Bodhisattva
1 I
Notas iniciais
Espero que vocês gostem. ♥
É uma twoshot, então em breve eu devo postar o segundo e último capítulo. Se vocês me derem amor, vai sair bem rápido, prometo. n_nv
Acho digno dizer que o plot foi meio que uma mistura de: a) Tell me Your Wish, a finada QMiMin da Inguride em que o Sungmin era um gênio. b) Samsara, um filme em que o personagem principal (um monge) passa três anos meditando numa caverna. E enfim, tem mais história que isso, mas essa é a parte que eu meio que 'peguei emprestada'. c) Vale das Flores. Não sei porque, mas tem alguma coisa desse filme nessa fic.
E eu escrevi esse capítulo todo ouvindo a soundtrack de Samsara, então se vocês quiserem ouvir também, tá aqui: http://www.youtube.com/watch?v=gYp3hEwgOnA&feature=autoplay&list=PLD7930B334F0E94D4&playnext=1
Agora boa leitura. n_n
Não se podia dizer que passara os últimos três anos, três meses, três semanas e três dias dormindo. Não estivera em um sono comatoso, dormindo como um morto. Não fora exatamente isso o que fizera durante os últimos anos. Tampouco era como se estivesse acordado. Esse tempo todo, Cho Kyuhyun não dormira, não estivera desperto, nem consciente do que se passava ao seu redor. Ou sim, estivera. Não havia nada no cosmos que ele não houvesse conhecido, ao menos em parte. Kyuhyun meditara. Em silêncio canônico, em posição de lótus, em adoração, voltado para o universo e para cada ínfimo átomo que o compunha.
Sua mente, programada para acordar após um dado período – os supracitados três anos, três meses, três semanas e três dias –, o fez abrir os olhos naquele dia cinzento de fim de inverno. O clima não era tão rigoroso; era agradável. O vento soprava com leveza, farfalhando entre as muitas árvores plantadas do lado de fora da caverna que o resguardara em seu exílio espiritual. Geralmente os monges não saiam de sua meditação sozinhos. Era necessário que outros monges viessem, lhes tirassem o pó, lhes cortassem as unhas, o cabelo, lhes fizessem a barba, lhe banhassem. Mas Cho Kyuhyun não tivera opção. Nenhum monge viera ao seu auxílio. E sua hora já chegara.
Descruzou as penas com dificuldade; elas estavam dormentes, mal obedeciam aos seus comandos. Seu corpo empoeirado e macilento era incapaz de executar movimentos mais bruscos – Kyuhyun se movia vagarosamente, como um homem debilitado que já perdeu força e ânimo. No entanto, isso não podia ser menos verdade. Estava assustado – por que os monges não vieram buscá-lo? –, enfraquecido, até o ato de respirar lhe era doloroso. Porém, em seu âmago, havia calmaria. E quando se arrastou para fora da caverna, tendo que se apoiar nas paredes desta, e respirou o ar puro, Kyuhyun descerrou lentamente as pálpebras. Seus olhos, preguiçosos e molhados com algumas lágrimas – a claridade era muito intensa, lhe feria –, se ergueram sem pressa. Entre vislumbrar uma fresta de luz e a paisagem ao seu redor em sua totalidade, houve uma pequena eternidade.
As montanhas que o circundavam eram conhecidas. Kyuhyun sabia para onde voltar, o que não sabia é se conseguiria fazê-lo. Não tinha um espelho, mas a poça límpida que se formara após uma chuva que devia ter se derramado dos céus há não muito, lhe confirmou o que já suspeitava: estava diferente. A barba era longa, maior que a que seu avô cultivara em vida. Seus cabelos emaranhados alcançavam suas omoplatas. Suas unhas amareladas e curvadas estavam hediondamente crescidas. Não existia nem uma remota lembrança do garoto que havia sido, o garoto que pedira e esperara pacientemente que seus mestres permitissem sua estada fora dos limites do monastério, em uma meditação que duraria mais do que qualquer outra que já tentara.
Kyuhyun era uma nova criatura. E ele não estava certo do que isso significava.
