Blue Eyes
1 I think I love you.
Henry acordou querendo morrer. Talvez “querer morrer” fosse apenas como querer comer um chocolate comparado à dor de cabeça lascinante que o fazia ter vontade de vomitar. Não lembrava de nada da noite anterior, mas sabia que provavelmente fora gloriosa. Festas undergrounds com certeza eram as melhores.
Apalpou o lençol ao redor em busca do resto do seu corpo. Sua calça, um maço de cigarros, um braço... Henry parou por um momento, confuso. Se sentou na cama e tocou ridiculamente nos seus próprios braços para ver se ainda estavam lá. Jogou no chão um bando de roupas que invadiam sua cama e deu de cara com um garoto loiro e com o bumbum mais lindo que Henry já havia visto. A vontade de vomitar passou. Olhou para o teto, contando até dez para recompor sua postura.
Levantou-se da cama, acendeu um cigarro e cutucou o amigo.
— Acorda Gabe... A gente vai se atrasar pra escola.
— Han? – Gabe coçava os olhos, ainda no País das Maravilhas.
— Escola.
O garoto, reparando seu estado de extrema nudez, perguntou, tenso:
— Cara, a gente transou?
Henry interrompeu seu ato de abotoar a calça e encarou Gabe, sério.
— Infelizmente, não. Dessa parte eu me lembraria muito bem.
— Ah, para com isso, vai. A gente já conversou sobre esse assunto...
— Eu sei, Gabe. Eu já desencanei de você, ok? Será que agora a gente pode ir?
Gabe suspirou.
— Precisamos mesmo?
— Sim.
— Mas...
Henry aproximou seu rosto do rosto do amigo e por um momento os dois ficaram calados.
— Hoje tem prova, lembra? – Henry respondeu por fim – Anda logo. – E saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
— Prova...? – sussurrou Gabe para o além, deixando sua cabeça cair no travesseiro novamente. Afinal, por que estava pelado?
***
— Afinal, por que ele estava pelado, e ainda por cima, na sua cama?!
— Fala mais alto, May. Assim quem sabe a escola inteira possa ouvir. – repreendeu Henry.
A garota colocou a mão na boca como se tentasse colocar as palavras de volta, lançando um olhar de desculpas a Henry. May, assim como Henry, possuía cabelos castanhos e olhos verdes. Havia quem pensasse que eram irmãos, mas essa possibilidade era claramente descartável. May era naturalmente européia, e era dotada de um leve sotaque alemão.
— Eu não sei o que ele fazia pelado, mas com certeza não rolou nada. Nós bebemos muito ontem na festa e como Gabe é meu melhor amigo, dormiu lá em casa, como sempre. Só isso. – Henry respondeu, infeliz.
May envolveu os ombros do garoto, consolando-o.
— Ele ainda vai cair de quatro por você, relaxa...
— Eu não me importo mais com isso, sinceramente. – suspirou ele – Contanto que ainda seja meu melhor amigo, tudo vai ficar bem.
Gabe entrou bufando na sala de aula assim que o sinal bateu e foi se sentar atrás de Henry, que revirou os olhos.
— Atrasado de novo.
— Eu não soube como fazer cair água fria daquele seu chuveiro... Nunca vi tanta torneira.
— Idiota. – Henry virou-se para o amigo, sorrindo debochadamente. – Da próxima vez eu te ensino a usar direitinho.
Não deu tempo de Gabe retrucar Henry, pois no momento seguinte o professor começou a entregar as provas.
***
— E aí, foi bem na prova? – perguntou Gabe ao sair da sala, colocando um braço nos ombros de Henry.
— Não... Não devia ter ido na festa ontem.
— Ah, claro que devia! – Gabe riu – Senão, de qual outro jeito eu acordaria na sua cama?
Henry corou.
— Você sempre dorme lá em casa, Gabe. Não é nenhuma novidade.
