Bolhas de Sabão

1 Bolhas de Sabão


Ela toma coragem, depois de debruçar-se sobre sua janela, e sopra o fazedor de bolhas que um idiota achou em meio às suas coisas e que agora acabou nas dela.

Uma pequena lembrança roubada.

No céu, milhares de pequenas esferas transparentes eram sopradas ao belprazer da brisa fresca de primavera como dentes-de-leão. Escutava ao longe o riso de uma criança, um som que era como sinos, e viu-se sorrindo, brevemente contagiada por uma existência tão simples e ao mesmo tempo, tão poderosa. Aquilo era a vida em seu estado mais bruto.

Entretanto, em uma pálida imitação de uma piada, eram pensamentos ambivalentes que ocupavam suas memórias. Não a beleza evocada por um retrato tão incomum numa era onde os humanos eram mais isolados do que qualquer outro período que se lembrasse, mas o horror silencioso que antevém uma indesejada teia de memórias.

Não pode evitar ser lembrada, contra sua vontade, daquela pessoa.

Ela foi assim, afinal.

Olhos carmesim observam o céu desanuviado e tingido de anil, algo tão raro naquela estação, como se o próprio mundo estivesse lhe mandando também um presente.

O riso inesperado daquela pessoa cortava o silêncio da manhã com a mais inesperada das surpresas – tão ou mais do que encontrar aquele brinquedo infantil perdido em meio às coisas de um homem feito.

A jovem moça vira-se para ele, para capturar aquele momento, para gravar como fogo em brasa em suas retinas aqueles últimos instantes. Ela deseja com todo o coração que aquela pessoa continuasse daquele jeito para sempre, mas sua parte racional sabe ser impossível.

No firmamento acima deles, flutuando como penas, as bolhas que ele soprou pareciam-se com pequenos pontos de luz; quando explodiam, um exótico caleidoscópio em miniatura derramave-se sobre eles como uma benção.

O cheiro de sabão aderia à pele dos dois como num sonho e, por um momento, era como se dentro daquele instante também houvesse um outro universo à parte.

...Talvez, neste lugar, eles pudessem existir para sempre.

Uma última esfera translúcida parecia mais do que decidida a erguer-se até o sol e trocá-lo. Ela dançava como uma folha no ar.

Prússia parecia positivamente encantado – os olhos vermelhos perdidos naquele objeto com um nostálgico carinho. Talvez ele se visse ali. A verdade é que, muito provavelmente, era isso o que acontecia.

“Veja, Liz. Ela continua subindo.”

Ela estava vendo, sim.

Aquela bolha de sabão desaparecendo no ar.

Se fosse perguntada como descrever aquela pessoa com uma palavra, se precisasse realmente responder a isso, a verdade é que “estranha” seria a primeira na qual pensaria. Esta estava acima de “irritante”, e acima até mesmo de “idiota”.

Não que ele não fosse as outras duas também em igual medida, talvez até mais do que somente ser “estranho”, mas a verdade é que esta era a impressão mais forte que guardou dele.

Uma criatura que parecia às vezes até mesmo de outro mundo, era assim que o lembrava.

Cabelos cor de prata que pareciam brilhar de forma surreal até mesmo em momentos onde não deveriam – como se ele fosse

(bolhas de sabão)

uma miragem.

Olhos que pareciam estar constantemente sangrando – eram possivelmente a coisa mais forte naquela compleição pálida, orbes vermelhos em constante ebulição. Ela se lembrava dos pequenos pontos azuis de luz que viu quando se aproximava demais dele, como se aquele fosse o rio de sangue das cantigas que costumava escutar quando era uma nômade.

Lembrava-se de como aquela aparência fugaz, deveras doentia em sua palidez, em nada disfarçava o porte militar que conservou até o fim, a despeito de duas guerras e o lento definhar que se seguiu a elas.

Uma atitude arrogante e segura de si própria, como se desde sua concepção soubesse para o que nasceu e o que o aguardava quando fosse embora – ou melhor, como se não tivesse interesse em nenhuma daquelas coisas, apenas em deixar a sua marca onde quer que passasse.

Ele a deixou, de fato.

Ela só podia suspirar exasperada cada vez que ouvia dele, mesmo hoje.

(Como uma bolha de sabão que se recusava a estourar.)

Morte.

