Blueprint
3 Rose
Mais uma manhã, a primeira.
Ela enfia seus pés nas pantufas, mal-humorada, mas já com a mente programada por objetivos. Quando termina seu banho e passa creme pelas pernas, suas companheiras ainda despertam. Já de uniforme e de cabelo preso, suas colegas se arrastam para o banho.
Já conferindo o Quadro de Avisos, todos ainda correndo atrás dos materiais, mas sua bolsa estava pronta desde às sete da noite passada, o horário em que Rose Weasley se obriga a dormir, ignorando todos os pensamentos que tentam assombrá-la.
Ela gosta de comentar que deve ser seu sol em Virgem, mas Rose não acredita que um signo possa dominá-la a ponto dela temer tanto falhar que a morte lhe parece mais agradável. Ela não consegue sequer pensar em ser 1% menor que sua mãe. Não que ela não tenha seus incentivos alheios:
— Engraçado, sua mãe era minha melhor aluna. – comentou a professora de Runas ao lhe dar sua primeira nota, que não passava de um Aceitável. E aquela foi a primeira e única vez que Rose tirou algo que não fosse Ótimo.
Até...
— Excede Expectativas?— esganiçou, quase amassando o pergaminho. – Senhor, o que está errado na minha prova? Está tudo certo, o senhor-
— Senhorita Weasley, eu sei que está certo, apenas não é perfeito. Não deixa de ser excelente, mas eu teria sido mais sucinto.
— Sucinto?— questionou Rose, trêmula. O mundo parecia estar vibrando em seus pés, sentia até mesmo o suor brotar em sua testa.
— Às vezes pecamos pelo excesso. – disse ele, ainda distribuindo as provas. A garota torceu seu nariz para ao ver Albus gritar de felicidade, erguendo o pergaminho no ar, batendo seu peito no de Scorpius, comemorando um mísero Passável. Releu e releu o que escrevera, não conseguindo se concentrar na aula, ansiando o intervalo para reformular suas respostas e mostrar ao professor.
Passou a aula inteira de Aritimancia com vontade de chorar.
— Excede Expectativas não é ruim. – disse Fred, devolvendo o pergaminho à Rose. Ele olhou-a com carinho enquanto ela enxugava as lágrimas, angustiada. – Sei lá, eu não escreveria nada diferente.
— O que você escreveu na sua do ano passado, deixa eu ver.
— Eu nem tenho mais isso, Rose.
— Quanto você tirou?
Fred II molhou os lábios e Rose soube que ele ia mentir.
— Excede? Eu sou terrível em Runas, eu só fiz pelos N.I.E.M’s-
— Mentiroso — a garota cruzou os braços, trêmula, com mais vontade ainda de chorar. Olhou Catherine Davis lendo ao longe e sentiu ódio mortal. Passou a mão nos olhos, exausta. Fred parou de acariciar sua panturrilha e jogou em seu colo um livro que tirara da bolsa.
— Vai te fazer sentir melhor. Aliás, festa, sábado agora, você sabe onde. – ele levantou-se, limpando a calça suja da grama. — O que vai enviar pra sua mãe de presente?
— Não sei… Faz anos que não dou nada de presente de dia das mães… — Rose semicerrou os olhos por conta do sol.
— Esse livro vai te inspirar. Você devia escrever um poema a ela, você é uma das melhores que já li. Te vejo na festa.
— Eu não quero saber de festa! — retrucou Rose, mas tudo que recebeu fora um “jóia” do primo, que mal dera um passo e já fora abordado por amigos. Ela encostou-se novamente na árvore e olhou a capa do livro, cansada. Fred havia grifado milhares de frases, marcado páginas, feito anotações... Admirou as costas do primo e sorriu ao vê-lo gargalhar de algo.
— Ah não... – gemeu com um garoto louro aproximando-se, sorridente. Ameaçou levantar-se, mas Scorpius apertou o passo.
— Ei, tudo bem? Você estava meio para baixo hoje na sala. – sorriu ele, com as mãos na cintura. Rose forçou um sorrisinho e recolheu suas coisas, rezando para que ele fosse embora. – Olha, vai ter uma festa sábado...
