Notas iniciais
gosto tanto do nyah, ainda que ele não goste tanto assim de mim de volta :,) tomaram que alguém leia... (positividade sempre)

Está fazendo exatamente 5 anos e 2 meses que não vejo ou tenho notícias de Percy Jackson quando o nosso reencontro acontece.

Meu primeiro pensamento é: Caraca, não acredito que eu sei exatamente quanto tempo faz. Meu segundo pensamento é ainda menos articulado que isso, apenas: Caraca!

Ele se recupera mais rápido do que eu. Não, parando para pensar sobre isso, não me parece que ele tenha alguma coisa para se recuperar, seu semblante transmitindo zero surpresa. Na verdade, tenho certeza que ele parece um pouco irritado, ou pelo menos levemente incomodado, como quem olha para um pedaço de merda que apareceu no caminho inesperadamente e foi pisado por engano. Que ótimo jeito de começar o dia, me comparando mentalmente com um pedaço de cocô na sola de ninguém menos que Percy Jackson. Obrigada por isso, cérebro.

O que me serve de consolo é que Percy é difícil de ler, então não dá pra dizer com certeza que ele está realmente irritado por me ver. Pelo menos, é o que eu tento dizer a mim mesma, para me convencer que ele não me odeia. Com suas sobrancelhas escuras e densas que são naturalmente um pouco arqueadas, seu olhar é estoico e o faz parecer um pouco problemático. Aquele olhar que diz: é isso, você está encrencado! Se essa encrenca resultará numa boa história empolgante ou num trauma, só o tempo diria.

Disposta a tentar, eu digo, com um sorriso tenso:

“Oi!”

Percy naturalmente devolve meu cumprimento.

“Oi. E aí?”

Então eu entro em pânico. Porque, simples assim, a bola está comigo. Esse “e aí?” foi uma pergunta retórica ou eu devo responder? Não acho que ele pense que tem uma obrigação de iniciar ou manter uma conversa comigo, – o que de fato não tem – mas ao mesmo tempo meio que quero que essa conversa aconteça. Eu meio que estive esperando por ela.

O que é ridículo, pois Percy provavelmente não sente o mesmo. Provavelmente não quer me ver nem pintada de ouro. Pior, provavelmente sente completa indiferença pela minha pessoa. Talvez ele nem lembre de mim. Talvez seja isso que aquele olhar aguçado queira passar. Desprezo, indiferença, consternação, estranhamento... Espera...

“Você é Percy Jackson, não é?”

Ele quase sorri. Eu sei que sim. Dá pra saber por uma faísca de sentimento que ilumina seus olhos.

“Sim.” E então adiciona: “Annabeth.” Dizendo meu nome como para me confirmar que se lembra de mim. Naturalmente, eu coro, porque ele me leu direitinho.

Mas eu mereço a dose de constrangimento por ter duvidado da minha percepção. Porque é óbvio de todas as formas possíveis que aquele é Percy Jackson. Um Percy muito mais, – mais velho, mais bonito, mais forte, mais alto, ombros mais largos, mais tudo – mas ainda obviamente Percy Jackson. O mesmo cabelo escuro como carvão, mesmos olhos verdes eletrizantes e mesma pele bronzeada. Me pergunto se ele tem aquele mesmo dente lascado na frente.

Noto que Percy está carregando um grande saco de alguma coisa com aparência pesada, e embora não esteja ofegante nem nada, seus músculos do antebraço estão tensos, o que me faz concluir que seja um esforço considerável. É então que percebo que ele não se move porque estou no caminho. Me afasto um tanto desajeitada, espremendo meu corpo contra a parede mais próxima enquanto ele passa.

Estamos na saída lateral da cafeteria mais próxima do meu dormitório, um daqueles raros lugares nova iorquinos que conseguem ser caóticos e acolhedores ao mesmo tempo, com livros e bebidas açucaradas onde você sonha encontrar um cara legal pra falar sobre literatura e se apaixonar. Tenho certeza que você sabe do que eu tô falando.

A dispensa não é tão estética quanto a entrada, mas eu gosto porque o cheiro é uma mistura de grãos de café torrado e alcaçuz. Não estou ali pelo cheiro, no entanto, estava apenas indo embora furtivamente pela saída dos funcionários para não topar com conhecidos da faculdade dos quais tive um vislumbre na entrada. É cedo em um domingo, estou com sono, frio e desarrumada. Obviamente, não queria topar com ninguém.

Saí de casa para comprar café mas pretendia voltar o mais rápido possível, sem surpresas, sem nada de novo. Ou seja, fica mais do que claro que eu não estava nada preparada para encontrar Percy Jackson.

Com umas quatro camadas de roupas por causa do frio do inverno, acordada desde ontem, não estou nem mesmo usando desodorante, porque Thalita insiste que a gente deve usar menos no inverno (aparentemente desodorantes causam câncer de mama e põem fogo na camada de ozônio, então é nossa obrigação diminuir o consumo ou algo assim).

Mas agora eu estou suando de nervosismo, o que não é nada, nada bom.

Percy não me manda ir embora, pelo menos, ainda que devesse. Eu não sou funcionária do café então não devia estar ali, ainda que tenha pedido para a moça da recepção para usar a saída lateral, o acordo era que eu seria breve.

Eu só preciso dar uns quatro passos para passar pela saída e voltar para o frio da rua, e então andar só mais uma quadra e estaria de volta ao meu prédio. Se eu tenho mesmo algo mais para falar com Percy, a coisa certa a fazer seria essa, eu sei, ir embora, recuperar um pouco da minha dignidade e voltar para encontrá-lo de novo. Mas é estranho, estou enraizada no chão, meus olhos presos a ele. A impressão é que enlouqueci, porque meu coração me diz para jorrar tudo que tenho para dizer sobre ele, não haverá outra oportunidade além dessa, não tempo de ir pra casa tomar um banho, se você fizer isso com certeza ele terá sumido de novo quando você voltar.

Ele põe o saco pesado em uma das prateleiras sem se importar muito comigo. Desde quando Percy trabalha aqui? Não deve fazer muito tempo. Quer dizer, eu venho aqui pelo menos uma vez na semana e nunca o vi antes, o que com certeza teria acontecido se fosse o caso de ele estar trabalhando a muito tempo.

“Você está pensando tanto que quase posso ver fumaça saindo pelas suas orelhas.” Ele diz, do nada, o que serve para me arrancar dos meus pensamentos. Não está sorrindo, mas eu sim. Estou tão miserável que aquilo me pareceu caloroso o suficiente para me dar esperanças.

Meu cérebro diz não, mas minha boca forma as palavras mesmo assim:

“Posso te pagar um café?”