Boa noite.

1 Boa noite, rainha.


Notas iniciais
+ Uma história básica sobre dois OCs meus, que infelizmente que parecem que foram puxados de Assassin's Creed. Maldita Ubisoft, atirou primeiro antes de eu postar o meu Arno/Arnold. 3 + Boa leitura.

Ele queria dizer a ela o quanto a amava, mas... Isso era surreal e esquisito. As pessoas não entenderiam seu amor por ela, por mais puro que fosse. Era mal compreendido, de fato.

Arno arfou, após subir no telhado em frente à janela de uma grande moradia que era de luxo. Não hesitou em sentar-se nas telhas, aproveitando a grande e imensa luz da lua que pairava acima de sua cabeça. Mal podia acreditar que toda a França conseguiu ser pacificada por apenas uma jovem rainha com habilidades insignes. Os poucos que ainda se mantinham sãos haviam se tornado a revolução.

A jovem rainha era uma mulher esbelta, com cabelos graciosos, ao mesmo tempo em que compartilhavam um detalhe pulcro incomum. O vestido azul, gigante, rodopiava quando exercia movimentos lépidos. O que falar dos detalhes em rosáceo? Os lacinhos, que deixavam um aspecto ingênuo e pueril. A tiara moldada em um ouro puro, tudo parecia combinar com aquele corpo tão formidável ao corar com comentários insinuantes.

Sua benevolência era incontestável, por mais que às vezes fosse muito rígida. Mas dizia que tudo era para proteger seu povo. A felicidade que eles tanto queriam, teriam.

O homem que pombeava em silêncio absoluto, observava atentamente. Sabia que alguma hora sua vítima se colocaria para presenciar a luz lunar, da qual amava muito. E, apenas uma bala acabaria com aquela falsa veleidade que aquela mulher tanto insistiu em criar.

Não, não queria fazer isso.

Aqueles olhos áureos lhe traziam um prazer interno... Tudo era de ouro nela. Tudo.

Até mesmo o coração.

— Pelo visto, você está mesmo determinado a fazer isso.

A voz atrás de si o alarmou. Antes que pudesse sacar a espada e reagir em defesa, desfadigou a mão na bainha. Suspirou, deixando de estar inquieto. Retomou o olhar fixo à janela bordada.

— Não queria. — Expressou-se, sacando o relógio de bolso, que possuía a imagem tão resplandecente e bela da mulher. — Melhor pelas minhas mãos do que a de qualquer outro...

— Espero que você saiba que está fazendo. Certifique-se de que ela esteja bem morta quando você o fizer. — Anunciou. A figura encapuzou-se, desaparecendo no restante das árvores que havia ali, não deixando nenhum vestígio.

Mirando o relógio de bolso, deu um suspiro quase que apaixonado. Conformava-se aos poucos que era melhor ter sua família morta por outras pessoas, mas sua querida irmã caçula, não deveria perder a vida. No entanto... O destino deseja assim, então... Assim teria.

“Desculpe Jensen...”, o homem pronunciou, guardando o objeto dentro de um dos bolsos do traje. Encapuzou-se, pendurando-se em um dos galhos que havia acima. Furtivamente, andarilhou até que chegasse à varanda da casa luxuosa. Não teve coragem de observar com mais atenção, pois uma leve melodia desvencilhava-se dos lábios da rainha. E cada vez, se tornava mais auditiva.

Arno subiu de volta o rosto ao telhado, antes mesmo de ser visto.

— Sabia que você viria. — Ela pronunciou como se soubesse da presença do homem ali. Aproximou-se então, olhando para as telhas, observando o irmão que se resguardava atrás de uma suposta chaminé. — Desce aqui, não vou acionar os guardas.

