Blue Scorpion And Red Aquarius
1 Capítulo 1 PRÓLOGO
Notas iniciais
A chuva açoitava o seu rosto, quase cegando-o, mas Milo não teve dificuldade de encontrar o caminho dos escritórios em que teria uma reunião com aquele que ainda possuía um lugar em seu coração, mas que o odiava com todas as forças. Assim que saiu da estação do metrô e virou à esquerda, foi como se seus pés o levassem automaticamente pelo caminho, sem que precisasse olhar para onde ia.
Lembrou-se do restaurante de Shaka e sua proposta de uma gastronomia “às cegas” e sorriu, tentando amenizar a angústia que sentia ao aproximar-se do prédio elegante com suas imensas portas de vidro. Sentiu uma acidez no estômago quando as portas se abriram e viu as palavras Leclercq Aquarius Corporation gravadas em grandes letras douradas no painel frontal e no tapete felpudo que se estendia à sua frente.
Olhou bem o nome que agora figurava em todas as revistas de negócios e fora destaque na Forbes como o mais jovem milionário no ramo dos negócios imobiliários. Camus havia voltado à Atenas e instalado sua empresa no centro da cidade, causando movimento e especulações com as suas recentes aquisições de propriedades caras e históricas.
Camus Leclercq tornara-se um homem de negócios e tinha erguido a empresa de seu pai, após a estrondosa falência que acabara em suicídio e, a mudança da família de volta para a França. Ele transformara a dramática situação de uma empresa que sucumbira às drásticas flutuações do mercado financeiro na corporação multimilionária que era hoje e ficara conhecido como o homem mais poderoso do ramo, um homem que, raramente, perdia uma negociação e era implacável no jogo frenético das movimentações da bolsa de valores de Wall Street.
Em apenas sete anos ele se transformara em um monarca dos negócios, recuperara a riqueza da Leclercq Aquarius Corporation e ficara conhecido pela frieza e sagacidade implacáveis. O francês, que um dia fora um jovem idealista e apaixonado, se tornara uma lenda viva e era este homem que Milo, ousava confrontar.
Milo viu a foto de capa da revista e o que chamou a atenção foi o olhar de Camus. Embora ele sempre tivesse sido silencioso e distante, havia calor nos olhos rubros quando estavam juntos. Agora, ele exibia um olhar frio, vazio e inacessível, como se nada pudesse comovê-lo ou trazer-lhe paixão. Um olhar muito diferente do que exibira no passado...
— Não! – ele disse a si mesmo tentando não fixar-se no relacionamento que ambos haviam tido, um dia.
Não iria deixar que lembranças boas o enganassem a ponto de achar que Camus o receberia bem. Jamais! Por isso recorrera a um nome falso que lhe desse tempo de, ao menos, entrar no escritório e tentar falar antes que ele o colocasse para fora.
Atrás do balcão com desigh moderno e em tons metálicos, a secretária sorriu para ele, um fato corriqueiro na vida do grego. Milo atraía sempre agrados e sorrisos, retribuindo-os com a mesma atenção e uma dose extra de charme e simpatia.
— Seu nome, por favor? – perguntou a jovem.
— Sefer. – respondeu Milo.
— Oh! Sim, aqui está Sr. Milan Sefer! – falou a recepcionista após conferir uma lista de nomes em seu computador e sorrir ao encontrar o nome e assinalá-lo com um clique no mouse. – Mas, o senhor chegou um pouco cedo.
— Sem problemas, posso esperar. – falou Milo tentando conter o nervosismo.
— Não haverá necessidade de esperar muito, o primeiro compromisso do senhor Leclercq foi cancelado, então creio que ele o receberá agora. – disse a jovem, solícita.
— Obrigado. – foi tudo o que Milo conseguiu dizer.
No entanto, antes que ele se encaminhasse para o sofá da recepção, Milo ouviu o tom de voz da secretária mudar e sentiu um arrepio na nuca.
— Sr. Leclercq...
Os olhos da jovem se abriram, surpresos e olhavam para um ponto atrás dos ombros de Milo. A expressão e a reverência no modo de dizer aquele nome fizeram Milo saber que Camus estava atrás de si, silencioso como um felino selvagem e, possivelmente tão perigoso quanto um.
