Boneca Humana
4 Capítulo 3 — Território inimigo
Notas iniciais
Passei o resto do tempo que eu tinha disponível, antes do intervalo, na biblioteca. Logo depois que a diretora Shermansky saiu com os meninos, peguei um livro de Sherlock Holmes para ler chamado O Cão dos Baskervilles. Romances policiais sempre foram minha paixão (depois de música eletrônica, é claro) e eu vivia lendo nos anos anteriores. Mas meu tempo foi se encurtando conforme as tarefas do dia-a-dia na escola aumentavam e eu parei. Lia apenas quando sobrava tempo. E, ao pegar aquele livro, me entristeci ao pensar no tempo que eu passava fazendo outras coisas que não me davam tanto prazer quanto ler e tentar desvendar os mistérios e descobrir o culpado antes de chegar ao final do livro. Na maioria das vezes eu errava, mas isso não me impedia de continuar lendo.
O sinal tocou e eu desci as escadas até o corredor principal. Acho que, ao menos, eu poderia pegar a chave do meu armário e os livros de que precisaria para as próximas aulas.
E foi o que aconteceu. A diretora Shermansky me entregou uma pilha de livros que eu mal conseguia carregar e depois passei na sala do Grêmio Estudantil para pegar minha chave. Eu esperava encontrar Nathaniel lá, mas me lembrei de que ele ainda devia estar na enfermaria. Quem me passou minha chave foi Melody, a “garota-poodle” que insistia em me olhar de uma maneira que eu detestava. Ela tinha uma expressão gentil demais, e isso me dava nojo. Mais nojo ainda por ter certeza de que aquela expressão não era sincera, como se Melody estivesse sendo obrigada a me tratar bem.
— Armário 202. — Repeti para mim mesma, olhando a chave enquanto tentava equilibrar uma pilha de livros no corredor principal, torcendo para não esbarrar em ninguém. Por sorte, cheguei ao armário antes que isso acontecesse. Ufa!
— AAAH! — Ouvi o grito de uma voz feminina, bem próxima a mim. Oh, oh! Acho que falei antes da hora.
Um dos livros havia escorregado do topo da pilha antes de eu colocá-los no armário e uma garota loura havia tropeçado nele e caído de cara no chão.
— Ambre, você está bem? — Uma garota oriental, que andava junto à ela, se abaixou para ajudar a amiga. Outra garota, de cabelos castanhos e com um vestido verde e marrom ridículo (não sou de reparar e criticar a roupa das pessoas, mas até a falta de noção para estilo tem limites) também correu para ajudá-la.
— Não! — Ambre, a garota loura, levantou-se. — Minha roupa encostou nesse chão imundo, e agora centenas de bactérias nojentas estão andando pelo meu corpo! É óbvio que eu não estou bem, Li!
Ai, droga! Eu temia o dia em que isso iria acontecer — apesar de que eu tinha certeza de que iria acontecer. Em todas as antigas escolas havia uma patricinha diferente, todas cheias de “não-me-toques”, frescuras e com um bando de garotas sem cérebro andando atrás delas, como se fizessem parte da corte da Rainha Vitória. Não era de se estranhar que também havia uma em Sweet Amoris.
— A culpa é dela! — Li, a oriental, apontou para mim.
— Ei! — Coloquei as mãos em minha frente como se fosse um escudo. — Não aponte assim pra mim. Não foi de propósito.
— Você não deveria andar com tantos livros na mão de uma vez. Você mal enxerga por cima deles! É claro que um desastre como esse iria acontecer. Será que você não usa o cérebro? — Gritou Li.
Não, eu não uso meu cérebro. Eu não tenho um cérebro. Mas aquilo, certamente me irritou. Já estava pronta para gritar algo de volta, quando Ambre franziu o cenho e, fitando-me, disse:
— Eu conheço você! É a garota que eu vi saindo da sala do meu irmão hoje mais cedo.