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Sua intenção era ir até o monastério. A caminhada duraria horas, mas Kyuhyun estava disposto a isso. Iria, um passo de cada vez. Juntaria as mãos durante o percurso, e entoaria um mantra – isso deveria distrai-lo do esforço quase inexequível. Kyuhyun desejava com todo o seu coração voltar ao lugar onde crescera, onde fora deixado aos três anos de idade pelos pais camponeses, porque essa era a melhor oportunidade que podiam lhe proporcionar – ademais, Kyuhyun tinha o destino traçado. Os monges predisseram. Ele era a reencarnação de um iluminado. A história lhe foi contada quando ele já era um adolescente e essa foi a primeira e única vez em que Kyuhyun se permitiu envaidecer. Como punição, jejuou e orou por quatro dias inteiros.
Quatro dias. Aqueles quatro dias desembocaram em três anos. Sua autodisciplina era admirada entre seus iguais. Kyuhyun provara que eles estavam certos ao considerá-lo a reencarnação de um iluminado. Ele tinha a boa índole de um.
Mas onde estavam as pessoas que lhe haviam educado, doutrinado e amado? Há quilômetros de onde enterrara seus pés num passo particularmente complicado – a dor o paralisara –, havia ruínas. Os monges estavam mortos, destruídos, assim como o templo no qual viviam. A guerra viera, era implacável. Por hora, Kyuhyun não tinha conhecimento disso. Tudo o que restara do templo, era uma lâmpada deixada do lado externo de sua caverna. E dias se passaram até que Kyuhyun a encontrasse. Era a última relíquia salva de um monastério milenar e cheio de tesouros. E ela deveria pertencer ao último iluminado da região.
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Kyuhyun tinha receio de esfregar a lâmpada. Em sua infância, ouvira falar sobre os tesouros do monastério. Tapetes que flutuavam, que viajavam milhas entre as nuvens, a imortalidade contida em um frasco, ao alcance de um gole, mantas que, se colocadas sobre o torso, o faziam invisível, pós que conferiam inteligência e esperteza, lâmpadas mágicas que continham seres capazes de realizar qualquer anseio. A maioria dos tesouros viera de longe, de um lugar que os monges chamavam de Arábias. Kyuhyun jamais fora além dos limites daquele vilarejo. Entretanto, então tinha a chance de ir para qualquer lugar, de fazer, ter ou ser qualquer coisa. Qualquer desejo.
Não fora a ambição que o levara a esfregar a lâmpada, da qual foram liberadas nove mulheres belíssimas, vestidas com a seda mais nobre, expirando o hálito mais perfumado que Kyuhyun já sentira. Fora a fome. Kyuhyun estava faminto. E não havia meditação nem concentração que afastasse de si a sensação de vazio em seu estômago, que se agitava em sua barriga seca, num apelo agoniante. Kyuhyun talvez tenha sido fraco ao ceder às suas vontades mundanas. Talvez tenha desonrado a fé, a confiança e o respeito que seus antepassados e seus mentores haviam depositado em si. Todavia, Kyuhyun tinha fome e a certeza de que isso poderia matá-lo.
Três pedidos, elas disseram em uníssono, suas vozes em perfeita cadência ressonando como o ruído de uma brisa outonal, ou como um mantra velado.
Elas eram lindas. Kyuhyun reprimiu o desejo, fonte de todo o sofrimento humano. Fechou os olhos, inalando o ar com certo desespero.
Comida.
Abrigo.
A vossa liberdade.
Por quê?, foi a pergunta proferida em perturbação pelas nove mulheres. O tempo havia se congelado. Apenas elas ondulavam naquela paisagem, emanando suas auras, as quais, de tão poderosa, seria impossível ignorar. Kyuhyun parecia estar em suspenso. Conseguia se comunicar com elas, mas estava imóvel.
Porque eu ouvi falar de vocês. E de como vocês são obrigadas a servirem um mestre após o outro, atendendo aos anseios mais absurdos e mesquinhos que uma mente humana é capaz de formular. Eu desejo – e essa sentença foi entonada com alguma hesitação. A palavra desejo sempre lhe fazia estremecer – que vocês se libertem desse ciclo.
Amanhã, as nove vozes se levantaram e um arrepio se reverberou pelo corpo débil do monge. Amanhã você acordará e tudo o que pediu terá se concretizado.
