Bodaah
1 Aquele palhaço, seu fim.
Um palhaço solitário no mundo. Sua graça já havia se acabado há muito tempo. Suas dores se manifestavam em sua aparência acabada e sinistra. A maldade de seu coração era tamanha que já não sentia mais nada. Ele era frio.
Um assassino de aluguel que se vendia às drogas. Sua alma a muito tempo consumida pela sua revolta com o mundo. Pensava que todas as pessoas eram iguais: SUPERFICIAIS.
Dia sete de março de mil novecentos e noventa e quatro, às três horas e quarenta e quatro minutos da madrugada, Boodah recebe uma ligação. Mais um assassinato no valor de cinquenta e oito milhões de euros. O local era um beco escuro em Copacabana.
O palhaço assassino sai de madrugada com seus revólveres escondidos na calça outrora colorida e surrada pelo tempo de desolação. Uma curta caminhada até o local marcado, onde dará o bote em sua vítima. Boodah entra no beco sem saída e espera, virado para a parede.
Silêncio.
Sem perceber, sem ouvir, Boodah sente pontadas de dor em suas costas. Ele cai sangrando ao relento do chão frio.Boodah tenta, em vão, focar o vulto à sua frente, mas tudo o que vê é um grande e maldoso sorriso e uma arma apontada para sua cabeça.
Um som alto e estridente, sangue se espalhando no chão frio; o sangue ainda quente de um cadáver.
Era o fim do palhaço assassino,Boodah.
Em outro lugar, no mesmo bairro, uma banda de garagem estava no intervalo de seu ensaio. O baixista da banda, João Pedro, sonhava com seu irmão mais velho porém, como o resto da família, ele não o considerava como alguém que compartilhava da mesma genética. Ele não considerava a existência de seu irmão e se mantinha afastado das memórias em que o tal aparecia.
João Pedro dormia no sofá do estúdio, enquanto os outros membros da banda conversavam. Ele sonhava com lembranças do irmão, ele, por algum motivo, estava relembrando de sua infeliz existência. Sonhava com o irmão e com as lembranças do passado.
No meio do sonho, no entanto, viu-se em algum lugar escuro, de frente para uma parede suja e deformada.O silêncio daquele lugar frio pesava; a chuva fina e fraca resfriava seu corpo. João Pedro ouvia pequenos grunhidos de trás de si, mas a parede velha lhe prendia a atenção.
Sons estridentes de tiros, dores agudas, sangue derramado. Era um pesadelo, um pesadelo realista demais.
Ele acordou de súbito, pulando do sofá em que dormia e assustando a todos os presentes na sala; a respiração desregulada devido ao susto que seu subconsciente lhe dera. Porém, o susto realmente ocorrera com a pessoa que ele mais desprezava na vida; seu irmão mais velho, Gabriel, cujo apelido era Boodah.
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