Blues
1 Prólogo
Notas iniciais
Divirtam-se, ou no caso... Sofram, né?
Boa leitura, espero que gostem.
O barulho constante dos pingos do ar condicionado do apartamento de cima ecoava na cabeça do garoto, mesmo que estivesse por baixo das cobertas, fazendo a dor que estava sentindo apenas intensificar. Apertava os olhos frequentemente tentando forçar um sono que não sentia. De fato havia algo que somente aquele garoto, enrolado num edredom opaco, poderia estar sentindo naquele momento e esse algo era nada mais que solidão. Uma tão arrebatadora que nem permitia que lágrimas o fizessem companhia. Todas elas tinham ido embora logo pela manhã daquele dia cheio, memorável de um jeito ruim.
Que diabos tinha feito para merecer um dia tão ruim? Rodeado de pessoas que forçavam expressões de respeito e tristeza como se alguma coisa que estivesse vivendo também as importasse. As sete da manhã, sem comer a primeira refeição do dia, teve de encaminhar-se para aquele local da forma que estava em casa – em seu desânimo de viver e respirar.
Os cabelos loiros soltos desgrenhados como se não vissem uma escova há muito tempo, a pele pálida e olheiras fundas de noites mal dormidas – aquela dor nas costas por ter adormecido no sofá duro da sala de estar – de frente para a árvore de natal montada com bolas grandes azuis e douradas, bonecos de neve, estrelas e luzes coloridas que fez questão de manter desligadas. E o que falar das roupas? Se tivesse ido para qualquer outro lugar diferente daquele, pela manhã, as pessoas em volta apontariam e o chamariam de preguiçoso, maltrapilho, descuidado… Mas como era aquele local ninguém ousou dar uma palavra sobre a sua aparência ou mesmo sobre o fato do belo par de olhos verdes estarem mais escuros que o normal por conta das lágrimas que tentava segurar a cada minuto que passava — a cada pessoa que por ele passava o cumprimentando. Ah, elas não compreendiam a sua dor e ele sinceramente não queria que entendessem nada.
O dia inteiro evitou entrar onde todas as pessoas estavam aglomeradas mesmo ao ser questionado diversas vezes sobre isso. “Yuri, você tem certeza que não vai entrar?” Como que alguém poderia perguntar algo assim? Não queria entrar, não se arrependeria disso — tinha certeza — mas também não precisava dar nenhuma explicação. Não respondia, não esboçava nenhuma reação — e quando o momento de seguir em frente pelo gramado raso, verde claro, junto de todas aquelas pessoas o loiro foi na frente para não ter que olhar para aquilo. Segurou aquela flor vermelha tão fortemente que acabou quebrando um pouco do seu cabo, pouco antes de atirá-la no imenso e profundo buraco onde estavam sendo depositados todos os seus sentimentos — que logo mais seriam sufocados e calados para sempre.
Depois de lá o levaram para um restaurante para almoçar — colocar aluma coisa no estômago. Mas tudo que passava pela garganta acabou retornando momentos depois no banheiro vazio do local onde as pessoas — alheias aos acontecimentos — riam e conversavam. Lembrou também de adormecer no carro voltando para casa — sua solitária casa — onde não teria nada além do silêncio e dos miados raros de um gato que talvez, só talvez, estivesse sofrendo como ele. “Você tem certeza que quer ficar sozinho?” a garota de longos cabelos vermelhos perguntou ao pé da porta do apartamento, e não teve uma resposta verbal como gostaria, apenas um leve e robótico aceno de cabeça para cima e para baixo. Em seguida a porta apenas se fechou, sendo trancada, e o garoto deixou que seus sentimentos pulassem de seus olhos — esgotando-se completamente.
Tudo isso que o levou até aquele momento, deitado na cama enrolado num edredom ouvindo os pingos no parapeito da janela. O relógio sobre a mesa de cabeceira indicava que passava das onze horas da noite, faltando pouco menos de uma hora para que o dia acabasse. Com o seu término, no entanto, seu sofrimento não acabaria — talvez se prolongasse, ou talvez acontecesse algum milagre. Um milagre de Natal? Não, a data já havia passado e o dia seguinte marcaria o final de um ano que terminou ruim e outro que começaria pior ou menos feliz. Será que um dia essa sensação abandonaria o seu peito?
