Notas iniciais
Antes de começar, vale dizer que não há uma sequência cronológica na fic e foi tudo bem aleatório. Mas podem imaginar que tudo ocorreu no mesmo ano! Hora da nossa fiel e amada tabela de idades~~ Yuuri: 28 anos, ainda patina. Victor: 6 anos. Yuri: 22 anos. Espero que gostem!

― Victor, – Yuuri disse sério enquanto olhava para o menino de braços cruzados. – por que você fez isso?

Victor se remexeu um pouco desconfortável no banco de madeira que ele usara para subir na pia. Era uma cena peculiar: Victor com o cabelo irregularmente manchado com tinta preta (guache?) e parcialmente já cortado logo abaixo da orelha. A arma do crime, uma tesoura sem ponta, já estava nas mãos de Yuuri. Vitya parecia uma tentativa falha de cosplay de Gerard Way.

― Eu queria um cabelo novo. – ele respondeu dando de ombros, os pezinhos balançando sem tocar o chão. – Tava feio.

― Seu cabelo é lindo, Victor. – Yuuri tratou de usar o tempo presente, pois um “era” naquela frase o faria chorar. – Por que você tentou cortar? E pintar, também?

― O seu é mais bonito. – ele respondeu parecendo convicto. – Eu queria igual.

Yuuri suspirou com a mão sobre o rosto. Uma de suas terapias gratuitas incluía escovar o longo cabelo de Victor todas as noites enquanto contava histórias sobre princesas e fadas com madeixas igualmente lindas e mágicas. E ele sempre gostava, os olhinhos azuis brilhando ao imaginar aqueles contos-de-fada ganhando vida. Talvez Yuuri fosse a pessoa exagerada por ficar de luto por causa de um pouco de cabelo, mas ainda não era normal.

― Por que você não pediu pra eu cortar, então? — ele perguntou mais uma vez. – Eu não ia me importar, de verdade.

― Eu queria fazer surpresa! – agora Victor sorriu abertamente, sentindo-se muito inteligente por ter tido aquela ideia. – Agora eu vou ficar mais parecido com você! Que nem os outros papais!

Yuuri franziu o cenho imediatamente. Aquela última frase soou tão errado para o japonês. Tinha algo de estranho ali.

― Victor, alguém te disse alguma coisa sobre você não ser parecido comigo? — ele perguntou calmo, mas por dentro já queria planejar o assassinato de quem tinha perturbado seu filho. Muito tempo com Yuri fizera isso com ele.

O garoto deve ter percebido que falara demais, pois o sorriso foi embora em um segundo e ele desviou o olhar. Droga, deveria ter prestado atenção às palavras!

― Não. – ele disse balançando a cabeça, uma mecha tingida caída sobre o nariz. Ugh, aquela tinta era grudenta.

― Victor Nikiforov, você não sabe mentir. – Yuuri se abaixou para que ficassem na mesma altura. Ele afastou um pouco do cabelo que escondia o rosto do menor, sujando a mão com tinta. – Está escrito na sua testa. E ela é bem grande.

― Papai, que malvado! – Victor riu cobrindo a própria testa.

― Não sou, não. – o mais velho sorriu um pouco, mas logo voltou à seriedade. – E então? Vai me contar a verdade ou eu vou ter que ficar triste pelo resto da semana tentando adivinhar o porquê dessa ideia boba?

Victor agora olhava para todos os cantos, menos para Yuuri. Ele não gostava de deixar seu pai triste, mas sentia que aquela era uma conversa desnecessária. Yuuri não deveria se preocupar com isso.

Só que ele também sabia que pais não te deixam em paz até você contar tudo, então ele começou timidamente:

— A gente tinha que desenhar a nossa família na escola, então eu desenhei você, Yura e Makkachin comigo. – ele riu por um segundo – A Alena perguntou se o Yura era a minha mãe. Eu disse que não, ali só tinha o meu pai e a minha babá. Aí ela perguntou se eu era parecido com a minha mãe, porque eu não tinha nada a ver com o meu pai.

O sorriso desmanchou ao se lembrar daquele dia. O clima na aula tinha ficado muito estranho depois daquela conversa.

— Eu não sei nada da minha mamãe, então não sabia responder. Também sei que o meu primeiro papai era mais parecido comigo e por causa de um monte de coisa hoje eu tenho outro. – ele deu de ombros mais uma vez. – Mas aí eu pensei: se eu fosse mais parecido com o papai, as pessoas parariam de fazer perguntas difíceis. Eu não gosto delas.

— E aí você concluiu que cortar o cabelo e pintá-lo de preto resolveria as coisas. – Yuuri sumarizou a ideia.

— É. Eu até queria pegar aqueles óculos sem vidro que você deixa guardado. – ele completou a confissão.

Yuuri suspirou, mas acabou abrindo um sorriso triste.

