Blue Horizon O Legado
1 Blue Horizon O Legado
Notas iniciais
Blue Horizon
O legado
Glossário:
Arns— Aproximadamente 60 minutos no tempo terrestre
Armas de pulso— Armas de pulso energético. Letais e de fácil manejo
Base Katratzy— Fortaleza Scarran, onde Aeryn seria levada e teria seu bebê retirado. Foi quase totalmente destruída por John Crichton.
Cadeira Aurora— Sonda mental usada para descobrir segredos de prisioneiros. Causa imensa dor nas vítimas. Crichton foi torturado em uma cadeira Aurora por Scorpion.
Ciclo— O equivalente a 1 ano terrestre
Comandante Dax — Principal ameaça aos planos do Cap. Braca.
Comandante John Crichton— Humano. Herói lendário das Guerras pacificadoras – desaparecido
Charrid— Raça guerreira e inescrupulosa. Predadores com dentes afiados não muito inteligentes.
Chiana- Nebari. Uma valiosa aliada e amiga de John Crichton. É expert na arte da sedução e muito divertida.
Comand. Grayza— Inimiga mortal de Braca. Manipuladora, sedutora e cruel, tentou assassiná-lo duas vezes.
Cap. Miklo Braca— Sebacian, aliado do Comandante John Crichton, tem a intenção de desertar dos pacificadores e se aliar a resistência
Construtores— Criadores das leviatãs. Considerados deuses pelos pilotos.
Dra. Mary Storm— Humana, ex-tripulante da Blue Horizon (nave de pesquisa), cientista, cartógrafa espacial e Astrobióloga
D’argo Sun Crichton— Filho de John e Aeryn. Meio humano, meio sebacian.
DRD’s— Pequenos robôs de manutenção e segurança dos leviatãs
Espada Qualta- Arma Luxan tradicional. Também lança raios.
Farscape— Nave do Comand. John Crichton. Onde ele estava quando foi jogado do outro lado da galáxia por um wormhole.
Delvians— Espécie inteligente e pacífica meio humanóide meio planta. Possuem pele azul
Hynerians— Raça de criaturas pequenas parecidas com sapos peludos. Pacíficos, inteligente, glutões. São caçados como alimento pelos charrids.
IASA— Agência espacial internacional. Patrocinadora das viagens espaciais da Farscape e Blue Horizon
Jothee— Filho do guerreiro luxan Ka D’argo, melhor amigo de Crichton que foi morto nas Guerras pacificadoras
Leviatã— Nave viva. Organismo bio-mecanóide raro. Vários foram escravizados pelos pacificadores para servir de transporte para prisioneiros violentos. A nave de Crichton é a leviatã Moya.
Luxans — Raça guerreira do território dominado pelos Pacificadores. Formaram guerrilhas para lutar contra eles. Possuem estruturas dérmicas na cabeça que lembram tentáculos.
Ka Makus— Agente duplo luxan a serviço de Karla Lux. Sua lealdade é questionável!
Interions— Raça geneticamente mais parecida com os humanos. São arrogantes e elitistas em sua maioria. Têm a pele suavemente dourada.
Marauder — Soldado do esquadrão de elite do exército pacificador
Microt— O equivalente a 1 minuto
Nervo Paraforal— Estrutura exclusivamente sebacian que controla a excreção de toxinas do corpo. Quando danificado, o sebacian morre em 68 horas se não for transplantado ou fizer tratamento com células tronco.
Oficial Karla Lux— Sebacian (narradora), líder do serviço de inteligência da Frota pacificadora
Pa’u Zohram— Sacerdote Delvian. Amigo e confidente de Mary. Possui a incrível habilidade de manipular e induzir sonhos e pensamentos em suas vítimas.
Piloto— Espécie rara. Vive em simbiose com os leviatãs. São grandes e possuem quatro braços
Scorpius— Falecido amigo e comandante de Braca. Era meio sebacian, meio scarran.
Nave capitânia Tarvas— Grande nave pacificadora sob o comando do Cap. Braca.
Nebari — Raça muito inteligente. Especialista em trancas, relógios, lavagem cerebral e manipulação. Alguns prestam serviços aos pacificadores. Tem pele cinzenta e cabelos brancos.
Óleo Chakan- Fonte de energia das armas de pulso
Prowler— Nave pacificadora rápida, de pequeno porte e alto poder de fogo
Tab — Pequeno computador portátil com acesso ao computador não essencial da nave
Scarrans— A raça reptiliana mais poderosa e cruel da galáxia. Possui a capacidade de super aquecer o ar próximo de suas vítimas. Mantêm uma frágil trégua com os sebacians.
Wormholes— Buracos de minhoca. Dobra no tecido do espaço- tempo que, na teoria, liga lugares distantes permitindo viagens em velocidades muita acima da velocidade da luz. Foi usado como arma por Crichton no fim das Guerras Pacificadoras
Zhaan— Delvian. Sacerdotisa, anarquista e pacifista. Amiga de Crichton. Se sacrificou para salvar Moya e seus amigos
Cap. 1
Este foi o dia em que minha vida mudou, mas no relatório final, deixei apenas o que o Cap. Braca achou conveniente: “Oficial Karla Lux do Serviço de Inteligência. Quando retornava de uma inspeção de rotina na colônia Penal Pacificadora em Tanus, encontrei uma nave Charrid próxima a uma nave branca desconhecida seriamente avariada. A nave Charrid desobedeceu minha ordem para informar suas intenções e me atacou. Suas armas inferiores não causaram dano substancial em meu Prowler . Então, revidei o ataque atingindo o sistema de armas e suporte de vida da nave agressora. Antes que eu lhe desse a última chance de se render, o capitão Charek propôs a troca da sobrevivente da nave branca pela liberação de sua nave. Ele afirmou que a fêmea sebacian que havia resgatado da nave a deriva era a única sobrevivente de uma missão secreta que havia sido alvejada por uma nave batedora Scarran. Mesmo sabendo que a história do charrid era uma mentira descabida, aceitei a proposta. A sobrevivente deveria ser interrogada para averiguação. Os bancos de dados charrid, a nave branca e os corpos dos outros tripulantes foram confiscados. A mulher, em estado de choque, tinha uma fratura exposta num braço, vários outros ferimentos pelo corpo e o sangue de seus companheiros mortos não permitiu que seu uniforme fosse identificado. Quando a retirei da cápsula de fuga, ela começou falar coisas sem sentido. Levei a oficial ferida para a enfermaria da Nave capitânia Tarvas. Após sua recuperação e confirmação de sua identidade e missão, ela foi enviada para o seu comandante para se reportar.” Fim do relatório.
É claro, menti no relatório algumas vezes. Reconheci imediatamente o uniforme da alienígena. Ela era uma astronauta terrestre assim como Crichton. Não sabia o que fazer com ela! Por um momento, pensei em jogá-la no vácuo e sair dali rapidinho. Enquanto eu pensava, ela recobrou a consciência por alguns minutos e eu pude perguntar seu nome: _ Mary Storm, astrobióloga. Quem é vo... E desmaiou de novo. Eu precisava reportar ao Capitão Braca, ele saberia o que fazer. E se ela também soubesse como construir outra Arma de Wormhole? Ou coisa melhor?! A gente poderia acabar com os tiranos do comando Pacificador que com certeza um dia provocarão a extinção da raça sebacian e libertaria os planetas aliados. Sei lá!!! Quando o Capitão viu a humana e ouviu o meu relato, ele recomendou que os corpos dos companheiros dela fossem incinerados e suas identidades falsas, registradas. A nave branca foi recuperada, teve todos os registros removidos da fuselagem e enviada para um planeta aliado pelo próprio Capitão. A humana também recebeu uma nova identidade e a colocamos sob minha proteção em meu alojamento. Ela ficou desacordada por vários dias e quando acordou, não falava. Parecia que o luto pela morte dos amigos ainda a paralisava. Ficava encolhida próxima de uma janela olhando para as estrelas por vários Arns. Recebíamos as visitas do capitão todos os dias após os oficias mais graduados terem se recolhido, para não levantar suspeitas. Tudo que o resto da tripulação pensava é que ele estava apenas se “recreando” em meus aposentos. A curiosidade dele era visível. Ele perguntava a ela como a sua nave havia chegado deste lado da galáxia se o Wormhole havia sido permanente fechado pelo Crichton? Mas ela nada respondia e nem mesmo o olhava. Pela sua experiência, humanos são sinônimos de confusão e também de evolução. Então, ele esperou por dias até que a Mary ganhasse nossa confiança.
Neste tempo, ela começou a falar comigo. Perguntou se conhecíamos o humano chamado Crichton, que tipo de nave era a nossa, onde estava a nave dela, disse que precisava de mais um cobertor.
— Mary, você não precisa ficar no alojamento o dia todo! Você só fica olhando para as estrelas e mapeando! Temos todo este setor já mapeado. Posso conseguir um tab pra você!
— Não sei se seus companheiros reagiriam bem a minha presença! Karla, porque vocês estão me protegendo até hoje? Vocês são pacificadores. Pelo que eu sei, vocês não são conhecidos pela filantropia! Como é que eu sei? Um tal capitão Crais, perseguiu John Crichton e nem se importou com o regulamento da frota. Eu deveria me preocupar também?!
— Se você realmente conhece a história, sabe que o homem era louco. Ele estava obcecado por vingança, pois achava que Crichton havia sido o culpado pela morte de seu irmão!
— A caçada humana só havia começado: Um alienígena conhecido como ancestral deu a ele um “presente de grego”. O conhecimento da tecnologia de Wormholes. Ele foi preso e torturado várias vezes. Nem imagino o horror que ele sofreu e tudo por causa de vingança, de novo. Só que desta vez de um homem contra uma civilização inteira!
— Scorpius. Eu sei! Ele tinha seus motivos para odiar os Scarrans.
— E você defende aquele psicopata?! Eu tenho mesmo motivos para não confiar em Pacificadores, não é?!
— Não. E não estou defendo ninguém... Muitos se corrompem quando estão em posição de poder! Tenho certeza que é igual em seu mundo... Crais e Scorpius estão mortos. As circunstâncias da morte de Scorpius ainda não foram completamente esclarecidas, mas Crais se aliou a Crichton e se sacrificou para que ele, a esposa e sua tripulação conseguissem fugir dos pacificadores.
— Eu não espero que todos os crápulas da galáxia busquem a redenção depois de cometerem todo o tipo de atrocidade.
— Mas você acredita que todos merecem uma segunda chance, até mesmo os pacificadores?... Eu acredito!
Mary demorou a responder e antes que ela abrisse a boca, o Capitão Braca entrou no alojamento sem aviso.
— Me perdoem a intromissão. Fico feliz em ver que recuperou a capacidade de se comunicar, Mary Storm!
— Está tudo bem, Capitão Braca, agradeço por tudo que tem feito por minha segurança.
Ela estendeu a mão para ele, num cumprimento humano, eu acho. Ele olhou para a mão estendida dela por alguns momentos até entender que deveria retribuir o gesto. Depois eles se olharam nos olhos pela primeira vez.
Cap. 2
— Não quero parecer uma mal agradecida, mas eu gostaria de saber se sou prisioneira na sua nave?
— Não. Você não é prisioneira. Oficialmente, é uma pacificadora, melhor dizendo, Oficial da inteligência Mary Storm, subordinada a Oficial Lux.
— Então, sou livre para deixar a nave quando eu quiser ou tenho que pedir sua permissão, Capitão? Gostaria de ver minha nave!
— Sim, mas francamente, e depois, para onde você iria? Não sabemos como replicar as condições que tornou possível a chegada de sua nave ao nosso lado da galáxia! A sua nave está segura... Nós a escondemos em um planeta de pouca importância no território pacificado.
— Então, estou presa aqui? Não posso, simplesmente, desistir de voltar para casa. Eu não vou desistir!
Eu notei que Mary estava fazendo um grande esforço para não chorar na nossa frente. Mas as lágrimas não paravam de vir!
— A não ser que vocês acreditem que eu tenha informações sobre alguma arma definitiva para usar contra seus inimigos. Lamento informar mas, esta humana aqui foi ignorada pelo tal ser ancestral super sábio! Não posso ajudá-los! Sou inútil para vocês...
— Não, Storm, você é mais importante do que imagina. Todos que sonham com o fim da tirania dos Pacificadores na galáxia, começaram a acreditar que a liberdade fosse possível ainda para esta geração, quando a dez ciclos atrás, um humano, sozinho, pôs fim a uma guerra entre as maiores potências que já existiram: Sebacians e Scarrans. Aquela guerra não teria só exterminado estas espécies, mas todas as outras sob seus domínios. Tendo ou não conhecimento sobre armas definitivas, os seres humanos se tornaram símbolos de Liberdade e Evolução.
— Não sou John Crichton, nem tenho parentesco com ele. Vocês não têm o direito de me usarem em sua propaganda ideológica! Tudo que eu quero é voltar para a casa, gente, apesar de não saber como vou fazer isso!
