Sinopse: Ochako não conseguiu dormir ontem à noite devido a um sonho um tanto... vívido com o Deku. Trabalhar com o Bakugou acaba funcionando como uma excelente distração, mas ainda assim, ela precisa lidar com esses sentimentos pelo amigo de cabelos verdes, então escreve uma carta que não deveria ser lida por ninguém…

Ochako boceja e se estica toda, ajustando sua postura na cadeira depois de sacudir a cabeça para se livrar do estado sonolento em que se encontra.

— Você tá bem, Ochako? — a Tsuyu pergunta, finalmente apontando para o que ela deve ter reparado há um tempo já que não é a primeira vez que a amiga boceja assim.

— Hã? Ah, tô bem sim. Só um pouquinho cansada, só isso.

— Você não dormiu o bastante ontem à noite? — a Yaomomo pergunta com preocupação, lógico, mas também com um leve tom de julgamento.

Ou talvez seja só paranoia, Ochako com certeza se sente culpada, ela não ficaria surpresa se alguém estivesse julgando-a. Porque realmente, o que ela pensa que tá fazendo passando a noite em claro depois de acordar de um sonho tão… esquisito como aquele?

Só de lembrar já a deixa com dor de estômago: ela teve um sonho ontem à noite, o Deku estava nesse sonho. Não, não é só isso, ele estava… com ela. Os dois estavam se beijando, de amassos depois do treino, ela tava envergonhada e olhando para os lados pra ter certeza que não tinha ninguém vindo, e aí ele sorriu e disse que tava tudo bem, e lá foram eles se beijar de novo. Mãos cheias de cicatrizes deslizaram para as partes de trás das coxas dela, e Ochako fez um barulho do qual não dá para se orgulhar, não no sonho, e menos ainda agora. Eles se soltaram para respirar e ele sussurrou o nome dela. Deku a chamou de “Ochako”, corando, mas ainda lançando um olhar determinado, aqueles que estão presentes sempre que ele está prestes a fazer algo incrível. Então ele a prensou com um pouco mais de força, fazendo com que ela envolvesse a cintura dele com suas pernas, e quando eles tavam pra se beijar de novo… ela acordou. Por um segundo, ela ficou aliviada por estar de luvas, do contrário, estaria flutuando bem pertinho do teto, mas o alívio não durou muito. Relembrando o que a fez acordar, Ochako virou pra lá e pra cá pelo resto da noite tentando apagar a memória do tal sonho e falhando miseravelmente até que ouviu o gorjeio de passarinhos lá fora. Já era quase hora de levantar e se arrumar para a primeira aula.

Então aqui está ela, sentada na área de estudos e tentando avançar pela lição de casa, seu corpo e mente exigindo o descanso que tanto necessitam. E só tem uma coisa que Ochako quer. Bom, duas, para ser mais precisa: ir para a cama e esquecer o sonho. Ela tem que esquecer.

— Que nada! Eu dormi bem. Vamos continuar isso aqui e acabar rapidinho antes que o Bakugou apareça.

Porque também tem essa: ela foi pareada com o Bakugou para um trabalho da aula da Midnight. E, honestamente, seria de boa se fosse alguma matéria que exigisse habilidades físicas ou de combate, mas não, ela tem que escrever um artigo com ele, e… é difícil de imaginar tanto quanto é difícil de dar certo. Ela nunca teve o Bakugou como parceiro em trabalhos teóricos, mas pelo que Ochako já viu quando ele trabalha com o Kirishima, não vai ser nada fácil e ela deveria considerar usar um capacete pra não levar uma ou duas livradas na cabeça.

— Certeza que tá tudo bem? Você parece meio acabada. — o tijolo de brutal sinceridade só poderia vir da Jirou. Nossa, será que tá tão ruim assim?

— Eu tô bem. Não… dormi o quanto gostaria ontem à noite, mas tá tudo certo.

— Aconteceu alguma coisa?

— Eu só… tive um sonho ruim e não consegui voltar a dormir. — ela admite e mente ao mesmo tempo, porque por mais que Ochako gostaria que fosse verdade, o tal sonho passa longe de ser… ruim.

— Jura? Sobre o que foi seu sonho? Eu posso interpretar pra você! — a Hagakure oferece animadamente.

— Você sabe interpretar sonhos? — a Mina pergunta no mesmo nível de empolgação.

— Não, mas a gente pode pesquisar!

— Talvez o Presida tenha algum livro sobre isso, ele tem livro de tudo quanto é assunto!

