Blue Rain
1 Capítulo Único - Blue Rain
Notas iniciais
Essa é a primeira fic de Owari no Seraph que posto aqui >.
A história também foi postada no Spirit ;)
Boa leitura :3
Mika continuou sentado no chão olhando para o nada, sem se importar com a expressão ligeiramente debochada de Krul, que o encarava. Seus pensamentos estavam mais confusos do que o normal, entrelaçando-se, formando uma teia de ideias confusas que Mika temia ficar preso. Era atordoante.
Apenas uma coisa foi capaz de distraí-lo. Um som incomum, que ele não ouvia há algum tempo. Era um som encantador. O ruído da água batendo nas pedras era música para o garoto que se sentia mais perdido do que nunca.
Olhou para Krul, que ainda o encarava. Então se levantou e, sem dizer uma palavra, foi saindo da sala, andando pelos corredores do palácio, sem medo de se perder naquele labirinto de caminhos que ele já conhecia de cor após anos vivendo ali. Seguia aquela melodia incomum, que o encantava de uma forma estranhamente acolhedora. E então, ele encontrou a fonte do barulho.
O céu nublado é a seu habitual cinza-perolado
O sol no oeste está chorando
Ainda tem a mesma cor
Quando ele foi embora?
A porta da saída do palácio foi aberta com violência e o garoto encarou as gotas caíndo do céu cinzento, caíndo com força no chão. Não ousava sair de onde estava, pois achava melhor não se molhar. No entanto, se permitiu observar as gotas de água que cortavam o ar, abrindo pequenos buraquinhos nos locais lamacentos do chão.
Mika encarou o sol escondido timidamente entre as nuvens, escondendo sua luz. Seria possível que estivesse triste? Parecia loucura que este tipo de pensamento lhe ocorresse. Parecia uma criancinha. Ridículo até mesmo para ele, que vivia apenas com um propósito: salvar Yuu dos humanos. Qualquer vampiro diria que aquele objetivo era ainda mais tolo que pensar se o sol fica triste.
Mika tentava se lembrar se chovia na noite em que Yuu havia ido embora. Supunha que não. Ele pensava que se lembraria daquele som. Em todo caso, se não chovia, Mika chegou à conclusão de que então, o céu estava muito diferente naquele dia. Isso tornava a chuva e aquela paisagem mais reconfortante.
Eu ainda estou em uma viagem, uma estrada sem fim por meio de uma tempestade incessante
Eu simplesmente passo a minha vida seguindo a voz do meu coração
Eu continuo cantando, continuar dançando, minha voz queimando...
Derrame sobre mim
Chuva azul, chuva azul
Mika ponderou como seria sentir aquelas gotas tocarem sua pele. Talvez aquela chuva azul o trouxesse paz, algo que não tinnha há alguns anos. Era estranhamente convidativo. E, tomado por uma vontade insana de sentir a chuva, Mika deu dois passos em direção à água que caía do céu, fechando os olhos por alguns instantes. Ah, sim. Era acolhedor.
Aquela chuva aparentemente tão delicada, que ao atravessar seu uniforme de guarda açoitava a pele clara dele, sem machucar. Aquele som, penetrando em sua mente, a música que o convidava a dançar.
As asas que eu tenho no lugar do meu amor
Apenas doem
O que nós queremos? Queremos tudo.
Ninguém sabe o preço que você paga por isso.
Ele tocou o peito, sentindo seu coração apertar, aparentemente sem motivo. Havia algo ali o incomodando, algo que ele não conseguia distinguir muito bem. Não sabia a causa, ou o que exatamente estava acontecendo ali. Só sabia que doía mais do que achava que podia suportar.
Deu alguns passos curtos e lentos, sem produzir nenhum som quando seus pés tocavam o chão lamacento. E olhou para o chão, onde havia uma poça de água, onde Mika pôde ver seu reflexo. Imaginava se tinha mesmo mudado tanto assim. Não na aparência, mas em seus ideais e objetivos.
