Blooming Flowers
4 Aquilegia Vermelha
Notas iniciais
Ver Kacchan tão descontraído ao lado de Kirishima no seu sofá fez algo engraçado em seu âmago com um amargor na boca do estômago que subiu até a garganta, uma agonia na parte de trás da cabeça e um calafrio desconfortável.
Izuku se sentiu como um intruso ali, Kacchan não parecia tão cauteloso ao redor do outro alfa, toques de ombros ocasionais ou a mão demorando no braço ou costas não parecia ser incômodo para ele, aliás Kacchan parecia nem percebê-los. Isso fazia Izuku refletir se era tão mau amigo assim ou o que fazia Kacchan ter algum receio dele. Tudo bem que eles não costumavam se ver com tanta frequência por causa do trabalho e tudo mais, ainda assim…
Ele deu uma última longa olhada no trio rindo no sofá.
Alguns estalos das pequenas explosões da mão de Kacchan impressionaram os olhos de Kirishima e Katsumi. Katsumi tentou copiar a ação, abriu a palma inflando as bochechas e fazendo uma expressão concentrada, mas nada aconteceu. Ele até abriu e fechou a mãozinha gorda, continuando dando em nada.
— Talvez não funcione da mesma forma? — Kirishima arriscou o palpite.
— Você diz, ser ativado por outra coisa além do suor? — contemplou Kacchan fechando a mão cessando com as explosões.
— Talvez, não sei, cara. — Kirishima deu de ombros. — Você não esteve no hospital? Eles não disseram nada sobre?
— Eu acho que estava tentando me recuperar da porra de um desmoronamento para perguntar qualquer coisa sobre meu filho além de seu estado de saúde.
— Tudo bem, tudo bem. Já entendi — disse ele maneando com as mãos como se acalmasse uma fera. Momentos depois o sorriso implacável retornou ao rosto de Kirishima e de quebra ele empurrou Bakugou com o ombro que foi devolvido com um sorriso perverso e uma mão no rosto dele. — Eca! Sua mão tá suada!
Izuku viu ali a deixa para se retirar. Ele saiu do apartamento sem fazer barulho algum, desceu um pouco as escadas longe de ouvidos curiosos, discou um número no celular e esperou o outro lado atender.
— Alô?
— Shouto? Está podendo falar?
— Só um minuto. — A linha ficou em silêncio por alguns momentos. Izuku de alguma forma sentiu-se ser jogado na linha de espera de um telefonema com uma empresa. — Pronto, o que houve?
— Talvez não tenha sido uma boa ideia…
— O que não pode ter sido uma boa ideia?
— É Kacchan, ele… — Izuku não sabia por onde ou como começar a explicar, então ele bufou insatisfeito.
— Sim? — Sem resposta. — Vocês brigaram?
— Não! É só que… Kirishima está aqui, e…
— Hmm?
A linha ficou muda. Izuku não conseguia pôr em palavras seus pensamentos e abençoado seja Todoroki com sua paciência exuberante.
— Kirishima estar aí não deveria ser bom? — disse ele cautelosamente.
— Não! Quero dizer, sim! Sim, sim, é bom, mas… hm…
Izuku passou a mão no rosto nervoso, respirou bem fundo algumas vezes, reorganizando as palavras em sua mente. Caramba, por que era tão difícil? Por que sua parte alfa estava tão agitada?
— Kacchan apenas parece estar mais confortável com ele do que comigo?
Dessa vez a linha de Shouto que ficou muda.
— Shout…?
— Isso é delicado. Você não tem feito nada anormal recentemente, não é?
— O-o quê, não!
— Izuku. — O tom severo fez Izuku travar. — Você sabe que eles são bastante chegados. Um vínculo diferente do seu.
Imediatamente ele fechou a boca. Suor frio começando a se acumular na nuca. Mãos abrindo e fechando.
— Sim — admitiu arrastado por fim.
— Mas não menos especial, digo.
— Eu sei. — Ele sabia, mas por que o magoou ouvir diretamente? De certa forma isso fazia sentir-se mais distante de Kacchan do que realmente estava.
A respiração de Shouto atravessou a chamada, muitas vezes sua mudez representava ele ponderando muito sobre o que dizer a seguir.
— Izuku — chamou cauteloso, Izuku engoliu em seco. — Você está com ciúmes?
— Deku?
O coração de Izuku quase saiu pela boca. As mãos dele perderam a firmeza no celular quase o derrubando, por sorte ele o pegou rapidamente escondendo atrás do corpo.
Kacchan estava quase na metade da escada encarando-o com um olhar inquisitivo.
— O-oi, Kacchan…
O olhar desconfiado sobre ele intensificou cerrando as pálpebras.
— V-você me assustou. Aconteceu alguma coisa?
— Diga-me você. Saiu como um gato, por que veio pra cá?
Agora Izuku entendia como os criminosos se sentiam ao serem apanhados por Dynamight e o porquê dele comparecer nos interrogatórios mesmo não sendo de seu caso. Sua expressão era realmente intimidadora.
— Oh! Eu… eu…
— Sim? — Ele cruzou os braços arqueando uma sobrancelha.
— Vim fazer uma ligação importante.
Kacchan o avaliou de cima a baixo antes de amolecer a expressão dura, o aroma dele ficou menos denso permitindo a Izuku de liberar o ar que nem sabia que segurava.
— Um vilão com metade do cérebro resolveu atacar?
O cérebro de Izuku entrou em curto-circuito justo quando mais se precisava dele, ele simplesmente não estava esperando essa pergunta!
— Ah, não… — disse ele coçando a parte de trás da cabeça e desviando o olhar. — Eu só precisava checar com minha gerente se minha rota de patrulha não ia mudar essa semana em decorrência a tudo isso, eu, você, essas coisas.
