneca Quebrada

1 Capítulo Único


Boneca Quebrada

Por Rebeca/Pikenna

One-shot

Eu não sou mais uma garotinha. Agora sou uma adulta patética. Continuo esperando aquele mesmo ônibus azul que costumava pegar quando voltava da escola tempos atrás, mas dessa vez não retorno dos prédios cor de abacaxi decorado com grafite — não, não é pichação. No lugar da minha mochila que ficava dependurada rotineiramente no meu ombro direito, dispende uma bolsa de couro, enquanto seguro minha pasta do trabalho. É exatamente meio dia e eu estou voltando do meu serviço, o qual também é patético. Para uma adulta patética apenas um trabalho patético. É assim a vida. Os iguais se encontram. Não existe essa ideia utópica de que os opostos se atraem, isso serve como lei somente na física, não para a realidade. E, como sempre, retorno para casa, sozinha. Foi assim na minha época escolar. Prossegue da mesma forma atualmente.

Estou cansada do meu salário três quartos. Eu queria ganhar uma recompensa digna, algo como quatro quartos que dá um inteiro, mas o Governo insaciável por dinheiro sempre come uma parte do que eu recebo no final do mês. O que é pouco fica menor ainda, acreditem. Queria de verdade retornar para meus dez anos, idade em que brigava com a minha mãe para não usar aquelas meias três quartos cor de rosa que ela insistia em comprar pra mim. Eu não era e nunca vou ser esse tipo de garota ou mulher que gosta da cor rosa. Nada contra, mas prefiro outras cores, como o preto. Preto como uma noite sem a lua, apenas com a companhia das estrelas que brilham ao longe. Quem me dera poder capturar uma e guardar num potinho somente para ter o prazer de admirar o brilho único dela. Queria eu brilhar tal qual uma estrela. Sou como a lua, sem brilho próprio e repleta de buracos. Já desisti de rezar pelos cantos por ser uma boneca quebrada. Mamãe vivia dizendo que pedia toda noite incansavelmente para que eu melhorasse, me tornasse uma pessoa boa, uma garota mais feminina, uma filha mais obediente. Desculpa se vou ofender alguém agora, mas preciso dizer que Deus não existe, e, portanto, claro que as preces da minha mãe foram total gasto de energia. Completamente em vão. Afinal, continuo aquela mesma garotinha má, pelo menos na visão da minha mãe. Suas orações incessantes não serviram para me mudar.

Mamãe era católica fervorosa, com uma venda nos olhos que lhe tirava a razão. Ela me considerava má porque o padre lhe disse isso. Ela nem se quer contestou-o, ou refletiu sobre a fala dele. Acreditou e tomou aquilo como verdade absoluta. Ah sim. Por que era considerada má? Porque eu vestia preto ao invés de rosa, usava cores escuras no lugar das claras, não fazia questão de ser feminina como minhas colegas fúteis de sala de aula e questionava tudo o que o padre dizia. Se uma mente não é capaz de questionar, então é uma mente inútil e ociosa, bem fácil de ser manipulada. O mundo se move pela desconfiança, pelo ato de indagar, pesquisar, comprovar. Se acreditarmos em tudo o que nos dizem, bom, creio que a finalidade de se ter um cérebro acaba. Oh verdade! Estava me esquecendo do quão sarcástica eu sou. Vovó, com sua língua afiada de cobra, me chamava de pequena cretina. Ela tentou alertar a minha mãe de que eu não tinha conserto, aliás, ela tentou envenenar minha mãe com seu tóxico de cobra mortífera para que ela ficasse contra mim, sua única filha. Depois a má da história sou eu que nasci com defeito de fabricação. Já aceitei que sou uma boneca quebrada.

Nunca acreditei nessa balela irrisória de príncipe encantado. Isso é pura propaganda enganosa que os livros de romance fazem para ludibriar adolescentes bobinhas. Com aquele ar de sonhadoras, elas compram esse tipo de leitura estragada, dando dinheiro aos montes para as editoras e escritores que comercializam romances mentirosos e ilusórios. Príncipes encantados. Finais felizes. “Ficaremos juntos para sempre”. Isso nunca existiu, não existe e jamais existirá. Contos de fadas é um mundo paralelo ao nosso, totalmente ilusório. Não consigo entender a mente das garotas que acreditam facilmente nessas histórias, esperando eternamente pelo príncipe montado em um cavalo branco que lhes darão o castelo dos sonhos para governar ao lado de seu amado felizes para sempre. Só de pensar nisso, já sinto vontade de vomitar. Sério, prefiro gastar meu dinheiro de forma decente, com leituras menos melosas e mais trágicas, violentas, repletas de mistério, mortes, sangue. Isso sim é história de verdade!

Eu nunca tive muitos namorados na minha vida, devido a minha personalidade horrenda e forte. Os garotos me consideravam mais como um menino que menina, apenas porque eu jogava bola, falava palavrão, batia em valentões e usava preto. Aos poucos esse cenário foi mudando, afinal, não dá para usar preto pro resto da vida, certo? Quase isso! Eu reduzi bastante minhas roupas pretas, alternando para cores como vermelho, roxo, azul. Azul como o céu límpido de uma manhã de verão. Eu amo essa estação, cheia de vida e energia. Entretanto, apesar de amá-la, diria que eu sou a personificação do inverno: implacável, incompreendido e solitário com sua frieza e dureza. Mas, voltando ao ponto principal... Homens começaram a se interessar por mim. Não é que eles não se interessavam antes, mas dessa vez o número aumentou de modo alarmante. Contudo, nenhum deles preenchia os requisitos necessários para conquistar a boneca quebrada. Exigente. Sempre fui assim. Não vou mudar.