— Eu entendo... Oficial Lux!...
— Sim, senhor...
— Por favor, traga o contêiner que esta na entrada de seu alojamento.
Peguei uma caixa e levei para perto de nós, cheia de curiosidade, o deixei aos pés dele e Mary ficou visivelmente apreensiva.
— Antes de enviar sua nave para um local seguro, tomei a liberdade retirar dela alguns objetos que talvez, ainda lhe sejam úteis.
Ele abriu a caixa e Mary sorriu pela primeira vez desde sua chegada, meses atrás. Os primeiros objetos que ela pegou eram retangulares e pareciam ser bem frágeis.
— Não acredito!... Meu tablet, meu gravador... Pensei que eles haviam sido destruídos no ataque! Eu nem sei como agradecer, Capitão!...
Parece que a reação dela surpreendeu até o Capitão e foi ele quem ficou sem reação... Ela o abraçou! Achei engraçada a cara de constrangimento que eles fizeram logo depois.
— Temos que voltar para a ponte... Infelizmente, não podemos ajudá-la a voltar para a Terra, mas eu sei quem pode...
Mary que já havia guardado os preciosos objetos na caixa se voltou para nós com os olhos arregalados, mas logo depois, pareceu desanimar:
— Me deixe adivinhar: O lendário John Crichton?
— Não conheço ninguém com mais conhecimento sobre Wormholes.
— Por acaso, vocês sabem onde ele está?
— Infelizmente, ele não é visto a mais de nove ciclos. Temos informantes em vários planetas por onde o seu leviatã passou. Mas ainda não temos nenhuma informação concreta sobre seu paradeiro e nem se ele ainda vive.
Aquela noite, Mary não passou olhando para as estrelas, ela registrou em seus aparelhos suas experiências. Às vezes, ela parecia cheia de esperança e, em outros momentos, parecia duvidar que um dia, poderia voltar a ver seu mundo e seus familiares. Ela devia achar que eu estava dormindo. Mesmo sem intenção, eu pude ouvi-la falando como se estivesse dando um depoimento para a posteridade. Fiquei fascinada com as emoções que ela derramava em cada palavra.
— Meu nome é Doutora Mary Storm, sou cientista, astrobióloga, cartógrafa espacial e astronauta. Faço parte da tripulação da nave Blue Horizon da missão de pesquisa e investigação enviada às órbitas das luas de Urano no sistema solar. Próximo ao final de nossa missão, nossa nave foi atingida por uma forte tempestade magnética e caímos num wormhole que nos lançou a uma parte distante da galáxia, mesmo local, onde anos atrás o Comandante John Crichton também havia sido lançado. Poucas horas após nossa chegada, fomos atacados por uma nave desconhecida, mais tarde identificada como sendo da espécie Charrid, uma raça de mercenários e assassinos. A nave ficou seriamente danificada e nós fomos capturados, aprisionados e torturados pelos criminosos que buscavam informações para vender aos seus aliados Scarrans, uma espécie ainda mais poderosa e violenta. Eles nos injetaram com germes tradutores que alteraram nossos cérebros para permitir a comunicação entre espécies. Ainda sinto dor no local da injeção.
Presenciei, cheia de horror, o assassinato de meus três amigos. Já havia aceitado meu destino violento quando, uma outra nave chegou e fez com que meus carrascos mudassem seus planos. Eu fui resgatada pela nave de uma agente pacificadora. Os pacificadores são a maior força dominante deste setor da galáxia e, felizmente, o Oficial Karla Lux, a primeira amiga que fiz no espaço, é membro de um movimento interno que sonha com o fim dos abusos do comando pacificador sobre os povos menos evoluídos tecnologicamente.
Agradeci pela minha vida ter sido poupada e resolvi que deveria aceitar a chance de aprender sobre estes incríveis seres ao mesmo tempo, tão parecidos e tão diferentes de nós, humanos.
Não desistirei de tentar voltar para nosso mundo natal. Devo isto aos meus queridos amigos mortos. Que fique registrado que eles morreram como heróis que eram: Comandante John T. Monteiro, um homem justo e sábio. Tenente Katrina Martinova, uma mulher de coragem e alegria infinitas. Michel Carter, engenheiro de espaço naves, doce, gentil e de uma inteligência nunca igualada em nosso mundo. Nunca serão esquecidos.
Nossa nave Blue Horizon, a mais avançada tecnologia para viagens espaciais já concebida pela humanidade desde a nave Farscape foi recuperada e colocada em um local seguro graças ao corajoso e paciente Capitão Miklo Braca.
As pessoas que salvaram minha vida são Sebacians, além da aparência idêntica a nossa, possuem ao que me parece, os mesmos conflitos que nós humanos. As ações do primeiro humano que chegou a este lado da galáxia, criaram um profundo desejo de liberdade e de mudança. Os poderosos tentaram a todo custo silenciá-lo, mas a semente já havia sido plantada. Ele fez inimigos implacáveis, mas também, amigos de vontade inabalável. Este foi seu legado.
Senti a frustração de meus novos amigos quando deixei claro para eles que nunca seria uma boa sucessora da Lenda. Sou frágil, insegura, não sei nada sobre revoluções e muito menos, sobre armas do armagedon! Mesmo assim, eles se mostraram simpáticos a minha vontade de voltar para casa. Infelizmente, minha única esperança é encontrar a Lenda. Nem sei se ele está vivo ou se ainda seria capaz de gerar um Wormhole que pudesse me levar para casa e ainda, prevenir que aqueles pesadelos, ameacem a Terra.
Se algum dia alguém conseguir levar esta gravação para a Terra, diga aos meus pais que os amo e terminei os meus dias como sempre sonhei, enfrentando o medo do desconhecido! 25 de Março de 2079.
Cap. 3
Hoje, tive um bom motivo para arrancar Mary do meu alojamento. A levei para treiná-la na operação dos sensores e radares de nossa nave. O tripulante que era responsável por este posto de serviço na ponte, havia sido promovido a Marauder e enviado para uma Base Pacificadora em um setor distante. Mesmo sob protesto, ela concordou. Mas insistiu que gostaria de ter acesso ao banco de dados destinado à educação de nossas crianças. Eu não entendi a razão disso no início. Depois percebi que sua intenção era se preparar para um eventual encontro com seres de outras espécies.
Após entender o funcionamento de nossos sensores, o que foi surpreendentemente rápido, quando não estava em seu posto na ponte, ela mergulhava em seus estudos. Em poucas semanas, ela já sabia descrever as características, fisiologia, anatomia, comportamento, hábitos alimentares, traços culturais e planetas de origem de dezenas de espécies inteligentes. Testemunhei o primeiro encontro dela com um destes seres considerados pacíficos. Ela me lembrava a mim mesma quando criança:
— Karla, um delvian, ali, perto do hangar! Quero falar com ele...
— O que você quer com um monge delvian?! Eles não são muito de conversa... Além do mais, aquele deve ser um prisioneiro e logo será levado a uma colônia penal!
— Por favor, Karla! No meu mundo plantas não costumam construir civilizações! Estes seres são fascinantes... Espere aí! Prisioneiro? Que tipo de crime um monge planta poderia cometer?! Tentou roubar o pólen da plantinha do Comandante Dax?!
— Deixe de palhaçada, Mary... O capitão está nos chamando a ponte. Um de meus agentes enviou informação sobre uma leviatã que estaria submersa num lago de um planeta do território dos Luxans!
— Meu deus! Encontraram o homem?!
— Não sabemos se ele ainda vive na leviatã Moya e se a nave encontrada é mesmo Moya! O Capitão me disse que a esposa de Crichton, Aeryn Sun se tornou ainda mais protetora depois do nascimento do filho. Ela instalou na nave um sistema de camuflagem na nave que dificulta ainda mais sua detecção pelos sensores de nossas naves!
— É como procurar uma agulha no palheiro!
— Procurar o quê?!
— Deixa pra lá... Chego na ponte em dez microts. Espere!... Eu nem havia parado para pensar nisso: Crichton se casou com uma sebacian!! Então, somos compatíveis para a...
— Reprodução... Sim! Não sei até que ponto isto será desastroso para o futuro dos sebacians.
— Lux, xenofobia nunca foi boa para diplomacia... Pense pelo lado bom: Os híbridos terão as qualidades das duas espécies...
— E os defeitos também!
— Depois a gente discute as implicações do casamento interespécies. Agora tenho uma outra curiosidade para saciar!...
Pra minha surpresa, ela foi em direção ao prisioneiro azulado delvian. Todos os humanos são mesmo doidos!
Na ponte de comando, andando de uma lado para outro, o capitão Braca nos aguardava e parecia bem agitado.
— Onde está a Oficial Storm? O capitão perguntou enquanto, com um sinal pedia que o seguisse até seu gabinete.
— Ela está a caminho!
— A investigação sobre a localização de Moya não deve chegar ao comando central. Seus espiões devem ser discretos. Se algum pacificador aliado a Dax suspeitar de algo, toda a missão estará perdida. Não podemos arriscar perder nossos aliados luxans e nem permitir que eles encontrem Crichton.
— Os espiões sabem bem como se manter longe de olhos inconvenientes. A informação foi confirmada?
— A leviatã no lago possui as características de Moya...
— No informe, não há relato de nenhuma transmissão ou sinal de vida além do piloto no interior da nave. O planeta é bastante populoso e seres de muitos mundos se misturam... Os sensores talvez não sejam sensíveis o bastante para detectar o humano em meio a tantos!
Mary entrou no gabinete meio ofegante...
— Então é verdade? Temos uma pista do paradeiro da Lenda?!
— Lenda?! O capitão perguntou.
— É como Mary se refere ao Crichton...
— Eu ouvi algo a respeito de sensibilidade dos sensores para formas de vida?
— Sim, nossos sensores não são capazes de distinguir entre as formas de vida humanas ou não a esta distância. Um humano seria facilmente confundido com um sebacian ou mesmo com um interion .
— Interion, a espécie geneticamente mais próxima a minha?! Sim... Que azar... Mas, e se, eu calibrasse os scanners usando DNA humano?
— Esta é uma ideia bem engenhosa, Mary!!
— Obrigada, Karla... Vocês são ótimos professores!
Mas as coisas nunca são tão simples...
— Vocês acham mesmo que o comandante Dax não notaria que nossos scanners deixaram de detectar todas as outras formas de vida?!
— Então, devemos improvisar: Que tal colocarmos um botão liga e desligar para esta função específica? Assim se alguém além de nós resolver usar os sensores, simplesmente, devolvemos a sua configuração original!
— O comando da frota autorizou a permanência da nave em órbita do planeta por apenas uma semana para o reabastecimento de provisões, então temos que agir rápido.
— Sim, capitão. Começarei as modificações nos scanners logo que purificar algumas duplas hélices das raízes do meu cabelo. Vai ser moleza! Mas antes, preciso fazer um pedido pessoal ao senhor, capitão!
— Do que se trata, Storm? Seja breve... Eu ainda tenho que dar as ordens e formar a equipe que irá ao planeta!
— É sobre o prisioneiro delvian...
Como não tinha o menor interesse ou curiosidade sobre monges delvians, deixei os dois a sós e fui monitorar as comunicações internas.
As alterações nos sensores foram registradas nos diários de bordo como manutenção de rotina e em um dia, estávamos em um transportador indo em direção a última localização dada pelos sensores.
Mary estava inquieta e mexia nos cabelos nervosamente enquanto olhava o monitor que indicava a possível localização da Lenda. Os resultados das varreduras dos sensores já não detectavam sinal de vida humana no planeta há vários arns, mas precisávamos de pistas. Desembarcamos próximo ao local em um descampado entre o lago e a cidade comércio. O meu espião nos contatou e pediu que eu o encontrasse nos fundos de um bar local. O jovem luxan parecia amedrontado ou temia pela minha reação quando soubesse das más notícias.
— Oficial Lux, à dias estou monitorando o movimento em torno da Leviatã e infelizmente, não vi nenhum sebacian. Por estas bandas, pacificadores não são bem vindos, então, é possível que, se alguém como você deixou aquela nave, deve ter tomado medidas para poder se misturar a população sem chamar a atenção!
— Você acha que talvez eles tenham interferido no sinal de nossos sensores? Isto é bem possível! Acho que também teremos que nos disfarçar e pedir uma audiência ao nobre piloto da Leviatã.
— Recomendo que não andem sozinhos ou desarmados. Sei que vocês vieram em missão de paz mas todos os outros ainda pensam que todos os pacificadores são iguais. Se tiverem a oportunidade podem usar de violência contra vocês!
— Não se preocupe, sabemos nos cuidar. Obrigada pela sua ajuda, meu amigo! Será bem recompensado.
— Minha recompensa será o fim da tirania pacificadora.
Voltei para o transportador onde Mary e o capitão me aguardavam. A equipe Nebari treinada para a negociação dos suprimentos já havia partido. Vestimos roupas locais, alteramos a cor de nossas peles para nos parecermos com Interions e fomos para perto do lago onde estava a leviatã com nossas armas de pulso bem abastecidas de óleo chakan.