Kacchan não respondeu.
— Eu… eu não queria preocupar vocês ou incomodar.
Prestes a continuar com as desculpas, Kacchan fez muxoxo virando o rosto.
— Tanto faz. Só não saia de fininho da próxima vez e diga quando algo importante acontecer. Não quero me preocupar à toa.
— Sim, Kacchan…
Espere. Izuku tinha ouvido bem? Kacchan admitiu que ficou preocupado? Tudo bem que a relação deles evoluiu muito nos últimos anos, mas ele ser sincero ainda costumava ser uma raridade. Foi fofo e Izuku não evitou de sorrir. Ao mesmo tempo, era um pouco triste Kacchan querer saber das notícias mesmo que não pudesse ajudar de alguma forma.
Kacchan voltou a subir as escadas tirando Izuku de seu estupor para acompanhá-lo.
Porém o dia seguinte não passou impune. Izuku dormiu muito pouco com a mente ocupada no que Todoroki disse.
Ciúmes? Izuku diria "desconforto". Ele não queria parecer possessivo nem nada até porque Kacchan estava em seu apartamento quase uma semana agora, com certeza ele precisava do apoio dos amigos depois do seu acidente, era bom para a reabilitação dele. Não era para esse propósito que Katsuki tinha vindo para sua casa desde o início?
Além do mais, somente ontem Izuku notou a intimidade de seu amigo de infância com o outro alfa de fato. Kirishima até parecia conhecer Katsumi melhor que ele! No mínimo eles deveriam se ver bastante fora do trabalho. Sua mente não queria cursar a possibilidade de Kirishima ter acompanhado também a gravidez de Kacchan quando ele escondeu isso muito bem de todos.
Ou talvez… esconder até um companheiro? Ou Kacchan não queria que ele fosse mencionado? Mas não havia marca de nenhuma mordida no pescoço de Kacchan, continuava liso e polido e ele não fazia questão de escondê-lo. Kacchan também nunca mencionou sobre um companheiro ou o pai de Katsumi. Pensando nisso, ele nunca sentiu nenhum cheiro estrangeiro em Kacchan sem ser das vítimas resgatadas, muito fraco embora para marcar na pele.
Espere, isso não deveria ser algo a se pensar. Ele balançou a cabeça tentando se livrar do caminho que tomava.
Por que ele se importava com isso só agora? Não era de hoje que Kacchan e Kirishima eram amigos. Mas talvez… Izuku sentisse ciúmes da proximidade dos dois? Izuku mesmo nunca esteve no apartamento de Kacchan antes do acidente apesar de saber onde ele morava. Eles também não saíam muito além dos encontros em grupos ou quando a classe deles queria se reunir. Talvez se Kacchan decidisse esconder Katsumi do mundo por absoluto, Izuku jamais saberia que ele teve um filho.
— Eu posso ouvir você pensar.
— A-ah, eu… estou murmurando?
Uraraka assentiu ao seu lado.
— A manhã toda, na verdade.
— Desculpe, Ochako.
A patrulha estava pacata o suficiente para deixar sua mente vagar, Ochako também foi bem paciente, acostumada com seu comportamento.
Os dedos dela enrolaram em seu cabelo cacheado puxando um pouco numa carícia costumeira desde o ensino médio, foi necessário esticar um pouco do braço dela para alcançá-lo devido ao seu surto de crescimento desde sua apresentação alfa. De alguma forma a mania o acalmou em níveis terapêuticos, o aroma delicado de framboesa, chocolate e pêssego com os feromônios ômega calmantes também se juntou à terapia fazendo Izuku liberar um peso que nem sabia que carregava.
— Está preocupado com o quê?
— É só minha mania de pensar demais. Eu vou resolver isso.
— Com "isso" você quis dizer o problema que está enfrentando?
Izuku assentiu mudo. Em vez dos dedos, foi a mão dela inteira no seu cabelo, passando as unhas pelo seu couro cabeludo e afagando seus fios, Izuku suspirou tão satisfeito. Se ele não tomasse cuidado acabaria ronronando.
— Você sabe que pode me contar tudo, certo? — Outro aceno. — Mas seja o que for, acredito que não seja nada que você não possa lidar. Já lidou com piores, eu sei, eu vi.
"Eu não sei não, Ochako. Kacchan na verdade é a pior coisa com que lido até hoje" ele queria dizer, mas também não queria entregar o ouro.
Então a mão se foi e ele quase choramingou pela perda, quase.
— Obrigado, Ochako. — Pelo carinho e pelas palavras.
No horário de almoço ele se sentia mais relaxado do que em semanas. Realmente o poder dos ômegas sobre os alfas vinha a calhar muito quando bem aproveitado. Izuku até optava por voltar em seu apartamento para almoçar, o pensamento de provar a comida de Kacchan o fazia salivar. Imaginou encontrá-lo em uma roupa simples com o avental de Izuku, então o cumprimentaria com seu sorriso, Izuku chegaria por trás dele, sentiria o aroma de canela, caramelo e óleo de sândalo de perto, o abraçaria e… foco! Izuku, foco!
Ele estava escrevendo a mensagem para Kacchan quando uma mão segurou seu ombro enchendo o nariz dele de pimenta-do-reino, sorvete de menta e cola(¹) com limão siciliano.
— Precisamos conversar — disse Todoroki mais sério que o normal.
Izuku engoliu em seco se lembrando que sem querer desligou o telefone na cara do amigo. Quase todo o êxtase que ele sentia foi embora imediatamente.
Sem almoço com Kacchan hoje.
Eles foram almoçar num restaurante próximo a agência Endeavour a qual Todoroki ultimamente gerenciava. O silêncio se seguiu a maior parte deixando a ansiedade de Izuku comê-lo vivo, não foi até depois de fazerem os pedidos que Todoroki finalmente deu início à conversa:
— Acho que você me deve respostas.
