Boa Sorte
6 Alguém sabe o nome do príncipe de Cinderela? - Capítulo 5
Assim que largou Michael e Miriam juntos, Léo arrastou Jhonatan para fora do shopping e juntos se dirigiram até a lanchonete mais próxima — um habib's. Sentaram nos fundos e logo se espalharam pela mesa, pondo suas mochilas de lado e se acomodando de forma que suas colunas pareciam vírgulas sobre as cadeiras.
_Dessa vez vai — Jhonatan disse.
_Eu não sei... O Michael é meio devagar...
_É, mas foi ele quem pediu pra gente fazer isso.
_Sei lá cara — Léo resmungou.
_Escute guri, o que que tu vai fazer mais tarde?
_Vou passar na casa do Murilo. Ele comprou um play 4.
_Ah, é por isso que você não falou antes — Jhonatan abanou a cabeça.
Léo somente concordou com um aceno da cabeça, não era segredo a ele que Michael detestava seu amigo de infância, Murilo. Normalmente não ligava para essas coisas, mas Mike já estava nervoso e acrescentar irritação a isso não o ajudaria em nada — e também, sobre com quem tinha amizades não era da conta de ninguém, que se foda essa merda.
Eles ficaram jogando assunto fora por 40 minutos, ninguém tinha pressa, mas também não estavam com vontade de passar mais do que isso dentro daquela lanchonete. Se despediram em menos de 10 segundos e foi cada um para seu lado, Léo foi andando, a casa do amigo era a três quadras de distância, numa rua pouco movimentada lotada de árvores e casinhas coloridas. Era um bom lugar para se viver, ele pensava.
Já da esquina pôde avistar Murilo, este estava encostado em seu muro com um sorriso enorme no rosto enquanto falava com uma garota loura que ria enquanto contava alguma coisa sem importância a ele.
Por alguns instantes o garoto até pensou em dar meia volta e diminuir o passo para lhes dar privacidade, mas... Que graça teria isso?
Se aproximou já com um enorme sorriso no rosto, os braços abertos e interrompendo-a no meio de uma frase:
_Murilo! E aí? É essa que é a Jaque de quem você tanto fala?
_Marcela — Murilo respondeu seco, torcendo de leve o lábio. A garota levou o olhar a ele, um pouco contrariada.
_Marcela? Não me lembro de ter falado dela... Não é aquela que você conheceu no bar semana passada?
_Não, não tem nada a ver — Murilo suspirou e voltou-se à garota, que tinha agora visível irritação estampada na face. — Ignora esse cara, ele é um babaca — disse, beijando-lhe o rosto para se despedir — até outra hora.
Pela forma como ela acenou, não haveria outra hora. Mas não era como se algum dos dois garotos ligasse para isso.
Eles entraram e foram direto para o quarto, sem trocar nenhuma palavra até se acomodarem no quarto de porta fechada. Murilo sentado no chão, Léo na cama, espalhado tal como se a casa fosse dele. O garoto avaliou o ambiente ao redor, tudo perfeitamente arrumado — a escrivaninha, a cama, o chão, o guarda-roupa, o criado mudo. Apenas uma coisa estranha jogada no canto do quarto. Esticou-se para pegá-la e soltou uma alta gargalhada que fez com que Murilo perdesse completamente a concentração naquilo que fazia: Ligar o videogame e encontrar os controles perdidos, não tinha ideia de onde havia guardado no dia anterior.
Seu convidado segurava uma baby look pink feminina, a marca "Barbie" estampada no peito com letras de glitter um pouco mais escuras que a cor da blusa. Murilo lançou-se sobre ele e tirou a peça de suas mãos.
_Que que é isso, cara? A "Marcela" esqueceu aí?
_Vick — resmungou.
_O que? É sério isso? Cara, vocês terminaram a o que, um ano?
_Quando terminou, Vick pegou tudo o que tinha e enfiou numa bolsa. Isso aí caiu no caminho — explicou em má vontade enquanto enfiava a blusa numa gaveta.
Cinderela. Típico.
_Isso é deprimente. Já devia ter jogado isso aí fora, sabia?
_Não enche.
_Tem razão. Devia guardar a blusa. Daí de noite, você pode se deprimir, chorar e começar a cultivar uma franja longa em cima do olho — provocou.
_Vai se foder Léo.
_Mais tarde, fico sem graça com você aí olhando — gargalhou.
_Veio aqui pra isso, é?
_Não, vim conhecer o play 4, essa porcaria cara pra caralho.
_É bom saber que é assim que funciona a sua amizade — zombou, jogando um controle sobre o colo do outro.
Não passaram nem vinte minutos jogando quando o celular do moreno tocou.
_Alô? — Murilo abriu um sorriso, tal como se a pessoa no outro lado da linha a pudesse ver. — Claro que lembro, como me esqueceria de você, Deb? — Léo conhecia aquele jogo. O amigo estava atacando outra vez, outra garota, outra experiência que a ele não tinha nenhum sentido, mas bem, isso não era de sua conta.
_Claro, Deb, vai ser ótimo — ele por fim dizia. — Até, então. Beijo.
Desligou e soltou um risinho — aquele infame riso da vitória.
_Vai onde?
_Ela vai dar uma festa. Quer ir?
_Nah...
_Tem certeza? Pode arranjar uma...
_Não, valeu. E você não era viado?
_Vai à merda.
_Não me leve à mal, somos seus amigos, vamos sempre te apoiar — gargalhou esticando-se até o garoto.
Novamente voltavam-se ao jogo, lançando palavrões contra a tela com aquela extrema naturalidade de todo jogador.
Murilo lançou um rápido olhar àquela gaveta. O sapatinho de Cinderela estava ali, mas ele não tinha o direito de tentar calçar-lhe a peça. Cinderela esbofetearia sua cara se o fizesse.
Fale com o autor