Bloody Rain

1 Capítulo 1


O jovem olhava o reflexo no espelho quebrado, a mão latejava e a dor já começava a se alastrar pela pele. Por impulso encostou a mão no machucado recente, soltou um pequeno gemido de dor e correu em direção ao banheiro para lavar o sangue e retirar alguns pequenos cacos de vidro que ainda se encontravam na mão. Molhou o rosto e se apoiou na pia olhando a água cair aos poucos. Levantou o rosto e olhou no espelho a sua frente, estava meio sujo, mas cumpria bem sua função. Os olhos verdes focaram no reflexo, avaliou bem o que via do outro lado e repousava a mão sobre o espelho. Cabelos que tocavam os ombros, ondulados e macios em uma coloração negra. Um tom de pele claro e marcado pela recente surra, talvez o que mais chamasse atenção fosse aqueles olhos em um tom verde bem claro que herdou de sua mãe. Aparentava ser um pouco mais velho que seus quinze anos e muitos acreditavam que o garoto já estava quase alcançando seus dezoito anos, talvez por sua personalidade mais fechada e séria.

Voltou ao quarto, os pés desprotegidos sentiram o carpete novamente se livrando da sensação fria do piso do banheiro. Sentou-se na cama olhando para o chão, pensava sobre o que havia passado mais cedo, seu pai como sempre havia perdido o controle. Não era um viadinho, mesmo que o pai dissesse isso ele sabia que não era. O filho podia nunca ter aparecido com uma mulher dentro de casa, mas também nunca demonstrou interesse em homens. A verdade sobre Frederick Allard, o garoto apresentado acima, é que ele não sente interesse sexual por ninguém. Sim, Frederick é assexual, não que isso o atrapalhe, mas como consequência tem que aguentar as surras do pai desde que a mãe morreu. Com a mãe por lá era mais fácil, ela sabia como acalmar o pai, mas claro que Frederick não fazia ideia de como a mãe o fazia. Se soubesse, provavelmente entenderia o motivo do suicídio. Suspirou deixando o corpo cair para trás, respirava pesadamente fechando os olhos procurando um pouco de paz. Mal pode ter um minuto de paz e logo seu telefone tocou, esticou a mão e o pegou, havia jogado na cama mais cedo.

— O que foi Maya? — O Frederick perguntou desanimado e sem se levantar da cama. Podia ouvir a música alta, sua amiga provavelmente havia ligado para questioná-lo sobre não ter ido à festa. A música aos poucos ia diminuindo, Maya deve ter ido para fora, ele pensou.

— Frederick Allard, o que conversamos sobre essa sua reclusão? — Perguntou em seu tom mandão, o sotaque porto-riquenho deixava tudo mais engraçado. O garoto soltou uma risada meio sem graça e se sentou na cama novamente. Corpo curvado, a barriga ainda doía dos socos, resolveu se deitar novamente para tentar aliviar a dor. — Ele te bateu de novo? Você poderia revidar Freddie, seja homem!

O jovem riu baixinho daquela última frase. Seja homem, seu pai sempre falava enquanto desferia os socos ou tapas contra o menino. Revidar? O corpo magro, quase esquelético. Seu pai era um homem forte e bem treinado, um policial, um homem...

— Sabe que meu pai é policial, revidar está fora de questão. — Comentou olhando para o teto, deu um sorriso de canto vendo aquelas estrelinhas fluorecentes que sua mãe havia colado no teto quando ele ainda era jovem e sentia medo do escuro. — Como está a festa? Se divertindo sem mim, não é mesmo?

— Não diga besteiras Freddie. Por mais que eu odeie sua reclusão não te liguei para conversar sobre isso. — Maya dizia um tanto irritada pelo comentário idiota, mas fazia parte das coisas que Frederick dizia. — Diego está estranho... Eu não ligo pra ele, mas ele está realmente meio estranho comigo. — Diego Vega, o intercambista que estava passando um tempo na casa de Maya. Ambos tinham um "relacionamento", em resumo se pegavam. O mais estranho é que eles formam um casal típico, daqueles que você espera que acontecesse.

— Não sei de nada, ele parece bem normal pra mim. — Respondia ainda com certo desânimo, mas era interessante ela ter falado aquilo. Tinha que encontrar Diego em poucos minutos, ele havia o chamado para ter uma conversa sem Maya por perto. Esse era mais um dos motivos para não ter aparecido na festa, fora seu desinteresse. — Bem, se quiser posso tentar descobrir algo.

— Isso seria ótimo Freddie! Você é homem, ele se abriria mais com você. — Já se animava mais um pouco, sempre fora uma garota de se impressionar facilmente. Se você falasse para Maya que unicórnios iriam dominar a Terra era capaz de ela ir procurar a respeito. — Eu quero você na próxima festa. Ouviu? Tenha uma boa noite senhor Allard.

Frederick deu um suspiro de alivio assim que a garota desligou o telefone, não que não gostasse de Maya, apenas não estava no ânimo para ter uma conversa com ela. Levantou-se rapidamente e teve que esperar um pouco para dar um passo sem que desse de cara no chão. Arrumou uma blusa qualquer no armário e colocou um tênis surrado que sempre estava perto da cama para ser mais prático. Desarrumou o cabelo e fechou os olhos antes de abrir a porta para descer as escadas até o segundo andar. Colocou a mão na maçaneta, mas hesitou em abrir a porta ao escutar os passos pesados do pai subindo a escada, provavelmente a madrasta havia saído de casa depois da briga que estavam tendo. Escutou a porta do quarto ao lado ser aberta e assim que foi fechada tomou todo cuidado para não fazer barulho algum enquanto saia de casa.