— Vitenka, eu não dou a mínima para as perguntas difíceis que as pessoas fazem. Você também não devia. – ele pendeu a cabeça para o lado. – Você gosta mais do seu cabelo comprido, né?

Victor fez uma careta. É, ele gosta. Mas agora metade de seu cabelo estava cortado e ele sabia que não tinha volta.

—...É.

— Então é isso que importa. Não devia ter tentado mudar só pra agradar outra pessoa. – Yuuri tentou fazer piada. – E uma família onde todo mundo é igual deve ser muito chato. Pensa em todo mundo com a mesma cara, igual máquina de xerox?

—O que é xeroque... xeroca...? — o menino perguntou confuso pela palavra nova.

—É um aparelho que serve para copiar folhas de papel. – Yuuri sorriu. – Mas aqui em casa todos são diferentes. E isso é muito legal.

— ...Papai, eu quero meu cabelo de volta. – Victor reclamou com um bico.

— A tinta dá pra tirar, mas eu vou ter que terminar de cortar pra não ficar esquisito. – o maior disse analisando o estrago que o filho fez. – Não é tão ruim. Vai ficar parecido com o Yuri.

— Vai demorar pra crescer? — ele perguntou ansioso.

— Um pouco. – Yuuri admitiu. — Mas até lá, vai continuar bonito. E você vai continuar sendo meu pequeno e lindo Vitenka, seja de cabelo comprido ou curto.

Victor entendeu aquilo como uma autorização para abraços. Com o maior sorriso de coração que podia mostrar, ele jogou os bracinhos ao redor do pescoço de Yuuri e abraçou com força, sendo correspondido logo depois.

— Eu te amo, papai. — ele disse em voz baixa, o nariz franzindo pelo cheiro da tinta. Aquilo realmente tinha sido uma ideia horrível.

— Também te amo, Vitenka. — Yuuri disse de olhos fechados, contentando-se em sentir, não ver, que ainda havia alguém naquele mundo que não o deixaria sozinho.



Victor tinha que aproveitar enquanto seu pai não estava em casa. Assim era muito mais fácil de agir. Yuuri acreditaria que aquele lixo foi perdido por acidente.

Mas ele não podia mexer no fogão sozinho, era uma das regras mais importantes. Ele precisaria de ajuda.

― Yura! – ele chamou naquela voz finíssima de crianças, arrastando o artigo do crime pelo chão.

Yuri estava tentando jogar Candy Crush largado no sofá, mas o trabalho de babá não era tão simples assim. De vez em quando a pestinha em forma de Nikiforov precisava de atenção e, por isso, ele disse entediado ainda sem tirar os olhos do celular:

― Quê?

― Você pode ligar o fogão pra mim, por favor? — Victor perguntou educadamente, como lhe foi ensinado.

Agora Yuri olhou para ele de verdade, pois as palavras “fogão” e “Victor” na mesma frase não soavam bem em nada.

― O que você quer com o fogão, pirralho? — ele perguntou de olhos semicerrados. Eles lancharam há menos de duas horas, Victor não podia estar com fome.

― Eu tenho que queimar isso. – ele mostrou a gravata azul-bebê horrorosa que Yuuri insistia em usar nas festas.

― É a gravata do seu pai, moleque. – Yuri resmungou tomando a peça de vestuário do menino. Misericórdia, o que aconteceria se ele não tivesse pedido permissão para aquela ideia absurda?

― Você vai queimar pra mim? — Victor perguntou esperançoso. Yuri conseguia ser muito bonzinho quando queria.

Não, Victor, eu não vou queimar a gravata do Yuuri. – ele disse frisando o advérbio de negação. – Por que você quer fazer isso?

― Ué, você não tá vendo? — ele franziu a testa e apontou a gravata – É muito feia. Tipo, muito muito. Um montão assim. – ele exemplificou abrindo os braços o máximo que podia.

Yuri concorda que não era a peça mais fashion do guarda-roupa de Katsuki, mas a aversão de Victor por ela era peculiar.

― Não é tão feia assim. – ele tentou argumentar.

― É sim. É azul! Azul é muito chato! – ele continuou batendo pé, fazendo alguns fios platinados soltos caírem sobre seu rosto contrariado.

― Você tem várias roupas azuis. – Yuri o lembrou calmamente. – O céu é azul. Seus olhos são azuis. Há muitas coisas legais e azuis.

Ele arregalou os ditos olhos azuis para o argumento. A verdade é que ele não tinha uma explicação melhor além de simplesmente não gostar daquela gravata. Ou pelo menos, daquele tom de azul.

― É azul de bebê. – ele disse ao final, tentando mais uma vez ter razão.

Aquilo fez o loiro rir. Ele estava discutindo moda com um menino de seis anos. Como a noite poderia ficar mais estranha?

