Boa Vizinhança
1 Janela Indiscreta
Notas iniciais
Um homem jovem e de vasta cabeleira branca estava sentado na varanda de seu pequeno apartamento nos arredores pacatos de uma cidade, se deliciando com chá e biscoitos recheados.
Para um investigador, ficar longe das ruas e de seus casos era uma sentença assinada e condecorada de tédio, mas Kakashi estava longe de se sentir entediado. Logo no primeiro dia em que teve que ficar em casa, graças a um acidente em uma perseguição inesperada, ele descobriu algo muito mais interessante do que tentar se distrair com o pacote econômico de sua TV ou seus livros antigos empoeirados que já leu tantas vezes:
Observar discretamente a vida de seus vizinhos, olhando por suas janelas. Não, não é certo, mas é divertido!
Kakashi só percebeu o que estava fazendo quando notou ter ficado quatro horas observando uma de suas vizinhas em uma briga com o namorado. No começo, claro, ele estava preocupado quanto à discussão evoluir para agressão física, mas depois ele apenas se sentiu curioso sobre como seria o desenrolo de tudo.
Hoje, três dias depois, ele já havia criado o habito de se sentar na varanda com seus suprimentos e observar a rotina de seus vizinhos durante horas e horas. Especialmente neste dia, sua curiosidade estava sendo focava para um apartamento de frente ao seu que se manteve vazio por anos, mas que hoje estava recebendo a mobilha de um novo morador.
Um fato curioso é que em momento algum Kakashi conseguiu ver algo além do cabelo castanho de seu novo vizinho. Em todo momento ele estava com o rosto tampado por caixas ou abaixado assinando algo, parecia até mesmo estar se escondendo. Quando finalmente ele abaixou as caixas e iria ter a face visível, a campainha de Kakashi começou a tocar de forma frenética, fazendo com que seus cães latissem e obrigando-o a se levantar irritado e ir ver quem era.
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Morar sozinho sempre foi um tanto sem graça, mas se mudar para um lugar novo, em outra cidade e sem conhecer ninguém chegava a ser assustador. Levar as poucas caixas de pertence foi um trabalho fácil e demorado, mas o primeiro passo para começar a construir uma nova vida naquele pequeno apartamento.
Os cômodos estavam empoeirados e com a tinta descascando na parede, o chão continha manchas em alguns lugares, provavelmente bebidas tintas que não foram limpas com êxito. Enfim, nada que uma boa limpeza não resolvesse.
Como alguns moveis grandes comprados recentemente, cama e armários por exemplo, ainda não haviam sido entregues, nada melhor do que passar uma noite dando faxina ao invés de dormir no chão.
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Horas de conversa sobre assuntos aleatórios com um antigo amigo fez com que Kakashi desejasse sua cama mais do que qualquer outra coisa. Na manhã seguinte, como sua nova rotina exigia, ele se armou de sua xicara de chá morno e biscoitos recheados – exatamente como fazia pela tarde –, sentou-se em sua varanda e colocou a perna com gesso em cima de uma cadeira, aos cuidados do seu mini pug.
Observando as janelas ele pode ver o casal de namorados preparando o café juntos, entre gritos e beijos; o tal amigo que foi visita-lo no dia anterior saindo com sua roupa de ginástica colorida e um sorriso enorme; seu novo vizinho dançando na cozinha...
Ele estreitou os olhos e sorriu de forma vitoriosa.
Seu novo vizinho tinha a pele amendoada, cabelos castanhos, uma cicatriz no rosto que mesmo sendo de um lado ao outro não o diminuía em nada seu carisma. Pelo visto, aquele rapaz também gostava bastante de danças animadas, já que não parava de se requebrar apoiado na bancada.
Kakashi continuou com seu passatempo, reparando na limpeza do apartamento recém ocupado, na falta de decoração do lugar, no seu vizinho parando de dançar lentamente e o encarando com uma cara de assustado...
Oh céus, ele foi descoberto!
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O último cômodo que ainda não estava limpo era a cozinha. Aquele pesadelo engordurado e manchado parecia ter acumulado sujeira pelos últimos cinquenta anos. O sol já estava nascendo, mas Iruka queria terminar toda aquela faxina de uma vez só!
Ele pegou um antigo rádio que foi largado naquele apartamento e, pelo incrível que pareça, ainda estava funcionando. Colocou em uma estação qualquer e começou a fazer movimentos de dança conforme a música e enquanto limpava as coisas. Aquilo sempre o ajudava a se encher de animação.
Depois de muitos frascos de desengordurante vazios, a última parte que faltava ser limpa era o balcão da cozinha. Como a música estava em um ritmo um tanto “latino sensual”, o rapaz se apoiou na pedra grossa do balcão e começou a dançar feito um louco, até olhar pela janela e ver que no prédio em frente alguém estava o observando enquanto se servia de chá e biscoitos.
Aquilo foi o pior de todos os momentos constrangedores que Iruka já viveu, com toda a certeza.
Lentamente ele parou o rebolado, se soltou da bancada e voltou a limpar como se nada tivesse acontecido, excerto por sua cara de pânico só de pensar que seu vizinho que nem o conhecia já deveria ter uma péssima primeira impressão.
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