— Eu sei. Kacchan apareceu de repente e tive que desligar. Desculpe — disse com um encolher sutil de ombros.
— Que belo desfecho.
— Mas eu pensei muito sobre o que você disse.
Todoroki pareceu minimamente interessado indicando com a mão para ele prosseguir.
— B-bem…
Por que de repente a gagueira de quando ele era um menino veio à tona para complicar a situação? Ele coçou a nuca desviando o olhar. Não parecia uma postura de um alfa adulto, mas Izuku sentia vergonha de encarar o amigo agora.
— Muito bem — meditou Todoroki numa lufada compreensiva. — Combinamos de conversar depois que ele desse a resposta. Então? Como está sendo morar junto com sua paixão de infância?
— S-Shouto! Não tão alto!
— Oh, perdão.
Midoriya ficou desconcertado coçando a nuca.
— Eu achava que ia tudo bem, até ontem. Kirishima apareceu de repente, foi ótimo, ele trouxe pizza e tudo mais. Mas eu, hm, me senti ser jogado de lado, na minha própria casa.
— Então você me ligou.
— É — admitiu num riso abafado. — Confesso que fiquei meio desnorteado.
Shouto fez um longo silêncio dando aquela expressão inexpressiva típica para Izuku.
— Não me diga que está tentando disputar atenção?
Inconscientemente? Sim. Por que Midoriya não ficou surpreso? Ele deveria estar surpreso? Aquilo só o fez se encolher mais na cadeira com um olhar solene de Todoroki.
— Izuku, sério? Você não é mais um alfa na puberdade.
— Eu sei! Eu só… é Kacchan, é complicado. Não me sinto assim com mais ninguém.
Houve outro duro momento de silêncio. Havia muitos quando se falava com Todoroki.
— Você se sentiu ameaçado por Kirishima?
— Não, de jeito nenhum. Ele é meu amigo.
— Talvez tenha um jeito, então.
Todoroki se interrompeu quando o garçom chegou com seus pratos, eles agradeceram esperado o garçom se retirar para continuar:
— Marcação de cheiro.
Izuku fez uma careta já podendo imaginar onde o amigo queria chegar.
— Shouto…
— Escute-me. Às vezes a marcação de perfume pode ajudar, isso até seu alfa se acostumar com a ideia de ter Bakugou próximo e que ninguém está disputando ele com você.
Bom, talvez não fosse má ideia. Izuku só esperava que Kacchan não entendesse nada mal.
✿
Não havia como ser discreto em relação a marcação de perfume. Qualquer toque ocasional ou aparentemente amigável que Izuku arriscava, ele acabava tendo um olhar estranho de Kacchan que o fazia recuar. Kacchan parecia sentir suas intenções, o que tornava tudo desconfortável. Mas se tratava de Kacchan, se não gostasse, diria em sua cara. Então seu silêncio seria um sinal verde para avançar?
Por alguns dias, Izuku seguiu em suas tentativas sendo mais discreto como uma passada de mão nas costas e ombros – prestando atenção para evitar a nuca e pescoço –, apertos leves nos bíceps e às vezes bagunçar os cabelos dele, nada que não fosse incomum para eles ao mesmo tempo que queria descobrir se algum desses toques era anteriormente reconhecido, tipo, de um possível companheiro. Em todas as vezes Kacchan notou fechando a expressão e seu cheiro ficando estranhamente denso, mas também não disse nada. Se Izuku estivesse fazendo algum progresso, ele não saberia dizer. Pelo menos seu alfa parecia se aquietar.
Na sexta-feira, Izuku chegou do trabalho e o apartamento cheirava a bolo de nozes. Katsumi comendo uma fatia na mesa foi a primeira coisa que Izuku viu, o menino o cumprimentou com um sorriso de bochechas cheias. Kacchan estava lavando a louça alheio com sua presença, ele usava um de seus aventais azuis, e o famigerado bolo estava na mesa. Ele estava indo pegar um pedaço.
— Não — repreendeu Kacchan com um tapa na sua mão tão rápido quanto.
— Kacchan, não seja mau… — choramingou ele segurando a mão agredida.
— Eu falei não — rugiu enrugando o nariz. — Ainda está quente, e nem pense colocar essas mãos imundas nisso, senão você morre.
Izuku fez bico, mas nem isso atingiu algum ponto na muralha inabalável de sentimentos que era Kacchan, se alguma coisa o olhar de desafio muito característico fez Izuku desistir, não era culpa dele que aquele bolo cheirava tão irresistível. Izuku tinha sido reduzido de Pro-Herói a uma criança com sua mãe, se bem que Kacchan naquele avental era deveras uma boa visão. Deus seja louvado por Izuku ter esse privilégio de ver um Kacchan tão doméstico e caseiro que nem se comparava a sua imaginação.
Mas quem era Izuku para ir contra as ordens de Kacchan?
…
Quando Kacchan deu as costas, Izuku aproximou-se de fininho do prato e roubou um pedaço saindo correndo em seguida.
— Seu merdinha filho da puta!
Nem um segundo depois Kacchan estava empurrando a cadeira do caminho e indo atrás dele. Izuku ainda se esquivou usando a mesa como escudo evitando Kacchan de chegar perto tomando cuidado para contornar Katsumi no caminho, mas Kacchan fingiu ir para o lado confundindo Izuku o suficiente para atravessar à direita numa velocidade impressionante. Mal deu tempo pra Izuku escapar para a sala antes de Kacchan colocar a mão em suas costas e empurrá-lo para baixo até que os dois foram para o chão.