— Eu sei. – cortou ela, levantando-se.
— E você vai...? – Rose suspirou, fitando os olhos claros de Scorpius, entediada.
— Não sei, provavelmente não.
— Por que não?
— Porque eu tenho mais o que fazer, você se incomoda? – ele parou de segui-la. – Eu tenho que ir agora, com licença.
— Cacete.. — xingou o garoto. Olhou para trás mais uma vez, o vendo com as mãos na cintura, frustrado.
...
Rose procurou em sua agenda algo a mais para fazer, mas já tinha feito todos os trabalhos e revisado toda a matéria da semana que ia chegar. Olhou uma colega de dormitório, qual ela fez questão de esquecer o nome por terem brigado logo na primeira semana de aula, com um vestido horrível para a festa e segurou o riso, embasbacada com o nível de breguice. Roeu as unhas, guardando seu material.
Pegou o livro que Fred II lhe dera e folheou mais um pouco, sem vontade de ler. Sorriu para as marcações, não prendendo os olhos em nenhuma em especifico. Tocou o post-it preso em uma página:
“Eu abri mão da juventude para adquirir conhecimento, mas meu ganho era mais valioso do que a perca”.
Rose fitou aquelas palavras e respirou fundo, fechando o livro, olhando para foto de sua mãe na cabeceira.
Falhar parecia ser algo semelhante a uma facada, já que sua mãe sempre fora a melhor em tudo que fazia. Ela observava em silêncio Albus ser comparado à seu pai o tempo inteiro e sempre se perguntava qual era o caminho certo para as sombras.
Pegou uma folha vazia no fim do livro e uma caneta, deitando-se na cama:
“É verdade
Eu fui criada em você.
E também é verdade
Que você foi criada para mim…
Eu possuí sua voz.
Foi moldado e ajustado para me acalmar.
Seus braços foram moldados
Em um berço para me abraçar, para me embalar.
O cheiro do seu corpo era o ar
Perfumado para eu respirar”
Albus corre na direção contrária de seu pai, tocando tudo aquilo que Harry Potter jamais tocara. Fazendo tudo que ele jamais fizera.
Rose correu em direção de sua mãe, sempre buscando ser igual ou melhor que ela, de preferência melhor.
— Mas eu não sou Hermione Granger... – sussurrou Rose para si mesma, como Sylvia Plath tentava se convencer de ser um individuo, respirando, de coração ativo. – Eu sou Rose Weasley, Rose, Rose, Rose…
Sua mãe iria em uma festa clandestina?
...
— Como pode — gritou Fred II admirando Rose dos pés ao cabelo. – Uma garota bonita dessas ser tão chata?
— Idiota. – replicou Rose, batendo em seu ombro. Ele lhe ofereceu um copo de bebida e Rose negou, nervosa com a música alta e a lotação do ambiente, James estava gritando algo no ouvido de Fred e o mesmo vibrou.
— Isso é uma miragem? — gritou Kamau, apontando pra Rose — Isso é uma miragem né?
— É o próprio diabo — apresentou James, chegando mais perto da prima.
— Ok, eu vou embora — irritou-se Rose, pronta para sair do lugar, mas Fred a segurou.
— Você não vai a lugar nenhum! — Zadie apareceu, também chocada, quase deixando sua bebida cair — Nós vamos dançar.
— Rose Granger-Weasley está entre nós? — questionou Zadie, gargalhando, juntando-se ao grupo que empurrava Rose para o centro da festa, com todos pulando ao som de brockhampton. A mesma tentou se segurar, mas não resistiu e dançou com o primo e os amigos do mesmo
“A Granger” era conhecida por ser insuportável. Era referida exatamente desta forma, o Granger era usado para diferenciá-la dos primos. Todos sabiam quem ela era, assim como todos conheciam Fred, mas ambos eram conhecidos por formas diferentes: Fred puxara seu pai, era divertido e amigável, todos adoram Fred e querem um pedaço dele, querem ser nem que seja alvo de piada do mesmo. Mas Rose era conhecida por sua arrogância e rigidez.
