Bloody Queen

2 CAPÍTULO I ♚ The Prince-King


Notas iniciais
Olá! Demorei? Acho que sim... Este capítulo eu fiz com muito cuidado, amor e paciência, e espero muito que goste! Eu amo Rhysand, portanto, aproveitem-no!

Olhos atentos observavam o cervo desavisado. As galhadas eram grandes e pesadas, tão belas que quase lhe traziam pesar ao saber que logo, logo deixariam de ser parte da vaidade do animal. Pelo marrom, liso e devidamente podado, penteado e alisado por servos do castelo. No jardim da Rainha Yourën, todos os animais eram belos e majestosos, tratados com cuidado e extravagância. Nos dias mais frios, sinos eram presos em suas galhadas e belos colares com flores-do-inverno azul faziam o favor de ornamentar o pescoço dos animais. Pareciam um sonho. Era uma pena, o predador pensou, que estivessem o ali apenas para sustentar os mimos de uma mulher que já não mais encontrava prazer na companhia da família.

A corda do arco foi puxada para trás e uma flecha ajustada entre os dedos, cuidadosamente. Delicadeza é o princípio da perfeição, seu pai dizia ―e com razão. A prática do arco-e-flecha era uma arte; os movimentos eram tão sincronizados quanto os de uma dança, a atenção deveria ser dedicada totalmente ao objetivo, a mente deveria estar serena, em paz consigo mesma, incentivada por um impulso invisível e suave que parecia soprar no ouvido como os primeiros acordes de uma flauta. Era bonito, uma prática nobre e encantadora, difícil para se compreender quando não era você quem atirava. O som que fez quando a flecha foi solta era quase igual ao de uma harpa. A seta fez seu percurso em silêncio, sendo cravada no lombo do animal, que caiu no chão, ainda vivo. O atirador encapuzado correu até sua presa, repousando a mão sobre o coração, que já batia fraco.

“Desculpe”, sussurrou no ouvido, erguendo a adaga contra a respiração ofegante do cervo. Ele manteve os olhos arregalados e assustados sobre o predador, implorando para que a dor se esvaísse. “Quies, infanino”, continuava com a prece, não mais querendo estender o sofrimento da criatura. “Des revèn inanius letarge. Finis revèn”, fechando os olhos castanhos, que transbordavam em lágrimas, fincou a adaga no lugar onde o coração batia. Foi rápido. Misericordioso. O corpo relaxou, a cabeça caiu na grama e os olhos grandes e escuros tornaram-se embaçados, não vendo mais nada.

O arqueiro deixou que um suspiro saísse de seus lábios ao ver a figura morta do cervo, não se deixando consumir pela culpa, como ocorreu em sua primeira caçada. Os ricos esbanjavam, relembrou, e os pobres se arrastavam. Às vezes era necessário que houvesse equilíbrio, e como a sociedade na qual viviam era extremamente injusta, a única opção era buscar justiça burlando as leis, que ironicamente apenas geravam mais e mais caos. Caçar dentro das propriedades reais era apenas uma de suas “rebeldias”, não que não houvessem outros animais, outras florestas. Aquele era o sentido; tire dos ricos, dê para os pobres. Quanto mais rico for, menos falta fará, e era por isso que o encapuzado e seu grupo atacavam apenas à realeza.

Então houve um zunido, seguido pelo som breve do farfalhar das folhas caídas no chão, e então um grito. Ele ergueu-se com rapidez, os olhos seguindo o caminho que a flecha havia traçado em busca de quem a havia disparado. Logo veio mais outra, que teve sua ponta presa ao tronco de uma árvore ainda mais próxima. Sabia que tinha de correr, mas seu coração pesava dolorosamente com as consequências de seus atos: iria-se, simplesmente? A vida do animal havia sido tirada com um propósito, mas agora… Agora não havia um, pois não poderia oferecê-lo a quem necessitava, não faria falta para o Bosque Sagrado de Yourën, mas faria para os pobres camponeses que viviam na vila próxima.