— A pessoa marcada para as nove horas apareceu?- perguntou a voz grave e baixa.
— Sim, Sr. Leclercq, ela está bem aqui. – disse a secretária sorrindo ao indicar Milo que ainda permanecia de costas.
Camus estava bem atrás dele e a qualquer momento saberia quem ele era. Esperava encontrá-lo no escritório e não ali onde ele podia enxotá-lo como se fosse um cão vadio. O simples ouvir da voz profunda de Camus tinha feito seus joelhos tremerem e seu corpo estancar como se tivesse sob efeito de um raio paralisante.
— Sr. Milan? – disse ela indicando com a cabeça que Camus estava atrás de si.
Ele precisava se mexer, não tinha escolha. Então, num esforço hercúleo ele se virou e ficou cara a cara com o francês. Camus o reconheceu de imediato. Não importava o quanto ambos tinham mudado nos últimos sete anos, se quando viveram sua paixão eram apenas um pouco mais que adolescentes. Eram homens agora e, para os dois, o tempo havia passado, mas mesmo assim, quando os olhares se confrontaram foi como se o tempo retrocedesse ...
— Você! – foi tudo o que Camus pode dizer. A palavra foi dita com todo o rancor, desprezo e aversão que sentia por Milo, fazendo-o estremecer pela intensidade do sentimento.
— Sim, eu. Olá, Camus. — Milo conseguiu dizer e o nervosismo na voz fez soar com certa petulância.
— No meu escritório, agora. – falou Camus com os dentes cerrados e estreitando as sobrancelhas.
Sem olhar para trás, o francês atravessou o saguão, dirigindo-se a passos largos em direção ao elevador, acreditando que Milo o seguiria e foi assim que aconteceu.
Milo não tinha outra opção a não ser obedecer à ordem que Camus ditara e, enquanto tentava acompanhá-lo, tentava não se deixar levar pelo impacto de ver um Camus imponente, belo, vestido com um terno escuro e austero que lhe dava uma aparência reservada e inacessível, acentuando o tom alvo da pele que se destacava, assim como o tom ruivo e quente dos cabelos que agora estavam curtos.
No fundo de seu coração uma chama ardia pela lembrança de um Camus jovem, introvertido e gentil. Os cabelos longos presos em trança única, o sorriso tímido que se abria quando estavam juntos, a paixão que se revelava na intimidade com carícias, ávidas, trocadas entre ofegos e gemidos...
— Está com algum problema em me acompanhar?
A pergunta arrastou Milo de volta ao presente com um susto. Introvertido e gentil não era o que se poderia dizer sobre Camus agora. Na verdade, ele parecia outra pessoa. Enquanto estava no elevador panorâmico com o dedo no botão que mantinha a porta aberta, ele lhe dirigiu um olhar gélido que o fizera apressar-se e ficar contra a parede do elevador em silêncio. Depois soltou o botão e deixou que a porta se fechasse com um olhar de reprovação.
— Camus... Eu posso explicar... Eu...
— No meu escritório. – falou Camus com uma raiva fria deixando claro que não seria nada fácil e que também não abriria espaço para mais nada além de um conversa rápida.
Quando o elevador parou e as portas de metal se abriram diante do corredor acarpetado cinza, Camus fez um gesto para que Milo saísse na sua frente e se recusou a olhá-lo nos olhos.
— À esquerda. – ele disse com rispidez.
Com cuidado, Milo ajustou o passo de modo que não ficasse muito à frente de Camus e cedeu espaço para que ele andasse ao seu lado ou tomasse a dianteira, se preferisse. Mas o francês continuou atrás dele como uma sombra. Impossível de ver e impossível de avaliar. Ele estava tão próximo que Milo podia quase sentir o calor de seu corpo. O cheiro fresco da colônia discreta que fazia Milo lembrar o cheiro do mar e do corpo dele quando estavam na cama.
— Aqui. – disse Camus enquanto girava a maçaneta da porta. – Entre.
Assim que entraram, Camus fechou a porta com força.
— Você mentiu! – disse ele. – Teve a coragem de assumir uma identidade falsa!
— Claro que menti! O que mais eu poderia fazer? Se desse o meu nome verdadeiro você... não iria me receber!