Saudamos a leviatã em uma freqüência segura e o piloto aceitou nos receber. Isto foi fácil demais... Quando chegamos a sala do piloto, estávamos molhados e eu não sabia se Mary estava tremendo de frio ou excitação pela possibilidade de saber o paradeiro da Lenda ou por estar pisando em outro planeta pela primeira vez em sua vida. Mas a expressão no rosto do capitão continuava indecifrável.
— Saudações, amigos interions! Estamos nos preparando para deixar o planeta. Por favor, digam a razão de sua visita e deixem a nave o quanto antes.
O capitão pediu permissão para se aproximar e revelou sua verdadeira identidade:
— Piloto, sou eu, Braca! Que bom ver você!...
— Capitão?! O que está fazendo aqui? Sebacians não são bem vindos neste planeta. Não tenho como garantir sua segurança! O Piloto, estranhamente, começou a falar sussurrando!
— Por favor, Piloto, nos diga se Crichton está em Moya. Precisamos da ajuda dele!
— Capitão, o comandante Crichton partiu com a família há dois dias e não me informou seu destino. Temo que eles não queiram ser encontrados... Vocês devem ir embora, imediatamente!
Mary interrompeu a conversa quando sentiu que o Piloto precisava de mais um incentivo:
— Piloto, meus amigos estão arriscando suas vidas por minha causa. Não posso ir embora sem uma pista do paradeiro deste homem... Ele é o único que sabe como criar wormholes e talvez consiga criar um que seja capaz de me levar de volta para casa!
— E quem é você, minha jovem?
— Sou Mary Storm, sou humana como ele!
— Por todos os deuses construtores, um outro humano!!! Mas como?!...
— Eu também tenho me feito esta pergunta! Por favor, Piloto, se você souber de alguma coisa...
— Por favor, vão embora! A nave está sendo invadida por caçadores de recompensas... Eles devem ter seguido vocês... Moya e eu tentaremos segurá-los até que vocês consigam sair, vão!
— Mary, venha...
Tive que puxar Mary pelo braço e seguimos por um longo corredor com nossas armas em punho. Ouvimos tiros vindos do corredor paralelo e o capitão decidiu proteger nossa retaguarda até que passamos por todas as portas até chegar a saída da nave. Quando Mary e eu entramos de novo na água, ouvi um tiro abafado atrás de nós e depois pude ver o capitão cair de costas na água e atirar de volta. Uma fêmea luxan com o rosto sangrando mergulhou inconsciente e afundou no lago. Saímos da água e nos escondemos atrás de um anteparo da nave esperando o comparsa da luxan aparecer. Um grande luxan saiu da água rosnando e segurando uma arma estranha e quando me viu, atirou mas não me acertou. Eu estava com minha visão embaçada o que atrapalhou minha pontaria e fez meu tiro passar de raspão pelo ombro do gigante. O capitão que já havia retornado para o casco externo de Moya notou que eu estava com problemas e tomou a dianteira. Ele atirou enquanto me puxava para trás e acertou o peito do caçador e ele caiu morto no lago.
Quando pensei que estávamos livres de problemas, Mary gritou por mim. Eu olhei ao redor procurando outros caçadores, mas não havia mais ninguém...
— Karla... O capitão está ferido. Temos que sair daqui!!!
— Temos que chegar ao segundo transportador antes que cheguem outros atraídos pelo barulho dos tiros. Disse o capitão com a voz fraca.
O capitão havia sido atingido no músculo lateral do abdome e estava perdendo muito sangue. Saímos do lago e carregamos o capitão tomando cuidado para não deixar um rastro de sangue para trás e só paramos quando encontramos um abrigo atrás de rochas escondidas por uma vegetação densa. Mas ainda tive tempo para ver a leviatã da “Lenda” sair da atmosfera do planeta dos matadores de pacificadores... Quanta consideração do Piloto!
Deitamos nosso amigo sobre folhas secas e fizemos os primeiros socorros com o pouco material que tínhamos. Felizmente, o sangramento diminuiu e resolvemos ficar ali até o anoitecer. Mary demorou a se recompor do choque e se culpava pelo acontecido:
— Se eu tivesse desistido de vir ao planeta depois que os sensores pararam de detectar o humano isto não teria acontecido.
— Ficar se culpando não vai resolver o problema, Mary. Capitão, como o senhor se sente?
— Eu estou bem!... Disse tentando disfarçar a dor em sua voz.
— Karla, há alguma chance do tiro ter atingido o nervo paraforal?! Meu Deus... Isto não!...
— Nunca vi aquele tipo de arma antes... Pode ser que o ferimento não tenha sido tão profundo. Se você tem alguma religião, esta é uma boa hora para começar a rezar.
Cap. 4
Descansamos por alguns Arns com nossas armas engatilhadas e ouvidos atentos. Com os comunicadores no silencioso, evitamos ser detectados. A todo o momento, Mary verificava a temperatura do corpo do capitão temendo que ele estivesse febril.
— Karla, vocês sebacians tem a temperatura corporal em média seis graus mais baixa que a dos humanos mas ele está frio demais! Capitão, acorde!
— O que foi?! Eu estava no meio de um bom sonho...
— Está sentindo algum formigamento?
— Não é nada demais! Sinto um pouco de formigamento nos dedos do pé direito... Já anoiteceu? Vamos sair daqui! Disse enquanto tentava se levantar sem sucesso.
— O senhor nem consegue andar! Mary, use meu casaco para mantê-lo aquecido. Não podemos carregá-lo até o nosso transporte. Isto poderia acelerar o acúmulo de toxinas no corpo dele. Vou buscar o injetor de células tronco para reconstituição do tecido nervoso. O nervo paraforal foi atingido e temos menos de 60 arns antes que...
— Você está dizendo que vai nos deixar aqui sozinhos?! Ficou maluca? Nunca aprendi a atirar direito, muito menos matei alguém. E se aparecer outro caçador, o que eu faço?
— Oficiais, eu ainda estou aqui e não sou um completo inútil. Mary, ainda posso atirar se for necessário. Não se preocupe... Vamos ficar bem! Parece que não vou poder mesmo sair daqui por uns tempos!
Enquanto me preparava para correr até o transportador, o capitão se recostou em uma raiz de árvore, Mary o cobriu com mais um casaco e o tocou no rosto:
— Eu sei que vocês não gostam muito de ser tocados, mas não vou deixar que você morra de hipotermia... E não pense nenhuma bobagem, está bem?! Karla, se você demorar mais que dois Arns para voltar, eu mesma atiro em você quando chegar! Por favor, tenha cuidado, minha amiga!
Dizendo isso, ela se sentou entre a raiz e as costas dele e o abraçou por trás. Ele engoliu seco e nada respondeu, mas sua respiração começou a ficar meio irregular.
— Com sorte, chego antes disso... E parti com aquela estranha imagem na minha cabeça!
Por que as coisas são sempre tão complicadas na minha vida?!
Felizmente, não fui abordada por ninguém no caminho mas, quando cheguei ao lugar onde deveria estar o transportador, ele havia sumido. Fiquei meio desnorteada por uns momentos e me lembrei do meu amigo informante, o luxan Ka Makus. Eu tinha que tentar alguma coisa! Eu não podia deixar meu capitão morrer com aquela humana descompensada grudada nele! Ele é o que tenho mais próximo de um pai... Precisava encontrar o luxan... Não o encontrei, mas ele me encontrou.
— Oficial Lux, vi quando a Leviatã deixou o planeta. Vocês encontraram o humano?
— Isto é informação confidencial, Makus! Você sabe alguma coisa sobre os caçadores de recompensa que tentaram nos matar? Pelo jeito o chefe deles prefere seus prêmios mais mortos do que vivos...
— Vocês foram atacados e acha que tenho alguma coisa haver com isso? Eu disse a verdade sobre a leviatã!
— É... Pode ser... Mas, tenho outros espiões além de você neste planeta, luxan, e ainda sou uma pacificadora. Se for confirmado que você tem alguma coisa haver com isso, não haverá lugar nesta galáxia onde poderá se esconder. Agora, me diga onde está meu transportador ou me arrume um outro, e rápido!
— Vou ver o que posso fazer! Você tem que confiar em mim. Onde estão seus companheiros?
— Isto é...
— Informação confidencial! Ah, tá... Já entendi!
Enquanto Makus procurava o meu transporte, eu fui conseguir algum alimento e água. E, de novo, as coisas ficaram difíceis! Percebi olhos desconfiados me fitando das sombras. Continuei as negociações pelos suprimentos calmamente, e sempre atenta ao movimento. O comerciante me entregou as mercadorias evitando me olhar nos olhos e sai do estabelecimento.
Recebi uma transmissão de Makus informando o local de encontro e segui meu caminho. Próximo ao espaço-porto clandestino fui atacada por dois charrids e um... Scarran. Tentei sacar minha arma mas os charrids foram mais rápidos e tive que saltar para trás de uma carcaça. Senti muita dor em minha perna onde me atingiram de raspão e revidei os disparos quase sem ângulo para a mira. Abati um dos charrids e vi quando o outro tentou dar a volta para me cercar. O Scarran gritava ameaças tentando me intimidar. Eles sempre pecam pela falta de criatividade:
— Pacificadora, se renda! Não me responsabilizo pelas ações dos charrids...
— Nem preciso te lembrar da pena para quem atacar um pacificador sem motivo! Vocês são muito obtusos mesmo!...
— Te’xar, meu comandante quer o mulher inteira, mas ele não disse que ela deveria ser capturada viva!
Observei pelo reflexo no metal polido que o Charrid começou a ganhar confiança e se descuidou deixando parte da cabeça para fora da trincheira. Esperei o momento certo para atirar... E o atingi na testa! Foi quando eu me descuidei e o Scarran Te’xar me agarrou pelos cabelos e o ar que eu respirava começou a ficar muito quente. Minha visão ficava cada vez mais destorcida e não conseguia mais respirar. De repente me vi caída no chão pedregoso e as pedras me feriram o rosto quando o scarran caiu em cima de mim.
— E agora, você confia em mim?!
Para minha surpresa, ouvi a voz de Makus e o vi tirando o corpo do monstro scarran de cima de mim.
— Obrigada, Makus! Você apareceu na hora certa...
Mas imaginei que isto tudo foi conveniente demais. Não tinha provas para confirmar a deslealdade de Makus, mas não havia tempo para nenhuma investigação. O capitão precisava das células tronco e eu ainda nem havia chegado ao transportador.
Já haviam se passado mais de 10 arns desde que deixei o esconderijo nas rochas quando cheguei a enfermaria da Tarvas. Entrei na enfermaria, esperei os médicos e técnicos se distraírem com alguma emergência e peguei o injetor de células sempre evitando as câmeras de vigilãncia.
Voltei ao planeta sem dar muitas explicações levando o aparelho, alimento e água.
Quando estava na entrada do esconderijo, eu ouvi um som que parecia uma música suave que quase se confundia com o barulho do vento nas folhas e, choro!... Atravessei a vegetação e vi o capitão com a cabeça no colo de Mary e ela apontando precariamente a arma para mim:
— Mary, quer, por favor, parar de chorar e largue esta arma?!
— Você ficou fora por mais de 15 arns!... A respiração do capitão está muito fraca e o pulso irregular. Consegui mantê-lo aquecido mas, não sei mais o que fazer!...
E começou a chorar de novo, compulsivamente.
— Tira os casacos de cima dele. Eu trouxe o injetor de células. Espero que ele agüente mais um pouco até a regeneração celular começar.
— Micky... Agüente firme! Karla voltou com o tratamento. Vai ficar tudo bem!... Ela disse e beijou a testa dele!
Micky?!!! Como ela se atreve a desrespeitá-lo deste jeito?
— Oficial Lux, Mary, vocês fizeram um ótimo trabalho. Acho que ainda não era minha hora...
— O senhor deve repousar até que seus sinais vitais voltem ao normal. Só depois, voltaremos a nossa nave. O capitão não deve ser visto mostrando fragilidade aos seus comandados!
— Lindo jeito de dizer que também estava preocupada com ele, Karla! Disse a faminta e exausta Mary antes de se deitar ao lado do Cap. Braca e desmaiar.
5º Cap.
Em dois dias estávamos de volta a nave capitânia Tarvas, Mary cuidava de nossos ferimentos longe da enfermaria para evitar questionamentos.
Após mais um longo dia de varreduras pelo sistema e monitorização das comunicações procurando por mais pistas de “Lenda” e Moya, estávamos exaustas e descansávamos em nosso alojamento... Pelo menos eu estava tentando descansar!
— Mary, é a terceira vez que vocês escova os cabelos... E que cheiro é este?!
— Você gostou? É um óleo perfumado que ganhei de meu amigo azulzinho! Sabia que este óleo também é um bom cicatrizante?