Quando voltou-se para os arredores, após ponderar duramente sobre levar ou não a carcaça do animal nas costas --qual decidiu ser pesada demais para seu corpo pequeno e magro --, viu-se cercado. Mas o caçador era rápido, e não seria uma falha que o levaria às masmorras de Pyriath. Logo, logo seria o Cavannaugh, e deveria estar com a família quando este chegasse. Sem pensar uma terceira vez, correu. Os atiradores mal perceberam quando suas pernas ágeis começaram a se mover, ainda mais porque era pequeno, trajando uma capa esverdeada que confundia a visão de qualquer um que tentasse olhar por muito tempo.

― Renda-se! ― um deles gritou quando finalmente encontrou o rastro ― E terá um julgamento justo!

Justiça, pensou. O que sabiam sobre ela? Apenas ouvira falar, durante as canções que rogavam por dias melhores durante a Grande Purgação. Era apenas uma criança quando o mundo deixou de ser justo, quando aqueles conceitos de honra e lealdade foram para sempre perdidos nas chamas das fogueiras? apenas vivos nas memórias de quem experienciou a Era Dourada. Oras, mas eles diziam, outra era como esta está para vir. Mentiras contadas para silenciar um povo. Nada mais que blefe.

O encapuzado adentrou a floresta mais profundamente, um batalhão de soldados atrás de si, e correu até onde suas pernas aguentavam. Escutou o relincho distante de seu cavalo e se permitiu soltar um suspiro de alívio. Gerião estava próximo. Precisava apenas de mais alguns passos… Então uma dor profunda subiu pela panturrilha, alastrando-se na coxa esquerda. Uma flecha. Antes supôs que o arqueiro que os guardas levavam consigo era ruim, mas agora começava a duvidar. Tropeçou nas raízes expostas, mas havia ganhado uma boa dianteira de seus perseguidores e eles não conseguiram alcançar. Arrastou-se com os antebraços pelo terreno irregular e coberto de pedras até encontrar um tronco de árvore no qual pudesse se apoiar.

Não conseguiria correr, constatou, não rápido suficiente para escapar de seus perseguidores então jogou-se dentro de uma moita no chão. Os pequenos galhos passaram abrindo sua pele em cortes superficiais, mas ignorou-os e fechou os olhos com força.

― Sumiu! ― um gritou, parando a alguns centímetros de distância do arbusto onde estava escondido seu alvo.

― Vasculhem os arredores ― ordenou uma segunda voz ― Não pode ter ido muito longe com aquela flecha na perna.

Completamente imóvel, o caçador observou os soldados afastarem-se. Ainda não era seguro mover-se e correr o risco de quebrar algum galho, mover algumas folhas, dar pistas de sua localização óbvia e improvável. Só percebeu que segurava a respiração também quando seus pulmões imploraram por ar. Inspirou devagar, silenciosamente. Seus perseguidores seguiram em diferentes direções, vasculhando por qualquer elemento que pudesse dar pistas de sua localização. Felizmente, muito felizmente, sabia encobrir bem seus rastros. Vinha fazendo aquilo há anos! Quando constatou que haviam desaparecido, levantou-se lentamente, evitando ruídos.

― Por que fez aquilo? ― uma voz surgiu, fazendo com que pulasse de susto. Girou no calcanhar e estava para tirar uma flecha da aljava ― Não vou lhe machucar ― a figura ergueu as palmas das mãos em sua direção em sinal de redenção ― Apenas... Por quê?

Ajustou a flecha na corda.

― Não dê mais nenhum passo ― alertou, a voz baixa e rouca ― Ou atravessarei sua garganta com essa flecha.

― Não, você não o fará ― ele deu mais um passo em direção ao arqueiro, abaixando as mãos ― É um druida? Caçando nos arredores, abatendo animais para sua sobrevivência. Não soa como um... ― quando moveu-se uma terceira vez, o arqueiro puxou a corda com a flecha.

