Boa Vizinhança
2 Um policial bom pra cachorro
Iruka já estava recuperado do mal momento que teve pela manhã. Já era quase meio dia e, como ele havia perdido o sono completamente, decidiu iniciar a preparação de um almoço nutritivo e balanceado. Casa nova, vida nova e hábitos novos.
Abrindo os armários recém limpos e começando a juntar os ingredientes para uma receita qualquer de um livro gentilmente deixado como tralha pelos moradores anteriores, Iruka notou que faltava algo muito importante para a preparação de seja lá qual prato ele pretendesse fazer: o almoço em si. Ele suspirou pesadamente, olhando para a situação de sua dispensa: um saco de farinha de trigo, dois de arroz, um pacote de biscoitos pela metade e três garradas de água na geladeira.
Deprimente!
Seja como for, não havia motivos para se martirizar por aquilo, uma ida ao mercado resolveria tudo. Ele vestiu um casaco, calçou os sapatos e partiu rumo às compras!
Entretanto...
Assim que desceu as escadas do apartamento e chegou ao térreo, ele notou que não fazia a menor ideia de onde ficava o supermercado ou até mesmo uma loja de conveniências ali perto. Tudo o que ele sabia era o endereço do colégio o qual começaria a lecionar depois das férias, um parque que usava como ponto de referência para chegar até ali e o metrô.
Amuado novamente, ele já começava a chutar as pedrinhas do passeio quando pôde observar um homem alto, sorridente e sem senso estético algum se aproximando em uma corrida. Ele havia surgido sabe-se lá de onde, mas parou próximo de Iruka e começou a colar um papel no muro.
— Com licença... — o moreno praticamente sussurrou ao se aproximar daquele ser vestido de verde com polainas laranja.
— Hun? — Gai olhou em volta, só então percebendo um rapaz envergonhado próximo a si — Ah! Você deve ser o vizinho novo! — rapidamente ele segurou a mão de Iruka, apertando e balançando — Muito prazer!
— E-eu gostaria... — ele tentou falar, mas foi ignorado.
— Meu nome é Maito Gai, pode contar comigo para o que precisar! Eu sou um dos moradores mais antigos daqui e...
— Na verdade, eu apenas... — agora tentou interromper, sem sucesso novamente.
— Ficarei feliz em ajudar! Sei como é chato ir para um lugar novo onde ninguém te conhece e faz cochichos quando você passa e...
— ONDE FICA O MERCADO!? — irritado, com fome e sem paciência alguma para continuar ouvindo toda aquela conversa, Iruka finalmente conseguiu ser notado.
— Na terceira quadra, segundo pela esquerda... — o homem sorriu, como se respondesse uma pergunta feita da forma mais gentil do mundo — quase em frente à academia em que eu...
Digamos que Iruka apenas quis evitar uma gritaria e escolheu começar sua caminhada rumo ao mercado. Pelo caminho, ele pensava se por acaso todos os seus vizinhos seriam “esquisitões entusiasmados” como aquele, não seria algo ruim, apenas fora do normal...
Voltando pelo mesmo caminho, com o estomago roncando e segurando algumas sacolas, o rapaz se lembrou do papel que Gai estava colando no muro e sentiu uma pontada de curiosidade a respeito. Ele parou e observou o papel casualmente: letras demais para uma leitura rápida, então ele descolou com cuidado e levou junto a suas sacolas de compras.
Enquanto saboreava um macarrão instantâneo qualquer, fugindo de todos os ideias que pretendia construir no novo endereço, Iruka pegou o tal papel e começou a ler:
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PRECISA-SE:
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Passeador de cães responsável e com experiência na área.
Manhã e tarde nos dias de semana;
Manhã aos sábados;
Tarde aos domingos;
Telefone para contato: xx-xxx-xx
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Um trabalho de verão não faz mal a ninguém, certo? Pensou ele, pegando o telefone e discando o número.
— SE FOR MAIS ALGUÉM PERGUNTANDO SOBRE OS MEUS CÃES EU JURO QUE — Iruka desligou na mesma hora, respirou fundo e tentou novamente — Alô? — era a mesma voz de antes, mas dessa vez era desanimada e controlada.
— Desculpe, e-eu só queria saber sobre o trabalho de passeador de cães, cumpro todos os requisitos de disponibilidade e responsabilidade, tenho até mesmo experiência na área. — o rapaz se apressou em falar tudo de uma vez antes que a pessoa do outro lado da linha se irritasse.