No momento em que Kacchan conseguiu o prender sentando na sua lombar, Izuku conseguiu enfiar a fatia inteira dentro da boca. A expressão assassina caiu sobre ele.
— Você é um teimoso do caralho, eu tinha falado não!
Sem um pingo de instinto de sobrevivência restante, pois Izuku já sabia que estava morto, ousou sorrir com a boca cheia por cima do ombro. De brinde recebeu uma mão suada na cara, Izuku tentou se libertar empurrando o braço, mas Kacchan era realmente forte ao ponto dele não conseguir se debater e simplesmente desistir de lutar para mastigar o bolo na boca e finalmente engolir.
Kacchan ainda apertou sua cabeça irritado, a qual Izuku gemeu de dor.
Então um grunhido baixo saiu acima dele e ele sentiu Kacchan se curvar.
— Merda… merda, merda, merda.
No próximo instante Kacchan estava deitado ao lado dele num baque respirando rápido enquanto segurava o joelho lesionado que mal tinha acabado de se curar.
— Oh, meu Deus! Kacchan, eu sinto muito!
Izuku estava ao lado dele imediatamente pareando as mãos sem saber o que fazer para ajudá-lo.
— Oh não, isso é culpa minha. Kacchan, me perdoe, eu não queria…
— Cale a boca… — bramiu entre dentes — e para de escândalo, é só uma câimbra.
Por mais que ele dissesse, ele estava suando e arfando de dor. Ele jogou a cabeça para trás no chão suspirando alto enquanto segurava a dobra do joelho esperando a câimbra passar, o cheiro dele ficou num teor manchado de desprazer e desconforto deixando o alfa em Izuku inquieto por ser o causador disso.
— Eu não sou uma donzela delicada.
— Eu sei, Kacchan…
Izuki realmente sabia. O que era uma simples câimbra comparado a toda trajetória que Kacchan já passou para ser um Pro-Herói? O que ele já passa no dia a dia? Uma simples câimbra não deveria ser preocupação, mas era. Porque Izuku que causou dor em Kacchan, Izuku fez Kacchan correr quando ainda estava se reabilitando. A parte alfa dele estava chateada com ele por ser tão descuidado, um alfa tão impróprio e ruim para o ômega.
Antes que a auto-depreciação continuasse a sufocá-lo, dedos roçaram sua bochecha suavemente como o beijo de uma borboleta, isso fez Izuku olhar assustado para Kacchan que fez o primeiro movimento de tocá-lo em dias.
— Ei — chamou ele. — Você se preocupa demais. Eu estou bem.
Os dedos ainda esfregaram mais um pouco, quase no limite entre tocar e não tocar e isso incendiou a pele de Izuku ali onde Kacchan roçava. Antes que a mão caísse e os dedos se fossem, Izuku segurou o pulso dele não o deixando ir, Kacchan arregalou os olhos minimamente surpreso.
— Mesmo? — perguntou Izuku tentando confirmar.
— Mesmo — respondeu ele com um aceno certeiro.
A intenção era de Izuku sentir no aroma de Kacchan traços que indicavam algum tipo de mentira ou recuo, porém apenas encontrou a honestidade e o suave aroma de caramelo e canela e óleo de sândalo extremamente próximo emanando da glândula odorífera que havia ali, então a vontade foi maior que a razão e ele enterrou o nariz no punho.
Inspirar o aroma diretamente da fonte fez sua cabeça se encher de estrelas e bolinhas, seu alfa vibrou e Izuku suspirou aliviado sentindo o suave cheiro ômega apaziguar suas aflições.
Porém, a pele deslizou um pouco sobre suas bochechas. Com medo de quebrar o momento, Izuku sequer respirou olhando para Kacchan de volta um tanto surpreso.
O polegar era gentil e delicado nas carícias, esfregando as sardas enquanto Kacchan dava uma boa olhada nelas. Ao contrário do que muitos pensavam, as mãos de Kacchan eram macias graças a nitroglicerina que hidratava sua pele como sua mãe, portanto também eram sempre quentes. Izuku não resistiu em se inclinar ao toque. O aroma de Kacchan invadiu suas narinas, o cheiro de caramelo adornou bordas menos densas, a canela veio com um toque de suavidade e o óleo de sândalo como um quê a mais.
A mão cobriu a lateral de seu rosto de modo que instigou ele a aninhar contra a palma, esfregando a bochecha fazendo com que seu aroma se espalhasse. Izuku só parou quando notou um teor diferente no ar. Feromônios satisfeitos. Quando voltou a abrir os olhos, encontrou Kacchan corado com a respiração sutilmente alterada. Isso fez coisas em Izuku. Coisas moralmente inapropriadas para serem ditas.
Eles se encararam pelo que pareceu eras. As pupilas de Kacchan estavam dilatadas com as pálpebras caídas, a boca entreaberta e a garganta tremendo num ronronar. Só então Izuku percebeu que fazia o mesmo.
Porém, tão rápido quanto, o momento se partiu. O primeiro a reagir foi o próprio Izuku quebrando o encanto, ele arregalou os olhos afastando o rosto da palma como se a qualquer momento o dom do outro ativasse. Kacchan reagiu imediatamente fechando as mãos ao fazer uma explosão pequena o suficiente para sair muita fumaça, Izuku tossiu fechando os olhos tentando se sentar.
Assim que a fumaça diminuiu, Kacchan tinha sumido com um baque de porta.
Demorou para Izuku perceber o que tinha acontecido e balançou a cabeça afastando os feromônios que permaneciam no ar para limpar a mente. Ele não deveria ter perfumado Kacchan assim.
Olhando para trás, Katsumi estava com uma expressão muito confusa. Droga, Izuku tinha completamente esquecido dele. Katsumi olhou para ele assustado.
