Blue Scorpion And Red Aquarius
4 Capítulo 4 A CHEGADA...
— Senhores passageiros, vamos aterrissar daqui a pouco. Por favor, desliguem seus aparelhos, coloquem o cinto de segurança e sejam bem-vindos ao aeroporto Internacional de Glasgow!
A voz feminina quebrou a concentração de Milo que estivera trabalhando desde que saíra de Atenas. Pesquisava sobre as convenções que a Leclercq Aquarius Corporation havia promovido, sobre os maiores acionistas que sempre participavam de tudo e o tipo de ambiente em que se instalavam. O número de informações era tão extenso que seus olhos já estavam cansados e vendo as coisas meio fora de foco.
— Vai ter que guardar isso.
Milo deu um pulo ao ouvir a voz grave com sotaque francês e olhou com os olhos arregalados para a figura em pé, cuja anatomia longa e delgada se apresentava à sua frente.
— Camus?!
O ruivo continuou indicando, com um movimento de cabeça, o notebook que Milo usava para colher informações, enquanto olhava à volta para analisar a equipe que o grego formara. Um meio sorriso formou-se quando ele reconheceu Shaka com sua postura ereta e serena, mantendo os olhos fechados, enquanto os mais jovens olhavam para tudo, revelando sua curiosidade e inexperiência.
— Não o vi no avião, pensei que tinha pego seu jato particular. – disse Milo fechando o notebook.
— Preferi viajar com todos juntos, assim fica mais fácil deixar claro algumas regras básicas.
— Regras básicas? Ah, bem... Eu acho que já sei quais são! Vejamos: “Vocês estão aqui à trabalho, portanto nada de divertimento ou envolvimento com os convidados do evento.” “Mantenham-se sérios e circunspectos, pois o riso é proibido”. Acertei ou deixei alguma regra básica de fora? – perguntou Milo sarcástico.
Contrariando a reação que Milo esperava, Camus sorriu maquiavélico e devolveu a provocação com um olhar firme e uma voz serena, bem próximo do rosto do grego.
— Perfeito! Sua colocação deixou bem clara a sua compreensão sobre quem faz as regras e quem manda. Fico feliz em saber que tem plena consciência que está aqui porque permito que esteja e por nenhuma outra razão. E para realizar um trabalho sério, não para agir como um jogador. – disse ele respirando ainda rente aos lábios de Milo, dando as costas, logo a seguir e voltando a sentar-se.
Engolindo a raiva, Milo apertou o cinto de segurança mais apertado que o necessário e se forçou a olhar para fora da janela. Bem feito! Por que não conseguia ficar com a boca fechada? Rosnou em pensamento.
As nuvens altas mostravam-se brancas e leves e o grego desejou que o seu coração pudesse planar com elas e afastar a sensação amarga do tapa de realidade em seu rosto. Sim, Camus estava no comando e, o tempo em que eles realizariam o evento, isso seria reforçado e impresso em cada olhar e atitude do francês. Afinal, Camus era a Leclercq Aquarius Corporation e pelo que ele pesquisara sobre a empresa, o fracasso, definitivamente, não tinha lugar no estilo de vida do francês.
Os passageiros já podiam ver a terra verdejante ficar cada vez mais próxima à medida que o avião descia. Lá estava o aeroporto Internacional de Glasgow e a bela paisagem escocesa foi ficando mais nítida com suas nuances, cores e movimento.
Ikki, Shun e Shiryu olhavam com interesse aguçado, cheios de excitação por colocar os pés num país desconhecido para executar um trabalho do qual dependiam as suas vidas e seu futuro. Quando o avião aterrissou, Shaka abriu os olhos e, tanto Ikki, quanto os demais, serenaram suas ansiedades na calmaria dos belos olhos azuis do indiano que sorriu e disse:
— Enfim, chegamos!
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Os primeiros flocos de neve dançavam no ar quando Camus, Milo, Shaka e os três jovens seguiram em caravana para Kings House. Capturados pelo facho dourado da luz dos faróis dos carros, o efeito mágico dos pequenos flocos causava uma euforia nos mais jovens e Milo sorriu, relaxando por um momento e olhando, discretamente, para o outro carro dirigido por Camus que os guiava em direção ao seu destino.
Espiando pelo vidro, todos ficaram gratos por já estar chegando. Os flocos estavam ficando menores e mais compactos e a neve agora caía com força, sendo arrastada pelo vento gélido e forte.
Quando finalmente o luminoso com o nome da Pousada foi avistado houve um murmúrio de contentamento.
Camus desceu na frente e tocou a campainha, como um pequeno aviso solicitava e, girando a maçaneta indicou para que todos o acompanhassem. Flocos de neve caíram ao redor deles como confete, antes que o francês fechasse a porta, deixando a natureza pululante do lado de fora.
Enquanto limpavam os pés no pequeno tapete de boas vindas, Camus retirou os flocos de neve já derretendo de seus cabelos avermelhados e Milo sentiu uma vontade de emaranhar os dedos naqueles fios que ele sempre achara lindo.