— Você já é o quinto que me liga hoje e... Espera, você realmente está disponível? — aquela voz um tanto rouca e misteriosa se animou.
— Sim, tenho bastante tempo livre.
— E quando pode começar?
— Hoje mesmo! — Iruka respondeu sorridente, havia conseguido!
— Ótimo, pode anotar o endereço?
— Claro...
O rapaz anotou tudo, se aprontou e em menos de quinze minutos já estava na rua, buscando por qualquer um que pudesse ajudá-lo a encontrar aquele endereço.
Uma bela mulher passou de mãos dadas com o namorado que fumava um cigarro e, apesar de se sentir um tanto intimidado em atrapalhar o casal, Iruka achou melhor interromper o passeio dos dois ao invés de contar com a sorte, ou pior, ter que pedir informações ao homem estranho de mais cedo.
— Com licença... — ele falou baixo, se aproximando dos dois.
— Hun? — o homem tirou o cigarro da boca e o encarou.
— Podem me dizer onde fica este endereço? — ele estendeu o papel.
Ambos olharam para o pedaço de papel. O homem deu uma risada baixa e voltou a fumar, enquanto a moça olhou docemente para Iruka e apontou para o condomínio onde ele morava.
— É bem aqui, Condomínio Boa Vizinhança. Pelo número do apartamento, deve ser um dos últimos andares daquele prédio à esquerda — ela sorriu, devolveu o papel e voltou a caminhar de mãos dadas ao namorado.
Iruka sentiu a face ficar completamente vermelha. Como ele conseguia ser tão desligado assim!? Esquecer o próprio endereço!
Bem, ele entrou no condomínio novamente e seguiu para o prédio da esquerda, o oposto ao seu. Subiu as escadas animado por um trabalho tão perto e, quando chegou no último andar, finalmente achou o apartamento de número igual ao papel. Deu algumas batidas na porta e esperou um tanto ansioso.
— Entre logo! — parecia ser a mesma voz do telefone.
Sem entender bem como as pessoas de lá confiavam assim em estranhos, Iruka abriu a porta lentamente e entrou, a procura do morador. Haviam dois cachorros dormindo na sala e, pela quantidade de vasilhas de ração, ele imaginou que haveriam mais alguns...
— C-Com licença... — ele chamou, olhando em volta e começando a ficar receoso caso os cachorros estranhassem ele.
— Quem está ai!? — ele pode notar uma sombra pela porta de vidro da varanda – exatamente igual a de seu apartamento – mas o que mais o assustou não foi o morador não saber que ele realmente havia entrado lá e sim um cachorro enorme, escuro, que agora estava correndo em sua direção.
Na vida, há momentos em que o tempo parece andar mais devagar, principalmente quando algo de ruim vai acontecer. Este era um deles. O jovem Iruka podia ver a baba escorrendo lentamente pela boca daquele cachorro enorme, enquanto as bochechas murchas se balançavam conforme ele apoiava as patas no chão.
Aquele cão tinha um senso estético até melhor que si, julgou ele. Coleira com espinhos, uma jaqueta combinando com uma bandana na pata esquerda e as cores em tom de azul sobressaindo com o pelo amarronzado. Um belo animal.
— Bull! Senta! — a voz de Kakashi parecia ter saído lenta, enquanto os outros cães se amontoavam naquele cômodo e o tempo continuava a escorrer vagarosamente.
Para a surpresa do Umino, depois de ser derrubado no chão pelo chamado Bull, ele apenas foi babado o suficiente para ser considerado como amigo pelos outros sete cães presentes ali, que também começaram a lambe-lo e baba-lo em sinal de paz.
— Desculpe, eles adoram visitas... — olhando para descobrir o dono da voz, Iruka pode notar que era um homem com curiosos cabelos brancos e uma perna engessada, que se aproximava dele o mais rápido que podia. — Uhei, Shiba, vocês deveriam ficar quietos já que ainda estão machucados! Guruko, Akino, Bizuki, quietos! Urushi, nada de morder! Droga... Pakkun, faça alguma coisa!
Atendendo às suplicas de Kakashi e surgindo entre todos aqueles cães, um pequeno pug se sentou em cima de Iruka e deu alguns latidos, fazendo com que os outros se afastassem e se aquietassem.