Virou-se de costas, adentrando novamente o cômodo. Um pouco desengonçado e sem-jeito, o rapaz desceu e aterrissou firmemente no beiral. Em seguida, adentrou o ambiente, deparando-se que era um quarto. Provavelmente, o quarto dela. A cama gigante e com o urso de pelúcia resfolegando nos coxins rúbeos, uma pequena penteadeira com adornos amarelados... O tapete então era uma coisa caríssima, isso ao menos, Arno tinha certeza. Seus olhos também pararam no divã no cantinho. A porta parecia entreaberta, mas a mulher fora até lá e fechou lentamente.

— Seu olhar é um grande elogio. — Entre gracejos com a mão próxima à boca, a monarca riu como se tivesse acabado de ouvir uma piada ou um cortejo dócil. — Gostou dos quadros, sim?

Não é como se os olhos do homem tivessem se perdido nas pinturas formidáveis na parede. Se ele tivesse múltiplos orbes, sabia que todos estariam perdidos pelo quarto: No chão, no “papel de parede”, no espelho... Em tudo que habitava o recinto afeminado, de certa forma.

— Os quadros são portentosos. — Ele assumiu. — Pegou isso lá em casa?

— Se eu disser que “sim”, você vai me chamar de ladrazinha?

— Não. Não dou a mínima para isso.

Ela sentou-se na cama, puxando de baixo de lá, uma banqueta. Sinalizou para que o homem se sentasse numa cadeira próxima e apoiasse os pés ali. Ele arqueou uma sobrancelha, estando um pouco confuso. Assistiu o gesto da irmã novamente e esta sinalizava para remover o capuz.

E assim teve.

— Puxa vida, você está uma gracinha. — Ela comentou, ajeitando um dos botões da roupa, especificamente, as costas. Seus olhos estavam distraídos com a veste, então não observara como o irmão corava nesciamente. — Não está cansado? Inclusive, o que faz aqui?

— Você sabe muito bem o que eu estou fazendo aqui. — Expressou, suspirando. Sentou-se na cadeira, apoiando os pés na banqueta. Até agora, havia cedido aos pedidos da irmã, apenas por bel prazer. — Não nos falamos há quase vinte anos. Não precisa agir como se fosse minha caçula.

Os olhos cor de mel se voltaram ao falante.

— Eu deixei de ser sua irmã?

— Você entendeu. — Seus olhos se desviaram para o chão. — Jensen, você assumiu ser um deles. Você aceitou. A mamãe e o papai lhe usaram tanto... E todo o meu esforço foi assim: Em vão?

— Me chame de Malik. — Iniciou. — Arno, você fugiu de casa e me deixou para trás, por mero capricho... Quando reapareceu, o papai havia morrido. Não quero lhe ofender, no entanto, por sua causa.

— Mas eu voltei, não voltei? — Indagou falando em um tom quase mínimo. Não queria alertar os ouvintes de fora, caso houvesse alguém acordado àquela hora da noite. A julgar pelas vestes simples da irmã, obviamente, ela estava já indo dormir. — Eu salvei você e a mamãe.

— Sim, mas você sumiu. Durante dez anos. O que você queria que eu fizesse? A mamãe... Ela enlouqueceu. Só éramos nós duas. Eu tinha que orgulhá-la de alguma forma. — Suas mãos desistiram de fechar o botão da roupa. — Me ajuda?

— E você simplesmente se juntou a causa dela? Dominar a França inteira para orgulhar uma mulher quase que miserável Malik? — A irmã virou-se de costas, permitindo que suas roupas fossem abotoadas pela companhia que encarava totalmente encabulado.

— Pela mamãe. E pela felicidade do nosso povo. — Alcançou a penteadeira, pegando um prendedor e mantendo seus cabelos castanhos no alto, como sempre fizera quando criança. — Você tomou a sua decisão. Eu tomei a minha.

— Você não entende? — Após terminar de abotoar a roupa, repousou as mãos no colo. No entanto, levou uma ao nariz, sentindo o forte cheiro de perfume. Aquilo era de cortesia. Alguém estava galanteando-a. — Quem... Hum... Deu esse perfume?