Meu Deus… Então quer dizer que ela e Nathaniel são irmãos? IRMÃOS? Além de ter que conviver com a “garota-poodle” todos os dias, ele ainda tem que aguentar uma vadia dessas em casa? Pobre Nathaniel…
— Então… você é a novata que o professor Faraize citou mais cedo na aula! — Ela deu uma gargalhada. — Eu não acredito! Pensei que você fosse mais bonita, ou, ao menos, mais bem vestida!
— Isso é uma escola, não uma agência de moda. — Respondi, revirando os olhos.
— Ainda bem, porque, se fosse, você não passaria nem na porta! — Ambre retrucou.
— Como se você fosse, saco de batatas! — Rebati, fazendo referência à blusa bege que Ambre usava, que parecia muito mais um saco de batatas do que uma blusa normal.
— O QUÊ???? — Ela gritou, indignada, como se eu tivesse acabado de dar um soco na cara dela. — Isso, minha querida, é uma peça exclusiva de Jean-Paul LaRoc. Meu pai tem contatos com vários estilistas famosos que fazem roupas exclusivas, coisa que você nunca terá.
— Como se eu precisasse de um estilista pra colocar em mim uma roupa que todo mundo usa e me fazer ser apenas “mais uma na multidão”. — Falei. — Sinto muito se aqui em "Parrí" as coisas são diferentes, mas na América cada um tem seu próprio estilo e não precisa depender de catálogos de moda para se vestir bem.
— Problema seu! — Ambre disse. — Não vou te forçar a ter estilo, mas saiba que nenhum garoto aqui se interessa por “rebeldes sem causa”, especialmente quando eles criticam as tradições do nosso país.
— Vim para a França para estudar, e não para fazer garotos se interessarem por mim.
— Isso mesmo, continue tendo esse pensamento que eu posso até considerar gostar de você. E mais um aviso. — Ela se aproximou de mim e sussurrou: — Fique longe do meu irmão e do Castiel, eles são bons demais para garotas da sua laia. — Ambre ficou alguns segundos me encarando e logo se afastou. — Charlotte, Li, vamos!
E elas seguiram pelo corredor até o refeitório. Pra variar, Ambre no meio e as duas ao lado, um pouco atrás dela, como se realmente fossem seguidoras ao invés de amigas. Eu me pergunto o que se passa na mente de gente como Charlotte e Li para se subordinarem a isso. Será a necessidade de amigos ou só a falta de cérebro mesmo?
— Ela é tão irritante, você não acha? — Ouvi uma voz feminina atrás de mim. Imediatamente me virei e vi uma garota, também loira, com charmosas sardas pelo rosto e que vestia uma blusa listrada e um short com suspensórios (ambos cor-de-rosa). Aquilo me fez indagar se ela era tão patricinha quanto Ambre e estava me testando.
— Hã… Na verdade, nem tanto. — Falei, me abaixando para pegar o livro caído no chão — aquele em que Ambre havia tropeçado — e guardando-o em meu armário. — Acho que ficou apenas com ciúmes porque o irmão dela foi gentil comigo.
Ela riu.
— Por favor! Ela é uma cretina, se acha melhor do que todo mundo e ninguém aqui gosta dela de verdade. Ei, estou indo encontrar meus amigos no refeitório pra comermos alguma coisa. Quer vir também?
— Claro. — Respondi, trancando meu armário e começando a andar pelo corredor junto com ela.
— Oh, já ia me esquecendo! — Ela exclamou. — Meu nome é Wendy Phillips. A propósito, adorei a parte do “saco de batatas”. Você me fez rir bastante!
Também dei uma risadinha
— Sou Kaplan Foxy. E não foi nada demais, só falei o que ela merecia ouvir.
— Com certeza, só que ninguém aqui fala isso na cara dela. Ela é irmã do representante de turma e ele a defende com unhas e dentes!
— Nathaniel fica do lado dela? Sério? — Ergui as sobrancelhas. Aquilo era impossível de acreditar.
— Sim. Eu até diria “não o culpe por ser burro, olhe a cor do cabelo!”, só que eu também sou loira e isso seria burrice da minha própria parte. — Ela disse, me fazendo rir. — Então torça pra Ambre estar de bom humor hoje, porque se ela disser algo para o Nathaniel, você dança!