Um dia, me apareceu o típico príncipe encantado que toda garota almeja ter ao seu lado como namorado – bonito, cavaleiro, elegante, mas era um chato. Não suportava o cara. O status “ficando” não durou mais que um mês. Eu logo dei um belo chute na bunda do sujeito. Porra, ele só falava sobre si: como ele era lindo, como ele era rico, como ele era perfeito. Perfeito o caralho! O filho da mãe era – e ainda dever ser – insuportável. Chegou um momento que eu não aguentava mais ouvir a voz dele. Obviamente, o tinhoso não aceitou ser chutado com força total. Achou um ultraje. Teve o orgulho ferido. Daí eu me pergunto: e eu com isso? “E eu com isso” resultou: príncipe dos contos de demônios correndo atrás de mim. Ele me liga todo o santo dia. Manda flores, manda carta, manda presentes caros, manda isso, manda aquilo. Assim que minha paciência chegar ao fim eu vou fazer o seguinte: manda-lo ir abraçar o capeta no quinto dos infernos, ou, simplesmente, pra puta que o pariu. A partir dessa minha situação problemática é possível tirar a seguinte conclusão: a vida não é sonhar. É ter os pés no chão. Em suma, príncipe encantado só nos contos de fadas – comércio fácil e escroto. Na vida o que existem são ou sapos, ou papagaios, ou cães, ou cavalos, ou narcisos.

Já não sou mais criança. Eu conheço a verdade. Sou uma adulta patética no auge de seus vinte e seis anos, recém formada na área da educação que anda mais decadente que um mendigo bêbado desmaiado no meio da rua. Sonhar. A vida com certeza não é sonhar. Sonhar frustra. Sonhar destrói sonhos. Sei que é meio paradoxal, ou será redundante? Não importa! Sei da matemática, não do português. O que interessa é que idealizei uma profissão que jamais viria a me realizar como profissional. Devia ter pedido um copo lotado de malandragem antes, virando-o de uma vez para me embriagar rapidamente. Contudo, fiz o pedido tarde demais. Hoje eu tenho a tal da malandragem, mas de nada me serve no momento. Agora eu só peço ao barman um pouco de vodca para esquecer meus problemas e ficar um pouco menos amarga, se é que isso é possível. Odeio meu salário. Odeio meu emprego. Odeio meu local de trabalho – escola pública é quase uma prisão juvenil. Odeio meus colegas de profissão – deveriam todos morrer, pois quando é preciso lutar pela própria causa, reivindicando um salário digno, ninguém move o corpo para sair do lugar e ir protestar. A maioria está satisfeita com a vida medíocre. Não fiz anos e anos de faculdade federal para merecer isso. Patético! Somos todos professores patéticos. Brasileiros comodistas. E isso me enoja. Eca!

Eu só conheço o ódio nesse momento. Eu aprendi a amar, mesmo não sendo poeta, mas tão logo aprendi, tão logo desaprendi. Atualmente eu só conheço o ódio. Amar pra que? Pra se desapontar? Amor é um sentimento doentio. Inútil. Sem uso. Descartável. Amor faz com que percamos a noção da realidade. E não vivê-la é burrice completa. Como eu já disse, a vida é não sonhar. Amar faz sonhar. Delirar. Se perder. Prefiro encontrar. Ficar sã. Encarar a realidade. Falando em encarar a realidade, tenho uma longa jornada ainda pela frente. Possuo uma tarde inteira de trabalho doméstico. Arrumar casa não é fácil, principalmente quando se trata de uma pessoa solitária que ama mudar os cômodos de posição. Troco até mesmo uma planta de lugar. Pelo menos hoje é sexta-feira, dia de tomar aquela cerveja gelada e jogar as pernas pro alto. Colocarei minha playlist do computador para tocar o mais alto que meus vizinhos antiquados aguentarem — já perdi a conta de quantas vezes fui denunciada por esses amargurados — e me desligarei da vida. Beberei uma cervejinha, enquanto arrumo a casa e canto o mais alto que minhas cordas vocais são capazes. Arrumo tempo para voar. Voar pelas notas musicais de uma boa guitarra. Isso é sagrado e com o sagrado não se pode faltar, como vivia me dizendo minha mãe. Pelo menos alguma lição religiosa dela eu aprendi, ainda que de maneira torta. Não me importo, pois eu sou uma boneca quebrada.

Uma boneca quebrada repleta de malandragem que é livre para correr pelas ruas, afinal, bonecas quebradas não são colocadas em redomas de vidro, nem em caixas de plástico, tão pouco postas na estante para serem admiradas. São descartadas. Mas quem foi que disse que o descarte é ruim? Malandro que é malandro sabe que ser descartado é o mesmo que ser livre, pois se ninguém o quer, ninguém o prende. Eu sou assim, apesar de ser uma adulta patética. Acho que não fui cem por cento verdadeira em minhas colocações. Talvez eu não tenha de fato desaprendido a amar, pois amo gozar da minha liberdade. Talvez eu até seja um pouco poeta devido as minhas metáforas feitas. Falar dessa forma me faz soar como uma menina de quinze anos no auge de sua rebeldia, que diz uma coisa antes e depois desconversa falando outra.

É, quem sabe eu ainda sou uma garotinha!

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