― Tem muita confiança em si, não é mesmo?

Ele riu baixinho.

― Sim, eu tenho ― confirmou, balançando a cabeça ― Vi sua prece na floresta. Sei que não irá atirar.

― Não foi uma prece ― mentiu.

― Eu conheço o Antigo Dialeto ― disparou, ― Estava pedindo perdão à alma do cervo por abatê-lo para o consumo. É um druida, não é?

Cerrou a mandíbula, apertando os dedos contra a madeira do arco. Tentou mover-se, mas a panturrilha ardeu, a flecha dos guardas ainda perfurada ali. Arquejou, e o homem moveu-se instintivamente em sua direção. Como num sinal, o arqueiro apenas puxou a corda da flecha para trás.

― Quer uma troca de informações? Certo ― o homem atirou seu capacete longe, junto com a capa. Novamente, ergueu as palmas das mãos em sua direção em sinal de paz ― Eu sou Rhysand Galathynius.

O Príncipe Rei, reconheceu do antigo dialeto. Ainda desconfiado, mas um tanto mais confiante, relaxou os dedos que seguravam a corda com tanto afinco.

― O que Vossa Majestade faz na floresta?

― Informação por informação ― retrucou.

Não haveria algum mal, haveria? Diziam que o herdeiro Galathynius era um bom homem. Mas ele era a realeza, e jamais poderia confiar neles sem que uma ponta de dúvida viesse. Era cria da Rainha Yourën, e segundo testemunhas, a mulher mais vil que já havia pisado em toda Illéa.

Abaixou a mira de seu arco, mas ainda segurando-os de prontidão, um em cada mão, e curvou-se, girando a mão do arco num floreio exagerado enquanto reverenciava-o.

― Lady Cellerie Garthel ao seu dispôr, Vossa Majestade.

Quando voltou à posição inicial, seu capuz caiu, revelando uma delicada feição feminina. Os fios louros encontravam-se presos numa trança embutida até a nuca, onde descia simplesmente presa num rabo-de-cavalo jogado por cima do ombro. Bagunçada, com arranhões superficiais e hematomas na região da mandíbula, mas agradável de se olhar.

― Como saberei que se trata mesmo do Príncipe Rei de Illéa? ― questionou, desta vez sem endurecer a voz.

Os olhos esverdeados do homem eram quase uma prova por si só. Os cabelos escuros, ondulados, aparados com cautela, apenas reafirmavam o que já sabiam. Mas qualquer um poderia herdar os traços Galathynius, principalmente quando o irmão mais novo do rei fora um tamanho cafajeste, com tantos bastardos espalhados por Illéa que sua reputação já era conhecida antes e após a morte do príncipe caçula. Mas o autoproclamado Rhysand Galathynius moveu-se, os ombros largos e musculosos movendo-se sobre o traje prateado da Guarda Real. Impunha tamanha confiança que não poderia ser menos que príncipe. Ou rei.

E ele se afirmava ambos.

― Ofende-me ao alegar não crer em minhas palavras ― afirmou ― Faria alguma diferença, de qualquer modo?

Ela soltou um grunhido baixo, impaciente, antes de começar.

― Tenho minhas queixas para lhe fazer...

― Tenho certeza que sim.

Cellerie sustentou o olhar, erguendo as sobrancelhas num gesto rápido, como se dissesse que não era uma tola, tão ridícula a ponto de levar tudo de mansinho, sem uma confirmação. O desafiou, silenciosa como um cervo. Quieta, paciente.

O suposto príncipe levou a outra mão até o dedo indicador, tirando de lá um anel dourado, grande.

― Pegue.

Atirou-o, indiferentemente, em direção à moça. O anel girou no ar algumas vezes, e Cellerie teve de soltar a flecha para segurá-lo antes que caísse na sujeira interminável do solo da floresta, onde coisas se perdiam eternamente. Parecia tão delicado que, lançando um olhar de advertência ao homem, soltou o arco no chão, analisando o anel e brilhante com cautela. Era dourado, pesado, ouro maciço. A insígnia de Illéa estava ali, em relevo, atrelado ao símbolo do antigo reino de Ferrah, que agora não passava de um condado na imensidão das conquistas Illeanas.