Estar perto de alguém tão querido como Fred era sempre difícil para Rose, e antes ele fosse apenas querido, Fred era o crush de metade do castelo, a mesma já não sabia se o primo apenas se fazia de idiota ou realmente não percebia os olhares de Zadie para ele, não só ela, a lista era longa demais.
Olhou pessoas se beijarem e sentiu-se deslocada, quase fora do seu corpo tamanha desconexão. Não se sentia bonita, não se sentia desejável.
Era um produto dos traumas de sua mãe: cabelo crespo, dentes grandes, nariz largo.
Mãe,
Durante aqueles primeiros e queridos dias
Eu não sonhei que você tivesse
Uma grande vida, que me apenas me incluia
Porque eu tive uma vida
Que era só você
— Catherine Davis gosta de você – disse Rose, depois de um terceiro copo de bebida. Estava estranhamente confortável em falar sobre qualquer assunto com qualquer pessoa, sentiu-se uma idiota em ter se negado a beber por tantos anos.
Ela aproveitou o único momento em que James desgrudara de Fred, já que o primo gostava da mesma. E por mais que Rose detestasse James com todas as suas forças, não queria magoá-lo e nem causar desconforto entre os primos, que eram praticamente irmãos.
Fred engasgou com sua vodka e acabou derramando um pouco em cima de sua camisa, rindo. A garota riu, sentindo a própria voz ecoar, ensurdecida pelo som alto.
— De onde você tirou isso? – riu ele, terminando sua bebida.
— É só observá-la. Ela te olha como Zadie te olha... E Vanessa... E Emily... E Annie... – Fred II girou os olhos e abriu uma cerveja
— Acha que tenho tempo para ficar listando quem me olha “diferente”? – indagou ele, debochado.
— E você se interessa por elas? – questionou Rose, realmente curiosa.
A luz começou a sincronizar com a música de forma em que ela ia e vinha com tanta rapidez e intensidade que cada movimento de Fred II parecia uma fotografia sequencial. Ela fitou o dedo indicador e dedão passearem sob o lábio superior ao inferior e ficou sem ar, abaixando os olhos.
— Não. – respondeu Fred.
— Você se interessa por alguém? – questionou Rose. E ela quis saber se Fred também a via como uma sequência de fotos, a assistindo colocar seu copo sob a mesa.
Fred II suspirou, ignorando Rose, observando a pista. Ao lado de ambos, casais se beijavam animadamente, aumentando mais ainda a tensão. O único som maior que o da música era o coração de Rose, quase ultrapassando a caixa torácica.
— Finalmente — gemeu ele, abrindo seu maior sorriso. Rose notou Maya Zhao cumprimentando os bêbados animados pela chegada da mesma e sentiu seu estômago balançar pela bebida. A garota aproximou-se já com uma bebida em uma mão e um cigarro em outra, balançando conforme a música em direção de Fred.
— Maya… — Rose forçou um sorriso para a garota coreana. — Você está melhor?
— Rose, nem acredito que temos sua ilustre presença nesse pulgueiro! — as duas se abraçaram brevemente. — E sim, meu furico vai bem melhor, tomei umas quatro injeções ontem, estou nova como um bebê assado.
Rose riu, mas sentiu vontade de chorar, pois sabia que a atenção de Fred agora ia ser completamente direcionado à Maya. As semanas que Maya ficava de cama na Ala Hospitalar eram quase um respiro para os outros amigos de Fred, já que os dois eram inseparáveis.
O tempo passou continuamente e nos separou.
Eu não queria.
Eu temia se te deixasse ir
Você me deixaria eternamente.
Você sorriu dos meus medos, dizendo
Eu não poderia ficar no seu colo para sempre.
Que um dia você teria que ficar
E onde eu estaria?
Você sorriu novamente.
Eu não.
Andou um pouco até outra mesa de bebidas e flertou brevemente com a garrafa de gin meio vazia, e então bebeu pelo gargalo, encarando as pessoas dançando e conversando. Sentiu-se tão vazia que não pensou muito bem quando enfiou-se no meio das pessoas, observando as luzes.
