Boa vida

1 Capítulo único


Era uma vez um pequeno e maravilhoso reino, chamado Callaghan. Seus habitantes viviam em muita paz e seu Rei era tão bom que o chamavam de Deus. Deus era um senhor magro, de cabelos incrivelmente brancos e olhar amoroso. Sua Rainha, Isobel, era uma moça jovem e admirada por todos; sua pele clara e cabelos embaraçados pareciam enfeitiçar todos a sua volta.

Alguns dos poucos cartomantes do reino costumavam dizer que seria ela a perdição de Callaghan, mas a moça era tão boa, que encontrar alguém que acreditasse em tais previsões era tão complicado quanto fazer o Rei perder as rédeas.

Houve muitos anos de harmonia antes de Deus morrer de velhice. Isobel não estava presente quando tudo aconteceu e, quando teve oportunidade de voltar, descobriu que seu marido já havia virado fogos de artifício. Perder alguém que amava incondicionalmente a abalou tanto que a fez vitima de uma grande depressão.

A agonia que sentia todos os dias, lembrando que Deus nunca mais estaria ao seu lado, fez a Rainha enlouquecer e, em uma noite em que a dor era mais forte que sua vontade de continuar no majestoso castelo em que perdera o marido, decidiu fugir.

Com apenas a roupa do corpo e uma cesta com frutas que não durariam muito, arriscou-se na floresta negra. Sem rumo, andou por três dias e três noites até encontrar uma casinha escondida entre grandes árvores.

Foi imbróglio seu estado. Nunca em toda sua vida havia visto ou imaginado que em algum lugar do mundo poderia existir uma casinha como aquela, com paredes de pão doce, telhado de chocolate e flores de açúcar que enfeitavam o jardim. Acanhou-se em bater na porta, porém, que mal poderia haver? Se morresse, talvez se encontrasse com Deus. Ser mantida em cárcere e torturada a faria esquecer a dor psicológica de perder um amor. Então arriscou.

De casa, saiu uma velha senhora que ostentava rugas que faziam com que Isobel a visse como alguém que viveu mais de uma vida. Era baixa e desengonçada, apesar de exalar uma energia que muitos jovens não possuíam. O sorriso de poucos dentes e o vestido púrpura que usava pareciam tão engraçados quanto assustadores.

— Que vivas para sempre, Majestade – cumprimentou a velha, antes de fazer uma reverencia. Sua voz era aguda e arrastada, mas também muito segura. – Procuras algo?

— Asilo – respondeu Isobel, tentando parecer tão segura quanto a velha, o que era complicado. Ser Rainha poderia lhe dar algum tipo de poder, mas seu vestido rasgado e rosto sujo não lhe davam a segurança necessária.

A velha sorriu e permitiu a entrada da Rainha em sua casa. Por dentro, não era feita de doces, mas era tão arrumado quanto poderia parecer a quem olhava de fora. Isobel foi acolhida pela velha que dizia se chamar Bruja, e passou meses naquele local. Com o tempo, descobriu que a casa não era de doces, nem limpa e arrumada quanto parecia. Bruja não era uma simples camponesa e sim uma bruxa que vivia escondida desde os tempos de guerra, há incontáveis anos.

Bruja usou da arte da eloquência para expor Isobel ao mundo das trevas e a fez conhecer toda a excentricidade daquele grupo. Isobel passou meses aprendendo segredos sussurrados diante de crânios e de velas. Aprendeu como enforcar crianças, arrancar seus olhos sem que elas gritassem. Como usar o ego de um homem para enlouquecê-lo e a vaidade para fazer uma mulher vender a alma. Viciou-se em sangue e na carne humana. Ascendeu velas para as trevas, cantou para pessoas que mais tarde seriam devoradas e conheceu outras bruxas que viraram sua cabeça.

Foram dois anos de aprendizado, até que Bruja decidiu que era hora de Isobel voltar a Callaghan. No dia, acordou a moça antes mesmo do sol aparecer no céu. Vestiu-na com o melhor traje que encontrara e a enfeitara com joias raras. Trançou seus longos e vermelhos cabelos e lhe deu uma taça com um líquido viscoso, morno e vermelho.