— Você está se referindo ao prisioneiro delvian? Não me diga que é aquele monge?!
— É!... Consegui convencer o capitão a evitar que o mandassem para a colônia penal...
— Ainda não entendi o por quê deste seu interesse naquele inútil!
— Me deixe ver como está sua perna!... O óleo vai evitar que fique uma cicatriz feia...
— Minha perna está muito bem... E as cicatrizes são marcas da honra de um guerreiro. O capitão tem muitas... Ele é o maior guerreiro que eu conheço!
— Falando no capitão... Uma coisa ainda me intriga... Uma lesão no nervo paraforal pode levar a morte em até 65 arns. Mas por que ele parecia está tão fraco em menos de vinte Arns?
— Não sei... Talvez por causa da perda se sangue ou pelo fato dele não ser mais tão jovem... Ele tem mais de 60 ciclos de vida!...
Antes que Mary fizesse mais uma pergunta idiota, o capitão entra em nosso alojamento, de novo, sem avisar...
— Eu não sou tão velho, Oficial Lux!
Ele me repreendeu mas parecia muito bem disposto e Mary, mais uma vez, beirava a insubordinação ao se referir ao capitão por um apelido ridículo...
— Micky, você tem que aprender a bater antes de entrar!... E se nós estivéssemos sem roupa?!
— Isto não seria nenhum problema para mim!!!
— Ah!... Sei... Seu ferimento? Já cicatrizou?!
— Sim... E muito bem! Graças aos seus cuidados! Agradeço a vocês duas por terem salvado minha vida!
— Não precisa agradecer, capitão! Apenas cumprimos o nosso dever...
— Não fiz nada e fui a única culpada por tudo que aconteceu. Karla foi quem arriscou a vida dela para conseguir trazer as células até você!
— Se eu estivesse sozinho naquela rocha, teria morrido de hipotermia antes do envenenamento. Pare de se menosprezar! Infelizmente, não temos mais nenhuma pista do paradeiro de Crichton. Não podemos mais dedicar tanto tempo nesta investigação! Nossos informantes só poderão nos contatar em caso de emergência. Minha insistência em permanecer neste setor já está levantando suspeitas. O curso para o próximo setor já foi marcado...
— Pelo menos conseguimos falar com o Piloto de Moya. Tenho esperança que ela não tenha sido abandonada permanentemente por Crichton. Eventualmente, eles se encontrarão de novo e a “Lenda” ficará sabendo que eu estou com vocês e vai querer saber como vim parar aqui... A boa e velha curiosidade humana pode me salvar.
— Então, que não precisaremos ir atrás dele, ele virá até nós! Temos que voltar a nossa rotina... Pelo nosso bem!
Ele saiu de nosso alojamento com uma expressão bem mais séria e triste do que aquela que tinha quando havia chegado, Mary pegou seu tablet e digitou até adormecer.
Nossa nave estava em órbita de uma antiga colônia sebacian para troca de pessoal não essencial. Mary havia amanhecido agitada e me pediu para ensiná-la a lutar e melhorar sua pontaria. Aquilo não me parecia nada normal para os padrões dela:
— Karla, você é uma ótima atiradora e sabe muito bem como se defender numa luta corpo a corpo. Quais são as chances de você se tornar minha mestra? Preciso parar de me sentir tão “donzela em apuros”! E além do mais, preciso passar menos tempo na Ponte... Extravasar!
— Por que às vezes penso que os meus micro tradutores pararam de funcionar quando você está falando?! O que é uma “donzela em apuros”?...
— Você me entendeu, Karla! Me ensine a lutar e atirar... Por favor!!! Quando MIcky perguntar o porquê do meu “sumiço”, peça permissão para me incluir do programa de treinamento para Marauders e que eu preciso aprender a me defender...
— Estranho... Você nunca se preocupou com a opinião dele antes! E você não leva o menor jeito para ser guerreira!...
— Você vai me ensinar ou não?!
— Está bem. Vou treiná-la se, o capitão autorizar!
— Obrigada, Karla!!! Sei que ele vai autorizar...
Ela me abraçou e comemorou saltando como uma criança...
Escolhi um armazém desativado num setor pouco movimentado da nave para iniciar o treinamento com armas. Testamos todas as armas de nosso arsenal para saber qual ela achava mais adequada e, para minha surpresa, ela conseguiu acertar todos os alvos usando o rifle de pulso e não a arma convencional.
— Eu disse que esta sua arminha não era de nada!!
— Infelizmente, um rifle não é fácil de se esconder sob o casaco!
— É... Isso é verdade! Mas é sempre bom ter outras opções!
Mary já atingia 85% dos alvos, mesmo aqueles em movimento quando iniciamos o treinamento em técnicas de luta. Ela já conhecia alguns golpes de artes marciais da Terra o que facilitou bastante o meu trabalho. Aprimoramos seus movimentos e suas finalizações durante mais um ciclo até que um dia, Mary conseguiu me derrotar em uma luta! Pela primeira vez na vida, senti orgulho de alguém...
Apesar do sucesso de seu treinamento, ela parecia triste. Ela parou de olhar os registros visuais da Terra que tinha em seu tablet e apenas ouvia músicas durante nossas horas de descanso.
— Mary, o que está acontecendo com você?
— Estou bem!... Por que?
— Não estou reclamando, mas você tem falado tão pouco! Até parou de tentar escovar os meus cabelos!...
— Você parece não se importar em melhorar a aparência! Eu tenho muito o que aprender sobre os padrões de estética de vocês!!
— Você parece triste, e tenho certeza que a causa não é um cabelo embaraçado!
— Karla, nunca pensei que você se importasse com meus sentimentos... Eu tenho pensado muito em minha situação... Só isso! Como as chances de voltar para casa me parecem cada vez menores, tenho que decidir o que fazer de minha vida. Não se ofenda, mas ser uma pacificadora mal encarada e mal amada por toda a galáxia não é o que planejei para minha vida! Sempre sonhei em ter uma carreira como cientista e astrobióloga, talvez, quem sabe, até ganhar um prêmio Nobel. E, um dia conhecer alguém, me casar, ter filhos... Você sabe...O normal!
— Você não está feliz com tudo que viveu e aprendeu conosco? Você já foi elogiada até pelo comandante Dax!!! Isto é muito mais que um pacificador mediano jamais sonhou...
— Karla, você já se apaixonou? Já pensou em se casar...
— Nem mesmo sei o significado da palavra “Apaixonou”. Já tive alguns homens... Todo mundo precisa se recrear, às vezes! E se casar for o que eu estou pensando, este tipo de relacionamento é proibido pelo regulamento da Frota. As procriações das sebacians são designadas e sua prole é treinada desde a tenra infância para serviço militar longe dos pais biológicos.
— Definitivamente, não quero isto pra mim...
— Mary, você já pensou em se recrear com algum de nossos homens? Seria bom para seu equilíbrio emocional! Ou você se acha superior demais para nós?!
— Karla, os sebacians machos são idênticos aos humanos machos. Vi alguns bem atraentes! Mas não me vejo na cama com nenhum deles apenas para aliviar a tensão!
— Isto não é prático. Todos usam os outros em prol da melhora de sua eficiência!
— Karla, desde que cheguei não vi você sair com ninguém! Você sabe se o capitão também tem se “recreado” com alguém da tripulação?
— O que o Capitão Braca faz em seus momentos de folga não é da minha conta!
— E vocês já tiveram alguma coisa?!
— Mas que perguntas são estas, Mary? Nunca me deitei com ninguém desta nave... Tive um homem em outra nave. Nós tínhamos muitos interesses em comum. Ele me agradava! Mas quando fui transferida para a Tarvas, perdi o contato com ele. Outro dia soube que ele foi convocado para lutar contra alguns sebacians rebeldes no planeta natal, mas não sei se ele voltou vivo da missão. Seu nome era Tarnyn.
— Você não sente falta de Tarnyn?! O que ele significava para você?
Esta conversa já estava ficando muito estranha!
— Éramos muito próximos... Mas, acho que nunca seríamos mais do que parceiros na recreação... O amor sempre traz problemas!
— Sinto muito que pense desta maneira, minha amiga! O amor é o que torna todo o sofrimento da vida, tolerável e muitas vezes, até os problemas ficam menores... Mudando de assunto: Você notou que o capitão não vem nos visitar a mais de dois meses?!
— Ele deve ter os motivos dele! O Comandante Dax é quem tem sido o motivo de seus problemas. A todo momento ele questiona suas ordens... Isto não é bom!!!
— Devemos ajudá-lo no que for possível! Vou voltar a ocupar o meu posto na ponte por tempo integral...
— A mais de um ciclo e meio que meus espiões não nos contatam. Vou enviar um comunicado criptografado em freqüência segura para Moya para todas as direções. Com sorte, o piloto a receberá antes que a velhice a faça desistir de tentar voltar para casa.
— Uma mensagem na garrafa? Boa idéia... Por que não pensamos nisso antes?!
— Não sei o que é uma “mensagem na garrafa” mas, acho que você entendeu o plano!
6º Cap.
No dia seguinte, Mary ficou em seu posto, e Dax pareceu estranhar sua postura tão decidida, diferente dos meses anteriores. O capitão ficava atento a todos os movimentos de Dax e notou seu interesse crescente em Mary, o que o deixou especialmente tenso. Imaginei que ele pensasse que o comandante desconfiava que Mary não fosse sebacian! Mary me confessou que temia que ele a chamasse para se recrear com ele e me pediu para ensiná-la como deveria se recusar da maneira correta!
— Mary, se algum homem, principalmente os de posto superior ao seu na hierarquia, te chamar para o seu alojamento, diga a ele que você já foi escolhida pelo capitão.
— Sim... Você tem certeza que dizer isto vai convence-lo a largar do meu pé?!
— Nem mesmo o comandante Dax se arriscaria a se indispor com o Capitão por causa de uma mulher!
Mary pareceu ficar muito satisfeita com minha sugestão. No momento oportuno, ela informou seu pequeno plano para se livrar do assédio de Dax para o Capitão e... Ele concordou! E para tornar a mentira ainda mais convincente, ele fazia questão que Dax estivesse observando quando ele se aproximava de Mary e a tocava nos cabelos discretamente e Mary se mostrava, disponível ao sorrir.
Nos dias que se seguiram, Mary se tornou ainda mais próxima do capitão e Dax mantinha distância ou se dirigia a ela apenas quando a situação exigia sua interferência direta. Numa dessas situações, a aproximação de um cargueiro scarran não autorizado foi primeiro detectada pela varredura de rotina feita pelos sensores operados por Mary, o capitão havia se ausentado da ponte. O protocolo exigia que Mary relatasse a ocorrência ao oficial superior mais próximo: O comandante Dax. E ele, é claro, se aproveitou da situação! Permaneceu, desnecessariamente, ao lado dela durante todo o procedimento de alerta amarelo. A nave teve que ser abordada e a tripulação provou que o silêncio nos comunicadores se deveu a um mal funcionamento no sistema. O capitão recebeu uma advertência e sua nave foi escoltada até a fronteira do território scarran. Após o fim da crise, Dax falou algo no ouvido de Mary e saiu da ponte com um sorriso sinistro no rosto. Mais tarde ela me contou tudo o que aconteceu:
— Karla, estou com medo daquele magricela do Dax! Parece que ele está esperando só um momento de distração de Micky para me dar um bote! Ele não desistiu de tentar me levar pra cama dele... Senti o hálito nojento dele quando ele se aproximou de mim e disse que “logo, nós dois teremos bons momentos juntos e o capitão será obrigado a me entregar para ele!” E se o Alto Comando me designar para ele no próximo ciclo de reprodução? O que eu faço? Se eu derrubá-lo vou direto para a corte marcial!!! E se ele descobrir sobre mim?!...
— Não se precipite, Mary! Ele é um covarde... Mesmo que ele desconfie que você não seja sebacian ele não poderá se aproximar de você para conseguir provas. O capitão não é um tolo. Conhece bem as táticas deste psicopata. Quando um pacificador fica por mais de 20 arns próximo de um alienígena não-aliado, ele pode ser considerado “Irreversivelmente Contaminado” e ser mandado para o exílio.
— Eu estou com vocês a mais de 3 ciclos!! Se ele provar sua teoria, você, o capitão e todos os tripulantes que servem em postos próximos do meu, poderão ser penalizados. Que utilidade isto teria para ele além de tomar o comando da nave? Temos que ser ainda mais espertos que ele.
Mary e eu voltamos para a ponte com um plano se formando na cabeça dela. Mais uma vez ela teve que esperar por um bom pretexto para poder se aproximar do capitão sem chamar atenção de Dax e seus aliados da ponte. Quando ela entregava o relatório das últimas varreduras do sensor, ela contou a ele o que aconteceu em sua ausência, e eu o vi quase perder a calma que lhe é característica. O capitão ouviu atentamente o plano de Mary para acabar com as ameaças de Dax... E voltamos para o alojamento. O que ela me pediu depois me surpreendeu:
— Karlinha, preciso pegar algumas de suas roupas sujas... Urgh! Estas aqui estão quase andando sozinhas!!!