Sentiu seu estômago dar um solavanco de culpa, e gin.
— Você veio! — gritou Scorpius, abraçando Rose. Os dois pularam em um abraço feliz e bêbado. A garota parou, sentindo-se zonza, ainda rindo, tentando entender o que Scorpius tanto falava.
Notou Maya gargalhar ao longe conversando com James e Kamau e tentou achar Fred II com os olhos, apenas para achá-lo aos beijos com Zadie, no meio da pista.
E como reflexo Rose vomitou em si mesma, como uma torneira quebrada.
Eu te amei mesmo durante os anos
Quando você não sabia de nada
E eu sabia de tudo, ainda te amava.
Com condescendência, é claro,
Do meu alto pódio
Da sabedoria adolescente.
Eu falei rispidamente de você, muitas vezes
Porque você demorou a entender.
Eu cresci e
Fiquei surpreso ao encontrar
Quanto conhecimento você adquiriu.
E tão rápido.
Scorpius olhou o pergaminho com a perfeita letra de Rose, agradecendo por ter cuidado dela e fitou sua camiseta cheirosa e passada, como se não tivesse estado destruída por vômito há menos de vinte e quatro horas atrás.
— Melhorou? — perguntou, com a bolsa nas costas, a observando recolher os materiais lentamente, parecendo exausta, assustando até mesmo o professor, acostumado com Rose bombardeando a aula com perguntas e respostas. Dava pra saber que era seu primeiro porre pelo rosto inchado e a expressão de destruição mental.
— Um pouco — respondeu ela. — Olha, muito obrigada mesmo por-
— Não precisa agradecer — sorriu Scorpius. — Apesar da situação, foi… Uma das conversas mais sinceras que já tive.
Rose vincou a testa, confusa.
— Quê? — perguntou.
— A conversa que tivemos no banheiro, depois que eu enfiei sua cabeça na pia — Scorpius sentiu-se bobo ao notar que ela não se lembrava — Realmente foi sua primeira vez bêbada.
— Olha, eu tenho que ir, depois nos falamos. De novo, obrigada.
O garoto observou Rose partir, também não se lembrando muito bem da noite passada. Mas entre soluços chorosos e goles de água para acalmar o estômago, sabiam que haviam conversado sobre imagem, semelhança e o peso de um nome.
Scorpius sabia que Rose era uma chata de galocha, afinal, ele era apaixonado por ela por tanto tempo que sequer sabia contabilizar, porém, ter visto o fundo daquele poço que tanto atiça parecia ter aberto algo nele que não seria mais capaz de fechar.
Mãe, já aprendi o suficiente agora
Para saber que não aprendi quase nada.
Neste dia
Quando as mães são homenageadas,
Me deixe te agradecer
Rose abriu o corujal, procurando sua querida Lauryn. Sentou-se na velha escrivania que havia no local sujo e movimentado, todos enviando seus presentes para as mães. Rose tinha vergonha de presentear sua mãe, o que ela fez com as pantufas coloridas de glitter que ela criativamente fazia com sua avó paterna n’A Toca? Como se algo tão bobo e fútil pudesse ter utilidade para Hermione Granger-Weasley.
Presenteá-la era tornar-se vulnerável, e puxar o cordão umbilical que as ligava, tão maltratado pela troca de traumas, insensibilidade e falta de compaixão. Rose odiou a mãe como deveria ser feito, pela maldição de lhe tocar de traumas, pela maldição de ser uma mulher.
E Rose demorou para perceber que sua mãe era uma mulher. Um indivíduo.
Olhou o poema incompleto e molhou a pena, esticando o pergaminho:
Me deixe agradecer que
meu egoísmo, ignorância e zombaria
Não te fez me
Descartar como uma boneca quebrada
Que havia perdido sua validade
Eu te agradeço isso
Você ainda encontrar algo em mim
Para cuidar, admirar e amar.
Agradeço, mãe.
Eu amo você."
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