Blueberry
8 O caminho mais difícil
Notas iniciais
Levei aproximadamente quarenta minutos para perceber que meu celular tocava a mesma música repetidamente. Provavelmente eu ativei a repetição sem querer. Eu estava com o cartão de memória de Blueberry e não fazia a menor ideia de que música era aquela, mas provavelmente fazia parte da trilha sonora de algum anime, por ser em japonês.
Vegetar no meu quarto, ouvindo as músicas estranhas de Benício tinha se tornado minha principal atividade, durantes as noites dos dias de semana.
Já era maio e eu tinha entrado numa rotina de merda.
Conforme meus planos, consegui um emprego (que meu pai me arranjou, na verdade), para juntar o dinheiro que precisava para abrir minha loja. Trabalhava de segunda a sábado numa loja de materiais de construção. Durante a noite toda a canseira do mundo se acumulava em mim, então eu ficava no meu quarto fazendo vários nadas, até a hora de dormir.
Mas o que estava acabando comigo é que eu quase nunca via Ben.
Ele estava fazendo faculdade e trabalhando meio período com um tio. Nos sábados à noite, aparecia em casa e ficávamos jogados pelo meu quarto, como idosos sedentários. Ele passava quase todos os domingos em casa também, mas dormíamos até meio dia, depois, vez ou outra, o pessoal aparecia para darmos algum role.
Minha conclusão sobre isso é que ser adulto é uma droga.
Pensei em tomar um banho e dormir, mesmo sem ter a menor noção de que horas eram. Já era sexta e tudo o que eu queria era que o dia seguinte chegasse logo, para eu descansar e ver Ben.
E, no segundo que pensei nele, meu celular tocou. Atendi depressa, com uma pontada de ansiedade.
"Rei?" Ele parecia animado demais. No fundo, várias pessoas conversavam. Obviamente não era uma aula.
— Oi, Ben. – Respondi normalmente, apesar de ter um gosto meio amargo na boca.
"Cara, se arruma. A Lívia vai passar aí te buscar."
— Que? Pra que?
"Eu não vou ter as últimas aulas hoje, então a gente vai pra casa de um amigo beber, junto com a turma do segundo ano. Vai ser daora e vocês dois vão vir pra cá. Não precisa se preocupar que eu já paguei entrada pra vocês"
Levei uns segundos para assimilar.
— Benício, eu trabalho amanhã. E que amigo é esse? Me explica direito.
"Qual é, desde que começou a trabalhar, você não saiu de verdade nenhum dia. Você não vai morrer se dormir menos uma noite." Ele falou isso num tom de quem implora, meio infantil. Minha determinação derreteu um pouco.
— Certo. Supondo que eu vá, quem e por...
"Maravilhoso! Se arruma logo que a Liv vai chegar aí em uns dez minutos. Depois te explico."
E desligou na minha cara.
Por birra, decidi não ir de forma alguma.
E foi assim que, quinze minutos depois, eu estava no carro do pai de Lívia, com ela dirigindo.
— Por que só nós dois estamos indo? – perguntei, com o rosto colado no vidro gelado.
— O Blueberry tá arranjando um amigo dele pra mim. – Ela contou, animada. – Tá ligado o Luís?
— Yeah. Então porque eu to indo?
— Pra me fazer companhia. Duas horas de viagem, cara. É um saco dirigir sozinha, dá sono.
Olhei pra ela, pelo canto do olho.
— E porque não a Sil? Ela estuda lá também, não estuda?
— Você é muito chato. – Liv me deu uma olhada, depois voltou a prestar atenção na pista. – Silvana não foi nem pra aula hoje. E você não estava azedo porque não consegue passar tempo o bastante com seu amigo? Agora fica aí, só reclama.
Pensei sobre isso e ela tinha razão.
— Certo. – Declarei, fechando os olhos. – Me acorda quando chegarmos.
— Você veio pra me distrair, não vai dormir porra nenhuma! – Lívia deu uns tapas doloridos no meu braço e eu desisti de tirar um cochilo.
Chegamos na casa do amigo de Ben quase onze horas. Embora eu não quisesse admitir, estava aborrecido que Lívia estivesse mais a par do círculo social de Ben do que eu. Ela sabia até o endereço da casa em que a turma dela costumava fazer festinhas.
E que casa sensacional. Não era nenhuma mansão, mas era muito bonita e com um quintal grande. A som de conversas e música vinha de trás da casa.
Benício correu nos receber, logo que enviamos mensagem pra ele, avisando da nossa chegada.