Ergueu o olhar para ele, que continuava quieto, fitando-a com determinação.

― É verdadeiro― concluiu, mas ele esperou por um porém ainda assim ― Mas poderia ter roubado.

Atirou o objeto para ele novamente. Aquele anel comandava toda uma região, todo poder do condado, do reino, dependente do selo, da pressão da insígnia na cera ao fechar o envelope. Poderia ter guardado no próprio bolso. Mas Cellerie apenas buscava por sobrevivência, não abundância. E ter demais ia contra todos os princípios pelos quais lutava com tanto afinco.

― Poderia ― confirmou. Virou-se de costas, desatou a capa dos ombros e preparava-se para retirar a túnica marrom e surrada.

Outra observação que ela fez foi a que, se era um príncipe, principalmente o Príncipe Rei, por que se daria o trabalho de vestir algo tão sujo, surrado, comum? Ele atirou a camisa no chão.

― O que está fazendo? ― sobressaltou-se.

Mas ele não respondeu.

Estava ali. Forjada em magia, quando esta mesma ainda corria nas linhas de Illéa. Fhaerys decidira por ter algo que marcasse todas as gerações de herdeiros Galathynius. Uma árvore, um tom mais escuro que a pele do rapaz, cujo tronco curto começava e morria na base da nuca e os galhos sem folhas começavam finos, repletos de ramificações mais grossas, embora delicadas espirais, e estendiam-se pelas costas e ombros, descendo pelos braços em tons mais e mais claros até desaparecerem nas pontas dos dedos, espiraladas. Magníficas, esplendorosas. Marcavam toda uma linhagem nobre e pura e ninguém, nem mesmo um tatuador extremamente habilidoso, jamais seria capaz de copiá-las com tanta habilidade e precisão.

Ficou surpresa por Cyrus não ter mandado queimar a pele dos herdeiros Galathynius junto com todas as suas outras acusações aos sinais de magia.

― Vossa Majestade ― desta vez não houve provocação ou deboche na voz da moça.

― Por que, Garthel? ― perguntou novamente, voltando o rosto para ela. Tinha a pele ligeiramente bronzeada, suficiente para indicar que passava um bom tempo sem camisa, o peitoral bem definido e as marcas reais reluziam, chamativas. ― Tantos animais por aí e abate o do jardim de minha mãe.

― Porque vocês têm muito ― ela disse, o peito repleto de ressentimento que sempre começava ao pensar na miséria na qual viviam desde a Grande Purgação ― Têm demais. Jamais os usarão para nada que não enfeites. E há quem necessite, quem não tem o suficiente para considerar cervos saltitantes, limpos e reluzentes algo que não alimento. Sobrevivência.

Ele a observou por mais alguns segundos, silencioso.

― Meu irmão tem vários pontos onde pode pegar carne e grãos pelo condado. Não há razão para roubar.

Ela soltou uma gargalhada seca.

― Previsível. Vocês no castelo não têm nenhuma noção da vida, não é mesmo? ― Rhysand franziu o cenho ― Diga ao seu irmão, Vossa Alteza Real Príncipe Rhoe, que tais pontos de entrega nunca funcionaram. Nenhum grão ou carne chegou lá. Perdidos no caminho, extraviados. Saqueados. Escassos. Seja a desculpa qual for, o povo passa fome.

Ele aproximou-se, a Marca de Fhaerys reluziu à luz do sol que atravessava a copa abundante das árvores. Incredulidade brilhava em seus olhos quando balançou a cabeça e disse mais para si mesmo que para ela.

― Eu mesmo fiz o orçamento dos pontos de distribuição com o tesoureiro ― murmurou ― Não é possível ― então voltou-se para Cellerie com um olhar indagador ― Tem certeza? Apenas... Não.