— O perfume? — Apontou para uma das gavetas da penteadeira, enquanto ajeitava o cabelo volumoso. Arno abriu, se deparando com diversos perfumes e cartas de amor. — Provavelmente você não conhece, mas foi o James. Ele é meio marujo, diz que comprará um navio só para nós.

— “Nós”. — Arno deu ênfase, estreitando as sobrancelhas, sentindo-se enciumado por aquela situação. Não queria estar vacilando, porém aquele ciúme era muito maior do que esperava. — Quem, além de vocês dois?

— Só eu e ele. Claro, uma tripulação... — Amarrou o laço da roupa em volta do pescoço, virando-se de frente para o irmão enfurecido. Ela deu um sorriso, passando a mão gentilmente em seu rosto. — Irmão...

— Eu lutei durante décadas para você não se casar com alguém errado e simplesmente você aceita cortejos de um pirata? É sério, Jensen Ernest?

O silêncio predominou entre os gêmeos, enquanto Malik olhava silenciosamente para o irmão, este não conseguia tomar sua atitude. Finalizar a missão. Uma batida na porta interrompeu a mudez, logo a rainha ergueu os ombros, ajeitando sua postura. Arno correu para trás do jarro de plantas, se camuflando ali facilmente.

— Quem é? — Sua voz saiu dócil e educada, como se tivesse acabado de acordar. Ela sabia fingir muito bem, mais que o esperado. Ajeitou a cabeleira marrom, puxando alguns fios de cabelo, para que caíssem em torno de seu rosto, parecendo despenteada.

— Sou eu, majestade. O Jordan.

— O que deseja meu querido?

— Vim trazer-lhe sua refeição...

Arno olhou bem. Pela maneira que o rapaz se pronunciava, parecia estranho saber que Malik tinha empregados e serviçais. Não conseguia imaginar ela mandando e ameaçando de despedir todos eles, caso não fizessem o que mandasse. Isso parecia improvável, no entanto. A maneira que pronunciava suavemente um “entre, por favor.”, dava-lhe a entender que todos eram tratados com determinado carinho e bem cuidado. Ora, Jensen fora criada de forma gentil. Então, provavelmente tinha todo amor do mundo para dar.

Era isso seu coração de ouro.

O homem que entrou no quarto carregava na bandeja uma tigela, um enorme bule de chá, xícaras pequenas e colheres menores ainda. Pareciam brinquedos. Um potinho pequeno despontava algo irreconhecível aos olhos do irmão mais velho. – Já a pessoa em si, era mais como um “adolescente”, que foi “educado” até virar mordomo.

O cabelo de tons escuros amarrados para trás e um traje um pouco menos luxuoso que os das outras pessoas da rua, além de botas escuras e um jeito cortês de se aproximar. O corpo pequeno e que não anunciava muitos efeitos púberes ali, com certeza poderia confundir os desavisados. Os olhos castanhos não pareciam estar influenciados pela mágica estonteante da moça.

— Aqui está. — Jordan anunciou, pondo a bandeja em cima da cama, forrando um lenço no colo da mulher. Pegou novamente o tabuleiro e o apoiou gentilmente onde estava o lenço. — Senhora, perdoe-me pelo pedido...

— Sim? — Ela diz, observando atentamente o rapaz misturando os quadradinhos brancos à bebida na xícara e remexendo, reproduzindo um som repetitivo.

— Não poderei ficar hoje com vossa mercê... — Ele anuncia, de forma tímida. Arno revirou os olhos, tentando se mantiver maximamente silencioso possível. Um único som e acabou-se tudo. — Poderia me dispensar, só por esta noite? Queria passar um tempo com minha caçula... Soube que ela nasceu.

— Oh, que maravilha! — Malik comenta, com um sorriso despontando pelos lábios rosados. As bochechas coraram levemente, como se tivesse recebido uma grande notícia. — Está tudo bem com ela, querido?