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Quando Kyuhyun despertou, nos primeiros raios da manhã seguinte, estava seguro dentro de uma casa simples e arcaica. Se assemelhava muito a casa onde vivera antes de ir para o monastério. Era aconchegante e rústica, lhe lembrava de seus tenros anos junto à família da qual um dia fora parte. Perscrutou os detalhes com o coração cheio de alegria. As paredes do mesmo material que constituíra seu antigo lar, as vigas no teto, o telhado, a parca mobília... sobretudo o cheiro que rescendia, vindo da cozinha, lhe atingira certeiro. Era o aroma da comida de sua mãe.
Na mesa, um banquete. Havia tanta comida que poderia se satisfazer com ela por uma boa semana. Kyuhyun ajoelhou-se, dobrou o corpo e orou por seu alimento. As gênias, mais do que realizar seus desejos mundanos e egoístas, o haviam salvado. O haviam levado de volta ao tempo mais ameno de sua vida. Ele as iria adorar e agradecer a elas enquanto vivesse.
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Kyuhyun arou a terra, distribuiu sobre ela os grãos que encontrou na dispensa, cuidou, esperou. Não tinha mais pra onde ir. O monastério era só um vestígio do que um dia fora. Kyuhyun, ao chegar lá e se deparar com os muros destruídos e os corpos deixados a esmo, apodrecendo sob o sol ameno da primavera, fez o que melhor sabia fazer. Orou, meditou, pediu aos ancestrais que levassem aquelas almas para um lugar seguro, que não houvesse mágoa nem revolta nelas, que elas perdoassem seus algozes, que a pureza em seus corações ainda imperasse, mesmo com o advento da guerra e os horrores que ela trouxera.
Kyuhyun aprendera a não ter apego. Voltou à sua nova casa e moeu raízes, fez um chá, bebeu e caiu no sono. Em seus sonhos, as nove mulheres reapareceram. Uma delas, que se apresentou como Suyeon, lhe disse que ele era merecedor de toda a prata e de todo o ouro. Ele a havia libertado, a ela e as suas irmãs. Kyuhyun era um homem bom. Suyeon era incomparavelmente bela. Seus cabelos claros eram da cor do trigo, seus olhos possuíam um brilho envolvente. Suyeon lhe disse que lhe iria fazer rei. Rei das nuvens. Eu só poderia governas as nuvens. Foi a resposta de Kyuhyun. O sorriso de Suyeon quase lhe cegou. Ela tocou sua face, beijou sua testa. Ajoelhou-se e acariciou seus pés. Você é um Bodisatva.
Ao acordar para um novo dia, Kyuhyun percebeu que estava em um palácio suspenso. Sobre as nuvens.
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A gratidão das gênias não se findava. Elas reviraram o inconsciente do homem que abdicara do direito de ser seu mestre, desvendaram os desejos que ele jamais concordara em cultivar. A que se chamava Taeyeon lhe presenteou com uma voz que encantava os pássaros, aquietava as almas desencarnadas; a música se tornara inerente a Kyuhyun. Ele cantava dia e noite. Era feliz com seu novo dom. Podia guiar seu palácio através de seu canto. Viajou o mundo inteiro, conduzindo a casa ao seu bel prazer. Havia magia em seu timbre, alegria em suas canções.
Sunkyu lhe trouxe as memórias. Kyuhyun recordou-se de tudo. Suas vidas passadas e sua existência nessa vida, desde o útero materno. Algumas lembranças o fizeram chorar. Mas, ao relembrar-se de tudo, Kyuhyun sentiu-se abençoado. Ele percorrera uma estrada milenar, morrera e renascera um sem-número de vezes, e lhe aliviava o fato de que, depois de tanto tempo, ele houvesse se tornado um pouco mais sábio e virtuoso, que ele tivesse sido bem sucedido em aprender com isso. Os erros do passado foram enterrados com o passado. Sunkyu lhe tirou as lembranças logo depois de Kyuhyun revisitar uma a uma, avaliá-las, de sofrer e de se regozijar com elas. Kyuhyun pediu que ela apagasse tudo de sua mente. Afinal, um homem com excesso de consciência é um homem amaldiçoado.
Miyoung lhe sanou as dúvidas que ele insistia em sufocar. Contou a ele a história do cosmos e do destino. Sim, Deus existe. Ele está dentro de você, ele está em todo lugar. Ele trata de você como se você fosse seu filho dileto, embora Deus não tenha filhos diletos. Se ele tem preferência? Tem sim. Por todo o mundo. Por que ele permite as atrocidades que a humanidade não cansa de cometer? Porque ele deu a vocês o livre-arbítrio. E porque não existe aprendizagem sem dor, não para os humanos. Ninguém se ergue se não estiver no chão. A samsara é isso. Você deve amar seu destino. Kyuhyun assentiu. Nunca se esqueceria do que Miyoung lhe havia dito.