— Eu não vou pedir desculpas à ela! — Falei, como se considerasse aquilo uma ofensa. — Ela não vai deixar de ser fresca se alguém não fizer alguma coisa!
Já havíamos adentrado o refeitório e Wendy acenou em direção a uma mesa onde havia alguns garotos. Eles acenaram de volta.
— Vem, Kaplan! — Ela disse, já correndo até lá. — Oi gente! Foi mal a demora, eu tive que passar na diretoria porque o meu irmãozinho querido jogou o PSP na minha mochila e o professor Faraize pegou. Quase que a diretora me dá uma detenção!
— Ei, não me culpe! — Um rapaz de cabelos pretos e um visual um tanto “afeminado” disse. — Já tenho advertências demais com a diretora, não posso levar mais uma. Se não eu ganho suspensão!
— Coitadinho do Armin! — Outro garoto riu. Ele era muito parecido com Armin (seriam gêmeos?), porém seus cabelos eram azuis. — Quem sabe assim a diretora pega seu joguinho e você finalmente arranja uma namorada?
O pessoal que estava na mesa riu. Eu tentei rir também, apenas pra participar do assunto. E então, Wendy pareceu notar novamente que eu estava lá.
— Oh! Foi mal, esqueci de apresentar a garota que eu acabei de conhecer. Gente, essa é a…
— Kaplan? Kaplan Foxy? — Um garoto de cabelos castanhos, que não parava de olhar para mim, perguntou, interrompendo Wendy.
— Sim, sou eu mes… — Minha fala foi interrompida por um abraço repentino do garoto. “Wow!”, pensei, retribuindo o abraço. Eu nunca havia sido abraçada por um garoto dessa maneira, ainda mais por um garoto que eu havia acabado de conhecer. Espera… Se acabamos de nos conhecer, então como ele sabia meu nome?

— Estava com saudades de você, ruiva! Da última vez em que eu te vi, você estava fazendo tratamento para alguma doença, não me lembro qual. Pensei que nunca mais iria te ver! — Ele disse. — Você não deve se lembrar de mim, eu mudei bastante.
— E como mudou! — O garoto de cabelos azuis disse, dando uma risadinha marota.
— Sou eu, o Kentin! Ou, como você me chamava antigamente, Ken. Estudamos juntos na Callowey, lembra? — Ele disse.
Callowey Briston High era o nome da minha antiga escola, em Malibu. Mas… Eu não me lembrava dele. Aliás, eu nunca havia conhecido nenhum Kentin na minha vida. Será que… NÃO! Não pode ser! Kentin era amigo da Kaplan verdadeira! Quando ele citou a doença, devia estar se referindo ao câncer que a Kaplan original tinha.
— Hã… Eu… Me lembro sim! Nossa, como você está diferente! — Exclamei, tentando arranjar algo para falar que não mostrasse que eu nunca o havia visto antes. Kentin mesmo havia dito que mudou bastante, então eu não estava falando nenhuma bobagem.
— É verdade! Meus pais me trouxeram para a França e depois eu fui para um colégio militar por alguns problemas que tive com uma garota aqui.
— Com a “Ambrega” Armitage, aquela fedorenta! — O garoto de cabelos azuis falou, fazendo todos rirem novamente. Bem que Wendy havia dito que ninguém gostava de Ambre de verdade. Pelo menos eu não era a única.
— Por que? Vocês namoravam e ela te deu um fora? — Perguntei. Todos riram ainda mais.
— Kentin e Ambre? — Uma garota de cabelos brancos e olhos cor de ouro, sentada ao lado do rapaz de cabelos azuis, mal conseguia respirar de tanto rir. — Seria cômico!
— Até que eles formariam um casal bonitinho, Rosalya! — O rapaz de cabelos azuis disse.