― Eu jamais me voltaria para o roubo se houvesse uma outra opção que não envolvesse a minha degradação.

― E o que há de menos degradante que o roubo? ― o príncipe disparou.

Ela cerrou os dentes, estreitando os olhos.

― Aparentemente, Vossa Alteza, quem leva comida para a vila, independentemente de onde veio, e alimenta a boca de nossas crianças não é visto como um criminoso inescrupuloso ― a caçadora replicou, ácida, fitando-o nos olhos, convidando o homem a desafiá-la ― E há mais honra nisso que em usar os impostos do povo para peles e jóias de uso pessoal da coroa.

Lentamente, percebendo a confusão que estava prestes a se meter, Rhysand guardou para si as dúvidas e suspeitas sobre as casas de distribuição de alimentos, afinal, aquela era apenas uma plebéia, uma ladra ainda por cima, independentemente de seu intuito despretensioso por trás dos abates, e os assuntos do reino deveriam ser resolvidos na privacidade do castelo, não numa clareira onde as palavras eram levadas pelo vento e espalhadas com uma rapidez impressionante.

― Pegue o cervo ― disse ele, cautelosamente, abaixando-se para a túnica jogada no chão ― E se for necessário, apareça pessoalmente ao castelo e peça a Tris das cozinhas grãos e carne da dispensa para a sua vila. Diga as ordens são minhas.

Cellerie continuou com os olhos semicerrados, desconfiança pulsando em cada parte de seu corpo, e analisando-o com minuciosidade enquanto vestia a túnica e amarrava a capa nos ombro, decidiu que não era uma armadilha. Ou pelo menos não soava como uma.

― E quanto à comida dos outros vilarejos? ― questionou, ainda em posição defensiva.

De repente, o príncipe pareceu menos propenso a uma conversa amigável. Puxando o capuz avermelhado para cobrir o cabelo e grande parte do rosto, deixando apenas os lábios à vista.

― Disso cuidarei pessoalmente.

Então, sem qualquer outro aviso, virou-se de costas e desapareceu na profundeza da floresta, apenas a capa tremulando atrás de si.



Rhysand não se sentia bem quando quase arrebentou as pesadas portas de mogno das dobraduras para invadir o escritório do tesoureiro real. Desta vez, Alisander Thorne apenas ergueu os olhos dos pergaminhos que consultava por cima dos óculos de aros finos e delicados, banhados em ouro. Como se estivesse acostumado àquele tipo de invasão brusca, apenas repousou pena com a qual escrevia pacientemente ao lado dos manuscritos.

― Para onde foi todo o dinheiro que aprovei da câmara dos lordes alguns meses atrás? ― o príncipe perguntou, brusco. Encaminhou-se até a mesa do homem e apoiou as palmas das mãos ali, o rosto fervendo numa fúria incandecente.

― Formule a indagação com mais clareza, Vossa Alteza― ele jogou de volta, os olhos repusando sobre a figura desgrenhada do rapaz sem nenhuma misericórdia, reprovando suas vestes deploráveis. Mas já estava acostumado àquelas atitudes de sua Majestade.

Ainda mantinha o tom calmo e monótono quando voltou os olhos para Rhysand.

― Onde, pelos deuses, você enfiou todas aquelas moedas de ouro que deveriam ter suprido toda a região com os pontos de distribuição de alimentos?

Alisander arqueou as sobrancelhas douradas antes de exclamar, em aparente total incredulidade, surpresa.

― Oh, isso ― soltou uma risadinha abafada. Guardou os óculos e massageou o cenho franzido, como se dicutisse com uma criança. Tal atitude fez com que o rapaz se enfurecesse ainda mais ― Está exatamente onde o direcionamos, Rhysand. Nas vilas.

― Não, Alisander ― grunhiu ― Não está.

― Fizemos todos os cálculos juntos, nesta mesa ― gesticulou num sinal abrangente ― Tenho todos os devidos documentos, se é isso com que está preocupado.