Hyoyeon lhe deu beleza. Tirou de Kyuhyun qualquer sinal de que ele havia passado anos em uma caverna. Injetou espírito em suas íris. Sua alma estava na borda agora, e de maneira nenhuma isso era uma vulnerabilidade. Seus sorrisos pareciam mais sinceros, seu bom ânimo era contagiante. Adquirira músculos, o que era estranho, porque sempre fora magro e de compleição modesta. Seus cabelos eram macios, aprazíveis ao toque. Seu rosto fora reesculpido para não aparentar idade alguma. Suas mãos perderam a aspereza comum a quem trata da terra. Seus lábios se encheram, as maçãs de seu rosto se ressaltaram, sua pele clareou, seu nariz, antes um tanto quanto grande e não muito consoante com o resto de suas feições, tornou-se ideal. Seu corpo se tornou forte e resistente, além de flexível e capaz das manobras mais incríveis. Kyuhyun podia pular, dançar, e o fazia com graça. Em seu sonho, ajoelhou-se aos pés de Hyoyeon e os beijou. Sem se dar conta, aos poucos estava cedendo aos presentes das gênias e se habituando a eles.
Num fim de tarde, sentado na ponta da nuvem em que seu palácio fora sedimentado, Kyuhyun sentiu-se solitário. Pensou que seria bom ter uma companhia. Yuri escutou seus pensamentos. E lhe deu animais: um cachorro, um gato, um pássaro grande e uma tartaruga. Eles conversavam com Kyuhyun e ouviam suas canções, dormiam ao redor de seu leito e lhe deixavam sozinho quando ele precisava de silêncio. Eles não eram inconvenientes ou exigentes demais. Se aproximavam somente quando Kyuhyun os queria por perto, e não acreditavam que estavam sendo deixados de lado ou menos amados por isso.
Yoona o levou para uma visita nas terras baixas. Kyuhyun viu as pirâmides do Egito, levantadas séculos antes. Os prédios imponentes da modernidade, os mares do sul, do norte, do leste e do oeste. O céu de verão na linha Equador, a neve branca e as geleiras dos polos. Os animais tropicais, as plantas e as flores raras que nenhum homem jamais vira. Yoona o versara nas línguas mortas, nas línguas mais faladas, nas línguas esquecidas e soterradas junto com seus povos extintos. Ao retornar ao seu palácio, Kyuhyun estava apto a se comunicar com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo.
Joohyun lhe apresentou os anjos. Os budas. As entidades responsáveis pelo andamento do mundo. No fim do encontro, um Arcanjo deixou que Kyuhyun encostasse seus lábios em seus pés. Desse modo, Kyuhyun adquiriu jovialidade – e a teria mesmo quando ficasse velho e enforme. Jovialidade de mente. Você será para sempre um jovem, o Arcanjo lhe afirmou.
Kyuhyun voltou para seu palácio tão jubiloso que era difícil se segurar. Dançou a noite inteira com seus amigos animais. Cantou para eles até cair adormecido sobre os tapetes do salão. Abraçado ao Cachorro e ao Gato, ele sonhou com Sooyoung, e ela chorava.
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Kyuhyun não imaginava que gênias tinham motivos para chorar. Por que elas o fariam, se aparentemente tudo estava a seu favor? Por isso, Kyuhyun agiu com cautela. Sentou-se ao lado de Sooyoung e pôs uma mão em seu ombro, afagando-o gentilmente. Esperou com paciência as lágrimas alheias secarem, e não saiu do lado dela. Doía-lhe ver que ela sofria. Kyuhyun as queria bem, e sinceramente iria gostar se nenhum mal lhes abalasse, se elas fossem tão felizes quanto ele próprio era – graças a elas.
“Kyuhyun-ah...”, ela enfim começou, entre soluços. “Eu estou apaixonada.”
Mal terminara de fechar a boca, Sooyoung já abraça o monge, as lágrimas lentamente molhando seu jungchimak. Kyuhyun afagou o topo da cabeça da gênia, e ela tomou isso como um incentivo para continuar falando.