— Você entendeu alguma coisa que aconteceu aqui? — perguntou um tanto receoso por uma criança ter presenciado o tipo de cortejo entre um alfa e um ômega, como, realmente só para adultos.
— Nadinha — confessou ele balançando a cabeça negativamente.
Ufa. Izuku podia respirar aliviado.
— Você acha que ele está muito zangado comigo agora? — brincou com um sorriso amarelo.
Katsumi olhou para o corredor em que seu pai tinha sumido antes de acenar.
— Você foi um menino mau, Deku.
Restou a Izuku rir amargo.
— Deku é meu nome de herói, você pode me chamar de Izuku aqui.
— Mas Doddy te chama assim. — Ele tombou a cabeça.
— Ele chama desde que tínhamos quatro… a sua idade.
Os olhinhos âmbar brilharam com a nova informação.
— Você conhece o Doddy há tanto tempo assim?
No mesmo momento que Izuku admirou, ele ficou preocupado.
— Seu pai… não fala muito sobre mim, não é?
Katsumi abaixou a cabeça como se estivesse sendo censurado e brincou com o dedo na mesa resmungando "na-ahm". Involuntariamente ou não, aquilo só fez Izuku se sentir ainda pior.
— Bem, resumidamente somos amigos há todo esse tempo. É realmente uma pena que ele não fale muito de mim. Mas eu até o entendo.
Era do gênio de Kacchan afinal e Izuku não estaria julgando. O que ele deveria dizer sobre Izuku a seu menino? Que tal começar com "oh, sabe esse cara que moramos agora? Então, ele é meu amigo de infância e etecetera e tal". Coisas do gênero. Mas novamente, se tratava de Kacchan e Izuku sabia o quão ele odiava conversas desnecessárias e guardava muita coisa para si mesmo.
Sua pequena bolha estourou quando a borda de sua roupa foi puxada.
— Ah, eu estava murmurando? Desculpe, o que você quer? — disse com um sorriso gentil se agachando na altura dele. Olhando assim de perto, Izuku notou que Katsumi tinha farelos de bolo na ponta do nariz.
— Eu já terminei. Posso assistir tevê?
Izuku teve que se morder para não abraçar Katsumi de tão fofo que era.
— É claro. Vamos assistir juntos.
✿
A cidade estava pacata. Apesar de ser razoavelmente grande, não era todo dia que um vilão resolvia atacar.
Isso deixava Izuku à deriva justo quando não queria pensar e somente agir. Ele estava sentado numa caixa d'água de um prédio observando o movimento noturno enquanto a mente viajava aos acontecimentos do dia anterior.
Fazia muitos e muitos anos desde que ele e Kacchan se perfumaram pela última vez. Antes mesmo deles se apresentaram e muito antes de terem dons. Izuku sabia que deixou Kacchan constrangido ao causar uma reação involuntária, era que apenas… ele agiu por impulso, mas não deveria ter deixado se levar pelo seu desejo alfa.
Izuku não via Kacchan desde o incidente e sabia que ele estaria bravo com Izuku. Até mesmo se abdicou do delicioso café da manhã de Kacchan para comer na agência. Assim que tivesse a oportunidade, Izuku se desculparia. O pior seria ter que se explicar quando não havia desculpas, eles sabiam exatamente o que tinha acontecido e não deixava de ser menos constrangedor.
Ele levou as mãos no rosto querendo se afastar da vergonha interna.
Kacchan não tinha dado liberdade para ele perfumá-lo tão abertamente.
Eles nem sequer estavam se cortejando para poderem perfumar um ao outro assim, e nem eram muito chegados para fazerem isso como matilha. Então ocorreu o pensamento: será que Kirishima e Kacchan se perfumavam? Pelo menos Izuku nunca tinha notado traços tão fortes do aroma de Kirishima em Kacchan, não com eles em público pelo menos…
Sem motivo aparente, isso só deixou Izuku irritado.
— "… incêndio na avenida…" — A estação do seu transmissor chiou fazendo ele prestar atenção. — "… algum herói disponível?".
— Deku a caminho — disse ele apertando o botão do antes de usar o One for All para pular num grande salto entre os prédios.
Não havia vilão no local quando ele chegou, era apenas um acidente ocasional. Ainda havia pessoas no prédio em chamas, então ele rapidamente foi socorrê-las.
As estruturas do prédio estavam frágeis e portanto haviam vários escombros no caminho enquanto ele procurava por sobreviventes, ele teria que tomar cuidado ao usar o One for All aqui, caso contrário o prédio iria desabar.
Ele foi guiado pelos gritos de uma mulher e em instantes a encontrou próxima de um teto parcialmente desabado, havia uma menininha sobre uma viga de madeira e um pedaço do concreto, a mulher chorava tentando tirá-la. Ele pediu para que a mulher se afastasse, a menina ainda estava consciente e ele tentou retirar os escombros maiores usando 3% do One for All, quando ele mexeu nas vigas mais partes do teto caíram com o incêndio obrigando-o a se afastar. A mulher chorou mais alto ao ponto de gritar com ele, Izuku não a culpava porque pessoas desesperadas estavam fora de si, assim como os feromônios de ômega angustiado em apuros. Izuku teve que balançar a cabeça para o cheiro não o confundir, mas a intensidade era tanta que quase cobria o cheiro de fumaça.
Cautelosamente tentou ele outra vez afastar os escombros para a menina conseguir sair, ele conseguiu segurar ela por um braço e estava indo para puxar quando notou que o pé dela estava preso em alguns canos de metal. Ele ia recuar e tirar mais destroços quando a voz da mulher em berros e choro gritou:
— Puxe ela de uma vez!
A mente de Izuku embranqueceu com o comando. Isso o fez perder o controle sobre o One for All de forma que o braço da menina foi esmagado quando ele puxou ela do buraco seguido de um grito estridente.