— Sim, sim... Na verdade, eu enquanto buscava algumas especiarias no porto, estava escutando a conversa. Falaram que ela é a coisa mais linda do mundo. E eu, gostaria de presenciar isso. — Após terminar seus afazeres, ajoelhou-se, como uma súplica. — Então, por favor...

— Jordan, levante-se... Já pedi para que não se ajoelhe. — Rapidamente, ele corrigiu sua postura, pondo-se de pé, de forma desajeitada. Arno poderia deduzir que, de certa forma, aquele suposto mordomo tinha alguma queda pela Malik. — É óbvio que você pode ir lá visita-la! Não vejo problema algum.

— Sério? — Ele indagou.

— Sim, sim! Com certeza. — Sorriu, bebericando o líquido da xícara. — Por favor, se vocês precisarem de ajuda, qualquer ajuda mesmo, me avisem. Irei querer ajuda-los... E por gentileza, dispense os outros vigias noturnos, sim?

O serviçal agradeceu, retirando-se do quarto e fechando a porta como anteriormente, sem ao menos questionar. Passaram-se minutos e em seguida, o assassino despojou-se das folhas que habitavam em seu traje. Sentou-se no lugar que estava anteriormente, apoiando os pés na banqueta. Assistia a morena deliciar-se com o chá, pegando ainda com os dedos finos os quadradinhos brancos.

Seus olhares se cruzaram e, Arno desviou para longe. Fitou um dos quadros da parede, tentando oferecer algum comentário que lhe fosse cabível. Mas sentia determinado desprezo pelas figuras que eram esboçadas ali. Então, dirigiram-se os orbes azulados para o urso de pelúcia branco nos travesseiros vermelhos. Parecia ainda bem cuidado e intocável. Pigarreou, chamando a atenção da irmã.

— Você ainda usa... Isso? — Questionou, apontando à pelúcia.

— O meu precioso? — Ela olhou com carinho, assemelhando-se a mesma criança de quase vinte anos atrás. O sorriso amável e orgulhoso despontava nos lábios amornados pelo pires cristalino. — Não, não... Ele agora é apenas minha companhia. Sinto como se estivesse protegida dos males noturnos.

— Com sua varanda aberta, isso parece um convite para pessoas más intencionadas. — Suspirou, tentando não parecer muito preocupado. Ela era sua inimiga, não deveria sentir piedade. Queria ser o mais breve e curto possível, nem que esse caminho fosse dizer palavras rudes.

— Arno, meu amor... — Ela pegou uma colher e mergulhou em um pote com um conteúdo diferente. O cheiro era algo agradável. Muitas especiarias, mas de onde tudo aquilo veio? — Os males noturnos não habitam esse plano material. Maldita noite...

— Você sabe o que eu quis dizer?

— Eu pressuponho que sim. — Pegou uma maçã e entregou ao irmão. Este arqueou uma sobrancelha, enquanto observava o próprio reflexo no rubro que a fruta exibia. — Ninguém quer “fazer” nada comigo. Aniquilei toda a perversidade nesse lugar inteiro. As pessoas são felizes. Crianças não passam fome e todos conseguem trabalhar nos campos. Você entende o quanto foi difícil para mim?

— Não.

— Exatamente, foi fácil. — Ela riu com graciosidade. — Estou apenas brincando, irmão. A dificuldade estava apenas em conseguir arquitetar esse plano inteiro em prol da felicidade. Gastei anos e anos, minha vida até chegar aqui, foi um pouco conturbada. Quase morri.

Ele mordeu a maçã. Não se surpreendeu. Era óbvio que existiriam pessoas contra essa causa da alegria eterna. E se fosse o caso, elas assassinariam qualquer um que lutasse para... Realizar isso. Os olhos azulados voltou-se para a moça, que exibia uma expressão duvidosa no olhar.

— Ah. Claro. — Ele comentou. — Quem tentou fazer isso?