— Bom, eu também. — a Yaomomo argumenta — Nós podemos fazer isso depois de terminarmos a lição, que tal?

— NÃO! E-eu… não precisa disso, gente. Foi só um pesadelo, ok?

— Mas se te fez ficar acordada a noite toda, não é “só um pesadelo”. — A Tsu diz acariciando o braço dela para mostrar que ela não tem a intenção de contrariá-la, só está preocupada. E Ochako realmente aprecia o carinho, mas… caramba, ela só que enterrar esse assunto para não ter que pensar mais nele.

— Sabe, vai ver é estresse. — a Jirou sugere.

— De fato. Talvez seja seu subconsciente manifestando suas preocupações. — a Yaomomo explica, e seria melhor ela não ter falado isso, porque Ochako realmente não quer lidar com nenhum tipo de manifestação de seu subconsciente, não quando se trata do Deku — Se você está estressada, seria pertinente achar uma maneira de relaxar.

— Tipo o quê?

— Ler um livro, ouvir uma playlist relaxante ou assistir a vídeos de ASMR, por exemplo.

— Ou você pode descer uns socos em sacos de pancada. Tenho certeza que é o que garotos como o Kiri fazem. — a Mina oferece.

— É, talvez não descer uns socos, mas… liberar essa energia ruim, Uraraka, desabafar e tal.

— A gente tá aqui se você precisar conversar. Cê sabe disso, né? — uma mão invisível paira sobre a dela.

E Ochako sabe, mas de novo: falar sobre o que aconteceu a faz pensar no que aconteceu, e ela não quer isso de jeito nenhum.

— Creio que esteja evidente que ela não quer falar sobre isso, senhoritas, é melhor respeitarmos. — a Yaomomo intervém, e Ochako quer abraçá-la — Mas se me permite dar um conselho, eu concordo que você deva se livrar da energia negativa. Eu li recentemente sobre alguns métodos de desabafo que não requerem confronto direto com o problema, como escrever uma carta endereçada à razão do seu incômodo e rasgá-la, por exemplo.

— Nossa, Yaomomo! Você já fez algo assim?

— Eu… sim. Devo dizer que é bastante efetivo. — ela desvia do olhar das outras meninas para focar em Ochako — Então… é uma sugestão minha.

— Obrigada, eu vou… considerar. Agora por favor, vamos terminar essa lição antes que o Bakugou apareça dando chilique? Eu não tô nada no clima para a gritaria dele hoje...

— Ninguém nunca tá no clima, mas isso nunca o impediu antes. Meus pêsames, Ochako. — a Mina diz.

A manipuladora de gravidade apenas dá de ombros.

Porque por incrível que pareça, trabalhar com o Bakugou acaba sendo exatamente o que ela precisava para tirar o sonho da cabeça. Entre a constante gritaria e os condescendentes “tsk” soltos aqui e ali, ele é ridiculamente eficiente, e depois de procrastinar com as meninas, focar de verdade acaba sendo maravilhoso. Bakugou não tem a menor noção do que tá rolando com ela, e pra ele pouco importaria mesmo se soubesse, e isso é ótimo no momento.

— Ainda tá prestando atenção, Cara de Lua?

— Sim! Desculpa, eu- — ela boceja, alongando-se um pouco — Vamos continuar,

— Não com você pescando em cima dos livros, Bochecha. Vai dormir, a gente termina essa merda amanhã.

— Tô bem, já falei.

— E eu não ligo, você não tem utilidade nenhuma se começar a babar em cima dos textos. — ele junta os livros que estavam sendo usados de referência — Tô falando sério, a gente tá adiantado e pode terminar amanhã, então vai dormir, porra, ou eu-

— Então vamos dividir, assim dá pra terminar hoje, aí é só revisar amanhã! Eu faço uma metade, você faz a outra, aí amanhã a gente se encontra e vê se tem alguma coisa faltando, que tal?

— Tsk, certeza que vou ter que corrigir tudo que você escrever com essa cara de sono, mas foda-se, é melhor mesmo acabar com essa merda hoje. Tó. — ele passa dois livros para ela — Faz a conclusão que eu faço os argumentos.

— Beleza! — ela sorri e resiste à vontade de esfregar os olhos, isso só serviria para ele dar outra bronca nela, como se Ochako fosse uma criança teimosa se recusando a ir dormir na hora apropriada.