Quando mais novo, não queria apenas uma coisa. Queria várias. Talvez aquilo fora o que o levara ao declínio. Talvez toda aquela ambição, ainda que meio infantil, fosse o que o separara de Yuu. Não era bom pensar daquela forma, ele sabia. Mas naquele momento, quando a única coisa que mantinha em mente o tempo todo era que precisava salvar Yuu o mais rápido possível, era inevitável pensar daquele jeito, quando não sabia o quanto teria de pagar para conseguir realizar seu desejo tolo de tornar Yuu e toda a sua família livres.
Por que a culpa nos tortura quando temos tempo para alguma coisa?
Assim, nós não esquecemos a dor de perder alguma coisa
Veja, eu ainda tenho algumas coisas preciosas que ficaram na minha mão fechada
E a luz brilha
Chuva azul, verdadeira dor.
Droga, ele sentiu aquele sentimento tão torturante o consumindo de novo, pelo que pensava ser a milésima vez desde o dia em que perdera quase toda a sua família. A culpa que carregava por não ser forte o suficiente para proteger sua família preciosa. Por outro lado, Mika sabia que era justamente aquela culpa que o mantinha vivo.
Afinal, aquilo o tornara mais forte e ele pôde sobreviver aos vampiros que encontrava todos os dias. E aquilo o fazia seguir em frente. Sua força seria usada para que seu deseje se concretizasse. Ver o sorriso de Yuu outra vez. Vê-lo sorrir com aquela luz que só ele tinha, iluminado o coração sombrio de Mika. Como o sol. Seria possível que o sol entristecesse?
Que seja forte o suficiente para cortar o vento, ser livre.
Eu simplesmente passo a minha vida seguindo a voz do meu coração
Sim, a sua vida pode ser tão pacífica como flutuar sobre a água, a resposta está aqui ...
Chuva azul, chuva azul
Derrama sobre mim.
Imaginava se sua vontade de salvar o que restara de sua família era forte o suficiente. Desejava com todo o seu ser que sim. Seu coração, ainda que estivesse congelado, o dizia para seguir com sua vontade de rever Yuu. Seguia em direção ao sol, pedindo para que o gelo que o endurecera derretesse e a paz viesse, junto com a luz daquele sorriso.
Mika deixou o bom senso de lado e se deixou cair deitado no chão, sem realmente se importar com o fato de que suas roupas estavam sujas e molhadas. Via as gotas de chuva se aproximarem e podia ver pequenas gotículas de água em seus cílios. Mika fechou os olhos, sentindo a chuva azul cair sobre ele.
Dançando na chuva, eu ouço a canção de ninar,
Pingos de chuva caindo sobre as minhas lágrimas ...
Subitamente, Mika sentiu uma onda de cansaço lhe invadir e pensou que iria chorar. Mas as lágrimas não vinham. E se viessem, seriam sobrepostas pela chuva. Sentia-se deixar levar pela mente exausta e, de repente, o som da chuva soava como uma canção de ninar. A canção de ninar mais melancólica de todas.
Caminhando na chuva, só quero dizer adeus,
Pingos de chuva caindo sobre as minhas lágrimas ...
E ele sentiu uma vontade absurda de dizer adeus à tudo e se entregar àquela canção de ninar, deixando tudo para trás, para ser livre pela primeira vez em oito anos. As gotas de chuva caíam algumas vezes em seus olhos e escorriam pela sua face. Parecia estar chorando. E talvez estivesse mesmo. Talvez, apenas talvez, seu coração estivesse chorando.
Estava tão perdido, que quase não notou que alguém se aproximava. Krul.
Ela se ajoelhara ao lado dele debaixo da chuva. Mas Mika não a encarou. Ela o ajudou a se levantar, sem ter de lidar com nenhuma objeção. E juntos, os dois caminharam de volta para dentro do palácio, ouvindo a canção de ninar melancólica.
Eu ouço a canção de ninar, derramando a chuva azul ...
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