Blue Eyes
1 Nova Vida
Notas iniciais

A vida nunca vai ser aquilo que deseja se somente desejar.
Me pergunto até hoje porque viemos para cá. Na ponta de um continente da ponta norte do planeta. Prince Rupert, Columbia Britanica, Canadá... Duas horas de avião de Vancover. Dezeseis, de carro. Quase divisa com o Alasca. O cu do mundo, se me pergutassem. Estava tão intrigado e mentalmente puto com meu pai que notei depois de alguns minutos que estava com os fones de ouvido, porém nenhuma música tocava. Pelo menos ele me deixou ficar com a poltrona da janela.
Acho que nem adiantava procurar algo pra ouvir agora. Estavamos á poucos minutos de pousar, finalmente. Essas duas horas mais pareciam décadas dentro do avião. Ja era possivel ver a silhueta da cidade no horizonte. Prince Rupert, onde uma nova vida começa.
Eu sou Eric Ivan. Tenho 17 anos e vim parar no cu do mundo com meu pai.
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O voo em si durou aproximadamente duas horas apenas, mas Eric estava exausto após incontaveis horas no aeroporto de Vancouver, esperando a aeronave chegar para finalmente se doslocar ao destino final com seu pai, Joshua. O homem de exatos quarenta anos, porém muito charmoso e elegante, era um empresario pouco conhecido no ramo, mas sua condição financeira sempre foi acima da média. Ambos agora se mudavam para Prince Rupert onde Gregory, irmão de Joshua e — consequentemente — tio de Eric morava e administrava uma marca de artigos de caça e pesca. Ambos finalmente decidiram trabalhar juntos depois de alguns anos morando em cidades tão distantes. Eric, por outro lado, não se importava muito com os negócios, mas estava aliviado de ter deixado Vancouver e o colégio onde estudou quase a vida toda. O garoto de cabelos escuros e olhos claros era conhecido por sua reputação de briguento e "deliquente", apesar de nunca ter sido pego infringindo a lei, pelo menos de manera severa. Grafitar muros alheios não era nada sério, na visão dele. Muitas vezes fora suspenso por brigar no colégio e matar as aulas para vagar como um fantasma pelos corredores, e no ultimo ano havia sido (talvez finalmente) expulso. Eric ficou praticamente o ano todo sem estudar, ajudando seu pai e fazendo bicos pelas lojas e restaurantes proximos de casa. Joshua não era um homem severo e na verdade fora como Eric na juventude, resolvendo assim castiga-lo fazendo-o trabalhar e amadurecer um pouco na questão profissional.
De fato ajudou, porém o jovem não deixou de ter a cara emburrada e não deixou de ter o espirito selvagem. Talvez ela nunca tenha gostado das aulas por conta de seu ligeiro deficit de atenção. Apesar de tudo, Eric era um bom rapaz, só era um pouco irritado demais. Ele sempre ajudou com os afazeres domesticos, fazia os favores pedidos por seu pai e era perdidamente apaixonado pelo cão da familia, — na verdade seu cão — uma pastora alemã completamente preta chamada Darci. O filhote havia sido presente de aniversário de seu mesmo tio Gregory, 4 anos atrás. Agora, ambos eram inseparaveis. Eric havia dedicado horas e dias treinando-a e ensinando todos os truques possiveis. Darci era tão obediente que não precisava mais de guia nos passeios diários, andando lado a lado com as pernas de Eric. A cadela preta encontrava-se sentanda na poltrona do avião entre pai e filho, com a respiração ofegante e lingua pendurada para fora da boca, como é de costume dela. Em poucos minutos finalmente o avião pusou e Eric bufou, aliviado. Retirou os fones de ouvido e seus olhos extremamente azuis voltaram-se para a cadela, enquanto sua mão erguia-se para acariciar seu pelo denso e macio. Joshua olhava para o corredor do avião pequeno onde outras poucas pessoas se encontravam, tão ansioso quanto o cão para sair. Virando-se para o filho, ele sorriu animado. Eric tentou corresponder, mas seu sorriso acabou como uma meia careta de quem comeu e não gostou. Eric não sabia sorrir.
Mais alguns minutos se passaram e agora a familia Ivan encontrava-se ja dentro do aeroporto de Prince Rupert, ambos os homens com suas malas e Eric trazendo Darci pela guia. Apesar de muito obediente, a cadela também era muito animada e gostava de crianças. Talvez alguém ali não gostasse de um enorme cão pulando em seu filho para lambe-lo, então o jovem resolveu mantê-la próxima. Joshua procurava pelo irmão, o que após demorar mais que o esperado, foi descartado da lista de coisas á fazer.
— Não vejo Greg em lugar algum... Vou ligar pra ele, procure um lugar para sentar-mos, filho. — Disse o homem.
Nenhuma palavra veio de Eric, enquanto vasculhava com o olhar alguma cadeira livre. Era sexta-feira, e o pequeno aeroporto encontravasse bem cheio, mas não lotado. O movimento de pessoas e bagagens era grande, dificultado a busca por um assento. Joshua ja estava com o celular posicionado próximo á orelha, esperando seu irmão atender a ligação. Em alguns segundos, Gregory atendeu. A conversa entre os irmãos era intensa e cheia de risadas, mas o garoto não se importava, mas também deixou de buscar uma cadeira. Seu pai disse que Gregory estava com a caminhonete esperando por eles na saida do aeroporto, e o trio se deslocava mais uma vez.