— Tem razão, eu não iria! Mas o fato é que está aqui agora se passando por outra pessoa para chegar a mim e eu não consigo imaginar o que quer, após todos esses anos!
O olhar de Camus parecia atravessá-lo e Milo sentiu-se fraquejar. Foi então que o francês foi até a sua mesa e apertou um botão no telefone.
— Nenhuma ligação, senhorita Marin. E nenhuma interrupção até que eu volte a chamar. – disse ele. A ordem expressa de forma que não deixava espaço para dúvida.
Só então Camus se voltou para o grego com um olhar glacial e uma expressão que fez parecer que a imensa sala tinha encolhido. Milo sentiu-se encurralado e tentou livrar-se da sensação olhando ao redor, enquanto acalmava a respiração.
A mobília era moderna, em tons claros. Os tapetes eram leves e altos, cobrindo o chão com elegância. A mesa de Camus era espaçosa e em forma de L. Sobre ela estavam um computador, alguns papéis simetricamente organizados e porta-retratos com fotos da família.
Diante da hesitação de Milo, Camus levantou o punho de sua imaculada camisa branca e olhou de modo severo para o relógio.
— Tem dez minutos para se explicar e é mais do que teria se eu soubesse que era você. – disse secamente.
— Poderíamos... nos sentar? – perguntou Milo.
Sentar-se com Milo era a última coisa que passava pela cabeça de Camus. Não tinha a menor intenção de deixá-lo se instalar e permanecer ali mais do que deveria. A presença do grego o abalara. Cada movimento que ele fazia, Camus podia sentir o cheiro de sua pele bronzeada, a beleza dos olhos azuis e profundos que o enganaram no passado, os cabelos longos e loiros que exalavam uma suave fragrância herbal e que o faziam recordar a noite escaldante em que se entregaram um ao outro. Tinha sido atingido pela surpresa e pelas garras de um desejo adormecido que agora serpenteava em seu corpo fazendo com que se sentisse agitado e desconfortável.
— Bem, sente-se. Mas, lembre-se que serão apenas dez minutos.
— Então vou ser bem direto! Queria falar com você sobre comprar Rodós Dodekánisos.
A fala de Milo chamou a atenção de Camus e os olhos rubros se estreitaram.
— Comprar? Por acaso ganhou alguma fortuna recentemente?
Milo percebeu se erro ao dizer, impulsivamente, o que lhe viera à cabeça. Nervoso, tentou consertar.
— Quero dizer... eu ainda não tenho o dinheiro, eu só queria que adiasse a desapropriação do lugar. Ele serve de república para jovens estudantes e...
— República de estudantes... Você vem até mim querendo que eu deixe uma valiosa propriedade em um ponto privilegiado de Atenas ser reduzida a uma República? Uma propriedade que com uma boa reforma pode ser vendida por dois milhões ou mais! Você só pode estar brincando!
— Camus... Eu sei que a sua empresa adquiriu a casa, mas existem muitas pessoas que moram lá e que não tem para onde ir. Dê-nos a oportunidade de mostrar que podemos negociar e obtermos vantagens para ambos os lados.
— Vantagens? Que vantagens pode me oferecer? Meus planos incluem deixar a propriedade pronta para a venda e não posso fazer as obras necessárias com você e estudantes ali. Você recebeu as instruções do meu advogado.
— Sim, recebi. – disse Milo lembrando a chegada da carta avisando que agora, o proprietário de Rodós Dodekánisos era Camus Leclercq e que deveriam liberar a casa até o final do mês. – Seu advogado fez exatamente o que você mandou.
— Então sabe dos meus planos para a casa. E eles não incluem estudantes!
— Mas não temos para onde ir.
— Encontre algum lugar.
A voz de Camus não poderia ser mais fria. Não havia a menor emoção nela, nada em que Milo pudesse se apoiar. E o que tornava tudo pior era a lembrança que passava diante de seus olhos. A imagem do mesmo homem, só que cinco anos mais jovem. Tão diferente do atual com sua expressão cruel, determinado a constrangê-lo com seu olhar fulminante.
— Não é tão fácil assim. – Milo conseguiu dizer com a voz áspera.
— Pensei que os gregos cuidassem dos seus. Certamente encontrará alguém que possa ajudá-lo.