Se ergueu da cama lentamente deixando que o edredom branco caísse no chão e ali ficasse. Os passos lentos rumaram para o corredor passando por uma ou duas fotografias na parede branca que evitou olhar — as mãos arrastavam pela parede para que não acabasse batendo contra algo na escuridão do apartamento. Isso até tocar o interruptor que iluminou todo o ambiente da sala de estar bagunçada. Um gato de pelos longos dormia confortavelmente sobre a cômoda da televisão. A mesa de centro ainda abrigava dois copos meio cheios de água quente e velha, controles remotos e uma sacola transparente que não teve coragem de abrir — chaves do carro, carteira e um celular estavam ali dentro. Suspirando profundamente o de cabelos longos e loiros caminhou até a cozinha esticando a mão para abrir a geladeira e pegar um pote de iogurte de morango e depois uma colher sobre a pia. Abriu a embalagem já se encaminhando até o sofá e começou tomar pequenas colheradas em completo silêncio, os olhos fixos na televisão desligada, pernas sobre o estofado.
Não sentia gosto de nada por mais que soubesse estar tomando algo doce, e por que? Será que tudo o que colocasse para dentro seria tão indiferente como era agora? Colocou o pote vazio sobre a mesa de centro e abraçou os joelhos apoiando o queixo ali. Quanto tempo mais ficaria dessa forma era uma dúvida até para ele que já não sabia o que devia fazer agora que já tinha resolvido tudo.
Foi quando subitamente, sem esperar, a campainha fora tocada sem que antes o interfone soasse. Quem era a essa hora? Algum vizinho? Não tinha vontade de se erguer e socializar, mas a pessoa era insistente e o som agudo fazia sua cabeça querer explodir. Levantou-se arrastando o corpo até a porta e girando as chaves antes de abrir a maçaneta — dando de cara com duas figuras que não esperava ver tão cedo. O mais baixo tinha cabelos negros maiores do que se lembrava da última vez que viu e carregava no rosto uma expressão entristecida e ao mesmo tempo compreensiva… O outro era impassível com seus cabelos curtos e pálidos, os olhos azuis profundos encarando o dono do apartamento como se estivesse mirando a sua alma. Estremeceu com a proximidade do mais baixo deles que deu um passo a frente e o recolheu num abraço silencioso e apertado pela cintura.
━ Yurio, eu sinto muito — disse com a voz de choro enquanto apertava o loiro naquele abraço forte ━ Não conseguimos chegar a tempo.
━ Nosso vôo atrasou — disse o mais velho tentando abrir um sorriso, o mais falso que já o vira dar.
━ Não precisavam vir — respondeu o jovem com um nó na garganta assim que conseguiu se afastar do japonês dando um passo para trás. Por que eles tinham aparecido com malas? Por que o porteiro não ao menos avisou no interfone que visitas chegariam?
━ Como não precisavamos?! — Yuri Katsuki indagou exasperado, os olhos arregalados ━ Assim que soubemos que o…
━ Não fale — disse o loiro antes que o japonês pudesse pensar em completar a frase ━ Entrem — deu passagem para que eles e suas malas pudessem entrar.
Mordeu o lábio inferior levemente ao fechar a porta e virar-se para os dois que agora analisavam a sala de seu apartamento provavelmente tentando segurar qualquer impulso que pudessem ter em relação a sujeira, bagunça e janelas fechadas.
━ Yurio, nós tentamos ligar para você e perguntar se estava tudo bem mas você não atendeu. Eu disse ao Viktor que era melhor ficarmos num hotel, mas…
━ Podem ficar aqui se quiserem. Podem dormir no meu quarto, eu… Estou dormindo no sofá agora — revelou indo até a mesa de centro e recolhendo apenas o pote de iogurte e colher sujos para levar até a cozinha.
Não era como se quisesse ter companhia. Queria ficar sozinho, era verdade, mas também não queria ficar na solidão. Era um sentimento contraditório e complexo, não esperava que alguém pudesse compreender se nem ele mesmo o fazia. Naquela noite — depois de todas as coisas ruins que precisou fazer, ver e ouvir, se sentiria um pouco menos solitário por causa do casal que de tão bom grado abandonou tudo que tinham, seus compromissos e afazeres para fazer-lhe companhia.
Notas finais
Espero que tenham gostado até aqui.
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