Não sei se o motivo era a poluição, mas naquele horário o céu sobre a cidade ficava com uma tonalidade esverdeada. Como ali era perto do aeroporto, conseguíamos ver o horizonte por não ter nenhum prédio atrapalhando. Víamos somente a mata atlântica encontrando o céu das 18h.

Eu e Hugo costumávamos fumar na passarela depois que voltávamos do colégio. Lá conversávamos assuntos inúteis e às vezes ficávamos quietos, o silêncio não nos incomodava, até porque tinha muito movimento na rodovia com os carros. Mas foi só no outono que o pôr do sol ficou bizarro assim.

— Você acha que isso é algum aviso de que o mundo está acabando? — Perguntei, apontando para o céu.

Hugo fez uma careta depois de arremessar seu cigarro sobre a pista. — Dizem que o céu azul com rosa é sinal de poluição e você nunca falou nada.

— É sério isso?! — Perguntei surpreso e ele riu meneando a cabeça. — Eu não sabia! É sério mesmo?

Ele me ignorou e pegou o seu celular da mochila a fim de tirar uma foto. Hugo não tinha dinheiro pra comprar uma câmera, mas ainda assim se virava bem com a do celular. Ele tinha registro de muitas fotos bonitas e todas fora do convencional, seu olhar mirava para o futuro e, a pedido de mim, começou a trampar a fim de comprar uma câmera profissional.

— Seria legal entrar nessa mata preservada. — Ele se referia a mata atlântica próxima ao aeroporto.

— Você também fica curioso com ela?

— Você também tem vontade de passar lá?

Eu assoprei a fumaça do meu cigarro e balançei a cabeça, ponderando. — Na verdade, eu penso que ela esconde o disco voador do aeroporto. — Disse e me aproximei do parapeito até jogar o peso do meu corpo nele.

Hugo riu. — Isso é roteiro para um dos seus quadrinhos?

Assim como Hugo tinha sensibilidade para fotografias, eu tinha para desenhos. No entanto, fazia um tempo que minhas tiras não ganhavam destaque na revista de quadrinhos influente do estado. Talvez porque o resultado era ruim.

— Não, inventei agora. — Confessei. — Mas você acha que rola?

Ele se apoiou no parapeito também. — Não, vai ficar muito ruim.

Eu ri. — Cara, você é um péssimo amigo... como eu vou sair do bloqueio criativo com você dizendo essas coisas?

— Eu sei que você pode fazer melhor.

Arremessei o que restava do cigarro e passei a segurar uma bochecha, muito cansado. — Podia ser uma distopia.

Ele também me parecia cansado com a brisa esvoaçando os seus cabelos lisos. — De novo esse assunto de fim de mundo?

— Qual é o problema?

— Por acaso quer morrer?

Não respondi imediatamente e tal pergunta fez com que encarasse lá embaixo, lá na pista com os carros passando. — Não...

Hugo piscou os olhos. — Não parece quando não para de encarar a pista.

O tom da sua voz me pareceu preocupado e eu ri. Morrer era tentador quando não tínhamos nenhuma expectativa para o futuro por mais que fossemos talentosos. — É que você ainda tá aqui, então tá sussa.

Hugo sorriu e balançou o meu ombro. — Faça essa história dos ETs, vai que cola...

Um avião passava baixinho prestes a pousar no aeroporto.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!