— Desculpe, achei que era um amigo e não... Bem, quem é você? — Kakashi encarou o moreno, não demorando muito até reconhece-lo como o vizinho novo que adora rebolar nas horas vagas. Apesar do esforço, ele conseguiu fingir como se não fosse nada.
— Sou o passeador de cães... — Iruka respondeu enquanto se sentava — São realmente bastantes! — ele sorriu amigavelmente, voltando a atenção para o dono da casa.
— Sim, mas são todos dóceis e obedientes, excerto quando decidem louco babar a visita. Que feio vocês fazerem isso! Vocês não são mais filhotes e já deveriam saber que não precisam disso!
O moreno não conseguiu controlar as risadas com aquela cena, Kakashi parecia mais um pai chamando a atenção dos filhos do que alguém brigando com os cachorros.
— Desculpe. — o homem de cabelos brancos sorriu e tentou ajudar Iruka a se levantar, apesar de se apoiar em uma muleta.
— Não, está com a perna machucada... — Umino se levantou sozinho, dando leves batidas nas roupas — Então são todos eles que levarei para passear?
— Bem... — Kakashi olhou em volta. Seus oito cães já haviam sido recusados pelos outros passeadores que haviam ligado mais cedo e deixar os pobres animais ao cuidado de Gai não era uma boa ideia — Não são exatamente todos...
— Não?
— Aqueles dois ali ainda estão se recuperando — o mais velho coçou a nuca, sabia que seis ainda era um número grande.
— Tenho certeza que em breve vou levar eles para o passeio também — o moreno sorriu de forma gentil — Onde estão as coleiras?
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O jovem Iruka ainda não entendia bem como as pessoas de lá confiavam tão facilmente em desconhecidos como ele. Primeiro, aquele homem estranhamente simpático, depois o casal gentil e, por último, seu vizinho. Droga! Ele podia apenas querer roubar os cães, como um “pai” confiava seus seis “filhos” a um desconhecido desse jeito!?
Parando para pensar... Cuidar de todos aqueles cães não deveria ser fácil, principalmente com uma perna engessada. Pobre Sr. Hatake – sim, Iruka havia se referido a ele como senhor -, já deveria estar no limite e apenas precisava de ajuda. Sorte dele o jovem ter se interessado pelo emprego e sorte de Umino todas aquelas mascotes serem tão bem treinadas e obedientes.
Bull é o maior de todos, se transformando em um cachorro intimidador ao andar pela rua. Nem se parecia com aquele grandalhão carinhoso que havia derrubado Iruka mais cedo;
Urushi parecia pronto para morder qualquer coisa que cruzasse seu caminho, mas não passava de uma aparência falsa. Falando em aparência, ele também tinha um colete e uma bandana;
Bizuki andava olhando para os lados, parecia estar desconfiado de tudo e todos. Também possuía uma jaqueta e uma bandana, algo que todos os outros cães de Kakashi possuíam, pelo que Iruka entendeu;
Akino parecia mais relaxado e preferia ficar sentado sempre que podia. Ele usar óculos escuros – por que alguém compraria óculos escuros para um cachorro? – só o deixava com um aspecto engraçado;
Guruko também era quieto, gostava mais de ficar deitado ao invés de brincar;
Parecendo liderar todos eles, estava Pakkun. Um mini pug de aparência mais avançada que os outros, mas que ainda mantinha suas patinhas cor-de-rosa;
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Depois de um passeio rápido pelo parque, em que o maior problema foi recolher a sujeira deixada pelos animais que tomava conta, Iruka estava voltando para casa sorridente e levando consigo os novos amigos.
Todos os cães se mantiveram comportados até chegarem ao quarto andar, no prédio de Kakashi, onde simplesmente se soltaram do “passeador” e correram para casa. Parecia que a porta destrancada do dono já não era um segredo nem mesmo para seus cães. O moreno tentou correr e alcançar todas as mascotes, mas chegou tarde demais.
Jogado no chão e sendo lambido e babado estava Kakashi. O homem de cabelos brancos ria enquanto tentava afastar todos os seus cachorros que, mesmo tomando cuidado para não machucarem mais ainda o dono, estavam amontoados em cima de si.
— Eles fugiram, e-eu tentei impedir mas... — Iruka já começava a tentar se explicar da porta — Não fugiram há muito! Fugiram só agora, na escada... — inutilmente, ele tentava puxar um cão qualquer pela primeira coleira que conseguiu pegar no chão — Lamento, senhor Hatake! Isso não vai se repetir! — ele já estava ficando com o rosto vermelho e as mãos quentes pela fricção contra a corda da corrente, mas era inútil visto que ele havia pego logo coleira pertencente a Bull.