— Ha, ha, ha, muito engraçado, Alexy! — Kentin revirou os olhos para o garoto de cabelos azuis. Depois se voltou para mim novamente. — A história é um pouco complicada, te explico melhor outra hora. Mas que bom que está aqui também! Você tem falado com a Rachel?
Rachel Ramsey era uma antiga amiga de Malibu. Ela estudava conosco também e Kentin devia tê-la conhecido.
— Tenho sim. Inclusive… Quando você foi embora, eu fiquei em Malibu por mais um tempo. Meu pai virou empresário de uma boyband em Bridgeport, então nos mudamos pra cá. — Expliquei.
— Os Engravatados, acertei? — Alexy, o garoto de cabelos azuis, arriscou. Balancei a cabeça confirmando. — Eles são incríveis! Tanto em aparência quanto no talento! Principalmente o David. Você já viu ele sem camisa, Kaplan? Você até perde o ar dos pulmões quando olha pra aquele monumento!
Dei uma risada. Sim, eu já havia visto David sem camisa, exatamente no dia em que o conheci. Mas eu nunca vi um homem elogiando outro homem dessa forma. Alexy era… Gay?
— Alexy, tenha dó! — Rosalya, a garota de cabelos brancos, deu um tapinha no ombro de Alexy. — Nem eu sou tão assanhada desse jeito!
— É porque você tem namorado. — Alexy disse. — Não pode ficar cobiçando o homem do próximo!
Rosalya riu.
— Gente, o que vocês ainda estão fazendo em pé? Sentem-se! — Ela disse para mim, Kentin e Wendy, que ainda estávamos de pé. Então nos sentamos em torno da mesa.
— Ah, esqueci de te apresentar. Aliás, de acabar de te apresentar! — Wendy disse, rindo. — Estes são meus irmãos Alexy e Armin, minha amiga Rosalya e o Kentin que você já conhece.
— Prazer conhecê-los! — Disse, dando uma risadinha.
— O prazer é nosso! — Rosalya disse. — Gente, algum de vocês já estudou história para a prova da semana que vem? É muita coisa! Eu simplesmente não consigo decorar a matéria!
— Quem mandou o professor Faraize dar “história geral” como matéria pra estudarmos? — Kentin disse. — Fala sério, isso nem é matéria! É como se ele pedisse pra decorarmos absolutamente tudo e depois colocar coisas aleatórias na prova, como se tivéssemos a mente de Einstein.
Na antiga escola, eu havia tido esse problema. Até para uma boneca com inteligência artificial, decorar fatos era difícil. E então, Rachel me ensinou uma técnica para estudar unindo o útil ao agradável: Escolher músicas aleatórias e criar paródias relacionadas às matérias que eu precisava estudar. Decorando as músicas, eu sabia todas as matérias e aprender se tornava bem mais divertido.
— Eu tenho uma ideia! — Falei. E então sugeri aquilo. Sempre me ajudou e os garotos pareciam entusiasmados.
— Parece ótimo! — Wendy disse. — Mas onde vamos estudar?
— Na minha casa não vai ser possível… — Falei. — O estúdio de gravação do meu pai fica na garagem, e ele e a banda ensaiam e compõem a maior parte do dia.
— Nossa casa fica em Paris. — Alexy disse. — E eu duvido que vocês iriam querer viajar até lá pra fazer isso.
— Pode ser na minha casa se vocês quiserem! — Rosalya disse. — Só não façam tanta bagunça. E precisamos de alguém que saiba bem a matéria de história, ou então vamos passar uma tarde inteira sem conseguir fazer uma música!
Me lembrei de Nathaniel comentando mais cedo que ficou acordado até tarde tentando estudar para as provas. Ele parecia ser bem esforçado, com certeza já tinha pelo menos uma noção sobre a matéria da prova de história. E ele era representante de turma, já contava como ponto positivo.
— Acho que o Nathaniel pode nos ajudar nesse ponto. — Falei.
— Sério? Eu sempre o achei bem reservado para estudar. Acha que ele vai querer nos ajudar? — Wendy perguntou.