— Oi vocês. – ele me deu um abraço e beijou o rosto de Lívia. Estava cheirando a álcool.
— Você vai me pagar por me fazer perder horas de sono. – Reclamei. Ele me lançou um olhar divertido.
— Seu idoso.
Dei risada e tente bagunçar seu cabelo, mas ele escapou, correndo para a parte de trás da casa, por um corredor estreito. Depois voltou e me puxou para lá também. Liv sumiu de vista numa velocidade impressionante.
Eu já conhecia, no geral, os novos amigos de Blueberry. Mas já tinha esquecido a maioria dos nomes. Então me senti como um intruso ali.
— Olha, o namorado do Ben veio. – Um carinha comentou, acenando para nós com o taco de sinuca. Algo dentro de mim congelou. Bem tinha dito a seus amigos que erámos namorados?
Foi preciso a risada de Benicio para eu perceber que aquilo foi uma brincadeira.
— Foi mal, cara, é que ele fala tanto de você que parece que são casados. – O cara disse, se aproximando. Aparentava uns trinta anos e tinha mais barba que um lenhador, mas sorria e falava como um cara legal.
— Seu exagero me comove. – Blueberry se afastou um pouco e pegou uma garrafa de alguma coisa.
— Ele me fala de vocês também. – Foi o que consegui responder, para tentar sair daquela situação estranha.
— Aham, sei. – O carinha riu. – Aliás, eu sou o Renato, dono da casa. Fica à vontade aí, man.
— Obrigado. – Fiquei olhando ele voltar para perto da mesa de sinuca e continuar a falar com os amigos.
— Ele é bacana, né? – Ben comentou, retornando pra perto, com um copo de batida de alguma coisa. Peguei da mão dele e experimentei um pouco. Era forte.
— E meio maluco. Fazer uma festa na própria casa, no meio da semana. Nem quero imaginar a bagunça.
— Naah... Sempre sobra bebida, o cara se dá bem. – Benicio olhou pra mim. – Estou assustado, você tá mesmo começando a agir feito um velho. Credo.
— E você já tá com voz de bêbado. – Retruquei. Ele apenas sorriu. – Então, pra que eu to aqui?
— Pra ser meu parceiro no truco, claro.
— Oh, não. Você me fez vir aqui, só pra isso? Eu queria dormir, Benicio! – Reclamei, sem acreditar que ele tinha feito aquilo. Eu só não esperava que minha reação o chateasse; Ben desviou o olhar e colocou uma mão no bolso, encarando o chão.
— Desculpa. Você pode dormir no carro ou no sofá, se estiver cansado. _Ele disse, em voz baixa. – Não queria te atrapalhar.
— Que...? Não, esquece. Agora eu já to aqui. – Tentei melhorar a situação, mas Ben me olhou torto. Agora ele estava irritado?
— Se você não tá de boa, não é obrigado a ficar. Depois vai acabar dando um jeito de jogar isso na minha cara.
— Você ficou louco?! Quando é que eu jogo as coisas na sua cara? – Retruquei. E então tive um milésimo de segundo para perceber o quanto era sem sentido discutir daquela forma. Parecia meus pais brigando. – Esquece. Esquece isso, Berry. Vamos aproveitar a noite, você tem razão, não passamos tempo juntos faz... Tempo.
Ele suspirou e bebeu mais um pouco.
— É, tudo bem. Me desculpa. – Resmungou.
Baguncei seu cabelo, para mostrar que estava tudo bem. Mesmo assim, o bom humor de Ben só voltou quando começamos a jogar.
Em algum momento da madrugada, eu estava quase cochilando em pé, enquanto conversava com uma menina de cabelo pintado de vermelho que Ben me apresentou. Eu nem lembrava o nome dela direito (algo entre Tábata e Tamara), mas estava gostando da conversa, apesar do sono. Benicio estava com a gente, mas depois foi “rapidinho” falar com Renato e não apareceu mais.
Eu só estranhei a situação quando Liv brotou do meu lado, bocejando.
— Hey. Acho que já tá bom de a gente ir, né?
— Ah, agora você vem, depois de sumir por horas, e acha que vai decidir as coisas? Agora estou totalmente entretido na conversa com minha nova amiga, não vou a lugar nenhum. – Brinquei, encenando uma ceninha dramática.
A ruiva riu.
— Até parece, você tá dormindo em pé faz uns quarenta minutos. – Ela me denunciou.
— Pô, que vacilona você! – Nós rimos um pouco disso.