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A próxima coisa que Izuku lembrava era de estar fora do prédio, olhando para a confusão de pessoas indo e vindo sem parar. Uma ambulância estava logo à sua frente e ao focar sua visão ele viu a menina sendo empurrada na ambulância em uma maca, desmaiada com o braço numa tipóia e a perna enfaixada com uma quantidade preocupante de sangue escuro manchando o tecido branco.
De repente, um sentimento muito ruim de culpa o encobriu.
— Olha o que você fez! — A mulher de antes, mãe da menina, surgiu em sua frente, empurrando seu peitoral a qual Izuku mal se moveu. Ela expelia um cheiro terrivelmente amargo e putrife de ira. — O que você fez?!
— Eu… eu, ah… — Izuku estava confuso com a névoa branca ainda pairando, ele se lembrava de ela ter dado um comando nele e por que o repreendia por causa disso?
A mulher rapidamente foi contida por outros dois bombeiros lutando contra o aperto deles em rosnados irracionais.
— Que tipo de herói você é? Não deveria ser chamado de herói! Você feriu a nós duas! Número um uma ova, eu vou te processar!
Os olhos dela estavam em duas fendas e suas presas redondas em exibição indicando que a mulher estava em estado selvagem. Aquele olhar feroz ardia nele de forma a causar arrepios. Imediatamente os bombeiros sedaram a mulher e ela caiu flácida contra os braços deles.
Isso ficou na mente de Izuku mais do que ele gostaria de admitir.
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O resto da noite passou como um borrão.
Izuku não tinha forças para voltar para casa. Mesmo depois de ter passado horas desde que seu turno terminou, ele ainda se via muito abalado. Alguns heróis da agência ainda o deram apoio e consolo quando paravam na sala de descanso oferecendo carinhos reconfortantes e palavras gentis compartilhando seus aromas ômega e beta calmantes para tranquilizá-lo antes de seguirem em frente com seus próprios turnos e missões.
A cena não parava de se repetir em sua cabeça. A culpa não parava de comê-lo vivo e os gritos da mulher ômega persistiram em sua mente como um disco quebrado.
"Não deveria ser chamado de herói!"
— Deku?
A voz de Tsukauchi tirou de seu estupor e pela expressão que ele lhe deu, esteve chamando ele por algumas vezes. Ele tinha que dar o relatório já que era o único herói presente no momento, o sentimento nos olhos de Tsukauchi era de compaixão, mas era o protocolo.
Jirou, que ficou a maior parte do tempo ali com ele, passou a mão em suas costas e Hagakure, que já estava de saída, apertou seu braço uma última vez antes d'ele partir.
Izuku chegou em seu apartamento tarde da noite. Ochako foi solidária em dá-lo carona. Ele entrou no piloto automático, tirou os sapatos muito lentamente e se arrastou para dentro. No momento que cruzou a sala, os olhos de Kacchan estavam nele de onde ele estava no sofá.
Izuku se surpreendeu por ele estar acordado tão tarde tendo um horário de dormir tão cedo, a televisão estava ligada num canal de notícias exibindo ele mesmo na tela sobre o incidente do início da noite.
De repente, o muro frágil que Izuku segurou firmemente o dia todo caiu por Terra.
Kacchan estava na frente dele em um impasse e o abraçou colocando sua cabeça no ombro dele e acariciando seu cabelo, o aroma tão característico de caramelo, canela e óleo de sândalo repentinamente parecia o céu de tão bem-vindo e reconfortante que foi. Então Izuku chorou no ombro de Kacchan, agarrou-se a ele pela vida e chorou um choro desesperado, cheio de grito e soluços engasgados.
Kacchan pegou tudo isso em silêncio passando a mão pelas costas dele para cima e para baixo num movimento tão natural e simples que fez Izuku chorar mais de dor.
Não deveria doer tanto, mas doía. Doía ao ponto de Kacchan ter que vir consolá-lo. Kacchan.
Em algum momento eles foram para o chão. A camisa de Kacchan ficou arruinada com lágrimas, ranho e baba, mas Kacchan não parecia se importar enquanto oferecia todo o apoio que podia com toques carinhosos.
O aroma de Kacchan trabalhava como o entorpecente mais forte, acalmando Izuku em longas e moderadas respirações diminuindo seu choro. O aperto mortal então afrouxou. Tardiamente o alfa de Izuku percebeu antes dele que a glândula odorífera de Kacchan estava muito próxima, então instintivamente esfregou o nariz por cima esquecendo-se totalmente dos eventos que não o fariam repeti-lo. A combinação harmônica subiu para o deleite de Izuku que farejou bem a área. Kacchan fez um movimento de agarrar seus cabelos com um pouco de força em aviso, mas logo afrouxou em carícias.
Eles ficaram um bom tempo assim até Izuku diminuir o choro e se afastar limpando as lágrimas.
— Melhor? — perguntou Kacchan.
Izuku acenou. Os dedos de Kacchan afastaram as mechas grudadas em seu rosto e ele segurou suas bochechas com um olhar solene.
— Não dê ouvidos às vozes. Você sabe que é um herói que dá muito duro em seu trabalho. Aquela era apenas uma vadia descontrolada.
Aquilo conseguiu tirar um riso de Izuku que usou o calcanhar da mão para limpar os últimos vestígios de lágrimas.
— Não xingue as vítimas. Isso é imoral.
Kacchan grunhiu no que seria um "eu não dou a mínima".
O polegar de Kacchan esfregou a pele sobre suas sardas de forma sutil antes de soltá-lo para trazê-lo até o sofá. Katsumi que estava deitado, se sentou para ver a comoção toda, olhando para Izuku com olhos surpresos e murchos pelo sono.