— Acho que ele ajudaria a novata que acabou de entrar na escola e precisa de ajuda com a matéria! — Dei uma risadinha. Depois de algumas discussões, concordamos em chamar o Nathaniel para estudar conosco. Então, me levantei da mesa e fui procurá-lo.
NARRAÇÃO DE NATHANIEL ARMITAGE:
Minha boca já não sangrava mais. Logo depois que saí da enfermaria, peguei um brioche no refeitório e voltei ao Grêmio Estudantil para garantir que não havia nada fora de ordem. Sou bastante metódico nesse ponto. Ás vezes eu penso que vou chegar ao Grêmio e encontrar todas as gavetas abertas, pastas e fichas escolares jogadas no chão, se misturando com as provas e os documentos da escola. Por isso, sempre volto lá para me certificar de que tudo está bem.
E dessa vez, eu também tinha algo para fazer lá: Ler a ficha de Kaplan Foxy, a aluna nova. A diretora Shermansky sempre joga todas as responsabilidades de alunos novos em cima de mim, e agora eu teria que preencher alguns papéis e arquivar Kaplan no ficheiro da escola.
Estava começando a ler o histórico escolar dela, quando ouvi uma batida na porta do Grêmio. Antes que eu autorizasse, a pessoa que havia batido foi logo entrando.
— Te atrapalho, Nath? — Perguntou. Era Kaplan Foxy.
— Não, de maneira nenhuma. — Respondi. — Precisa de algo?
— Pra falar a verdade, preciso sim. — Ela disse, se aproximando de mim. Eu não me lembrava que os cabelos dela eram de um laranja tão forte. Ainda que me desse repulsa por lembrar o Castiel, a cor deixava-a bonita. — Sabe, Nath… É muito ruim ser a aluna nova da escola, porque eu me sinto triste por não ser tão inteligente. Você, ao contrário é muito, MUITO inteligente. — A voz dela soava mais sensual que o normal. — E eu queria saber se você não poderia me ajudar a estudar. Podemos estudar na sua casa, ou na minha. O que você achar melhor.
— Bem… — Comecei. Como dizer não para uma aluna nova? — Sim, eu te ajudo sim.
— Oh, muito, muito obrigada! — Ela exclamou. — Como eu posso te recompensar por isso?
— Não… Não precisa fazer nada. É sempre um prazer ajudar os alunos novos.
Kaplan sorriu maliciosamente, se aproximando um pouco mais.
— Além de inteligente é modesto. Que coisa sexy! — Ela disse, colocando uma das mãos em minhas costas e pressionando meu corpo contra o dela.
Nesse momento, fiquei com um pouco de vergonha, o que me fez ruborizar mais do que eu desejava. Acabei desviando o olhar, na tentativa de não parecer um idiota.
— Oh, você está vermelho! — Ela disse, em um tom bastante provocante. — Não se preocupe, eu não mordo.
E então, seus lábios tocaram os meus. E Kaplan me beijou intensamente.
Fiquei um pouco surpreso no início, com medo de alguém invadir o Grêmio e nos pegar, mas depois deixei as preocupações de lado e simplesmente correspondi. Não era como se eu realmente quisesse, mas Kaplan parecia me hipnotizar de alguma forma que eu não tive forças para me distanciar. Além do mais, era apenas um beijo, não era? O que de ruim poderia acontecer?
Com esse pensamento, entrelacei meus dedos em suas madeixas e as puxei, aumentando a intensidade. Kaplan então enfiou a mão por baixo de minha camisa e a deslizou suavemente pelo meu peito e abdômen, sem que seus lábios deixassem os meus. Estava fria, o que me fez soltar um suspiro involuntário e me arrepender logo depois.
Em seguida, a ruiva desceu sua mão em direção ao cós da minha calça e insinuou querer mais. Oh céus, aquilo sim me pegou de surpresa!
— Não acha… Que… — Eu tentava me pronunciar entre os beijos para pedir que ela fosse mais com calma. Mas eu deveria? Digo, não sei se estava preparado para o que estava por vir, mas também não queria que ela me visse pro resto do período escolar como o “broxa que andou pra trás”.