“Eu nunca me apaixonei antes. Eu existo desde sempre e nunca me apaixonei antes. Mas... é tão bom e agradável. Eu quero ficar com ele para sempre. Oppa... Posso te chamar de oppa?”
Kyuhyun balançou a cabeça afirmativamente. O rosto de Sooyoung se iluminou em um sorriso que deixaria seu ‘amo’ tonto, se ele não estivesse bem sentado e de olhos cerrados. Surpreendentemente, Sooyoung era mais aberta a conversas do que suas irmãs. Ela falava e falava e não demonstrava nenhuma intenção de se calar pelas próximas horas. Não que Kyuhyun esperasse que ela o fizesse. Ele apreciava o silêncio, mas apreciava também a companhia de outrem.
Sooyoung contou como conhecera o homem que a havia encantado. Contou que eles haviam se beijado, feito amor – e nesse momento, Kyuhyun enrubesceu, detalhe que não passou despercebido por Sooyoung. A gênia segredou ao monge que dera o seu coração ao seu amante. E que ele retribuíra o regalo, presenteando-a com a sua alma. Sooyoung apropriara-se de seu amante, de todas as formas possíveis. Ele estava tão apaixonado por ela quanto ela por ele. E isso a fazia chorar, porque a roda da fortuna a colocara no topo. Sua sorte era grande demais, e ela tinha certeza de que isso não ia mudar.
“Você já é um adulto há alguns anos”, ela recomeçou, e Kyuhyun confirmou. “E você nunca se apaixonou? Nunca quis ter alguém que te amasse e a quem você amasse na mesma medida? Oppa... Você é muito solitário.”
Não, retrucou Kyuhyun, com um sorriso conciliador. Eu tenho meus animais.
“Mas uma amante você nunca se permitiu ter.”
“Eu estou bem comigo mesmo, Sooyoung-ah. Mas eu agradeço a preocupação”, curvando o torso numa reverência, Kyuhyun pediu aos céus que ela não levasse essa ideia a cabo. “Eu fiz votos. O de castidade é um deles.”
“Você não é mais um monge.”
“Acho que não. Mas eu gostaria de manter alguns de meus votos. Já que a metade deles eu quebrei, vivendo numa casa tão rica e com tanta abundância...”
“Oppa merece todo o ouro e toda a prata.”
“Eu já tenho tudo o que eu preciso, Sooyoung-ah. Muito mais do que eu preciso, aliás. Obrigado.”
Sooyoung voltou a sorrir, ternamente. Bagunçou os cabelos de seu amo que não aceitava ser amo, e recebeu em troca um sorriso igualmente afetuoso. Apertando sua mão, ela o deixou em paz. Kyuhyun acordou renovado, e com o peito leve. A visita da menina lhe havia deixado muito contente. Ela havia aquecido seu coração com seu discurso sobre o amor e tudo mais. Kyuhyun, contudo, não iria reconhecer isso. Os votos, repetia para si mesmo. Os votos. Os votos o impediam de pensar em um amor carnal.
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Era um dia normal e, como em qualquer outro dia, Kyuhyun seguiu sua rotina: levantou-se de sua cama, banhou-se, alimentou seus animais, preparou seu próprio desjejum, comeu, abriu as janelas da sala, limpou a cozinha, lavou os pratos, coseu alguns panos, e cantou o tempo inteiro. Não esperava visitas, porque nunca esperava visitas, uma vez que morava sobre uma nuvem que jamais se dissipava e que ia ao sabor dos ventos para qualquer lugar que ele a ordenasse.
Ainda assim, a visita inesperada chegou sem bater na porta. Ela aterrissou em sua nuvem, tão airosa quanto uma estátua de marfim cinzelada pelo mais habilidoso artista, graciosa como nenhuma outra coisa ou criatura se mostrara ser. Ela irradiava calma, elegância e não havia nenhum movimento seu em que não houvesse uma precisão sobre-humana. Trajando apenas a própria pele ebúrnea e quase translúcida de tão branca, ela andou até Kyuhyun, um passo de cada vez. Parecia flutuar sobre o chão, e o monge fixou seus olhos sobre o peito e a protuberância sobre ele. Ele subia e descia, enquanto ela inspirava e expirava sem afetação. Suas madeixas castanhas ondulavam até a cintura delgada. Em seus quadris, havia um cinto, fino e discreto, feito de pedras brilhantes e transparentes.