— E-eu te acordei? Desculpe…
Katsumi balançou a cabeça para Izuku não se preocupar.
— Não sabia que heróis choram também.
Por um momento, ambos ficaram sem palavras, então Izuku desviou o olhar constrangido. Ele não queria que o menino tivesse uma imagem tão fragilizada do Herói Deku assim, o Símbolo da Paz era para trazer vigor e segurança a todos. Até nisso Izuku falhou.
— Eles fazem quando é preciso.
— Ah. Tipo o papai. Ele diz que Dynamight nunca chora, mas eu já vi ele chorar sim.
Katsuki resmungou em resposta por ser denunciado assim sem poder fazer nada, Izuku só pôde esconder um sorriso. Quando nenhum dos adultos se manifestou, Katsumi se aproximou subindo no colo do pai até chegar em Izuku e então abriu os braços gorduchinhos com expectativa. Izuku apenas deu um olhar ao amigo que Katsuki devolveu com um gesto de cabeça para seguir em frente.
Ele pegou a criança debaixo dos braços e Katsumi abriu e fechou as mãos, quando o trouxe para mais perto, ele se acomodou em seu ombro abraçando o máximo que podia. Primeiramente, Izuku ficou surpreso e imóvel. Depois, sentiu toda a quentura do corpo pequeno e em como ele se sentia abraçando-se a ele, remetendo ao sentimento de quando ele carregou a menina hoje mais cedo. Isso fez seus olhos se encherem de lágrimas de novo e fazê-lo envolver os braços sobre a estrutura da criança devolvendo o abraço, Katsumi soltou um som de apreciação esfregando a bochecha contra seu ombro, então Izuku estava chorando de novo.
Agarrando-se ao menino como podia, ele chorou mais uma vez. Sem que ele percebesse, Kacchan o abraçou também fechando o sanduíche, tendo um aperto firme e reconfortante nas costas de Izuku, o aroma ômega vindo em tons calmantes. Izuku não sabia explicar direito, mas foi tomado por uma sensação tão boa, uma que nunca sentiu antes apesar daquela situação. Era como se tudo simplesmente estivesse completo, nenhuma peça faltando. Uma sensação arrebatadora.
Os feromônios misturados de todos fizeram ele ronronar realizado, inconscientemente esfregando a bochecha contra o cabelo de Katsumi e o que podia alcançar de Kacchan. Kacchan permitiu o aninhamento esfregando contra ele também num ronronar mais baixo e lânguido. O alfa dentro dele retumbou de orgulho e satisfação.
Após um tempo assim, quem se afastou primeiro foi Katsuki, as pupilas estavam dilatadas e um leve rubor cobriu as bochechas, ele evitava encarar diretamente Izuku que não deveria estar muito diferente. Levou um tempo para a névoa dispersar e eles voltarem à consciência, quando feito, Kacchan voltou a ficar sério e impassível. Ele fez um movimento para pegar Katsumi dos braços de Midoriya, que acabou rosnando para ele.
Katsuki arregalou os olhos com uma nota de aviso em seu cheiro, tão rapidamente se foi. Ele lhe deu apenas um olhar apertado enviando ondas do seu perfume ameno que fez um efeito quase imediato de relaxá-lo. Arrependido, Izuku permitiu a criança ser retirada de seu colo lamentado audivelmente o calor e cheiro indo embora.
Katsumi acabou dormindo no meio da troca, então Kacchan o levou para o quarto deles.
Por um momento, Izuku pensou que essa seria a última vez que veria Kacchan naquele dia, mas o ômega voltou o encarando profundamente. Izuku engoliu em seco pronto para se desculpar quando Kacchan assumiu a liderança:
— Eu sei que esse não é o melhor momento para discutirmos isso, mas não sei que outra oportunidade eu terei para te pegar em casa, porra. Por que está agindo como um idiota?
— Ah, hum… eu… o quê?
— Me evitar. Isso é irritante pra caralho.
Instintivamente o olhar de Izuku caiu em vergonha.
— Eu só pensei…
— Eu sei o porquê. É apenas… — Bakugou bufou dando uma pausa e sua voz diminuiu.
— Kacchan, me desculpe, eu não deveria ter feito aquilo…
— Eu não terminei. Não me interrompa, droga — disse ele rosnando. — Você me pegou de surpresa e foi isso. Só… não dê essa merda alfa sem aviso, ok?
— A-ah, você notou?
Kacchan lhe deu um olhar de "sério?".
— Até um acéfalo com o nariz bom podia perceber.
As informações eram muitas para serem processadas em tão pouco tempo. Izuku escondeu o rosto nas palmas desejando desafiar as leis da física e simplesmente sumir.
— Então você está dizendo… que você permite eu te marcar?
— Sim, seu burro. Eu não quero que seu alfa idiota fique exalando feromônios de desafio com todos os outros alfas que cheguem perto. Aquele dia com Kirishima foi bem tosco.
Merda. Merdas duplas. Kacchan tinha notado sim. Kacchan sabia de sua queda secreta há quanto tempo? Ele não parecia nem um pouco surpreso e conversava como se não fosse nada!
— De qualquer forma, demoramos para fazer isso. Se você quer me marcar, vá em frente, só que diga antes. Os idiotas costumam fazer isso quando nos encontramos.
Espere. Isso matou sua dúvida se Kacchan se perfumava com alguém, mas ele quis dizer o Bakusquad inteiro?!
— Uh, o quê?
— Marcação de matilha. Você chorou toda água de seu cérebro ou o quê?
Oh.
Oh.
Kacchan não sabia. Isso o trouxe um alívio inexplicável que sentiu fisicamente um peso enorme ser retirado das costas. Kacchan achava que Izuku estava ressentido por não fazer parte da matilha dele e Izuku estava desesperado para ser incluído.