Gregory abraçou o irmão assim que ambos se aproximaram, dando dois tapinhas em suas costas. Ele também fez questão de abrariciar Darci e deixar que ela lambesse seu rosto, o que fez Eric criar maisempatia com o tio que não via desde a infância. Finalmente, era a vez dele ser abraçado.
— Olá Eric, como você mudou! — Disse Greg ao abraça-lo, forte como um urso. Se bem que a propria aparencia de Greg lembrava um urso. Careca, barbudo grisalho e gordo, vestindo uma jaqueta marrom. — Você tem os olhos da sua mãe.
— Obrigado, tio Greg. — Eric esboçou algo mais parecido com um sorriso agora. Gostava quando diziam que ele lembrava a mãe. Já Joshua parecia sentir-se chateado e desconfortavel.
— Viviane era uma mulher incrivel, eu lhe garanto. — Uma certa tristeza podia ser vista nos olhos de Greg, mesmo que ele tentasse sorrir enquanto sua mão direita repousava no ombro do garoto. Sempre que falavam de Viviane, o clima do papo ficava pesado e melancólico. — Mas enfim, vamos indo. Coloquem as malas e a nossa amiga aqui na caçamba. — Mudando o assunto, o tio de Eric pegou a mala do menino para coloca-la na traisera da velha caminhonete enferrujada. O jovem olhou para o pai, porém não foi possivel ver sua expressão, ja que ele virou-se para ajudar o irmão. Eric suspirou, e ajudou Darci a subir na caminhonete.
— Deite ai menina. E fique quietinha. — As vezes Darci parecia entender o que o rapaz falava, latindo quando ele terminou de falar. Ela deitou-se entre as malas e manteve a cabeça alta, respirando ofegante como sempre. Greg a acariciou mais uma vez e fechou a caçamba e encaminhou-se para o banco do motorista da velha caminhonete bordô, suja de lama e ferrugem.
— Venha, filho. — Disse Joshua, esperando que Eric já dentro do carro, para que ele se sentasse próximo á janela. Ele sabe como o filho sente-se sufocado em pequenos espaços se não estiver próximo á uma janela ou saída. Finalmente o garoto entrou no carro e bateu a porta. Greg ligou o motor barulhento, e enfim o caminho para casa começou.
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A curta viajem até que foi tranquilo. Ambos os homens adultos conversavam e riam como se fossem crianças, já o rapaz de 17 anos estava em seu próprio mundo, com os fones tocando alguma música aleatória e as mãos escondidas nos bolsos do moletom. Seus olhos claros vagavam pelas casas e árvores do lado de fora da caminhonete, a brisa fazendo seus cabelos negros e cacheados dançarem sem música e sem sincronia. As pessoas do lado de fora pareciam tão distantes para Eric, mesmo estando tão próximas. Ali, do outro lado da rua, pareciam apenas corpos vazios, sem alma, todos comuns vivendo suas vidas comuns e fazendo coisas comuns. Eric era como eles. Fazendo suas coisas comuns no cotidiano comum e tedioso.
A casa de Gregory era um pouco afastada do centro da cidade, já que como vendedor de artigos para caça e pesca, ele precisava estar próximo da floresta e do mar. Mesmo assim, em apenas dez o quinze minutos eles chegariam á Prince Rupert sem problemas. O homem barbudo estacionou a velha caminhonete em frente á uma casa azul de madeira normal como todas as outras, porém um pouco mais suja e desbotada que o normal. Ao lado dessa, uma similar, porém de cor bege e menor, tão suja quanto á azul. Os três desceram do carro para pisar em uma especia de caminho de pedras unidas por cimento que rodeava ambas as casas, separadas apenas por alguns metros.
— A casa de vocês é aquela. — Gregory apontou para a construção bege. — Os inquilinos foram embora á umas três semanas, mas eu e Margaret limpamos o lugar pra vocês.
— Não tinha necessidade! — Disse Joshua, enquanto ele e Eric retiravam as malas da caçamba.
Os irmãos continuaram a "discussão" de quem era mais gentil e educado que quem, enquanto Eric já movia-se em direção á casa com Darci e sua mochila nas costas. A porta não parecia trancada e mesmo que estivesse, a fechadura parecia velha demais para impedir que alguém arrombasse a casa. Foi fácil abrir a porta leve de madeira provavelmente oca e comida pelos cupins, revelando uma sala unida á cozinha bem organizadas mas sem TV. No corredor a frente, o que podia ser um banheiro, uma escada e uma porta embaixo dela. Eric podia ficar mais alguns minutos observando o lugar com cheiro de limpeza antes de entrar, se não fosse pelo seu pai, um tanto estabanado, empurrando-o para entrar juntamente com seu tio e todas as malas.