― De bebê, sei. E você não é um bebê. – Yuri adivinhou com um sorriso.

― Não. – ele afirmou o óbvio – Eu já sei fazer bunny hops no gelo! É coisa de gente grande!

― Realmente, coisa de gente bem grande. – o mais velho prolongou o “bem”, tomando coragem para se sentar devidamente no sofá. – Eu não vou queimar gravata nenhuma, Vitya, pois isso é muito errado. Mas se você acha que ela é tão feia assim, devia falar pro Yuuri. Assim ele vai parar de usar.

O menino piscou algumas vezes para a sugestão. Ele... não tinha pensado naquilo. Parecia fácil demais. E chato. Adultos tinham as piores ideias. Mas será que...

― Será que ele me deixa queimar a gravata depois? — ele perguntou com o dedinho sob o queixo.

Yuri respirou fundo e se levantou de seu querido sofá. Ele não tinha cabeça para lidar com crianças piromaníacas.

― Que tal você colocar Barbie pra gente assistir pela centésima vez enquanto eu faço pipoca? — ele perguntou tentando dissipar qualquer resquício de plano maléfico da cabeça do garoto.

Funcionou, pois Victor logo disse um animado “Okay!” antes de correr para o DVD e colocar o filme 3D em que a Barbie patinava.

— Pai, tá filmando? — Victor perguntou já no centro do gelo, enquanto olhava para Yuuri que ficou na entrada no rinque, com o outro Yuri.

— Pode começar, Vitya. — o japonês disse enquanto ajustava o zoom da câmera.

— Mas você tá filmando?

— Ele tá, Victor, agora vai logo. — Yuri disse com talvez um oitavo da paciência recomendada para lidar com crianças.

Victor esperou que eles começassem a música para que ele iniciasse sua apresentação. Parecia uma música chata demais para um menino de seis anos, mas ele insistiu.

Ainda mais depois de ver um vídeo de Yuuri com dez anos patinando o mesmo programa: a Dança dos Mirlitons, de O Quebra-Nozes.

Com seis anos, não se pode fazer muita coisa no gelo além de alguns spins e um waltz, mas Victor ainda conseguiu oferecer uma apresentação bonita e graciosa. Ele não parou de sorrir em nenhum momento, coisa que aprendeu com Yura. O loiro era um bom treinador quando queria, mas seu pai ainda era melhor.

E Yuuri? Bom, Yuuri estava ficando mais emocionado com uma patinação infantil do que devia. Quando foi que seu Vitenka tinha crescido tanto? Jurava que ontem mesmo ele estava dando os primeiros passinhos no carpete do apartamento, que dissera a primeira palavra no café da manhã (Foi "Makka". Misha havia ficado tão frustrado quanto Yuuri.), ou que havia experimentado os primeiros patins aos quatro anos.

É, Yuuri Katsuki estava ficando velho. Muito, muito velho.

— Papai, você gostou?! — um Victor muito animado veio correndo para a porta do rinque assim que havia terminado de patinar, parando horrorizado ao notar algo incomum. — Pai, você tá chorando?

— Ah, Katsudon, por favor. — Yuri resmungou procurando algo nos bolsos da mochila, provavelmente um lenço. — Não deu nem três minutos e você já tá aí sofrendo? Me poupe.

— D-Desculpe. — ele disse com a voz embargada, retirando os óculos para limpar o rosto. — É que foi tão lindo...

— Então você gostou, né? — Victor voltou a sorrir animado — Você viu que o waltz foi super alto? Acho que já dá pra fazer um double!

— Vai com calma, Victor. Nem eu fiz um double antes dos oito anos. — Yuri disse com um sorriso pequeno enquanto entregava um lenço de papel ao seu xará. Yuuri estava ficando muito emotivo. — Mas você tem talento. Pode até quebrar o recorde mundial do seu pai um dia.

— Verdade?! — o menor exclamou com brilho nos olhos.

— Verdade. — Yuuri disse bagunçando seu cabelo, que ele insistira em usar solto para patinar. — Você já é o melhor patinador do mundo pra mim.

— Yuuri, você vai acostumar mal esse menino. — Yuri disse em tom de aviso.

— Eu te acostumei mal, Yura. — o mais velho rebateu enquanto ajudava o filho com os protetores de lâminas. — Agora vamos rápido que senão você vai se atrasar pro balé, mocinho.

— Balé é chato. — Victor reclamou. — A professora fala esquisito.

— Porque a aula é em francês, Victor.

— Se fosse em inglês, eu entenderia! — ele disse orgulhoso — Eu já sei falar "Father", "Please", "Thank you" e "Amazing"!

— Uau. — Yuri disse não parecendo nem um pouco impressionado. — Alguém devia te dar uma medalha.