— Tenho medo de perguntar para que você vai precisar de minhas roupas sujas!
— Dax quer muito se divertir comigo, então ele vai se divertir! Pelo menos será o que ele vai pensar que aconteceu!
— Não estou entendendo! O que isto tem haver com minhas roupas?!
— Me lembrei que tenho um amigo que possui “um super poder”... Você se lembra do delvian? Zohram é um Pa’u, um sacerdote delvian 11º nivel. Ele pode até induzir sonhos e pensamentos na mente de outra pessoa, e melhor!... Ele concordou em me ajudar com este probleminha!!! Ele também não gosta nem um pouco daquele imbecil. Chegou a hora de fazer uma visitinha ao Comandante Dax... Ah! Sua roupa vai servir para espalhar o DNA sebacian pelo corpo e pela cama do “Dom Juan de araque” caso ele realmente suspeite que não eu seja uma irmã de espécie!
— Finalmente, o delvian servirá para alguma coisa e mas, infelizmente vou ter que incinerar uma boa muda de roupas... Que nojento!!!
Naquela noite, Mary não dormiu em nosso alojamento.
Na manhã seguinte, o comandante Dax era só sorrisos e tapinhas nos ombros. Estranhamente, ele evitou olhar para Mary que fazia seu trabalho normalmente... Outro que parecia feliz e até meio distraído era o capitão Braca! Mas ele não deixava transparecer seu estado de espírito quando Dax estava por perto. Parece que o plano deu certo! A única coisa que não previa, foi que Dax não havia solicitado nenhuma análise de DNA no laboratório!...
Mary só falou rapidamente comigo durante a hora da refeição:
— Tudo foi mais que perfeito nos aposentos de Dax! Ele não está com um ótimo humor?!
— Está mesmo, até demais! O delvian o fez pensar que você é algum tipo de atleta do sexo?
— Pelo contrário: Eu sou uma péssima amante!
— Não entendi! Por que ele parece tão feliz?
— A única coisa que ele pretendia, era provar para o capitão e para ele mesmo que ele seria o primeiro da nave a me levar para a cama. Dax é mais machista e estúpido do que eu imaginava! Tem mais uma coisa: Descobri que ele tem uma estranha relação com um scarran desertor chamado Te’xar. O capitão já tem um plano para flagrá-lo no ato de traição. O comando dele na Tarvas não vai durar muito tempo!
— Então é por isso que o capitão esta tão feliz!!!
— Ahm!...É... É por isso! Te vejo a noite... Até...
— Onde você vai?
— Voltar para o meu posto, é claro! Não quero receber nenhuma reprimenda.
Como Dax tinha contato com Te’xar? Ele está morto! Ou será que este foi mais um truque de Makus?! Ele não perde por esperar.
7º Cap.
Os dias que se seguiram foram relativamente tranquilos e Mary estava passando cada vez menos tempo no alojamento. Estávamos na órbita de um planeta pacífico nos domínios dos Pacificadores. A nave estava passando por uma vistoria e manutenções de rotina e toda a tripulação foi liberada para uma licença de dois dias. Mary e eu nos vimos apenas na tarde do primeiro dia de licença e ela estava cantando uma canção que falava de amor! Grande novidade...
— Mary, se alguém ouvir você cantando isso, vai achar que você enlouqueceu!
— Karlinha, eu só não enlouqueci por causa da amizade de vocês e por causa de minhas músicas. Prometo que não vou fazer nenhum show para a tripulação. Nunca ouvi nenhuma canção sebacian! Você conhece alguma?!
— Só uma que ouvi quando era criança...
— Cante para mim...
— Você não gostaria de ouvir uma canção sobre uma deusa arrogante que fazia seus fiéis sofrerem!
— Sério?! Que triste!... Deixa pra lá!... Vou te ensinar algumas das melhores canções da Terra. Ouça esta aqui...
Ela colocou uma espécie de fone em meus ouvidos e ligou o tablet. A canção falava de uma fantasia!
Unconditional, unconditionally
I will love you unconditionally
There is no fear now
Let go and just be free
I will love you unconditionally
— Você sabe que este tipo de coisa não existe, não é?!
— Como você pode ter tanta certeza, Karla?! Você mesma disse que nunca amou ninguém em sua vida! Vou deixar meu tablet com você. Pode ouvir e ver o que você quiser. Vou dar uma volta por aí... Depois vamos conversar sobre pilotagem de Prowlers. Amo você, irmãzinha!
Ela realmente andava ainda mais esquisita que o normal. Nem mesmo falava de suas varreduras a procura por leviatãs. Como não tinha mesmo nada para fazer, fui olhar os arquivos no tablet da humana. Imagens de pessoas vestidas em macacões e capacetes da IASA. Sorrisos... Sorrisos...Humanos com caras estúpidas abraçando Mary. Um casal de idosos e um jovem, provavelmente sua família! Imagens de paisagens bucólicas, oceanos vistos do espaço... E uma me chamou a atenção: Ela e o capitão, juntos em nosso alojamento! Por que ela teria esta imagem em seu tablet?! Não pode ser...
A nave estava quase vazia. Apenas o pessoal da segurança e da manutenção circulava pela nave. Estava observando os primeiros transportadores que traziam os tripulantes substitutos quando meu link direto com os sensores alertou sobre uma nave não programada se aproximando de Tarvas. Era um pequeno cargueiro nebari desarmado que pedia permissão para aportar! Imediatamente, contatei o capitão:
— Capitão Braca, uma nave nebari não programada acaba de pedir permissão para atracar. Achei que gostaria de saber...
A resposta demorou mais de 30 microts...
— Oficial Lux, fez muito bem em avisar! Estamos a caminho...
Estamos?!
O capitão chegou a tempo de saber o motivo da visita inesperada da Nebari. Era uma negociante pedindo suprimentos médicos em troca de óleo Chakan. Nunca havíamos visto óleo de tão boa qualidade. Ele aumentaria a eficiência e o tempo de uso de nossas armas em mais de 30%. É claro, a proposta interessou, e muito o nosso oficial técnico chefe. Enquanto o óleo era descarregado e a lista de suprimentos solicitada era separada pelos técnicos médicos, a nebari esperava no refeitório onde Mary e eu, costumávamos fazer nossas refeições juntas. Era uma fêmea pequena, esguia, de movimentos fluidos e sorriso fácil...E parecia procurar por alguém.
Quando Mary chegou, foi imediatamente para a mesa onde eu estava e segurando uma enorme bandeja de cubos protéicos coloridos:
— Onde você acha espaço para colocar tudo isso?
— Estou com muita fome! Você não?!... A nebari do óleo é aquela?
— É sim!... Tenho a impressão que eu a conheço de algum lugar.
O Capitão Braca entrou no refeitório logo depois. Conversou rapidamente com um soldado que olhava curioso para a nebari. Depois o soldado foi até a mulher cinzenta de cabelos brancos, informou que o capitão precisava falar com ela e a escoltou até seu gabinete.
— O que será que Micky quer com essa mulherzinha monocromática?!
— Seja o que for, logo vamos saber!
— Sabe de uma coisa? Perdi o apetite... Vou voltar ao trabalho!
Dois Arns haviam se passado depois da partida da misteriosa mulher cinzenta e Mary ainda não estava com o melhor dos humores pois, arrumava suas coisas furiosamente.
— Quer parar de bater nestes travesseiros?! O que foi que eles te fizeram?
— Os travesseiros?... Nada...
O comunicador tocou e ela fingiu que não o ouviu.
— O que deu em você?!
— Por favor, atenda ao comunicador, Karla!
Era o Capitão e ele parecia tenso.
— Lux, onde está Storm? Preciso falar com ela. É urgente! É sobre a Lenda!
Ela parou de espancar os travesseiros e tomou o comunicador de minhas mãos.
— O que foi? Ela gritou com rispidez...
— Mary, traga-me os relatórios das últimas varreduras que fez no setor. Acho que alguma coisa passou despercebida.
— Já estou indo... E Karla vai comigo!
Ela saiu em disparada com um tab na mão e eu tive que correr para acompanhá-la. Chegando lá, encontramos o capitão ainda resolvendo a burocracia da transferência de pessoal na ponte e fomos ao gabinete esperá-lo. Aproveitei o momento para tentar esclarecer algumas coisas com Mary.
— Você é patética, Mary Storm!
— O quê?!
— Está em plena crise de ciúmes por causa de uma nebari!
— Do que você está falando, Karla!
— Desde quando você e o capitão estão juntos? Com tantos homens na nave, você tinha que se recrear justo com ele?!
Foi aí que nós começamos a cochichar.
— Está bem... Eu confesso! Micky e eu estamos namorando. E sim: Eu tinha medo de sua reação quando soubesse, por isso não te contei desde o início! Você é uma filha ciumenta de pai viúvo, por acaso?... Parece até castigo!
— E quando exatamente, isso começou?
— Desde o tempo que eu prestava serviço como “enfermeira particular” de vocês dois!
— Eu não acredito!!! Você faz ideia do tamanho do perigo que você o expõe por causa deste relacionamento?!
— Todos nós estamos correndo perigo. Vocês há mais tempo que eu... Desde o dia que resolveram romper com a política fascista dos Pacificadores, vocês correm o risco de serem descobertos e mandados para a Corte Marcial.
— Não mude de assunto. Este... Amor, só faz com que percamos o foco! Pode tira nossa concentração, muda nossas prioridades...
— ...Nos dá mais motivos para continuar lutando e ainda temos o apoio do outro nos momentos difíceis!
— Mas, e quando o Crichton criar o wormhole e você voltar para a Terra? Como você acha que ele vai ficar?! Você não acha mesmo que poderá levá-lo junto com você? Vocês, humanos, não estão preparados para receber seres de outros mundos... Você sabe disso!
Mary, visivelmente perturbada, virou o rosto para a janela e ficou em silêncio.
Quando o capitão finalmente chegou ao gabinete, nos encontrou ainda dispersas em nossos pensamentos.
— Oficiais, o que está acontecendo aqui?
— Está tudo bem, Capitão. Algum de meus informantes entrou em contato?
— Não. A nebari, não veio apenas para negociar óleo Chakan. Ela é conhecida como Chiana, amiga de John Crichton. Moya estava neste setor mas, não conseguimos detectá-la pois seu sistema de camuflagem foi aprimorado para evitar nossos sensores de médio e longo alcance.
Mary saiu do transe neste momento.
— Amiga da Lenda?! Ela sabe onde ele está?
— Ele quer muito ver você, Mary. Vou preparar os documentos para justificar nossa partida... Mary, entre os documentos, está sua promoção. Agora você é uma Marauder e faz parte de minha guarda pessoal...
— Como é?! Eu... Uma marauder?... E se meu uniforme novo intimidar Crichton e sua família?!
Que conveniente!...
— Não se preocupe com isso... Chiana já está ciente de todo o plano! Nos encontraremos no planeta onde deixamos a Blue Horizon em 15 dias. Oficial Lux, acho que seus espiões deveriam espalhar pistas falsas de nosso paradeiro caso Te’xar queira, mais uma vez atrapalhar nossos planos.
— Vou começar a contatá-los imediatamente, Senhor!
— Mary, preciso falar com você...
— É... Sim, precisa mesmo!...
8º Cap.
Os dias que se seguiram, foram tensos e cheios de expectativas. Precauções foram tomadas para que o Alto Comando não suspeitasse de nossa intenção de abandonar a Tarvas. O Capitão Braca deixou seu 1º Oficial, homem de confiança, ciente de que logo assumiria o comando da nave para que ele pudesse tirar uma longa licença. O Monge Delvian Pa’u Zohram e outros dois marauders, também membros do Movimento, foram preparados para a missão secreta ao planeta Maruh, onde a Blue Horizon estava escondida.
Quando deixamos a nave que foi nosso lar por quase 4 ciclos, confesso que senti um pouco de nostalgia e medo do que o futuro nos reservava. Chegamos ao local onde estava o hangar que protegia a preciosa navezinha terrestre e vimos um menino sebacian com aproximadamente 11 ciclos de idade, brincando com o trem de pouso da Blue Horizon. E é claro, Mary levantou o visor do capacete e mostrou o seu lado sensível, de novo:
— Olá, amiguinho, qual o seu nome?
— Meu nome é D’Argo.
— Onde estão seus pais, D’Argo?
Uma mulher com roupas civis surgiu vinda dos fundos do hangar, nos apontou uma arma de pulso:
— Filho, vá para perto dos outros... Sua mãe cuida disso!
O Capitão imediatamente reconheceu a mulher:
— Oficial Aeryn Sun... Não temos a intenção de fazer mal a ninguém. Isso é desnecessário.
— Há muitos ciclos que não me chamam de Oficial, Braca! Vejo que você ainda não deixou os Pacificadores... Diga a todos de seu pelotão que deixem suas armas aqui.