— Achei que não fosse perguntar. — Ela suspirou, desabotoando as laterais da roupa, revelando um pouco de sua cintura. Arno corou intensamente, tornando a olhar para a fruta mordida. — Um pretendente. Ele me esfaqueou aqui.

Abriu mais um pouco lateral esquerda da roupa, onde exibiu com mais clareza a grande cicatriz que já se encontrava ali. Era estranho. Parecia nojento e que demoraria décadas para cicatrizar-se, transformando numa pele normal novamente. – Isto é, se voltasse ao normal.

— Como você se recuperou? — Indagou.

— Na verdade, foi algo meio esquisito... Após essa facada, acho que sem querer, o manipulei quando pedi para parar. E comecei a chorar por ajuda. Então, só me recordo que ele me vestiu às pressas e correu para um curandeiro mais próximo. — Ela abotoou novamente, pondo a mão no pescoço meio sem jeito, com as bochechas em um leve vermelho constrangido. — Foi tão assustador... Eu estava com medo, não tinha mais a mamãe, nem o papai... Muito menos você.

Os olhos de ambos se voltaram ao chão, suspirando em uníssono.

Arno não sabia se sentia culpado pelo abandono ou por ter deixado a irmã expor pela primeira vez o corpo a um desconhecido “apaixonado” e as coisas terem acabado dessa forma. Sua cabeça estava em um turbilhão de emoções.

Um pouco de raiva, culpa, sentia remorso. Mas queria acabar com aquilo. Seus pensamentos não se traduziam com devida clareza.

— Arno, por favor... Estamos juntos novamente. Você não precisa... Me... Você sabe... Matar. Podemos vigiar toda essa França juntos.

— Jensen, por favor...

Juntos, como sempre fizemos. — Os olhos dourados suplicavam, com um brilho mais intenso que anteriormente. Ele olhou para o urso de pelúcia, percebendo que compartilhavam o mesmo tom cintilante. — Você foi embora tantas vezes, conheceu diversos lugares... Eu sempre estive aqui. Nessa cidade. Com as mesmas paisagens, os rostos tão clichês. Sinto-me quase como um livro aberto, mas já você...

A rainha abaixou a cabeça, segurando a xícara com ambas as mãos, que estavam repletas de anéis brilhantes. Ela afundou o rosto no pires, parecendo tentar se acalmar. Não pronunciava mais nenhuma palavra, apenas olhava silenciosamente para o irmão, que analisava todos os detalhes possíveis no lugar. Nela. Na cama. As coisas eram caríssimas, céus.

— Não teime comigo. — Ele pronunciou friamente. — Você não disse anteriormente que tomou sua própria decisão? Eu tomei a minha. Consequências sempre chegam Jensen. Sempre.

— Mas não precisa chegar agora! — Grunhiu nervosamente, apoiando a xícara no pequeno prato. Bufou, murmurando um pedido de desculpas um pouco sem-graça. — Há tanta coisa que eu preciso fazer... Queria conhecer mais o mundo afora, os setes mares...

— O James está enfiando coisa na sua cabecinha, menina. O mundo lá fora é perigoso. Ainda mais para alguém como você.

— Alguém como “eu”? — Ela questionou, depositando o conjunto de xícara e prato na bandeja. Aproximou-se de Arno, elevando o queixo do próprio com apenas um dedo, cerrando de forma tranquila os olhos dourados. Em seguida, adquirira um tom que mais parecesse desafiá-lo. — Como o quê? Fraca? Indefesa?

— Não é isso, Jensen... Por favor, você precisa entender meu lado. Se eu não puser um fim nessa sua monarquia utópica, o dogma inteiro irá vir mata-la. Entende? Não posso deixa-la morrer pelas mãos de outros.

A rainha removeu a mão do queixo de sua companhia, retornando a mexer na bandeja. Havia comido tudo que tinha vindo. Retirou o lenço de seu colo, dobrando-o cuidadosamente e pegou o tabuleiro, apoiando-o na pequena mesa logo ao lado da cama. Levantou-se, pondo as mãos em suas costas, dirigindo-se até a varanda com passos lentos. Não suportava uma feição entristecida, mas não estava feliz.