Bakugou se levanta e dá uma breve alongada. Ele também parece cansado… será que ele tá mais cansado que ela? Se for esse o caso, ele não precisa continuar o trabalho hoje, eles realmente estão adiantados… ela pensa em dizer isso a ele, mas o loiro fala primeiro.

— Vai ficar aqui mesmo?

— Ah sim, acho que sou mais produtiva aqui do que no meu quarto.

— Duvido você ser produtiva, mas que se dane, faz o que você quiser. — ele dá de ombros.

— Amanhã veremos. Boa noite, Bakugou. — por mais que a eficiência dele seja contagiosa, é difícil não se cansar do mau-humor eventualmente e querer despachá-lo logo. O sentimento com certeza é recíproco quando o Bakugou faz outro “tsk” e vai embora, deixando Ochako e os livros como sua única companhia na vazia e silenciosa área de estudos do dormitório.

Ela nem se atreve a olhar no celular para descobrir que horas são. O que os olhos não veem, o coração não sente, porque Ochako sem dúvidas não quer pensar nas horas preciosas de sono que está perdendo enquanto escreve essa bendita conclusão, que aliás, já estaria pronta se ela não ficasse checando as referências e se questionando se precisa escrever mais. Ela não chega a ser uma perfeccionista, não que faça as coisas de qualquer jeito, mas revisar e mudar tudo também não é bem o estilo dela, então o motivo pelo qual ela está tão fissurada nisso é incompreensível.

Talvez porque o parceiro dela é muito mais exigente que a maioria de seus colegas e ela não quer dar a ele a satisfação de encher a parte dela de anotações e correções amanhã, ou então talvez… só talvez… Ochako se recusa a encerrar por hoje e ir dormir. Porque vai que o subconsciente resolve se manifestar na forma dos lábios e mãos de Midoriya Uzuku mais uma vez?

Nãããão! Ela tá pensando nisso de novo! Não era pra ser assim! Ela se curva por sobre a mesa, abafando seus suspiros de frustração e torcendo pra ninguém aparecer e vê-la nesse estado patético.

Erguendo a cabeça novamente, Ochako se lembra da conversa com as meninas sobre estar se sentindo estressada. Pode ter certeza que ela tá estressada! Como não estaria? Ela tá dando duro, treinando igual a uma condenada, juntando-se ao Bakugou para escrever um artigo e tudo é cansativo demais, então quando é de noite e tá na hora de deitar, ela deveria dormir igual a uma pedra e não ter seus sonhos infestados com o gosto da língua de um de seus melhores amigos! Isso tá… isso tá muito errado!

Ochako suspira de novo e olha para a bagunça de papéis que fez, pegando uma folha em branco preguiçosamente. Ugh… ela precisa mesmo se livrar desse peso negativo antes que enlouqueça. Tá muito tarde pra ir à academia e descer uns socos… ela pega a caneta e praticamente se joga sobre o papel.

***

— Ô, acorda aí! — Silêncio. Katsuki revira os olhos e a sacode com mais força — Uraraka, acorda logo, porra!

— Hã? O q-Onde? — ela ergue a cabeça, e ele segura a risada ao ver a cara redonda ainda mais redonda de tão inchada e o cabelo dela todo zoado.

— Adivinha? Você dormiu aqui, que nem eu falei!

— Eu… Bakugou? Que horas são?

— Seis e meia. — ele informa.

— Seis…? Droga! — ela pula do nada e tenta desamarrotar as roupa, passando a mão no cabelo, inutilmente tentando arrumá-lo — Tô atrasada! Tô tão atrasada!

— Para de drama, ainda dá tempo de tomar banho. — ele dá uma olhada na zona de papéis na mesa — Dá até pra você começar a conclusão do nosso trabalho.

— Começar? Não, já tá pronta!

— Sei. — ele debocha.

— É sério! Aqui, lê e me diz se falta alguma coisa. A gente se vê na biblioteca mais tarde, tá bom? — ele pega os papéis que ela entrega, não entendendo porque ela parece tão tensa e esquisita — Você me dá a sua no intervalo e eu dou uma olhada, eu… preciso tomar banho, e lavar o cabelo, e ai… b-bom dia, Bakugou! Te vejo depois! — ela junta suas coisas e corre para o elevador conversando sozinha. Tsk, igual ao idiota do Deku.