Não que eu me importasse de fato com o que ela pensava.
— Nathaniel! — Kaplan disse, se desprendendo do beijo. Mas sua boca não se mexeu.
— E-eu fiz alguma coisa? — Perguntei, tropeçando um pouco nas palavras. Eu não havia feito nada! Será que ela podia ler pensamentos?
— Nathaniel! — Ela repetiu, e novamente sua boca não se mexeu. O que estava acontecendo?
E, de repente, Kaplan pareceu distante. Ela sorriu e foi se afastando, enquanto tudo ao meu redor ficava branco.
— Nathaniel! — Ouvi mais uma vez. E então abri os olhos rapidamente. Eu não estava no Grêmio. Eu estava na biblioteca, dormindo em cima de um livro. Kaplan estava sentada na cadeira em frente à minha. Então… Tudo havia sido um sonho?
— Nathaniel, você está bem? — Kaplan perguntou.
Ainda meio atordoado, não conseguindo distinguir o que era sonho do que era realidade, respondi que sim.
E foi aí que me lembrei: Depois que saí da enfermaria, realmente passei no grêmio para arquivar a ficha de Kaplan. Mas preferi fazer isso depois, e fui à biblioteca para estudar mais um pouco. Eu devo ter ficado com muito sono e dormido lá mesmo.
— Você tem certeza de que anda dormindo bem ultimamente? — Ela perguntou.
— Sim. Tenho. — Respondi, bocejando e fechando o livro sobre o qual eu havia dormido. Discretamente cruzei as pernas, temendo ter “me empolgado” demais com o sonho e ela perceber antes de mim.
— Hum… — A ruiva murmurou, ainda não convencida. — Eu, a Wendy e os meninos vamos estudar para as provas finais amanhã à tarde na casa da Rosalya. Queríamos que você fosse, porque eles estão com muitas dúvidas sobre a matéria e eu acabei de entrar na escola. Então precisávamos de alguém inteligente que ensine a matéria para nós.
Quando ela disse “inteligente”, eu quase engasguei. Será que eu ainda estava sonhando?
Para me certificar, belisquei meu braço. Mas nada ficou branco, tudo continuava a mesma coisa. Kaplan, a biblioteca, o livro… Tudo o que eu havia conseguido era uma dor no braço e um olhar estranho de Kaplan, como se eu fosse louco.
— Você está bem mesmo? — Ela perguntou.
— Sim, estou. — Respondi. — Eu… Acho que posso estudar com vocês. Só preciso revisar um pouco mais antes.
— Você precisa é de uma boa noite de sono! — Kaplan riu e colocou a mão em minha cabeça, bagunçando meu cabelo. — Antes que desmaie no meio da aula!
E então ela deixou a biblioteca enquanto eu ajeitava meu cabelo. Eu nem me lembrava qual foi a última vez em que eu tive uma boa noite de sono. Todos os dias, ao voltar da escola, eu ia para a aula de boxe e depois voltava para casa, tomava um rápido banho e ia estudar e fazer as tarefas de casa. Normalmente eu acabava muito tarde e, com isso, acabava não dormindo direito.
— É. Preciso tentar dormir melhor. — Falei para mim mesmo. Não por medo de desmaiar no meio da aula, mas sim, porque costumo falar enquanto durmo. Se eu tivesse outro sonho como aquele na escola e acabasse falando algo que eu não devo, provavelmente eu não colocaria o pé em Sweet Amoris novamente.
Será que eu falei algo dessa vez que Kaplan tenha escutado? Droga! Se eu tiver falado, ela deve achar que sou pervertido! E a última coisa que eu quero é que alguém em Sweet Amoris pense algo assim. Foi um sonho… E não controlamos nossos sonhos. Não significa que eu tenha vontade de que aquilo realmente aconteça algum dia entre Kaplan e eu. Ela tem uma personalidade espontânea, destemida, bem parecida com a de Castiel na verdade. Não é o tipo de coisa que me atrai em uma garota.
Então… Por que meu sonho tinha sido exatamente com ela?
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