— É sua última taça. Quero que volte ao seu castelo, e viva como antes. Finja que nada aconteceu, apenas relaxe e dê ordens. Faça com que pessoas peçam exílio, mas não permita um êxodo.

— Mas eu quero ficar aqui. Do que adiantaria eu ir para lá? Eles já devem ter acabado com o reino, mesmo!

— Você pode ser a Rainha, mas faz o que eu mando, entendeu? – disse, antes de colocar um colar dourado em Isobel. – Este é seu novo talismã. É uma obra dos Criadores, te fará não perder o controle. Contanto, claro, que você se livre dele em toda noite de lua cheia.

E Isobel voltou a Callaghan. Como imaginara, o local estava afundado em desgraça. Alguns achavam que aquele era o começo de um novo mundo, que logo, logo, seriam descartados para a criação de um Callaghan pós-apocalíptico. Outros achavam que era apenas um teste dos Criadores: precisariam manter a fé e continuar fingindo que estava tudo bem para, quem sabe, serem recompensados.

Foi recebida com grande festividade, inventou histórias para justificar seu tempo fora do reino e decidiu que precisava de um Rei e que para encontrar um, faria um baile que duraria três noites.

Foram convidados todos os jovens que possuíam uma idade próxima a de Isobel. Estes seriam recebidos em seu palácio e, após a terceira noite, um deles seria escolhido como Rei. Eles teriam duas semanas antes do baile para se prepararem, já que precisavam estar tão magníficos quanto alguém da alta corte.

As duas semanas passaram tão rapidamente que Isobel pouco tempo teve de se preparar psicologicamente para o baile. Não sabia o que aconteceria, deixara tudo na mão dos poucos criados que lhe restaram. Tentava não ser como Bruja lhe ensinara, e a tarefa era mais difícil do que parecia. Seus espelhos lhe davam o controle do que acontecia em todo o reino e a cada tertúlia que via, descobria que mais pessoas desconfiavam dela. Não era mais a moça que um dia fora. A melanina de sua pele parecia desaparecer sempre que ela via o corpo de alguma criança que fora assassinada por algum traidor: era a sede pelo sabor metálico do sangue que se revelava a todo momento. Precisava se libertar daquilo. Mas como?

Pouco antes de os convidados começarem a chegar, Isobel entrou no grande salão. Estava tão magnifico quanto parecia em sua mente. A decoração era em tons de vermelho e havia uma orquestra em um canto, que já ensaiava. Um circo com funâmbulas, contorcionistas e mágicos deixava tudo mais bonito. Não demorou a conferir tudo, sentou-se em seu grande trono de ouro e esperou que seus convidados chegassem. Mexia no talismã que recebera de Bruja e tentava lembrar de suas palavras; poderia ou não tirá-lo?

Os moços foram chegando aos poucos e enchendo o salão. Isobel, que no início concedeu uma dança a vários deles, com o tempo se sentiu enjoada. Sua visão ficava turva e o volume dos violoncelos pareciam mais altos do que o normal. Não sabendo como agir, deixou que seu instinto o fazer por ela. Fez tudo o que aprendera com sua tutora nos dois anos em que ficou longe, agiu como um animal. Era como uma loba. O contraste entre Isobel, a esposa de Deus e Isobel, a Rainha que voltara de longe, era demais. A admiração que causava quando ainda era uma boa moça havia sido enterrada. Agora só havia o nojo e os maus apodos que lhe faziam parecer amaldiçoada.

— Deus precisa de mim. – era o que dizia após cada gole de sangue. Parecia embriagada. O talismã pulsava, a deixando louca.

Em certo ponto, pôde ouvir a voz arrastada de Bruja em sua cabeça, “...se livre dele em toda noite de lua cheia.”. E era aquilo. A falta de controle não era dela, era do talismã. Isobel gritou, arrancando a corrente de seu pescoço, mas a tontura e o desespero não passavam. Vendo todos aqueles corpos e sangue espalhado pelo chão, decidiu que, de uma vez por todas, se encontraria com Deus. Faria sua última reza aos Criadores e se encontraria com o amor de sua vida, seja lá onde ele estivesse.

Notas finais
Espero que tenham gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!