Humanos costumavam temê-la tanto quanto qualquer outra doença.

Como um país, sua vida era regida pelas memórias, pelos humanos ao seu redor, e ela não precisava se preocupar tanto assim com seu corpo desaparecendo daquele mundo.

Mesmo assim, ela esteve em guerras e confrontos o suficientes para entender por que os humanos temiam tanto morrer.

A dança de espadas de metal, o réquiem das balas de um revólver...

Todas eram melodias bastante conhecidas aos seus ouvidos – a verdade é que ela poderia dizer que, onde Áustria era um primoroso pianista capaz de compor ele próprio ou replicar as mais belas partituras de outra pessoa, ela era uma musicista um pouco diferente.

Apesar de não poderem morrer, todos os países tinham uma concepção própria do fim da vida, apenas por observarem homens perdendo-a em campos de batalha e em camas de hospital. E a verdade é que, a despeito do que dizem, a perda também é, de certa forma, uma espécie de morte – portanto, estava mais do que familiarizada com o fato. Ponto final.

É claro que estar familiarizada com o conceito não significa aplicá-lo a si próprio.

Talvez confortada pelo fluxo indelével do tempo e de sua terra, ela permitiu-se acreditar que era eterna. Hungria sempre sentiu em suas veias o sangue de seu povo, as memórias preenchendo-a de uma vida que era muito diferente das outras para que pudessem se entender – como um fio de óleo perdido num vasto oceano –, e a ciência a protegeu como uma armadura de ponderar sobre todos aqueles que foram tragados pelas areias do tempo. A antiga Grécia, Germânia...

E ele.

Por fim, naturalmente ele.

Ela acreditou por um longo, longo tempo que ele era forte.

Talvez confundindo aquela arrogância com força, ela permitiu-se consolar-se com a ideia de que, se ela era eterna, então aqueles ao seu redor também o seriam.

Um engano inocente, tão típico de seres humanos – afinal de contas, mesmo que não se lembrasse na hora, a matéria domina o pensamento. Talvez pudesse culpá-los por rodeá-la e fazê-la acreditar ser remotamente parecida com eles.

Mesmo que agora tudo fossem

(efêmeras bolhas de sabão)

somente memórias, ela se lembrava dele daquele jeito. Uma força da natureza, incorrigível, a selvageria de sua expansividade egocêntrica manchando a plácida fragilidade de sua aparência de uma energia jovial e impossível.

Ela aprendeu que aquilo eram somente miragens.

Caleidoscópios translúcidos explodindo no ar.

(“Veja, Liz.”)

Não havia nenhum ímpeto primordial nos dedos que traçavam o contorno de seu rosto nos momentos mais inesperados. Era apenas gentileza – um céu anil tão limpo de nuvens quanto roupas a serem lavadas – e uma vaga melancolia. Quando ela segurava sua mão, naqueles pequenos momentos que pareciam embalados à vácuo, à parte de todo o universo, como um segredo indizível, não havia nenhuma violência reativa no ato tampouco.

Os dedos daquela pessoa que conheceu somente a guerra por tanto tempo, que a apresentou a elas igualmente tantas vezes, eram incrivelmente doces – só conseguia pensar em seda cara quando tentava descrevê-los. Às vezes, os humanos não conseguiam nomear o que era-lhes mais importante, e países aparentemente também podem sofrer do mesmo mal.

Uma a uma, as memórias eclodiam

(como bolhas de sabão)

em uma profusão de pequenas peças de brilho difuso, como vaga-lumes ao anoitecer.

O brilho vermelho do fogo trouxe a memória viva – como brasa.

Seu primeiro beijo com aquela pessoa tinha sido assim também – vermelho. Como o fogo, consumindo o mundo inteiro até restar intacto apenas aquele cômodo vazio, adornado apenas pela janela com a vista de uma pálida imitação de um universo que caminhava sem eles, castigado pelos primeiros sopros glaciais do inverno, enquanto folhas outonais ainda caíam das árvores. Vermelho como olhos entreabertos, como o sangue subindo não ao rosto, mas ao coração, como se de súbito aquele fosse o epicentro de toda uma existência. Um escarlate da cor do fogo e tão impetuoso quanto.