A cidade era pequena, não precisava andar muito para chegar ao centro e as casas de seus amigos. Andou alguns quarteirões e uma sensação estranha começou a tomar conta de seu corpo, parecia estar sendo seguido. Talvez fosse apenas paranoia, não costumava sair muito de casa e quando saia sempre ia para lugares cheios onde aquele tipo de sensação era constante. Aquela noite escura e fria fazia a sensação ser ainda pior, mas faltava pouco para chegar na casa de Maya, por via das dúvidas resolveu apertar o passo. Em pouco tempo deu de cara com a casa da garota, era a maior da rua e claramente a mais chamativa. Diego estava sentado na entrada da casa e se levantou quando o viu, deu um sorriso grande e se aproximou rapidamente o puxando para um abraço forte.

— Obrigado por ter vindo Fred. Foi mal ter feito você vir até aqui pra nada, podia ter marcado no parque. Seria mais prático. — Diego era um pouco mais baixo que Frederick, cabeça raspada e sempre com algum boné, um corpo que causou desejo em várias garotas da escola e certa inveja nos jogadores de futebol americano. — O que aconteceu com seu rosto cara?

— Ah, foi só uma briguinha. — Respondeu meio sem graça com o assunto. O olho roxo era bem óbvio e causaria diversas perguntas na segunda. Suspirou um tanto cansado, não ligou muito por terem que ir até o parque, estava mesmo precisando andar. — Eu não ligo muito de andar, me acalma.

Diego deu um sorriso caloroso para Frederick e bateu de leve no ombro dele o chamando para irem ao parque. Falaram bobagens no caminho, conversando sobre a festa, comentando alguns alunos da escola e dentre outras coisas que geralmente conversavam aleatoriamente quando andavam pela cidade. O caminho não foi longo, menos de cinco minutos de caminhada e já estavam na frente do parque. O parque era normalmente utilizado para piqueniques e recreação para as crianças, tinha alguns brinquedos e a floresta se erguia logo atrás do parque. Os garotos seguiram até o balanço, Diego ficou em pé e Frederick sentou movimento o corpo para balançar um pouco.

— Cara, deixa de ser criança. – O latino bateu de leve no ombro dele e mostrou o grande sorriso de sempre. Suspirou um pouco e se sentou no balanço ao lado se mantendo quieto, sua expressão mudava para um tanto preocupada, ele realmente estava meio estranho. Fred esperou que não fosse nada demais e logo parou o balanço prestando atenção nele. – Olha, eu estou completamente apaixonado pela Maya! Quero pedir ela em namoro, mas vou embora na semana que vem. O que eu faço Freddie? Você é o melhor amigo dela, deve ter algum conselho para me dizer, não é mesmo?

— Isso é complicado... – Frederick respondeu desviando o olhar para baixo e pensando um pouco. Maya não era do tipo de garota que gostava de relacionamentos a distância, mas ele sabia que ela gostava de Diego e isso tornava grande a possibilidade de terem algo. – Eu acho que deveria tentar nunca se sabe como ela pode reagir. Sabe que Maya é meio imprevisível. – Dizia sinceramente se levantando do balanço e ficando de frente para Diego, por um breve momento pensou que fosse algo mais preocupante.

Frederick pensou ter visto uma sombra se movimentar ao longe, mas ignorou pensando ser algum animal que havia saído da floresta e havia voltado para lá novamente. Diego falava algo com ele, mas não escutava prestando atenção na floresta que se erguia atrás do latino, aquele lugar era estranho nunca havia gostado de passar perto dali.

— Presta atenção em mim cara! – Diego chamou a atenção dele que logo se desculpou pela distração, mas a atenção não durou muito, pois logo sentiu um par de olhos sobre ele e assim que levantou os olhos viu algo que fez seu corpo gelar. Aquele animal estava olhando diretamente para eles com um olhar assassino, aquilo não podia ser um lobo comum por ser grande demais.

— Diego... – O jovem ainda meio paralisado ergueu o braço e apontou para trás tentando indicar o amigo do perigo, mas só deixava as coisas ainda mais confusas. O animal se aproximava lentamente com aqueles olhos famintos por sangue. Ganhou um pouco de força para mover o corpo para trás, indo em direção a rua, e o animal percebeu seus movimentos rosnando e chamando a atenção de Diego que se virou para trás assustado. Nesse momento o animal o atacou.

Frederick meio desnorteado e cambaleando correu pela rua tentando escapar da fúria do lobo, mas aparentemente não iria conseguir, cada vez que olhava para trás ele estava mais próximo e o corpo de seu amigo estava morto ao chão com um enorme rasgo no pescoço. O jovem já havia passado por duas ruas e mesmo assim não despistava o animal, sua adrenalina estava a mil e de repente deu de cara com uma rua sem saída. Seu fim era eminente o que fez com que juntasse suas mãos por uma graça divina. O lobo avançava, enquanto as palavras saiam apressadamente por seus lábios trêmulos, sua oração foi em vão e naquele beco meio sujo o lobo espalhou o sangue carmesim com seus dentes deixando que a pequena chuva que começava lavasse a alma do jovem garoto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.