— Hãn? Tudo bem! — o mais velho disse parando de rir e bateu uma palma.
Instantaneamente todos os oitos cães – aqueles dois que ficaram em casa se juntaram à comemoração – ficaram quietos e começaram a se dispersar pela casa tranquilamente, como se seguissem a rotina e nada houvesse saído dela. Enquanto isso, Kakashi tentava se levantar da melhor maneira que podia com a perna quebrada.
— Eu posso ajudar você, se... Er... — Iruka não tinha o porte físico muito desenvolvido para simplesmente puxar o outro sem correr o risco de os dois caírem.
— Não precisa, eu só... — Kakashi tentou argumentar, mas imaginou que deveria ser uma visão patética para o Umino ver ele tentando se levantar e ao mesmo tempo “controlar” a muleta — Aceito a ajuda... — ele estendeu as duas mãos, esperando por apoio.
Rapidamente, o mais jovem se colocou de pé em frente ao de cabelos brancos, com uma perna de cada lado e se preparou para puxar o Hatake. Só havia um pequeno problema: uma mania adquirida desde pequeno, fazia com que ele sempre tirasse os sapatos quando chegasse em casa. Uma mania sem importância e independente do lugar onde ele estava, mas que resultou em um pequeno acidente:
As meias escorregaram pelo chão de madeira corrida conforme Kakashi buscava apoio para se levantar. Iruka só notou quando já estava perdendo o equilíbrio e não poderia mais evitar o pequeno tombo dos dois.
Sabe, dessa vez o tempo começou a passar mais devagar para o Hatake.
Enquanto ele via um desengonçado moreno tentando impedir a queda, notou que suas mãos se soltaram dos antebraços dele, onde seguravam-se antes, e tentavam se agarrar ao ar. O chão amadeirado era duro o suficiente para fazer um barulho seco quando o corpo se chocou contra o mesmo, o gesso da perna resultou em um outro barulho, semelhante ao de uma peça de acrílico caindo no chão e se rebatendo duas vezes.
A dor começou na altura dos quadris e, uma dor forte e que parecia avisar ao resto do corpo que andar normalmente não seria possível pelas próximas horas. Entretanto, esta dor foi esquecida completamente quando uma pontada partiu do calcanhar em direção à perna e, em seguida, percorreu todos os pequenos cantinhos daquele corpo até chegar aos fios de cabelo. Aquela dor era quase a mesma de quando sua perna havia sido quebrada: primeiro o mal-estar atingiu todo o corpo, só para que depois se resumisse a nada quando a perna fraturada começasse a realmente doer.
A pele, já clara, estava pálida. A boca era uma abertura a qual parecia que a alma de Kakashi havia usado para sair do corpo. Os músculos se enrijeceram e pararam. Os pulmões puxaram todo o ar que conseguiam antes de começarem com uma respiração falha e descompassada. O coração conseguia ter os batimentos sentidos até mesmo nas pontas do dedo...
Tudo só piorou quando Iruka caiu sobre si, bem na altura do estomago. Convenhamos que sessenta e seis quilos não eram nada para alguém que levantava praticamente o dobro em uma academia, mas aquele peso atingindo alguém moribundo só resultou em uma expressão de dor ainda mais autentica e, por consequente, um desmaio.
As expressões do pobre Hatake só não eram mais aterrorizadas do que as de Iruka. Céus! Como ele conseguia ser tão desastrado desse jeito!?
O pior não era isso... Ele havia machucado o vizinho que mal conhecia, criando uma péssima primeira impressão.
Pior! Ele havia caído por cima de alguém com a perna quebrada, potencialmente podendo piorar a lesão.
Dava para piorar: os cães começaram a encarar e rosnar, prontos para um ataque.
AQUILO ERA O PIOR!
Mas ainda podia piorar mais, ah se podia!
Como se já não sentisse raiva de si mesmo por todas as bobagens que fez, medo de ter machucado ainda mais a perna do “Senhor Hatake” e pânico sobre a possibilidade de ser atacado por todos aqueles oito cachorros – para que Kakashi tinha que ter tantos!? – o nervosismo tomou conta do corpo de Iruka quando ele notou a maçaneta começar a girar enquanto a porta era aberta.
Aquilo... Aquilo sim poderia ser o pior de tudo.
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