Blue
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Novamente ela voltou à galeria, não pela segunda, terceira ou uma quarta vez. Na verdade, não saberia responder a essa pergunta com certeza. Sua presença ali já havia se tornado costumeira para todos os funcionários da galeria. Ainda que nenhum deles tivesse conseguido ouvir mais do que uma troca de palavras vindas da garota, nem mesmo a recepcionista ouviu sua voz mais do que algumas vezes.
Depois de ter completado seu nono aniversário, no dia em que visitou o lugar pela primeira vez com seus pais, sua mente parecia não conseguir pensar em outra coisa que não fossem as obras de arte que mais uma vez via ao seu redor. Mas dentre todas elas, um quadro a intrigava mais do que os restantes. O mesmo que estava pendurado na sua frente agora, a prendendo ali e praticamente forçando a garota a observa-lo ao que já deveriam ser horas.
A mesma figura que via todas as vezes, um homem mergulhado num mar de despedaçadas rosas azuis. Seus olhos estavam fechados e seu rosto era sereno, como se ele estivesse dormindo tranquilamente, mas a garota sabia que ele não estava dormindo. Por mais que todos os demais visitantes da galeria vissem o quadro de um homem dormindo, ela só conseguia ver um cadáver pintado delicadamente sobre a tela emoldurada.
Todas as vezes, porém, ela esperava ver algo diferente nele. Esperava um dia chegar na galeria e ver o quadro novamente, mas dessa vez veria o homem com os olhos abertos, desperto do seu duradouro sono. Por algum motivo ela os imaginava sendo pretos, escuros como uma noite sem estrelas.
Por sete anos ela sonhou com isso, e sabia que sonharia muito mais. Até o dia em que a galeria fosse enfim fechada ou o quadro comprado por algum amante da arte, e ela nunca mais pudesse vê-lo, a afastando de qualquer que fosse a fantasia que se imaginava com ele.
Os corredores aos poucos ficavam cada vez mais vazios, e a garota sabia que em breve a galeria seria fechada. Contemplou o quadro uma última vez, no fundo de sua mente se despedindo dele, e pôs-se a andar em direção a saída. Acenou em despedida para a mulher no balcão de recepção, e a mesma já sabia que veria a garota novamente no dia seguinte, onde ela ficaria por horas interruptas observando o mesmo quadro de sempre.
O céu escuro e entardecido a recebeu quando chegou à rua, e a garota começou a andar em direção à uma loja de macarons.
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