Mas então, Kacchan quis dizer que esteve esperando Izuku o perfumar como matilha? Então ele não estava bravo? Ele queria o incluir na sua matilha desde quando? Espere, espere… desde quando ele considera Izuku como parte de sua matilha?! Isso significava que o único a bobear todo esse tempo e perder uma grande oportunidade de progresso no relacionamento deles era… ele mesmo? Eles poderiam ter trocado aromas esse tempo todo que Kacchan não ligaria. Como foi saber disso só agora?
— Céus, você é um merdinha irritante. Eu posso ouvir você pensar!
— D-desculpe!
— Só faça logo isso. É bom para meu ômega de jeito ou de outro.
— Uh, sério?
— Sim — resmungou coçando o pescoço. — É bom para a saúde ou merda assim, e não é ruim.
Não era ruim. Quer dizer que Kacchan gostava.
Involuntariamente Izuku sentiu as bochechas esquentarem. Eram muitas informações para ele absorver ainda, mas ele sabia que eles estavam caminhando para algum lugar.
— Então, uh, só pra confirmar… podemos fazer isso?
Kacchan deu a Izuku um de seus sorrisos mais raros, daqueles discretos que surgem lentamente, olhos baixos e uma expressão divertida. Então uma mão agarrou sua cabeça e a empurrou. As mãos de Kacchan bagunçaram seu cabelo com Izuku pedindo para ele parar entre risos.
— Mas não agora porque você fede!
Afinal, o cheiro de tristeza e remorso que Izuku estava deliberando não eram nada agradáveis ao faro.
— Tá bom, Kacchan! Eu vou tomar um banho!
— Acho bom mesmo!
As risadas diminuíram e a mão de Kacchan caiu de seu cabelo.
— Vá descansar, nerd.
Kacchan ainda o encarou com seriedade antes de se levantar e sumir pelo corredor sem mais nem menos. Izuku ainda ficou parado por bons minutos ponderando até perceber que o cheiro de Kacchan tinha se agarrado em seu cabelo. Ele não lavou a cabeça naquela noite.
✿
Batidas na porta tiraram Izuku do mundo dos sonhos, e antes que seu cérebro estivesse cem por cento funcionando, ele ouviu passos e a porta da frente abrir com de vozes preenchendo o apartamento. Ele não estava esperando visitas, pensou consigo, mas talvez Kacchan sim?
Depois de alguns minutos o download foi completado e Izuku levantou da cama contra vontade porque seria mal educado continuar no quarto quando se era o anfitrião. O cheiro delicioso do café da manhã deu vida ao seu estômago enquanto ele escovava os dentes, e no corredor ele já estava salivando. Pelo jeito ele se via completamente viciado na culinária de Kacchan em tão poucos dias.
— Kacchan, você deveria ter me contado que estava esperando… — então seus olhos caíram para a figura sentada em seu sofá — …alguém.
— Izuku, meu jovem. — Toshinori o saudou levantando a mão. — Já faz um bom tempo.
Apesar das palavras gentis e amáveis, Izuku sentiu que um caminhão havia o acertado em cheio. Fazia alguns meses que não via seu tutor, não era preciso ser muito perspicaz para adivinhar o porquê da visita tão inesperada. De repente, Izuku ficou com um amargor denso na língua.
— Mas por quê? — soou mais fragilizado do que pretendia. — Eu não liguei.
— Eu liguei — disse Kacchan surgindo da cozinha cruzando os braços e escorando a bancada que repartia os dois cômodos.
— Por quê? — repetiu indignado. Por alguma razão desconhecida, Izuku se sentiu traído pelo melhor amigo. — Não precisava incomodá-lo, eu estou bem!
— Bem pra caralho para ter recebido folga.
Izuku imediatamente fechou a boca. Claro que Izuku não quis contar para não incomodar Kacchan mais ainda, mas ele não ter ido trabalhar denunciou isso. Tsukauchi aconselhou a ele de ter um afastamento para não gerar comoção maior, por via das dúvidas era melhor ele dar uma folga do trabalho para eles poderem lidar com a situação e investigarem mais a fundo, evitando assim suposições errôneas e precipitadas que prejudicassem sua imagem.
— Izuku — começou Toshinori se levantando com as mãos estendidas num ato de alcançá-lo. — Não precisa se alarmar. Eu vi nas notícias e de jeito ou de outro acabaria aqui.
Diante da presença do alfa mais velho, Izuku abaixou a cabeça em respeito e admiração, isso permitiu a Toshinori colocar as mãos grandes em seus ombros. A proximidade trouxe o aroma de mirra, grama e um dia ensolarado fazendo Izuku soltar a tensão inspirando o aroma familiar.
— Izuku, heróis também têm fraquezas e não há mal nenhum em expressá-las.
Izuku virou o rosto ligeiramente para o lado e sussurrou:
— Não na frente do Kacchan, All Might…
Involuntariamente o alfa mais velho olhou na direção do outro jovem ainda bem presente na sala. Em troca, Bakugou arqueou uma sobrancelha duvidosa. Toshinori voltou para seu menino, ombros levemente encolhidos e um cheiro levemente envergonhado saindo dele, isso fez um sorriso nada discreto surgir em sua face.
— Vai ser uma longa conversa — concluiu Toshinori todo cúmplice disparando olhares para ambos os jovens enquanto se segurava para não rir e fazer seu pupilo se envergonhar ainda mais na frente de um possível pretendente em potencial. — Que tal você fazer uma visita a sua mãe?
Era uma válvula de escape se Izuku quisesse ter uma conversa mais particular. E ele concordou.
Bakugou não disse nada até a saída deles. Se ele desconfiou de algo ou não, eles nunca saberiam com sua mudez constante. Se alguma coisa, um Bakugou calado não era bom sinal.
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