Não percebendo a ironia da frase, Victor adicionou:

— Pode ser de ouro?

Victor.

— Yuuri, o que é isso na sua mão? — Christophe perguntou ao notar o círculo de papel amarelo no dedo do amigo.

Eles estavam em Barcelona, tendo um jantar entre os patinadores mais Victor, o que era uma necessidade se quisessem incluir Yuuri nos eventos sociais. Um dia todos eles teriam filhos e sentiriam na pele a falta de babás.

— Isso? — Yuuri perguntou com um sorriso sem-graça. — Foi um presente...

Phichit, que soube na hora do que se tratava, resolveu aproveitar o momento para incomodar seu melhor amigo.

— Você casou, Yuuri?! — ele exclamou com um sorriso enorme e um olhar que dizia "Eu sei que isso é obra do seu filho" — Parabéns!! Muitas felicidades pra você e o seu marido que eu não conheço.

— Não é anel de casado! — o autor da obra disse pela primeira vez na conversa, parecendo muito contente com o seu plano — É de noivado. E é pra ninguém olhar pro meu pai.

— Victor... — Yuuri corou pela pequena vergonha alheia que o menino o estava proporcionando.

— Moleque possessivo. — Yuri murmurou entre um gole e outro de suco. O ruim de vésperas de competições com crianças é que há o dobro de razões para não beber.

— Mas Victor, eu estou olhando pro seu pai nesse momento. E anel nenhum está me impedindo. — Chris resolveu que era seu papel incomodar o pequeno russo naquela noite.

— Duh, o anel é pra ninguém namorar ele. — Victor disse revirando os olhinhos enquanto cutucava uma almôndega com o garfo.

— Victor! Você vai deixar seu pai ficar solteiro e solitário pra sempre? — o patinador tailandês perguntou com falsa seriedade. — E se ele se apaixonar?

— Ele já tem eu. E eu vou cuidar dele tão bem que ele não vai querer namorado! — Victor respondeu com um sorriso orgulhoso.

Os presentes na mesa riram da sinceridade infantil e Yuuri recebeu pelo menos três olhares que deveriam significar "Se fudeu" em outra ocasião. Oh, vida.

— E se eu pedir seu pai em namoro agora, Victor? — Chris disse aproveitando da distância pequena entre ele e o japonês para colocar um braço sobre seu ombro. — Você vai deixar?

O menor fechou a cara imediatamente e respondeu sem hesitar:

— Eu ia ficar muito bravo. E não ia mais ser seu amigo, tio Chris.

— Mas ele não vai fazer nada. — Yuuri tratou de se desvencilhar rapidamente do abraço suíço. — Não é, Chris?

— É, não vou. — o outro riu, aceitando a rejeição. — Mas esse ciúme até que é fofo, quando vindo de alguém tão pequeno. Victor terá muito trabalho com um pai tão atraente.

— Ah, os dias de Detroit eram os melhores. — Chulanont suspirou nostálgico. — Ei, Yuuri, lembra daquela vez que você ficou com a equipe de hóquei inteira da Way-

Phichit! — um Yuuri escandalizado ralhou enquanto cobria os ouvidos de Victor, impedindo-o de ouvir aquela história. — Podemos, por favor, mudar de assunto? Meu filho não deveria escutar isso.

— Okay~ — um Phichit com um olhar muito mal intencionado disse enquanto checava algo no celular. — Apenas saiba que se Victor der trabalho na adolescência, já tem a quem puxar, Yuuri. O Eros é uma herança familiar.

Yuuri fez uma careta, mas esqueceu o assunto assim que Victor pareceu fazer o mesmo. Ele não se importava com o que seus amigos dissessem sobre sua vida amorosa, se ele ficaria sozinho ou não. Já teve aventuras demais para entrar naquilo de novo.

E no final, ele realmente tinha alguém que cuidaria dele muito bem.

Yuuri não trocaria aquela aliança de papel por nenhum anel de ouro do mundo.

Notas finais
Notas e mais notas~ ~ Essa fic só existe por causa da cena da gravata. É. ~ O Misha citado discretamente na fic é o pai biológico do Victor, mas não vai ser hoje que vocês vão ter a backstory desse AU /shot ~ Se me disserem que essa fic é YuriYuu, eu vou negar. Mas meu passado me condena, assim como o fato de que eu tomei um certo cuidado ao escolher a idade do Yuri na fic, então... Sejam livres para assumirem coisas :v ~ Não foi hoje que eu escrevi baby Vitya chorando e falando "Eu quero um marido!" igual ao meme, mas o desejo ainda está no meu coração. Eeee é isso, gente! Essa fic foi pensada como uma one-shot, mas se eu tiver alguma ideia a mais com esse cenário talvez eu poste algo novo. Mas TSOB continua sendo minha prioridade! Até a próxima, queridos! XOXO
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.