— Façam o que ela pediu... Ontem foi nosso último dia como Pacificadores, Aeryn! Estamos do seu lado...
— Qual de vocês é a humana?
— Sou eu, Senhora Crichton. Meu nome é Mary Storm... Por favor, preciso muito falar com seu marido!
Ouvimos risadas histéricas vindas de trás da nave. Um homem com barba rala, olhos azuis e um sorriso irônico no rosto se aproximou de nós.
— Senhora Crichton... Adoro o som destas palavras?! Senhorita Storm, você tem uma bela nave aqui!!! Braca... Que surpresa!!!
Ele foi direto até Mary, a abraçou chegando a levantá-la do chão. Isto a deixou totalmente constrangida. E depois, foi até o Capitão o sacudiu pelos ombros.
— Obrigado por ter trazido minha irmãzinha de espécie, Braca... Você tem que me contar em detalhes como chegou neste canto do universo, menina!!!
— Crichton, é bom vê-lo novamente... Ele disse, se recompondo do constrangimento e depois apresentou o resto de nossa tripulação.
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— Senhorita Storm, se continuar me olhando assim, vou ficar sem jeito! Nunca imaginei que veria a única mulher humana neste canto do universo, vestida como um soldado tão mal falado. Tinha que ser uma Marauder?! Sem ofensas, pessoal...
— Pelo que eu sei, esta foi a primeira e última missão como marauder. Além do mais, eu seria uma péssima guarda costas.
Disse Mary tirando o capacete e as luvas do uniforme.
— Puxa... Você é mais bonita que todas as marauders que já vi! E desde quando Braca precisa de guarda-costas?! Você não era o fiel escudeiro de Scorpy, Braca?!
— Ele se refere a Scorpius?... O cara da cadeira Aurora?! Mary perguntou ingenuamente e o capitão desconversou:
— Crichton, você ainda possui a máquina que cria wormholes? Mary precisa voltar para a Terra. Com o tratado de paz com os Scarrans, a Terra está protegida contra uma invasão, pelo menos, por enquanto.
— Sinto muito, senhorita Storm. A máquina foi destruída e o conhecimento que havia em minha mente foi quase todo perdido.
— Então toda a nossa busca foi em vão?!
— Talvez, não! Vocês têm as coordenadas do local onde a esta bela nave foi vista pela primeira vez?
Esta foi a primeira vez que me dirigi a Lenda em pessoa:
— Todos os dados de que precisa, foram extraídos do banco de dados da nave Charrid que capturou e assassinou quase toda tripulação da Blue Horizon. Tenho tudo aqui em meu tab!
— A eficiência Pacificadora sempre me surpreendendo, obrigado Oficial!...
— O nome é Lux, senhor!
— E eu sinto muito por seus colegas, Senhorita Storm.
— Pode me chamar de Mary, senhor Crichton...
— Isso!...Vamos acabar com estas formalidades, me chame de John, irmãzinha! Eu nem tinha mais esperanças de ver outro ser humano nessa vida! Aeryn, querida! Chame os outros e avise ao Piloto que estamos voltando para Moya e que precisaremos preparar alguns quartos para nossos convidados.
— John, você tem certeza de que é uma boa idéia?
— Depois de tudo pelo que passamos, sei que Braca não tentaria nenhuma bobagem, não é camarada?!... E se tentar, saiba que aprendi muitos truques nesses ciclos de vida no espaço!
— Um dia vou conseguir provar que estou do seu lado, Crichton... Me ajude a acabar com a tirania dos pacificadores nesta galáxia. A resistência possui membros por todo o setor e todos os dias, mais se juntam ao Movimento, inclusive, ex-pacificadores como Lux e eu. Para eles, você é o nosso maior símbolo de liberdade...
— Fico lisonjeado, mesmo, mas eu já me aposentei, Braca! Minhas prioridades são proteger minha família, ver meu filho crescer e manter minha turma longe de encrencas. E você, depois que salvar a galáxia, já pensou o que vai fazer da vida?... E o que causou tamanha mudança em você?!
Ele não pode responder àquelas perguntas.
Nossas naves, inclusive a Blue Horizon, já estavam atracadas no hangar da grande leviatã Moya.
Mary e o capitão ficaram algum tempo afastados e pouco se falavam, se comunicavam apenas com olhares. Mas Crichton percebeu que apenas eles se comunicavam desta maneira.
O Piloto marcou curso para o local onde havia encontrado Mary e os outros haviam se recolhido e eu, me ofereci para ajudar Aeryn caso ela precisasse.
A nave estava totalmente camuflada quando chegamos, e “A Lenda” pediu a Mary que lhe dissesse tudo que se lembrava sobre a manobra de retorno feita pelo Comandante Monteiro da Blue Horizon.
— Mary, a manobra que o Monteiro fez, foi muito similar a que eu fiz, só que o planeta que foi circundado foi Urano e não a Terra. Urano tem uma massa muito superior a massa da Terra o que causou uma aceleração também muito maior do que aquela que a Farscape alcançou. Então, a tempestade magnética é a única constante na história toda... A boa notícia é... O Piloto sente as perturbações no tecido espaço-tempo e ele me disse que ainda há emanações de partículas sub-espaciais neste ponto. A má notícia é que com o conhecimento que possuo hoje, posso apenas re-abrir um pequeno e instável wormhole e não há garantias de que o outro lado se abra e se abrir, que seja no sistema solar da Terra. Precisaria fazer muitas simulações para finalizar os cálculos e isto demanda muito tempo!
— Eu entendo! Não vou fazer o papel da "egoísta sem noção"! Você não precisa fazer isso, John. Moya está camuflada, mas esta região é muito perigosa. Não posso pedir que se arrisquem por minha causa. Se o wormhole se abrir, nem que seja por poucos Microts, posso enviar uma transmissão com meus arquivos e diários para a Terra. Minha família e a IASA saberão que estou viva e bem... Sem arrependimentos!
O Capitão se levantou surpreso com a decisão de Mary.
— Isto significa que você está desistindo da Terra e de sua família, Mary! E sua pesquisa, seu prêmio Nobel?
— Sei que minha pesquisa também pode ser útil para o Movimento, não preciso mesmo de um Prêmio Nobel e os meus sonhos mudaram faz algum tempo! É claro que, se algum dia, conseguirmos abrir um Wormhole estável... Não estou desistindo de tudo, apenas adiando, por enquanto! Me perdoem por eu ter feito vocês passarem por tudo isso!
Crichton interrompeu a estranha discussão com um resmungar quase indecifrável:
— Gente, eu não estou acreditando nisso!!! Sei que tá rolando uma carga enorme de emoções por aqui, pessoal! Eu vou fazer o possível para conseguir aquele wormhole, Mary, mas vou deixar que você decida o que fazer com ele. Braca, camarada!...
— Sim...
— Posso ter uma palavrinha com você em particular?! Eu não estou acreditando nisso?!
— Não está acreditando em que, Crichton?...
Crichton não respondeu a pergunta e o puxou para fora da ponte.
Não sei o que eles conversaram, mas quando eles voltaram, o capitão parecia mais tranquilo. Foi como se ele tivesse tirado um enorme peso das costas. Até Mary percebeu isso...
O pequeno D’Argo entrou correndo na sala e chamou seu pai.
— Papai, a mamãe quer saber se você já terminou com a pesquisa por hoje. Ela disse que Moya precisa descansar.
— Já estamos de partida, amigão! Sua mãe poderá desligar a camuflagem quando chegarmos ao cinturão de asteróides deste sistema. Piloto, o sistema de comunicações está com algum problema? Por que Aeryn me mandou o garoto de recados?
— Não, comandante... Os comunicadores estão funcionando dentro dos parâmetros...
— Ah!... Então isso tudo foi porque o cara está com saudades de seu paizão aqui...
Então Crichton pegou o menino e o jogou nos ombros.
Nunca tinha visto tantas demonstrações de afeto em minha vida! Será que algum dia me acostumaria com isso? Crichton pediu licença a todos e se retirou com o menino que parecia se divertir muito mesmo estando pendurado de cabeça pra baixo.
Depois que terminamos nossas refeições, seguimos para os alojamentos designados para nós. No caminho para o meu alojamento, vi Crichton cumprimentar Zohram e juro que o vi chorar... Ele dizia que, desde a morte de sua amiga Zhaan, ele era o primeiro delvian que havia entrado em Moya em 10 ciclos.
Também vi Mary e o capitão entrarem juntos no alojamento dele que ficava bem ao lado do meu e tive um mau pressentimento. Eles começaram a conversar sobre a decisão de Mary sobre sua volta a Terra. Mesmo colocando um travesseiro na cabeça, foi possível ouvi-los:
“Micky, não vou permitir que Crichton arrisque a segurança de sua nave e sua família por causa deste bendito wormhole.”
“Mary, pense no que vai ser sua vida aqui conosco. Sempre se escondendo. Sempre fugindo..."
“ Você ouviu o que A Lenda disse?... Que mesmo que ele conseguisse gerar um wormhole ele seria instável?... E... Eu poderia passar... E a passagem se fechar atrás de minha nave... A ideia de que eu nunca mais pudesse ver você e a Karla me causa até uma dor física! Meu lar não é um lugar, é uma pessoa: Você!... Karla é como uma irmã para mim e eu amo você, Miklo Braca.”
“ Também amo você, Mary Storm. Você quer casar comigo?”
Ela riu e eu pensei que a discussão havia acabado com uma negativa dela. Mas, depois de alguns microts, ela respondeu:
“Claro que quero... Mas, com quem você aprendeu sobre casamento?... Foi com o John, não foi?! O que mais ele andou te ensinando? E o que foi que ele disse a você quando te puxou da ponte daquele jeito?"
“Ele só me disse que você me olha do mesmo jeito que Aeryn o olhava e que sabia deste o início que nós estávamos juntos... E... que eu deveria ser grato por você ter decidido ficar! Depois ele me mandou parar de ser um idiota! E além do mais, eu andei pesquisando alguma coisa sobre a cultura da Terra...Não tenho um anel para colocar no seu dedo ainda, mas logo vou conseguir um”.
“Espere! Você já notou como estas paredes são finas como membranas? E, eu acho que são membranas! E se Karla estiver nos ouvindo?”
“ Isto seria um problema pra você?”
“ Ahm... Não!!!” Está ouvindo, irmã?! Vamos nos casar!...
— Sim... Eu não sou surda, Mary!!! Congratulações...
Senti até um aperto no coração e uma enorme vontade de abraça-la quando a ouvi dizer que eu sou como uma irmã pra ela, mas quando as primeiras risadas, os primeiros suspiros e os primeiros beijos começaram, também senti que era hora de procurar outro quarto. Naquele alojamento, com certeza, seria impossível dormir em paz e silêncio naquela noite!
Cap 9º
Nos dias felizes que seguiram, treinamos pilotagem e ataque com os prowlers, pesquisamos incansavelmente sobre os Wormholes e eu, estou aprendendo a ser mais tolerante com os “casais apaixonados” da nave. Para piorar, um tal de Jothee, meio Luxan meio sebacian e namorado de Chiana, chegou cheio de presentes para ela, Aeryn e o pequeno D’Argo. Só tinha meus momentos de paz quando estava com o Piloto. Este sim, um tripulante imprescindível, centrado e com vasto conhecimento dos fenômenos espaciais. Aprendi com ele em um mês o que levaria 10 ciclos para aprender na Frota.
A felicidade foi abalada no dia que tivemos que conseguir mais suprimentos. Interceptamos transmissões dos pacificadores alertando sobre a leviatã Moya e o recrutamento de terroristas feito pelos desertores e traidores dos Pacificadores. Felizmente, o nome do Capitão ainda não havia sido citado. Tive que falar com Ka Makus, precisava confirmar sua traição em nosso último encontro:
— Makus, precisamos de mais suprimentos médicos e estamos muito longe de uma base sebacian. Consiga com seus fornecedores os itens que estou enviando e depois nos encontre no local de costume!
— Farei o que me pediu, Oficial Lux! Mas precisamos discutir sobre meus honorários...
Tomei a precaução de deixar Tarts e Merka, os dois marauders que recrutamos, em alerta. Mas Te’xar nos surpreendeu antes de sair de Moya. Sua nave pequena entrou em Moya imediatamente após ela sair da camuflagem no campo de asteróides! Mas como ele soube de nossa localização?!
Três scarrans e quatro charrids desembarcaram e foram atacados por DRD’s. Mas os pequenos robôs foram esmagados pelos reptilianos. Tivemos que pegar nossas armas depois de meses de relativa tranqüilidade.
Os invasores se aproveitaram de nossa distração com os preparativos para a busca de alimentos e suprimentos médicos e a redução de gasto energético de Moya para invadir. Esta foi a primeira que Mary teve que encarar uma situação real de perigo.
— Mary, mas que arma enorme? Não tinha nenhuma menos pesada para suas delicadas mãos?