Eu preciso de Rodós Dodekánisos, gritou Milo em pensamento. E se ele falasse a verdade, como Camus reagiria? Ele se compadeceria como o Camus que ele amara ou usaria a informação para tripudiar e vingar-se?
Com a boca seca, Milo engoliu tentando aliviar o incômodo ressecamento de sua garganta.
— Posso... beber um pouco de água, por favor? – a voz dele arranhou de modo embaraçoso.
Ao ver o olhar que Camus lhe lançou, Milo ficou apreensivo com o desdém que ardia em seus olhos.
— Claro que não, isso tomaria os insignificantes dez minutos que me concedeu. Tudo bem! – disse Milo apertando os olhos.
O desespero turvou seus belos olhos azuis e o cansaço físico e emocional fez parecer que a sala girava ao seu redor. Tinha que admitir a derrota e que Camus jamais o perdoaria e, muito menos, teria alguma consideração. Preparou-se para ouvir Camus mandá-lo sair.
— Tome...
A palavra abrupta o surpreendeu e Milo deu um meio passo para trás. Camus de repente pareceu estar tão perto. Perturbadoramente perto. O grego piscou para clarear a visão e viu um copo de água, com pequenas bolhas que subiam dentro dele sendo oferecido pelo francês.
— Obrigado. – disse Milo estendendo a mão, sentindo-se tremer por dentro.
Ao pegar o copo, Milo calculou mal a distância e percebeu que, embora quisesse pegá-lo pela base logo abaixo da mão de Camus, na verdade fechou os dedos sobre os dele.
— Desculpe!
Ele teve a sensação que um choque elétrico o atingira, porém Camus não parecia ter tido o mesmo problema ainda que seus olhos o encarassem de modo fixo ao ajeitar sua mão no copo e esperar um momento para se certificar que ele segurava o copo com firmeza.
Ainda com os olhos presos um no outro, Milo levou o copo aos lábios ressequidos, deu um gole e teve dificuldade para engolir. Desejou que Camus desviasse o olhar, mas ao mesmo tempo não conseguia desviar o seu e sentiu a garganta estreitar mais...
Após beber mais um gole, olhou em volta para ver onde colocaria o copo, enquanto Camus o olhava de um jeito diferente. A cor da íris parecia ter desaparecido e as pupilas estavam aumentadas, limitadas por uma borda rubra. Sem que Milo pudesse esboçar qualquer reação, Camus se aproximou e estendeu um longo dedo tocando seu rosto. O grego se encolheu instintivamente e teria recuado, mas parecia hipnotizado pela expressão decidida de Camus.
Então num movimento calculado, o francês apoderou-se de sua boca como se fosse seu proprietário. Os dedos de Milo cederam, afrouxaram tanto que o copo que segurava caiu e ele o ouviu quicar no tapete, esparramando o restante da água. Mas, depois disso não percebeu mais nada além de Camus e do calor do seu corpo. A força dos seus braços ao puxá-lo contra si. A pressão de sua boca e a sensação imperiosa ao abrir-lhe os lábios e enfiar a língua em sua boca quente e sedenta.
— Camus... – gemeu ele e mergulhou num mundo escuro e inebriante de sensualidade.
As mãos de Camus subiram por suas costas e se emaranharam em suas mechas loiras e sedosas. Entrelaçou os dedos nelas, usando-os para manter Milo onde queria e aumentar a intensidade do beijo, forçando-o a abrir mais a boca para ele.
Milo, passada a surpresa inicial, agarrou-se a Camus, puxando-o pela nuca e aprofundando o encontro ávido das línguas, levando o beijo para outro estágio de erotismo. Com inquietação, apertava seu corpo contra o de Camus e sentia o volume quente de sua ereção que demonstrava sem disfarces a reação dele.
Aquele contato era o que Milo queria e ficou óbvio que Camus sentia o mesmo quando colocou a mão em suas nádegas para um contato mais íntimo. Porém, de súbito Camus parou retesando o corpo e recuando a cabeça de modo violento para olhá-lo com uma hostilidade devastadora. Então, para o total espanto de Milo, ele conferiu o relógio dizendo num tom distanciado e sem emoção:
— Seu tempo está quase no fim. Há mais alguma coisa que queira me dizer antes de sair?
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