À sua mente voltou a imagem de Camus com os cabelos desalinhados após fazerem amor, o sorriso tímido dele quando tocava em seus cabelos e os alisava embevecido com a cor do fogo, a cor que também ficava no rosto corado do francês quando gozava em seus braços...
Foco, Milo! A intimidade que um dia tiveram está enterrada no passado. Aceite isso!
O salão de entrada era acarpetado de vermelho e formava um ambiente aconchegante com várias poltronas, três pares de sofás pequenos, uma quantidade de enfeites antevendo a época do natal dali a dois meses. Toras de lenha queimavam numa ampla lareira antiga que irradiava luz e calor para todos os cantos. Ikki, Shun e Shiryu esfregaram as mãos e se aproximaram dela, sentindo um conforto imediato.
Uma senhora magra e afável, de cabelos grisalhos e óculos arredondados surgiu sorrindo para eles de trás de um balcão de madeira polida.
— Boa noite. Tempo horroroso não? Fizeram boa viagem?- perguntou ela de um jeito íntimo e simpático. E então fitou Camus, afirmando: Senhor Leclercq, que bom vê-lo sempre tão bonito e saudável! Tudo já foi providenciado como pediu!
— Boa noite, senhora Selma e obrigado. – respondeu Camus, educadamente.
Virando-se para Milo e os outros, o francês falou:
— Reservei quartos individuais para todos. Ficaremos hospedados aqui, esta noite, e amanhã cedo seguiremos viagem até Inverness Castle, hotel e Centro de esqui onde será a convenção. A sugestão de fazer a convenção num local onde se pode unir negócios com lazer, enviada por vocês, foi bem aceita pelo grupo de investidores e eu os parabenizo. Espero que aproveitem para descansar bastante. Boa noite!
Shaka sorriu discreto para Milo e os outros e, continuou a observar o pequeno hotel como se estivesse fotografando cada detalhe com os olhos. Atento a tudo, o indiano usara a sua capacidade intuitiva para buscar um meio de unir o talento dos jovens com as necessidades dos executivos.
Conversando com Milo, os dois chegaram a conclusão que aqueles homens e mulheres deviam estar acostumados com convenções tradicionais onde podiam permanecer no controle. A ideia inovadora era fazer com que aqueles executivos acostumados a comandar, passassem por algumas situações inusitadas, algo que a personalidade travessa de Milo teria o prazer de elaborar...
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Os quartos da Pousada não eram muito grandes e estavam aquecidos. Todos possuíam uma lareira que já os esperava acesa. As cortinas pesadas isolavam do barulho externo do vento e as camas estavam todas cobertas com uma manta de retalhos antiga, estilo feito pela vovó!
Milo notou a pilha de toras de lenha ao lado da lareira e suspirou. Detestava o frio, embora no passado, tivesse aprendido as diversas utilidades de uma noite fria nos braços de um certo francês. Deitou-se na cama, cansado mas inquieto.
Ele e Shaka eram os mais velhos e líderes e tudo deveria sair perfeito. Fechou os olhos, vencido pela exaustão física e emocional da viagem, mas recusou-se a dormir. Queria estruturar melhor a ideia que tivera sobre o acolhimento dos executivos, então tomou um banho quente, vestiu um pijama e pediu ao serviço de quarto que lhe trouxesse um bule de café forte.
Trabalhou noite adentro e só parou quando ouviu duas batidas suaves na porta de seu quarto.
— Entre! – gritou ele com os olhos na tela do notebook.
Um rosto conhecido surgiu na porta, alertando-o para não forçar demais, pois teriam um longo dia pela frente.
— Deixe isso, Milo! Já alinhavamos tudo. Confie, escorpião! – disse Shaka sorrindo e fechando a porta.
Só então, Milo olhou no canto esquerdo da tela do notebook vendo que já passava das três horas da madrugada. Inspirou fundo, atirando-se na cama e, seu último pensamento foi sobre o que Camus estaria fazendo...
Camus estava em seu quarto relendo o pequeno relatório impresso com observações rabiscadas, ao lado de alguns ítens, e ele reconheceu a letra de Milo. A mesma letra horrível, mas as ideias, sempre originais.
O grego era assim, sempre desperto e pronto para fazer algo inédito. Fora isso que o atraíra, a energia de Milo, sua capacidade de ir além de si mesmo e também despertá-la nos outros. Tinha sido assim que ele o conquistara, fazendo-o acreditar que também possuía vivacidade e calor e não só inteligência e habilidade.
Lembrou-se da primeira vez que o vira, portando uma mochila surrada e sorrindo entre outros garotos. Os cabelos loiros faiscando sob o sol forte, presos e cobertos por um boné e os olhos vivos, tão azuis e profundos quanto o mar Egeu.
Não se falaram naquele dia, mas Milo sorriu na sua direção e piscou o olho, seguindo rumo ao seu destino rindo e falando alto. E ele ficara parado na porta do casarão comprado pela sua família, pensando que a mudança abrupta para a Grécia começava a não parecer tão ruim...