Abaixo dos quadris, entre suas pernas, estava aquilo o que só as mulheres tinham. Muito diferente do que Kyuhyun tinha. Ele sentiu-se desconfortável com aquilo. Como ela podia ter uma anatomia tão distinta? Seu corpo, todavia, era estonteante. Ele não conseguia desviar o olhar, embora soubesse que devesse fazê-lo. Kyuhyun era incapaz de resistir. Um anjo havia entrado porta adentro, e a nudez dos anjos é beatífica, por que ele estava tão inquieto com a presença daquele ser? De qualquer maneira, o arrepio que fremira em seu corpo devia ser suprimido, repreendido. O desejo carnal é o pior tipo de desejo. Leva o homem à ruína.
“Olhe para mim”, ela ordenou, com uma voz melíflua. Kyuhyun volveu seu rosto para baixo, apertando as pálpebras. Tinha a impressão de que, se olhasse para o rosto dela, estaria perdido. Mal sabia que sua perdição já fora assinalada muito antes. Antes mesmo de Sooyoung ter insinuado que ele deveria encontrar um amor, antes mesmo de que esse pensamento fosse delineado em sua mente. O desejo era inconsciente, e esteve consigo durante anos. Aquela mulher, fosse lá quem fosse, não fez mais do que trazê-lo à tona. Kyuhyun estava à mercê dela.
Se pudesse negar, negaria. Só que o que queimava dentro de si, era tão passional que não tinha como desprezá-lo. Kyuhyun a olhou. A observou longamente. Ela era como ele, as mesmas feições, porém muito mais efeminadas. Eu fui batizada, ela sussurrou, quando os dois estavam frente a frente, a ponta de seus dedos acariciando a tez do monge, meu nome é Kyuyoung.
“Me conte...”, sua voz, sempre tão firme e impositiva, estava embargada; Kyuhyun tinha as pupilas dilatadas, os olhos negros de desejo. Kyuyoung meneou a cabeça. Levou as mãos deles aos próprios seios, que ele hesitou em tocar. Seu corpo se encolheu, mas a mulher o abraçou, colando seu tórax ao dele, enleando suas pernas entre as dele. Eles tinham a mesma altura, o mesmo sorriso e o mesmo olhar, seus cabelos o mesmo tom, mas a mão dela parecia pequena sobre a mão dele. Seus pés eram menores, seus ombros mais estreitos, suas nádegas mais feminis, sua cintura mais fina e seus quadris mais largos. Sua clavícula era saliente, seus seios eram redondos, nem muito pequenos, nem muito grandes – enchiam a mão do monge, eram adornados com aureolas róseas e que fizeram o fôlego de Kyuhyun sumir por uns instantes.
Ela se ajoelhou perante a ele. Suas mãos espalmadas em seu baixo-ventre não faziam menção de ir a lugar algum. Ela ergueu os olhos e o fitou. Havia algo ali que era indistinto, que Kyuhyun não conseguia identificar. Ele iria descobrir; ajoelhou-se também, mas Kyuyoung fez outro movimento. Deitou-se sobre o assoalho atapetado e elevou as mãos na direção do homem que se sentara sobre as pernas. Em um pedido tácito, ela o chamava para deitar-se sobre si e tomá-la como sua.
E Kyuhyun iria mais longe. Muito mais longe, não fosse a frase de Sooyoung voltar a lhe soar aos ouvidos.
Você é muito solitário...
Kyuyoung era um presente também. O último deles, o mais tentador. O quão estranho e proibido seria beijar e amar e tocar intimamente alguém que não era nada a não ser um pedaço de si mesmo? Uma versão feminina de si? Era como uma armadilha, algo demoníaco. Kyuhyun não evitou a onda de enjoo e nojo de si mesmo que o invadiu. Se levantou, afastando-se. E a deixou sozinha no salão.
Com um canto débil, chamou uma nuvem longínqua, deitou-se sobre ela a conduziu para céus distantes. Se sentia imundo, maculado. E jurou não mais voltar para o palácio, se livrar de sua beleza e do que mais as gênias haviam lhe dado.
Mesmo assim, a despeito de seus esforços, mil anos se passariam e em nenhum instante ele se esqueceria de Kyuyoung.
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