Katsuki corre o olho pelos papéis que ela entregou. Porra, ela escreveu pra caralho, ele tinha certeza que ela ia apagar no momento em que ficasse sozinha, mas realmente fez sua parte. Ele vai ter que ler pra ver se faz sentido, mas não dá pra dizer que não ficou surpreso como ela conseguiu fazer tudo isso quando parecia estar só o pó.

O loiro folheia as páginas rapidamente e para em uma que chama a atenção por ter menos linhas escritas, além disso, a letra dela tá toda cagada.

“Oi! Como você está? Eu tenho certeza que esse não é o jeito certo de começar uma carta, eu só queria começar já que não quero chegar ao ponto. Quer dizer, querer eu até quero, só não sei como, esse é um dos meus problemas quando você tá por perto… não que você seja um problema pra mim! De jeito nenhum, você é ótimo! E talvez seja por isso que eu não consigo falar sobre o que sinto por você. Porque você é… você, e é tão difícil lidar com isso quando eu nem ao menos sou capaz de pôr seu nome aqui.

Mas o que eu queria dizer é: eu sonhei com você. De novo. Acontece às vezes, mas já fazia um tempo que não acontecia, acho que tem um limite no quanto eu consigo evitar meus sentimentos e o meu subconsciente tá me punindo por isso. O sonho foi como vários que eu já tive, mas ao mesmo tempo foi bem diferente: eu te beijei depois do treino e foi bom, muito bom! Você retribuiu o beijo, me abraçou apertado e sorriu enquanto eu brincava com seu cabelo — só pra você saber, eu gosto muito do seu cabelo, parecer ser muito fofinho — eu tava morrendo de vergonha e medo de alguém nos pegar no flagra, mas você me disse pra relaxar, me pegou pelas pernas e me ergueu, me beijando de novo, fiquei tonta, minha cabeça parecia mais leve, meu rosto tava pegando fogo. Você fez um barulho quando apertou minhas coxas e eu gostei, adorei! Depois do beijo, você me olhou nos olhos, me chamou pelo meu primeiro nome, e quando eu ia responder, acordei.

Sei lá, parte de mim realmente quer isso, quer que esses sonhos virem realidade, quer… você mais do que qualquer outra coisa.

Tô com tanta vergonha, você nem imagina o tanto que tô vermelha e tentando não sair flutuando enquanto escrevo isso, mas preciso ser honesta comigo mesma pelo menos uma vez, foi escolha minha evitar esses sentimentos porque estavam me distraindo dos meus deveres e obrigações como estudante e heroína, agora estão me distraindo do meu próprio sono! Eu nunca serei quem quero ser para meus pais e para mim mesma se continuar agindo como uma idiota toda vez que você faz algo que me impressiona. Eu te admiro demais, você é o tipo de herói que eu pretendo ser, e para conseguir isso, não posso continuar me torturando toda vez que você conversa com outras meninas ou sorri — e seu sorriso é maravilhoso, vai por mim — eu preciso ser firme, focada e dedicada. Plus Ultra, assim como você.

Sabe, às vezes eu penso em te dizer tudo isso, talvez facilite as coisas. Se eu desabafar, poderia me sentir mais leve. Até pensei em te desafiar para uma luta e, caso eu vencesse, me confessaria, imagina! Mas não posso fazer isso agora, não é justo com você nem comigo, a gente já passou por tanta coisa e ainda tem tanto pra aprender… então só que eu posso fazer é escrever essa carta ridícula onde expresso meus sentimentos mais profundos, mas na qual não tenho coragem nem de pôr seu nome, me desculpa mesmo.

Então não irei além disso, já tá pessoal demais e, mesmo que te imaginar lendo isso e ficando todo vermelho seja fofo, eu fico desconfortável, então é melhor parar por aqui. Acho que é isso, você é um garoto incrível e eu me sentiria muito feliz se correspondesse meus sentimentos, mas agora, eu tô bem contente com o que temos. Então obrigada por tudo, de verdade.”

Katsuki encara o papel em um sentimento muito parecido com choque.

Que… porra é essa?

Notas finais
Oioi! Como vai? Acabou que não consegui terminar a att da fic todochako (mas t[a quase, falta só um pouquinho!), então vamos com essa repostagem kacchako de 2 capítulos. Originalmente, eu escrevi essa fic em inglês e foi uma das minhas primeiras fics pra bnha, reli pra postar e achei ela menos esquisita do que na época, até por ser uma tradução e tal, engraçado como nossa percepção muda com as nossas próprias coisas depois de um certo distanciamento. Enfim... Obrigada por ler, espero que esteja curtindo!