Depois me despedi da garota. Ela insistiu em pegar meu celular. Pela forma que sorriu para mim, fiz uma nota mental de chama-la para sair quando tivesse tempo. Se é que um dia eu teria tempo.
— Cadê o Benicio? – Liv me perguntou, depois que a ruiva voltou para as amigas dela.
— Ele foi falar com o tal Renato. Mas já devia ter voltado. – Olhei em volta. Nenhum dos dois estava a vista. Tive uma sensação ruim sobre isso.
— Aah... Vamos esperar ele no carro, então. – Lívia disse.
— Vai indo lá, eu vou dar uma olhada aqui, pra ver se acho ele.
— Tem certeza? – Ela pareceu receosa. Levantei as sobrancelhas, desconfiado. – Tá ok, te espero lá.
Sentindo uma coisa ruim dentro de mim, do tipo que não dá para entender o que é, procurei por Benício. Levei alguns minutos para achar.
E quando achei, me senti ainda pior. Ele estava beijando o cara, o tal de Renato. Não estavam se escondendo, apenas num lugar discreto. Era como se algo tivesse explodido dentro de mim. Aquilo era errado, muito errado, minha vontade era tirar o cara de perto do meu Blueberry e, no mínimo, bater nele.
— Ah, mas que jeito adorável de falar tchau, adorei. – Comentei em bom tom e o mais ironicamente que pude. Isso bastou para os dois se separarem.
Ben ficou vermelho, como se tivesse acabado de comer um pote de pimentas, e falou alguma coisa para Renato, em voz baixa. Eu apenas virei e comecei a andar de volta do carro, com as mãos formigando e vontade gritar com alguém.
Entrei e bati a porta do carro com força. Logo em seguida Ben entrou e sentou no banco atrás do meu, sem dizer uma palavra. Liv apenas suspirou e saiu com o carro.
As duas horas de volta foram longas. O sono que eu estava sumiu totalmente, mas eu não consegui conversar ou relaxar. Benício e Lívia trocaram algumas palavras, mas realmente não prestei atenção.
Quando chegamos na porta de casa, Liv parou o carro e eu desci. Benício desceu também e olhei para ele, quieto. Não tínhamos combinado nada de ele dormir em casa, mas mesmo assim ele agiu como faria normalmente, disse tchau para Liv e agradeceu por tudo. Os dois conversaram mais um pouco, depois ela foi embora.
— Precisamos conversar. – Benício disse, assim que o carro virou a esquina.
Não respondi. Estava com um gosto amargo na boca.
Entramos e fomos para o meu quarto. Sentei na cama e fiquei olhando para o chão, enquanto Ben fechava a porta.
— Tá foda, Rei. – Ele começou, devagar. – Às vezes você é bem pé no saco, desculpa dizer. Parece uma criança, emburrado desse jeito.
Olhei para Ben, sem acreditar naquilo.
— Você me faz sair de casa, sabendo que eu tenho que trabalhar amanhã, pra ir numa porcaria de festa e para que? Te ver se agarrando com um cara! – Retruquei.
— Pelo amor de deus! – Benício levantou as mãos para o alto, exasperado. – Eu já te disse que queria te ver, por isso te chamei lá! Se você ficar reclamando, eu juro que nunca mais te chamo pra nada! Se quiser, a gente nem se vê mais, tá bom assim?
Ignorei a última parte do que Blueberry disse, irritado demais para pensar nisso.
— Nem sei por que você fez questão de me chamar, se já tinha companhia! – Retruquei.
— Reinaldo! – Ele exclamou. – Você tá sendo um cretino. Não quer ficar comigo, mas também não posso ficar com mais ninguém?!
Senti o sangue gelar e a minha irritação deu lugar para nervosismo.
— Q-que? – Gaguejei. – Não tem nada a ver com isso, Benício!
— Ah, não? – Ele passou a mão no rosto. – Tem a ver com o que, então?
Fiquei olhando para Ben, sem conseguir responder, me sentindo ridículo e preso numa armadilha. Eu não sabia responder aquilo.
Também fiquei envergonhado, mais do que eu podia suportar, então desviei o olhar.
— Não fique assim. – Benício disse, parecendo exausto. Ele suspirou devagar, se aproximou de mim, encostou minha cabeça em seu peito e passou a mão no meu cabelo. – Não falei para te deixar mal, Rei. Mas olha só, eu queria ter uma noite legal, com você e meus outros amigos e... Eu posso estar meio afim do Renato, então em algum momento teria que...