Arno levantou-se, parando atrás dela. Sacou a adaga que estava escondida em uma região próxima a cintura, elevando a mão até a cabeça da irmã. Suas mãos tremulavam, ele não conseguia fazer isso. Abraçou-a por trás, apenas recebendo um afago em suas mãos, que ainda carregavam o objeto cortante. A mudez entre ambos era evidente, fazendo com que o homem apoiasse a cabeça no cabelo da caçula, respirando fundo. Se ele pudesse observar o rosto dela, veria um sorriso feliz e agraciado pela ingenuidade que esses momentos lhe proporcionavam.

— Sua coragem é admirável, sabe? Eu estou com uma adaga na mão e você simplesmente me faz carinho, sem hesitação alguma. — Disse, afundando a cabeça mais ainda entre o acastanhado cabelo.

— Eu sei quando vou morrer. — Seu murmúrio soava como se estivesse contando vitória. Afinal, era vencedora naquele momento. — Não preciso me preocupar, você não é covarde, ao ponto de me atacar pelas costas.

— Está certíssima.

Em um ato desprevenido, largou a adaga e pôs a irmã no colo, surpreendendo-a. Observava como a morena corava nervosamente, se debatendo para ser posta no chão. Rodou-a no ar, logo parando próximos um do outro e rindo igual criança. Arno a pôs no chão, mas não retirou os braços de sua cintura fina e protegida pela camisola. O sorriso que a feição de ambos formava era algo inexplicável: Parecia ser saudades um do outro, mas algo mais.

Malik apenas envolveu os braços finos em torno do corpo do irmão, apoiando seu rosto no peito dele. Os minutos pareciam serem infinitos, apenas ali, naquele abraço. O mais velho apenas a puxou para perto, não querendo deixa-la partir. Quando se separou, ainda mantinham o silêncio importuno.

O momento começou a andar lentamente. O homem começou a passar a mão nos cabelos havanas da jovem, ajeitando as mechas teimosas que caíam em seu rosto. Enquanto arrumava o cabelo dela, observava seu sorriso sendo formado a cada carícia em seu cabelo. Não demorou muito para as pequenas mãos puxarem o rosto dele para mais perto, desferindo um beijo apressado e desajeitado.

— Jen...sen? —Arno rumorejou, desnorteado e com o rosto tomado pela vergonha. Não conseguia encarar os olhos dourados da irmã, mas isso não era novidade.

— Você estava me olhando com uma cara de bobo...

— S-sim, mas... — Ela o silenciou, pondo um dedo em seus lábios.

— Não fale mais nada. Faça o que você tem que fazer... Eu já aceitei.

O rapaz se espantou com a decisão súbita da irmã. Logo, segurou-a pela cintura, puxando para mais perto. Enlaçaram as mãos, iniciando uma valsa forçada. Enquanto Malik dava um sorriso abobado, Arno repudiava-se mentalmente. O curto baile terminou próximo à cama avermelhada, ambos se encarando novamente.

Dessa vez, Arno se aproximou do rosto da rainha, executando um beijo leve e romântico, que fora correspondido novamente. Antes que qualquer coisa pudesse se suceder, sem mais hesitações, executou a vida da monarca.

Da sua irmã.

Do amor da sua vida.

Deitou-a na cama, depositando um beijo em sua testa e deixando o precioso urso de pelúcia em seus braços que desfaleciam juntamente do corpo. Desejou um simples “boa noite”, encapuzando-se e saindo do quarto, saltando novamente sobre os galhos das árvores.

Apesar de ter desejado boa noite, ele sabia que nenhum dos dois realmente teve uma noite boa desde que se separaram.

Notas finais
Estava apenas trabalhando uns conceitos, espero que tenha sido entendível ao menos, o que se passou.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!