O último beijo foi paradoxalmente negro, escuro como cinzas na lareira, o piche escorrendo pela janela de um cômodo sem pó e aderindo a ele como mofo. Carvão enegrecido de uma chama que, apesar de viva, estava bem mais próxima da morte do que gostaria de admitir. Frágil, pequeno e muito breve.

Breve demais.

Como uma bolha estourando, tão próxima do sol.

No fim de sua vida – ou qualquer nome que possa ser dado à existência de um país, ela não saberia dizer – aquela pessoa condizia mais com a impressão que passava antes de abrir a boca do que era seguro admitir. A fragilidade de sua existência ultrapassou o limite físico e, possivelmente, como neve que alguém esquece de secar das próprias roupas, penetrou em seus ossos. Mas honestamente, ela não poderia culpar alguém que tem em si mesmo o peso de séculos de memórias, nem o fardo de uma tonelada de arrependimentos. Ele pareceu estar, até o último instante, bastante em paz com a ideia de desaparecer.

Talvez aquela fosse a traição que mais lhe aferroava a memória, muito mais do que seus risos imaturos acerca as condições de Hungria quando eram jovens.

Ela o acompanhou – fosse pessoalmente ou fosse apenas seu coração – durante todas as tardes onde ele limpava a própria casa com uma determinação furiosa de quem deseja limpar toda e qualquer mácula de um espaço. Talvez ele próprio já começasse a ver-se como um traço indesejado no conjunto harmonioso daquela pintura, como a mancha que tanto tentava tirar.

Ela esteve lá quando ele começou a relembrar de como rezar.

Todas as orações que julgava ter abandonado voltaram com uma facilidade humilhante aos lábios pálidos, e Hungria supôs, em um silêncio que nenhum dos dois estava acostumado, um silêncio que era alienígena entre aqueles dois que pareciam destinados a brigarem cada vez que se vissem, que aquilo era a verdadeira natureza daquela pessoa, aquela verdade essencial da qual ninguém pode escapar – ele podia falar alemão como o irmão, de fato, mas a verdade é que o seu manto de branco puríssimo era feito de todos os Améns daqueles que pregavam a guerra em nome do seu Deus.

Quando ela perguntou por que ele rezava, a resposta entrecortada por um sorriso mortiço que parecia demasiadamente errado num rosto outrora tão cheio de vida foi tão errada quanto

(bolhas subindo ao céu)

é possível algo ser errado. Ele não era alguém que buscaria o conforto de um brinquedo de infância – exatamente o que aquelas frases em Latim significavam para si.

Ou, talvez, ela tivesse julgado-o errado todo este tempo.

Este também era um pensamento que ele deixou-lhe de presente quando desapareceu como as bolhas que aquele menino soprava no ar.

Mas a verdade é que foi somente ali, no instante em que ele confessou uma fraqueza que outrora faria o impossível para acobertar, que ela percebeu que não gostaria que ele fosse embora. Não porque a vida – a existência, o mero ato de estar ali – seria bastante tediosa depois da sua partida, mas porque ele era uma parte fundamental de seu mundo.

Mas, ele era aquela longínqua bolha de sabão de sua juventude, aquela lembrança perdida em um mar feito de séculos e milênios que se confundiam, que ela observou subir até desaparecer.

E tudo o que deixaria após desaparecer era uma chuva de memórias multicoloridas sob sua cabeça.

Pois a verdade é que um país faz exatamente aquilo.

Ele não morre.

Como uma bolha de sabão, ele desaparece.

Prússia desapareceu como um fantasma – como algo para o qual ninguém mais tinha tempo de dignar nada, esquecido no pó do tempo e fadado a se tornar uma nota da História.

Sem um povo para ser seu próprio coração, os toques dele tornaram-se incorpóreos, irreais, e ele abandonou o fluxo do tempo sem nenhum suspiro

(como aquela bolha)

como o verdadeiro guerreiro que era, no fundo de sua essência. Talvez esse fosse o último elogio que pudesse dignar àquele imbecil, afinal de contas.

Ele teria gostado daquilo.

Sempre gostou de ser apreciado.

“Veja, Liz. Ela continua subindo.”

Estava indo se encontrar com todos aqueles que já haviam desaparecido antes deles, junto com suas conquistas e suas derrotas – estava indo para o lugar para o qual pertencia.