— Muito bem, ali tem um banheiro e lá em cima tem os quartos. — Disse Gregory, deixando as malas no chão para apontar para a porta próxima á escada. — Acho que Margaret deixou tudo arrumado lá em cima com lençóis limpos hoje de manhã.
— Obrigado irmão, de verdade. — Joshua sorriu, após dar uma olhada no lugar, com ambas as mãos na cintura.
— Aproveitem para explorar o lugar, nos vemos para o jantar! — E com isso, o tio gordo se retirou, fechando a porta calmamente atrás dele.
Eric apenas abaixou-se para tirar a guia de Darci, deixando com que o cão alegremente andasse pela casa cheirando todos os cantos. Como era bem treinada, a cadela não faria suas necessidades fisiológicas dentro da casa. Enquanto isso, o rapaz se dirigia ás escadas, seus passos fazendo com que os velhos degraus de madeira rangessem como em um filme de terror. Talvez demorasse um pouco para ele se acostumar com esse som.
Ambas as portas dos quartos estavam abertas, assim como suas janelas, deixando o comodo bem iluminado e arejado. Como Gregory havia dito, as duas camas de casal, uma em cada quarto, estavam com lençóis limpos recém colocados. Eric escolheu a porta da direita como seu quarto, adentrando em silêncio o espaço praticamente vazio, ocupado somente pela cama, um armário escuro de duas portas, uma mesa de escritório pequena e uma única cadeira logo abaixo da janela com cortinas brancas e semi transparentes. Eric analisava o lugar pensando nas pequenas mudanças que poderia fazer para deixar o lugar mais aconchegante e com a" sua cara". Seus passos eram calmos em direção á janela, tirando a mochila dos ombros para deixa-la sobre a mesa. A vista da janela, para ele, era ótima. Somente a floresta densa até o horizonte podia ser vista daqui. Ótimo, sem vizinhos o encarando de longe. Suas orbes extremamente azuis encaravam a escuridão em meio ás densas árvores, imaginando quais segredos ela possuía e que tipo de animais faziam das sombras a sua morada. Eric podia jurar que algo moveu-se entre as densas folhas, correndo para longe na imensidão da flora, mas foi interrompido pelos passos altos de seu pai e Darci se aproximando.
— Ah, já escolheu o quarto. Ótimo. — Sorriu Joshua, que trazia as malas de ambos nas mãos, deixando a se Eric próxima a cama. Darci entrou no quarto apenas para farejar mais. — E então, filho... O que acha?
Joshua sempre fazia esta mesma pergunta para o rapaz, em quase todas as ocasiões em que iam para lugares diferentes. Mas neste caso, esta era a nova casa dos dois. Um novo lar, nada temporário. A expressão do pai do menino era de alguém muito ansioso por uma resposta, temendo que o filho não aprovasse o novo lar.
— É bom. Diferente de Vancouver. — Eric não tinha bem uma resposta formulada. E também não era muito bom com elogios. — Eu gostei.
Com esta ultima afirmação, ele pode ver que seu pai ficou extremamente alegre, com um largo sorriso em seus lábios. Aliviado pelo filho. Eric também estava aliviado por estar ali, e não era muito exigente em questões de morada ou luxo, desde que ele tivesse seu próprio canto. Aqui em Prince Rupert ninguém sabia quem ele era, ninguém o conhecia ou já ouviu falar dele pelas suas pequenas infrações á lei.
— Que ótimo, Eric. Fico muito feliz. — Joshua suspirou, sua mão esquerda deslizando pelos cabelos grisalhos, ajeitando-os para trás. — Eu não disse, mas já te matriculei numa escola não muito longe daqui. Pode pegar a picape pra ir, se quiser. Suas aulas começam na segunda.
Perfeito, menos coisas com que Eric tinha que se preocupar. E ainda mais, ele teria um dia inteiro para fazer o que bem quisesse antes de se preparar psicologicamente para uma nova escola. Mesmo com 17 anos completos, Eric havia ficado um ano inteiro sem estudar quando era mais novo. O motivo: havia sido expulso da escola aos 14 anos por motivos de brigas, e já havia levado muitas advertências e suspensões. Agora, este seria o seu ultimo ano do ensino médio antes de pensar em uma faculdade.
— Tudo bem. Obrigado, pai. — Um pequeno sorriso se formou em seu rosto por alguns segundos. Joshua saiu do quarto após dar algumas instruções obvias para o filho, como desfazer as malas e manter tudo organizado. Coisas que pais fazem. Eric era um rapaz organizado com suas coisas apesar de ser, como disseram seus antigos professores, um pequeno meliante. Ele gostava de manter suas coisas, como roupas e livros, em seus devidos lugares, apesar de as vezes ter muita preguiça e só jogar tudo sobre a cama.
O garoto de cabelos negros e olhos azuis observou Darci subir em sua cama e ali arranjar uma posição confortável para deitar, mantendo as orelhas altas e o queixo no colchão enquanto olhava seu dono. Eric apenas riu. — Vai ficar ali me olhando? Então tá. — Dizendo isso, ele abriu sua mala no chão mesmo, assim como as portas do guarda-roupa, e começou a organizar suas coisas sem pressa alguma.
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