— Você o que? – Olhei pra ele, sentindo alguma coisa ruir dentro de mim. Blue franziu a testa e colocou uma mão em meu rosto, fazendo um carinho suave.
— Rei, eu sempre vou amar você, não existe a menor possibilidade de eu amar outra pessoa tanto quanto amo você. Mas eu não sou um padre. Se você quer ser só meu amigo, não vou deixar de ficar com outras pessoas. Lembra que você me disse uma vez que todo mundo precisa namorar e eu desconversei? Você estava certo e eu errado. Mesmo tendo o melhor amigo do mundo, as vezes... Com frequência, na verdade, eu me sinto carente, solitário, com vontade de namorar alguém. E também... Você sabe. – Ele disse baixinho, sincero.
Isso me atingiu de uma forma tão dolorosa que dei um soluço abafado e a única coisa que consegui fazer, em resposta, foi balançar a cabeça.
— Não fica assim, seu idiota. – Ele sussurrou, me abraçando.
O que estou fazendo, além de atrapalhar a vida dele?
E se eu tentasse...
Péssima ideia.
Ficar com Ben, só porque ele quer, é ridículo.
Só serviria para ofender e magoar ele.
A questão não é ficar com Ben só porque ele quer.
O problema é bem além. É que, afinal...
O que eu quero?
Não consegui dormir um minuto. Pensamentos tristes borbulhavam em minha cabeça.
Em poucas horas eu já estava indo trabalhar. Blueberry ficou no meu quarto, dormindo.
O dia foi exaustivo. Eu não conseguia me concentrar em nada, meu pensamento estava em Benício o tempo todo, além de estar morto de sono. Meu chefe acabou me chamando atenção, depois de eu cochilei no balcão.
Quando voltei, no fim da tarde, ele estava em casa de novo. Espalhado na minha cama, jogando no meu notebook, como se ele quem morasse ali.
— Oi. – Ele me disse, pausando o jogo para olhar para mim. – Você tá ok? – Perguntou, franzindo a testa.
— Estou morto. – Deitei do seu lado e fechei os olhos. Seu cheiro estava por toda a parte.
— Quer uma massagem ou coisa assim? – Ele ofereceu.
— Não, só vou ficar aqui. – Respirei fundo. Blueberry voltou a jogar.
Ficamos um bom tempo em silencio. Eu queria me aproximar mais dele, mas não fiz nada.
— Hey, Blue. – Chamei, depois de um tempo, já sentindo o sono me derrubar.
— Achei que você tinha dormido. – Ele apoiou o queixo no meu ombro para olhar para mim. – O que foi?
— Qual foi a coisa mais assustadora que você já fez?
Ben franziu a testa. Depois sentou.
— Por que a pergunta?
— Não sei. – Voltei a fechar os olhos. – Você é corajoso. Eu queria ser como você.
— Corajoso? – Benício ficou em silencio por tempo o bastante para eu quase cochilar. – Tem algo que você está querendo coragem para fazer?
— Hum. – Virei de lado, ficando de costas para ele, e arrumei o travesseiro. – Não, eu só... Tenho medo do mundo.
— Eu sei disso. Mas você não tem que ter medo do mundo, Rei. – Ben passou a mão nas minhas costas, devagar, deixando uma trilha de calor e arrepios. – Eu estou sempre com você.
— Não pense que isso não me assusta. Estar sempre com você significa muita coisa. E parece que vem chegando, ou passando do ponto, que o caminho mais fácil não te inclui. Isso é apavorante. Querer ficar perto de você é apavorante. – Sussurrei. Ben fez um barulhinho rouco com a garganta.
— Então não seria mais fácil ficar longe de mim? – Ele perguntou baixinho, escorregando até estar deitado de novo, com o rosto em minhas costas.
— Eu não consigo nem respirar longe de você, Benício. – Pensei um pouco. – E nem quero tentar. Isso não é uma opção.
— Então talvez você deva tentar o caminho mais difícil.
Meu peito doía muito e eu senti vontade de chorar. Então segurei sua mão com força.
— Eu acho que estou quebrado, Blueberry. Tem algo errado em mim. Eu sou tão covarde. – Admiti, sentindo as palavras deixarem um rastro de fogo em minha garganta.
— Não tem problema. Isso não importa, podemos dar um jeito. – Ele nem negou o que eu disse, o que só comprovou ser verdade. – Mas, por enquanto, você só precisa dormir um pouco, Rei. Foi o bastante por hoje, já.
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(Sim os atores são um pouco mais velhos do que deviam ser, mas são tão perfeitos pros personagens. ;-;)
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