Ironizou Crichton ignorando o olhar de desaprovação de sua esposa Aeryn.
— O que posso fazer?! Foi com esta arma que consegui acertar quase 100% dos alvos.
— Quase 100%?...Nenhuma é tão eficiente quanto a minha Wynnona...
— Você deu nome de mulher a uma ceifadora de vidas tecnológica? Você é mesmo doido, John...
Aeryn que estava ao lado do marido completou:
— Ele é doido!... Não é divertido?!
Encontramos os primeiros invasores charrids tentando invadir a sala do Piloto. Mary os derrubou facilmente com seu rifle e depois correu para perto do Capitão Braca.
— Micky, acho que vou precisar de terapia por muitos ciclos. Matei aqueles sujeitos... E não me sinto nada melhor depois desta... Vingança pela morte de meus amigos!
— Querida, nós conversamos sobre seus sentimentos depois. Agora temos que exterminar uma praga do corpo de Moya!
— Ok... Vamos terminar o serviço! Mas depois você vai ter que me ouvir...
Um dos scarrans pegou o Merka e o deixou agonizando. Logo depois, Jothee o acertou com uma espada Qualta, cortando sua mão! Te’xar conseguiu desarmar o capitão e usou ondas induzidas de calor para derrubá-lo. Mary tentou defendê-lo mas foi jogada violentamente contra a parede. Mas antes de perder os sentidos ela alvejou a cabeça do monstro que torturava o capitão. Os dois charrids sobreviventes partiram para cima de mim. Abati um deles e o outro sacou uma faca serrilhada e feriu meu braço, mas consegui me livrar do golpe que me mataria segurando seu braço mas ele tentou me estrangular com o braço livre. Estava ficando cada vez mais difícil respirar... Ouvi vários disparos e gritos vindos do corredor, e o último e mais forte scarran, caiu ferido mas logo se levantou, golpeou Aeryn, Jothee e Tarts e depois veio terminar o serviço que o charrid havia começado. A situação não parecia nada boa... Minha última visão antes de desmaiar foi Crichton e dois Marauders chegando e abatendo os últimos inimigos.
Acordei no ambulatório de Moya sem saber quanto tempo havia se passado. Meu primeiro pensamento foi para Mary e o Capitão Braca.
Aeryn havia deixado Chiana e Zohram cuidando de seu filho. Me arrependi por também não ter prendido Mary numa cela para a própria segurança dela.
Gritei o nome de Crichton...
— Crichton, por favor, preciso ver Mary e Braca!
— Calma aí, moça!... Não se levante ainda... Braca está bem, Lux! Ele está com Mary, mas ela ainda não acordou... Infelizmente, perdemos o Merka! Eu sinto muito...
— E pela primeira vez em minha vida... Eu me senti indefesa e inútil... E chorei!
Mas depois do choque inicial imaginei de onde haviam saído aqueles dois outros Marauders! Quando consegui me sentar ainda meio tonta, um dos misteriosos Marauders veio até mim e me olhou curioso ainda sem tirar o capacete.
— Obrigada pela ajuda, soldado!
— Karla Lux?!
— Como sabe meu nome?
Ele tirou o capacete e eu duvidei dos meus próprios olhos:
— Tarnyn?! Você está vivo... Mas como?...
— Perdoe-me por decepcioná-la, Lux... Você está horrível! Vamos ter que cuidar deste seu braço...
— Tarnyn... Eu não acredito!... Como você me encontrou?!
— Pra falar a verdade, eu também não esperava encontrar você, muito menos nesta leviatã proscrita! Depois que você foi transferida para a Tarvas, comecei aceitar todas as missões de campo que me jogassem! As missões eram as únicas coisas que me faziam esquecer de você... Mesmo que temporariamente...
— Que estupidez! Você ainda pensava em mim? Me admira você ter continuado vivo...
— Você é muito mais do que esta mulher durona e independente. Eu conheço você melhor que você mesma! Sempre soube que você estava destinada a ser uma heroína...
— Uma heroína não precisaria ser salva por um ex-namorado!
— O que é um “ex-namorado”?
— Esta é uma longa história... Agora me ajude a descer desta maca. Quero ver a Mary. Aquela idiota não vigiou a retaguarda como eu a ensinei!
— Você tem até uma discípula?! Isto sim é evolução, Mestra Lux.
O Delvian Zohram estava cuidando dos feridos e logo que me viu, ele veio limpar o ferimento no meu braço. Mary estava desacordada numa maca e Braca não saiu do lado dela. Senti muito medo de perder minha amiga... Sua cabeça estava enfaixada e ela tinha enormes hematomas abaixo dos olhos. Eu esperei por vários arns que ela abrisse os olhos e reclamasse de minha aparência! Mas ela não acordava...
Dias se passaram... O Movimento de Resistência ganhou força quando soube que a leviatã de Crichton havia sido atacada. Tarnyn e seu companheiro revelaram que haviam se juntado ao Movimento, mas Crichton temia que eles fossem apenas espiões dos Pacificadores. Por isso os mantinha permanentemente sob vigilância. Eles disseram que, no dia do atentado estavam patrulhando o campo de asteróides em seu prowler, quando viram a nave charrid e a seguiram a distância. Eles viram quando ela entrou em Moya e suspeitaram de suas intenções. Seus sensores detectaram o início do ataque e eles resolveram ajudar os tripulantes da leviatã. Eu não sabia ainda o que pensar! Mas preferi ser prudente e, “confiar desconfiando” como Mary costumava dizer...
Muitos traidores do Movimento foram descobertos, entre eles Makus. Ele, Te’xar e Dax realmente mantinham contato e uma estranha relação. Eles estavam tentando minar qualquer iniciativa de conciliação entre a Alto Comando pacificador e a resistência. Os traidores foram julgados e sentenciados a prisão. Menos Dax... Sua sentença foi a execução pela Corte Marcial Pacificadora
Vinte dias após o atentado, Mary acordou. E, é claro, reclamou de nossa aparência:
— Micky, Karla, você estão horríveis! Que olheiras são estas?! Quanto tempo eu dormi?
— Mary, vou providenciar um espelho para você! Você está se parecendo com um hynerian!
— Ah, não... Não olhem para mim...
— Karla está apenas sendo engraçadinha... Você está linda, Mary Storm!
Rimos e choramos juntos antes de Zohram nos expulsar do ambulatório.
No dia seguinte, eu estava ajudando Mary a se vestir, mesmo com ela dizendo que já estava bem e que não precisava de minha ajuda, quando recebemos a visita de Zohram. Ele tinha um enorme sorriso no seu rosto azulado!
— Como vai a paciente mais mimada da galáxia?!
— Estou ótima, Zohram, só um pouco sonolenta e com enjôo...
— Eu já disse que não precisamos dela para abrir um Wormhole! Mas ela não me ouve...
— Mary, por favor, sente-se aqui... Preciso falar com você!
— O que foi? É alguma notícia ruim?... Fiquei com alguma seqüela do traumatismo craniano?
— Não, querida, você está melhor que nunca... E esta pequena vida que carrega em seu útero, também! Eu estou tão feliz... Nunca tive a chance de acompanhar a gestação de uma criança híbrida antes... É um verdadeiro milagre!!!
Enquanto o delvian falava sem parar, minhas pernas começaram a tremer e eu tive que me sentar também...
— Eu... Grávida?!... Ai... Meu... Deus...
10º Cap.
Mary ainda não se sentia preparada para dar a notícia para o capitão e eu respeitei sua decisão.
Passamos aquela última semana, vendo Crichton e Mary fazendo cálculos juntos com o piloto e tentando salvar e compactar os arquivos pessoais de Mary no computador de Moya. Todos os não-cientistas e não-terrestres tinham parte do tempo ocioso quando não estavam cuidando da segurança da nave, instalando novos escudos, ampliando o alcance dos sensores, mantendo as armas carregadas de óleo chakan e montando guarda na cela com o último sobrevivente do atentado, o Scarran que teve sua mão cortada por Jothee.
O prisioneiro foi interrogando pelo capitão, mas permaneceu em silêncio. Ele também não comia nem bebia nada que oferecíamos. Mesmo ele estando debilitado, o entregamos a justiça sabendo que sua ficha criminal garantiria que ele ficaria preso e não nos perturbaria mais.
Tarnyn e seu colega ainda estavam em Moya. Logo que Mary os conheceu, ela começou a me importunar com suas insinuações sobre meu relacionamento com ele.
— Karla... Nós estamos falando do mesmo Tarnyn?! Aquele Tarnyn?... O único homem que conseguiu amolecer este seu coração duro? Você não acha que a presença dele nesta leviatã seja um sinal que o universo está conspirando para que vocês fiquem juntos?
— Pura tolice... Você ainda não entendeu que o único interesse dele em mim era a recreação! O “encantamento”, a paixão não faz parte de minha vida! Só da vida de humanas ingênuas...
— Ahm... Esta eu vou pagar para ver!... Logo, teremos o 4º casal apaixonado na nave...
— É melhor você esperar deitada... Será até bom pra sua gravidez!
— Eu estou grávida, e não doente!
— Mary,você tem certeza que quer ter logo este filho?
— Como assim, Karla!?
— Você pode programar a data do parto para quando o Alto Comando cair e os pacificadores pararem com a perseguição... Sei que isso vai acontecer em menos de dois ciclos.
— Humanas não podem controlar o tempo de sua gestação. Então, titia Karla, o bebê vai nascer em menos de 9 meses de acordo o cálculo que Zohram e eu fizemos...
— Como é que é? Humanas não podem controlar suas gestações? Não sei como sua espécie ainda não entrou em extinção!
O dia em que Crichton finalmente tentaria gerar o wormhole chegou. Mary não estava tão ansiosa quanto pensei que ela ficaria, e tudo estava pronto para o envio dos seus arquivos para a Terra. Durante os preparativos finais, o humano começou a falar sobre o dia que conseguiu gerar o wormhole que deu um fim a Guerra Pacificadora.
— Você também estava aqui no dia que a guerra acabou, Braca! Se lembra da cara que Scorpy fez?! Ele pensava que eu iria permitir que toda a frota Scarran fosse mastigada por aquela belezinha, mas eu apenas fiz aquele discurso pacifista e tudo mais... Eles não tiveram escolha a não ser assinar o tratado de paz quando viram que nada restaria para dominar caso eu decidisse manter o Wormhole aberto... Eu me lembro apenas do que a Aeryn me contou depois... Sabe?! Eu estava em coma. Aquela máquina maldita quase cozinhou meus miolos...
— Eu fui testemunha da assinatura do Tratado. Scorpius, se portou com dignidade mesmo que sua vingança contra os scarrans não tenha sido como ele gostaria!
— Você até hoje ainda defende o cara que me caçou e torturou quase até a morte... Ele nunca se importou com mais nada e nem ninguém... Você tem que rever seus conceitos ou pode perder o amor de Mary! Por falar em Scorpius... Por onde anda o cara de couro velho?!
— Ele está morto...
— Morto?!... Não posso dizer que sentirei falta dele!
— Grayza nunca se conformou com o fato de eu a ter tirado do comando e a colocado na prisão por incapacidade de liderança no dia do atentado a base Kartratzy! No dia que ela seria julgada pela corte marcial ela furtou uma arma e atirou em mim. Scorpius usou o próprio corpo como escudo para me salvar... Ele foi a primeira pessoa que me olhou como igual e não como uma ferramenta descartável e foi o mais próximo que tive de um amigo! Não me orgulho de muita coisa que fiz quando era um soldado, mas Scorpius me deu a chance para tentar me redimir...
— Tenho que admitir que isso me surpreendeu! Ele mostrou que não era apenas um monstro sem coração... Ele realmente o tinha como amigo, afinal! Eu sinto muito, Braca...
Mary se aproximou dele sorrindo o tocou no rosto para consolá-lo:
— Sei que aquele soldado que apenas obedecia ordens por piores que elas fossem ficou no passado... Você nunca mais vai ficar sozinho... Eu prometo!
Dizendo isso ela pegou a mão dele, a colocou em seu ventre e o olhou no fundo dos olhos... Ele demorou apenas alguns segundos para entender a mensagem:
— Você não está querendo dizer que está?...
Ela sinalizou positivamente com a cabeça e ele fez aquela expressão de choque. Crichton deu sua risada característica e um tapa nas costas do capitão que quase o derrubou. Acho que ele o estava cumprimentando pela notícia do seu jeito estranho de ser.
— Parabéns, papai Braca!!! Sei que você e Mary serão ótimos pais... Não tão bons quanto Aeryn e eu... Mas bons! D’Argo, você terá um companheiro meio humano para brincar!... Afinal, esta galáxia tem jeito!
Crichton e os outros abraçavam e parabenizavam o casal quando o Piloto avisou pelo comunicador que os computadores Moya estavam prontos para a criação do Wormhole.
— Mary, você terá tempo para começar a montar o quarto do bebê, mas agora temos que criar um buraco negro... Pronta para enviar as boas notícias para sua família?