No mesmo dia, um garoto mais velho tinha ido a sua casa dar-lhe as boas-vindas. Saga era o nome dele e tinha um olhar que lembrava o das águias, um papo inteligente, e possuía uma beleza real e clean, como se estivesse o tempo todo pronto para qualquer evento e, mesmo assim, parecer natural e despojado. Somava-se a tudo isso, o fato dele ser filho do melhor amigo de seu pai.
Conversaram e ele se tornou uma espécie de seu guia particular em Atenas, levando-o aos lugares turísticos e aos recantos não tão conhecidos. O grego sabia usar as palavras e ensinou-o muito sobre a cultura do lugar e como no filme “Dicionário de cama” esses ensinamentos foram muito eficazes e nada ortodoxos... Foi assim que se tornaram amantes.
Tinha sido com Saga que ele descobrira a diferença entre amor e prazer. Sendo mais velho, o grego soubera introduzi-lo no mundo sensual das carícias íntimas, dos beijos ardentes. Porém, era apenas isso, anseios de um corpo juvenil sendo orquestrado por alguém mais experiente. Não amava Saga, apenas sentia prazer em exercer sua sexualidade com ele, ser ativo, dominar...
Ambos mantinham discrição e segredo sobre a sua sexualidade e o grego o ajudou a criar um personagem de si mesmo.
Mostre-se atencioso, dê a eles o máximo da sua competência, incentive os olhares de admiração sobre si e faça-os acreditar que tem controle sobre você! Pais precisam de certezas, Camus. Dúvidas, jamais!
Se mantê-los satisfeitos e crentes que fará o que esperam de você, aí sim você será livre para fazer o que quiser. Dizia Saga. Os dentes brancos revelando-se no sorriso malicioso e a mão habilidosa acariciando-o com lascívia...
Porém, com Milo, tudo tinha mudado. Seu mundo virara de cabeça pra baixo e nada mais importava. O francês tímido e obediente se transformara num jovem cheio de desejo, alegria e arrebatamento. Não desejava mais o domínio, nem manter segredos.
Pela primeira vez, amava e desejava com igual ardor. Corpo e sentimentos experimentaram uma saciedade ímpar e ele descobrira também o prazer de entregar-se sem receios ou pudores sendo levado para o mundo sensual e aventureiro de Milo. Isso, até ele descobrir que para Milo tudo fora, apenas, um desafio planejado, um jogo...
Foco, Camus! Esse amor que você acreditou existir, era somente uma projeção sua. Uma projeção falsa e patética de um garoto tolo.
Camus ainda arquivou o relatório e digitou algumas colocações sobre as sugestões dadas. De manhã, falaria com Milo e Shaka e então dariam início ao trabalho. Fechou seu notebook, tomou um banho para relaxar e tentou dormir.
Não conseguiu, o cérebro funcionando a todo vapor. Levantou-se, vestiu um roupão e foi até a janela. Observou a neve espessa caindo, generosamente, e mesmo a contragosto, a imagem de Milo formou-se em sua mente.
O que ele estaria fazendo agora? Dormindo seu idiota! O mesmo que você deveria estar fazendo também! Com o último pensamento deitou-se e ficou rolando na cama até adormecer.
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Nos primeiros sinais do amanhecer, Milo ouviu batidas na porta de seu quarto. Sonolento, olhou para o relógio que marcava 06 horas. Pulou da cama e com o coração disparado abriu a porta. Devia ser Shaka, tinham combinado de se encontrar às 05h45min para um tal alinhamento energético que o indiano queria fazer.
— Camus? – falou Milo estranhando a presença do francês.
O francês estava magnífico com um terno escuro e um sobretudo num tom cinza chumbo. Usava uma loção pós-barba com tons de cedro e pinho que exalava um delicioso e discreto perfume e mantinha os cabelos penteados para trás, com apenas alguns fios teimosos caídos sobre a testa. O rosto estava belo, como sempre, mas parecia não ter dormido muito e notava-se que estava com olheiras.
Se não estivesse apoiado na maçaneta da porta, Milo teria recuado com o poder daquela presença, mas ainda assim se manteve firme e esperou que o francês falasse.
— Shaka o aguarda no pequeno salão perto do refeitório. A senhora Selma preparou o ambiente para vocês. – disse Camus olhando-o de cima a baixo.
— Obrigado. – respondeu Milo sem compreender o porquê daquele rompante de gentileza.
— E antes que pense coisas, só estou avisando-o, porque Shaka me pediu no corredor quando ia para a tal sala. – completou Camus ao notar o olhar surpreso do grego.
— Ah, tá! Obrigada por esclarecer, pensei que o fim dos tempos estava chegando. – falou Milo em tom de deboche.
Camus franziu o cenho e Milo mostrou a língua, fechando a porta antes que o francês dissesse algo mais. Sem querer, o ruivo sorriu com a atitude infantil do grego e seguiu direto para o refeitório onde o restante da equipe estava reunida.
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