— É, mas não daquele jei...
Henry empurrou Gabe contra a parede e sussurrou firme em seu ouvido:
— É melhor parar de me provocar. – e olhou nos olhos azuis do rapaz – Você tem idéia do que está me fazendo sentir? Eu me esforço todo dia pra não pensar em nada, e você não está colaborando.
Percebendo que a cena atraía certos olhares, Henry se distanciou do amigo e foi embora, deixando Gabe novamente com cara de idiota.
É claro que ele tinha idéia do que estava fazendo Henry sentir, só não sabia como parar com aquilo, por mais que o machucasse. Afinal, não via outro jeito de expressar seus sentimentos. Gabe pôs uma mão na cabeça e olhou para o chão, derrotado.
***
Henry saiu do banheiro enrolado numa toalha e parou distraído em frente a um porta-retrato. Com cuidado, o pegou e não pode evitar sorrir ao olhar para aquela foto tirada há anos, onde Gabe carinhosamente bagunçava os cabelos de Henry, que tentava impedir o amigo, mas ria.
— Idiota. – falou para as paredes.
— É, talvez eu seja um...
Henry virou-se e se deparou com Gabe parado na porta de seu quarto.
— Er. – começou Henry.
— Desculpa, ta? – se adiantou Gabe, com cara de cachorro sem dono.
O coração de Henry deu um salto e seu estômago subiu à garganta.
— Tudo bem, cara. – respondeu com muito esforço – Quer beber alguma coisa?
— Vodka.
Henry revirou os olhos, sorrindo internamente.
— Você trouxe?
— Sempre. – respondeu Gabe, tirando uma garrafa de vodka não se sabe da onde. – Você ainda está de toalha...
Henry sorriu, abrindo a toalha que estava amarrada na sua cintura. Gabe, não conseguindo disfarçar seu rubor, fingiu estar observando uma foto na parede.
— Nada que você já não tenha visto. – Henry riu, levando uma sobrancelha. – Andei malhando, percebeu?
— Sim. – respondeu Gabe, sem jeito.
— Ah, qual é, vai ficar aí que nem um idiota? Nem parece que me conhece há eras. – e pegando a garrafa de vodka das mãos de Gabe, complementou : — Vamos sentar lá fora, perto da piscina.
— Seus pais não vão ligar?
— Eles só voltam domingo, lembra? – disse, colocando a calça.
Henry abriu a porta que dava para a varanda e se sentou na beira da piscina, com os pés na água. O amigo sentou ao seu lado, pegando a garrafa, abrindo e dando um longo gole no líquido que lá continha.
— Sabe... – começou ele – tem um motivo pra eu ficar te provocando tanto. — Gabe olhou para o amigo e, não obtendo respostas, continuou. – Eu não quero te perder, saca? E acho que quando eu te provoco, sinto que estou prendendo os seus sentimentos por mim, e isso me conforta.
— Mas por que esse medo? – perguntou Henry.
— Você sempre esteve perto de mim, e eu não quero pensar que um dia não vai estar mais.
— Então não pense. – disse ele – Porque eu não vou sair daqui.
Gabe acariciou graciosamente o rosto do amigo e, olhando em seus olhos, o beijou.
— Eu acho que te amo. — sussurrou ele, fazendo Henry soltar um baixo suspiro de surpresa e felicidade. Esperara por esse momento desde que havia encarado aqueles olhos azuis pela primeira vez.
Os dois amigos se uniram num profundo e intenso beijo. Henry passou os braços pelo pescoço de Gabe enquanto o outro deslizava sua mão pela barriga do garoto.
— Promete que não vai me abandonar? — perguntou Gabe, deitando Henry na grama.
Henry olhou para o garoto, que agora se encontrava novamente a pouquíssimos centímetros de distância, apoiando o braço ao seu lado na grama.
— Eu nunca vou deixar você. – Em seguida, o puxou para outro beijo demorado.
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