— Tudo pronto, Lenda! Disse Mary respirando fundo para se refazer de toda a emoção que estava sentindo.
Crichton acionou a sua máquina e vimos um pequeno Wormhole surgir e ficar visível por pouco mais que 20 microts, período que Mary acionou e direcionou o transmissor de dados para o horizonte de eventos do fenômeno. Não tínhamos como ter certeza de que toda aquela informação chegaria a seu destino, mas Mary manteve sua esperança intacta.
Enquanto as mulheres decidiam sobre os preparativos para o casamento de Miklo e Mary aproveitando o período de paz e tranqüilidade, os homens escolhiam o planeta mais seguro para Moya se recuperar de todo aquele estresse da última semana. Ela continuava a ter muito medo de wormholes. Zohram sugeriu um planeta de pesquisa botânica fora do território Pacificado e longe dos setores Scarran e Charrid. Lá, Moya poderia se beneficiar dos poderes curativos das plantas locais e nós teríamos nosso merecido descanso.
Um dia, quando estava indo falar com Zohram sobre uma urticária que havia adquirido ao explorar a mata próxima, vi Mary e o Capitão conversando e se tocando... Como eles não se cansam disso?!
— Isto é o que as pessoas apaixonadas fazem... É carinho, Karla!
Disse Aeryn enquanto me puxava pela gola de meu casaco...
— E uma coisa que eles também costumam apreciar é uma coisa que se chama “privacidade”! Sabe?! Você é como eu costumava ser a uns 13 ciclos atrás. Sempre tentando ficar a distância de sentimentos, evitando se envolver! Como você pode ver, não deu muito certo! Ficar com John, mudou tudo que eu achava que era imutável dentro de mim... Prioridades, crenças, motivações... Foi tudo pro espaço, quando me apaixonei por ele!
— Por que você está me falando tudo isso, Aeryn? Espero que meus amigos sejam muito felizes... Eu disse, enquanto ela continuava a me arrastar para outro lugar.
— E eles já estão felizes... Não estou falando deles e sim, de você!
— De mim?...
— Eu vi como Tarnyn e você se olham! Aceite meu conselho... Fingir que nada está acontecendo não vai ajudar! Vocês não estão mais sob as leis dos Pacificadores... Vocês são livres para ser sentir o que quiserem...
— Aeryn, pode me soltar agora... Tarnyn não vai querem...
— O que eu não vou querer, Karla?! Foi quando vi que Aeryn havia me arrastado até Tarnyn.
— Sei que vocês dois têm muito o que conversar... Tarnyn, se ela tentar fugir, me avise!
— Sim, madame...
Tarnyn me olhou de um jeito estranho o que me deixou ainda mais na defensiva.
— Karla, desde o dia que cheguei, você tem fingido que não houve nada entre nós!
— Você sabe que nós éramos apenas parceiros de recreação...
— Não era o que parecia quando estávamos juntos...
— Pense o que quiser, Tarnyn... Eu tenho trabalho...
Ele não deixou que eu terminasse a frase. Ele me beijou, e eu fiquei sem reação... O que está acontecendo comigo?! Como ele pôde?...
— Eu entendo... Vá terminar sua tarefa! Terminamos nossa... Conversa... Mais tarde!
Na verdade, até me esqueci o que deveria fazer depois de falar com Zohram...
Mary estava tão irritantemente feliz que contaminou grande parte da tripulação, principalmente Chiana. Ela permitiu que a monocromática ouvisse as músicas que tinha em seu tablet e ela começou a dançar como uma louca... Não, ela era louca! Depois chegaram Aeryn, D’Argo, Zohram e Jothee e também começaram a dançar imitando a nebari...
Do you know it's time to let yourself go?
Why don't we just let it show?
Tell me what you're waiting for
'Cause I, I wanna live before I die
Crash and burn and lose my mind
We can set the world on fire
Tonight we can be glorious
We are young at heart and we're free
The world is ours, I can feel the music in me
Glorious, found a love that eyes cannot see
Delirious, oh oh oh oh, oh oh o
Minha única opção foi me juntar a turba de desajustados e a cantar junto com Mary... Aos poucos comecei a gostar desta loucura toda e o constrangimento foi diminuindo... Até sumir. Mary se emocionou com tanta espontaneidade:
— Vocês são meus aliens favoritos, vocês sabiam?!
— Mary, é você que veio do outro lado da galáxia, então você é única alien nesta sala...
— É... Nunca havia pensado desta forma! É verdade... Então eu sou a alien mais sortuda deste universo!!!
John entrou na grande sala onde estávamos trazendo um pacote nos braços e quando viu aquela confusão, deixou o embrulho no chão e puxou Mary para dançar.
— Esta é uma festa digna de uma despedida de solteira de princesa, Mary!!! Você sabe à quanto tempo que não ouço música da Terra! Quem é esta cantora?
— Uma moça chamada Cascada!
— O nome é estranho, mas a música é muito boa... Eu trouxe uma coisa pra você, irmãzinha!
— O que é, John?
— Neste canto do universo é muito difícil achar uma loja de noivas, então consegui isto! Acho que vai combinar com a ocasião!
Ela abriu o embrulho e tirou um casaco branco e longo com detalhes prateados e pequenas flores douradas adornando a gola e as mangas.
— Uau!!! É muito lindo... John... Nem sei como agradecer!
— Que loucura, Aeryn! Você imaginou que um dia nós veríamos o Braca ficar noivo?! Agora sim... Eu já vi de tudo!
— Não me surpreendo com mais nada desde o dia que D'Argo nasceu, John...
Aeryn quis ajudar Mary a vestir o casaco... E eu notei que ela também tinha muito carinho por Mary.
— Sei que você será a mais bela noiva que estes mundos já viram, Mary...
— Obrigada, Aeryn... Por tudo! Nem sei se sou digna de sua amizade! Eu só trouxe problemas...
— Você renovou nossas esperanças e multiplicou nossas alegrias... Estou muito honrada em tê-la como amiga!
— Nada de choradeira, meninas... Mary, além da música, sabe de uma coisa que também sinto falta da Terra? Sinto falta de leite e sorvete... E você?
— Sinto muita falta de meus pais, dos almoços de Domingo, e de tomar sorvete de baunilha vendo um filme na TV.
Enquanto John, Mary e Aeryn conversavam sobre coisas sem importância e os outros ainda dançavam e brincavam, eu os observava... Naquele momento, eu entendi o que era estar “Irreversivelmente contaminado”... Percebi também que nunca, pelo resto de minha vida, permitiria que eu fosse descontaminada... Eu prefiro estar contaminada do que sozinha e infeliz!
Naquela noite, descansando no grande planeta laboratório, decidi que já era a hora de terminar a conversa que havia iniciado com Tarnyn durante a tarde... Algum tempo depois, percebi que os assuntos nunca terminariam... A não ser quando separávamos alguns momentos para o silêncio e recreação... É... Ele continuou a me agradar por muitos ciclos depois disso!
A cerimônia do casamento de Mary e Miklo foi realizado por Zohram sob a copa de uma imensa árvore. Chiana foi nossa maquiadora oficial e se divertiu muito cumprindo esta função. Ela colocou até flores nos cabelos trançados de Mary que vestia orgulhosamente o casaco que havia ganhado de sua Lenda. Nervoso, Miklo convenceu a Crichton a ser seu padrinho e Mary me honrou me tornando sua dama de honra. Tarnyn elogiou os meus cabelos e minha maquiagem depois, me beijou. Mary não perdeu tempo e sussurrou um já esperado “Eu não te disse?!”
Depois que Zohram encerrou seu discurso, Miklo se sentiu a vontade para falar:
— O mundo dos Pacificadores é em preto e branco... Qualquer coisa que possa nos desviar da diretriz máxima ditada pelo Alto Comando que é a dominação das espécies chamadas inferiores, é reprimida com violência. Quase todo sebacian, nasce predestinado a ser soldado. Quando um Pacificador entra em contato com uma espécie desconhecida, ele é exilado ou executado sem julgamento. Isto evita que ideologias baseadas em liberdade, justiça e amor se espalhem pelas tropas. Mesmo que alguns membros do Alto Comando ainda pensem que a evolução possa ser detida, nós sabemos agora que só com justiça, liberdade e amor podemos crescer e evoluir como espécies. O dia que percebi isso na pele, eu estava morrendo, deitado num chão pedregoso...
Mary sorriu e olhou para mim.
— Esta humana, no seu jeito inocente, pensava apenas em me manter aquecido. Mesmo assim, em alguns Arns eu estaria morto caso não recebesse o tratamento adequado. Mas eu teria morrido me sentindo o mais seguro, o mais protegido e mais amado ser do universo... Quando minha amiga Karla chegou, eu não estava em coma, estava experimentando algo que nunca havia experimentado antes, um profundo contentamento! Tudo que eu desejava a partir daquele momento, era permanecer nos braços desta mulher até o fim dos meus dias. Sim... Eu fui Irreversivelmente Contaminado e se os deuses quiserem... Terei o privilégio de permanecer assim para sempre!
Mary nada disse apenas o abraçou...
Os convidados, um a um, foram voltando para Moya. Quando o último convidado os deixou...
20 ciclos se passaram...
A notícia se espalhou por todos os meios de comunicação do planeta. Uma grande nave extraterrestre havia pousado numa praia ao sul do Brasil, transmitido uma mensagem de paz tendo como fundo uma antiga canção americana.
Toda a área foi isolada pelo exército brasileiro e dois representantes foram enviados para receber os visitantes. O que os representantes encontraram os deixou surpresos: Dois jovens, um homem na faixa dos trinta anos e uma mulher de 20 anos os recebeu na entrada da nave. Falavam um inglês fluente e olhavam extasiados para eles e para a paisagem lá fora.
A jovem se adiantou e cumprimentou os representantes com um tradicional aperto de mãos.
— Olá, pessoal... Meu nome é Camilly Braca e este é o Capitão D’Argo Sun Crichton! Trazemos notícias de nossos pais... Os astronautas John Crichton e Mary Storm... Eles estão liderando uma revolução e não puderam vir conosco. Eles disseram que “Quando terminarem de arrumar a casa, virão para uma longa visita a seu planeta natal!” Vocês não sabem como estamos felizes em poder respirar este ar puro... A Terra é ainda mais linda do que eu imaginava...
— D’Argo... Você vai ficar aí parado?! Sua mãe não te ensinou como ser educado?
— Minha mãe me ensinou tudo que precisava saber, Cam... Como vai pessoal?!
— Capitão D’Argo, senhorita Camilly, é uma grande honra recebê-los... Perdoem-me o inconveniente, mas por medida de segurança, os níveis de radiação deverão ser verificados e uma quarentena de 20 dias será implementada.
— Nós entendemos. Já esperávamos por isso... Esperamos por tantos anos por um wormhole que fosse estável, que 20 dias a mais não farão diferença! Algum de vocês permitiria que injetássemos alguns micro tradutores? Eles são seguros... Posso garantir! Eles facilitarão a comunicação com o resto de nossa tripulação!
— Sim... Já temos conhecimento destes tradutores! Mas vocês falam inglês perfeitamente?
— Mas os nossos companheiros de viagem não conhecem nenhum idioma terrestre!
Os alienígenas com cara de alienígenas foram chegando e, uns curiosos outros discretos, saudaram os representantes: Uma criatura pequena e peluda, um jovem com tentáculos imóveis pendendo por toda a cabeça, um sorridente homem de cor azul que parecia ansioso para sentir o calor do sol.
O choque do contato imediato só não foi maior, pois todos já tinham conhecimento sobre a última visita de John Crichton e dos vídeos e áudios enviados anos atrás por ele e Storm. Nos vídeos haviam imagens de seres incríveis e assustadores, e outros, como nós, humanos; além de mensagens pessoais da Doutora Mary Storm para sua família. Ela falava de suas experiências e de sua felicidade em poder formar uma nova família... Após exaustivas investigações, todos os dados enviados foram classificados como sendo autênticos. Os arquivos originais das transmissões, continham informações sobre pesquisas científicas que fizeram com que a ciência e tecnologia evoluíssem décadas em poucos anos.
Nunca nenhum humano havia ido tão longe de casa como os pais daqueles jovens! Seriam eles uma outra espécie? O pai de Camilly e a mãe de D’Argo eram sebacians...
Estávamos testemunhando o nascimento de uma nova era na Terra? O que a humanidade encontraria depois? O fim da fome e das guerras? Ou a extinção? A única certeza que se tinha naquele momento era de que não estávamos sós no universo.
23 de Novembro de 2104
What a Wonderful World
Trees of green and red roses too
I watch them bloom for me and you
And I think to myself
What a wonderful world
I see skies of blue and clouds of white
And the brightness of the day, I like the dark
And I think to myself
What a wonderful world
Link: http://www.vagalume.com.br/tiago-iorc/what-a-wonderful-world.html#ixzz3xG7dDZHN
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