Eram pensamentos que não precisavam ser vocalizados para que Hungria os entendesse. Ela os ouvia tão perfeitamente quanto era possível. Seus olhos perderam-se naquela pessoa, na figura que reluzia na luz da manhã como uma aparição, e por mais que seu corpo desejasse apenas segurar aquela mão para garantir a si mesma que ele continuava ali, para iludir a si mesma que ele continuaria por muito tempo, somente seus lábios se moveram:

“Isso dói, Gilbert?”

Sua pergunta pareceu tão incompleta quanto uma vida sem a voz obnóxia daquela pessoa para tirar-lhe a paz todos os dias. Ela soube que sentiria muita falta daquilo. As brigas daqueles dois eram uma entidade à parte.

“...Desaparecer?” – e, portanto, obrigou-se a completar.

Pareceu-lhe ali que ela era o sol, o vento forte, os dedos ansisos de uma criança – qualquer coisa que destruísse uma bolha de sabão que lutava tão desesperadamente para permanecer no ar.

“Não.”

Entretanto, a resposta dele foi plácida, nem um pouco surpresa, revestida de um humor estranhamente auto-depreciativo – recém-descoberto e errado de todas as formas. Talvez ele estivesse esperando aquela pergunta desde o início.

“É como estar indo dormir depois de um dia... Realmente longo.”

Como se guiada por aquelas palavras, seu corpo sabia exatamente o que fazer.

Banhada em um azul que se estendia até o infinito, ela sopra o brinquedo outra vez. E agora observa sua obra com uma compenetração de artista, não mais com a tristeza distraída de alguém que enfrenta seus próprios fantasmas – as milhares de pequeninas esferas semi-transparentes desaparecendo antes mesmo de tocarem as ruas de sua terra natal.

Um céu tão azul que a cegava parecia querer dizer-lhe que tudo ia ficar bem.

Ela não acreditava nesta mentira, mas não deixava de ser boa.

Azul como as bolhas de sabão que ela sopra, e que se espalham tão numerosas quanto as pétalas desfeitas de uma flor.

Aquelas pequeninas criaturinhas escapam de seu alcance e a deixam ali, uma estranha amigável observando com um misto intenso e inomeável de emoções aqueles pequenos universos translúcidos apagarem-se, um a um.

“Não fique com essa cara.” – Foi o que ele disse, com aquele sorriso de garoto que nunca deixou seu rosto mesmo quando ele cresceu e acumulou tristezas. – “Você e Áustria se preocupam demais. Alguém tão incrível como eu vai se dar muito bem do outro lado.”

Ela desejou revirar os olhos, mas a verdade é que queria acreditar naquilo também. Que ele deixaria todos aqueles países que já não mais existiam tão cheios de enxaqueca que não teria nenhuma opção além de voltar para a Terra.

Cada vez que pensava nisso, ela se sentia um pouquinho melhor.

Ao menos, não sentia como se aquela pessoa fosse uma bolha de sabão prestes a eclodir.

“...Mas você precisa prometer uma coisa.”

A última bolha de sabão, tão frágil no ar fresco daquele país, desapareceu sem nenhum som – assim como Prússia o fez.

Quando ele sumiu, pequenos fragmentos dele – suas memórias, seu coração, qualquer coisa que se parecesse com a sua alma – foram soprados ao vento como se fossem pedaços de vidro.

Eles acabaram se fixando nos lugares mais improváveis, assim como pequenas sementes.

Em Áustria, em seu irmão Alemanha, na memória dos poucos humanos que ainda eram seu coração perdido.

“Você vai lembrar de mim, não vai?”

Se esses pedaços poderiam deixá-lo inteiro de novo, ela não poderia dizer. Tudo o que podia fazer ela coletá-los.

E esperar que, quando os tocasse, eles não desapareceriam como aquelas bolhas.

Notas finais
DESCULPA, KA. VOCÊ DISSE QUE EU PODIA SER FREE EM HETALIA E EU ACHO QUE FUI FREE DEMAIS. Me sinto o Haru. Me bata.

Mas de qualquer forma, essa fanfic não fez sentido e eu sei disso, mas foi o melhor que consegui fazer com o par. Um dia eu presentei você com algo melhor, me cobre essa promessa - e aceite por enquanto essa história.

FOI COM AMOR PELO MENOS.
TIPO MUITO AMOR.
TIPO O SEU AMOR PELO PRÚSS-
//CHEGA
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!