― Por algum motivo, as entregas jamais chegaram aos seus devidos destinos.

Um pouco mais alarmado, Alisander pareceu se empertigar e apurar os ouvidos, agora atencioso às palavras do príncipe. Os fios grisalhos bem aparados pareciam destacar o quanto havia envelhecido em apenas alguns poucos meses, como parecia mais cansado e indisposto. Aparentemente, vinha precisando de umas férias, mas era de conhecimento geral que todas as finanças de Ferrah desabariam, simplesmente, se ele os abandonasse num momento tão crucial para a recuperação de Illéa, então apenas adiavam as tão merecidas férias do tesoureiro o máximo que podiam.

Apontou uma cadeira para que Rhysand se sentasse e prosseguisse com a história, o que ele fez ―acrescentando, é claro, os fatos que havia colhido da floresta até o castelo com os soldados do povoado, quais pareciam um tanto acanhados ante sua presença, e deixando de fora seu encontro inusitado com Cellerie, a caçadora.

― Verificarei ― concordou após escutar tudo atentamente ― Mas devo perguntar, Rhysand... Essas teorias... Seu informante. Andou se metendo com a criadagem novamente, meu príncipe?

Ríspido, com um toque de impaciência crescente, o rapaz levantou-se da cadeira, que foi arrastads para trás com um ruído agudo. Girou nos calcanhares, ainda incomodado, e se dirigiu à porta.

― Me mantenha atualizado, Alisander ― pediu sem sequer se virar para trás ― E não comente nada sobre nossa investigação com Rhoe. Ou minha mãe. Prefiro assim.

Alisander acenou.

― Como desejar, Vossa Alteza.

Estava impregnado em suor quando atirou a blusa num outro canto do quarto. As marcas reluziram com a luz que entrava pela janela e ele jogou-se no divã, não encontrando coragem para macular os lençóis impecáveis. Ainda tinha o cheiro da floresta, e o corpo todo dolorido, portanto, não reuniu força suficiente para se levantar e tocar o sino para convocar sua criada.

― Rhysand Galathynius ― uma nova onda de ar irrompeu pela porta quando a voz melodiosa e conhecida soou ― Em mais uma de suas aventuras com a criadagem?

― Eles não são a criadagem ― disse ele, grunhindo, e voltando a fechar os olhos.

A mãe cruzou o quarto, chutando para longe as roupas jogadas ali, e sentou-se na cama de dossel com a postura ereta, o nariz franzido em reprovação.

― Por Wyrd, Rhyssie ― revirou os olhos azuis brilhantes ― Coloque a coroa de seu pai e mova exércitos, não apenas uma capa e ataduras de couro e se misture à plebe. Se quiser aparecer com a guarda, apareça com classe.

― Talvez eu esteja cansado de classe.

― Me poupe ― a mulher bufou, balançando a cabeça ― E não me venha com a história do pobre príncipe injustiçado novamente.

― É impossível ter uma conversa a sensata quando estou com você, mamãe.

― Falando em conversas sensatas ― ela levantou-se, apoiando-se nos cotovelos ― Rhoe estava te procurando. Algo sobre os planos de segurança para o baile de Cavannaugh.

Começou a traçar círculos delicados no lençol, como se, repentinamente, as espirais em sua cama fossem a coisa mais interessante no mundo.

― Rhoe me procura para mesadas para o ópio. Não discussão sobre segurança no baile de Cavannaugh.

― Você subestima seu irmão ― ela pontuou.

― Pelo contrário. Eu o superestimo. É por isso que temo suas ações ― quando a rainha suspirou dramaticamente, se sentiu na obrigação de acrescentar ― Ele é muito parecido com a mãe.

A rainha Yourën arqueou as sobrancelhas num toque de surpresa. Era Yourën Galathynius, a Rainha Etérea, ninguém lhe arrancava uma gargalhada, um olhar curioso, ou um gesto afável há muito, muito, tempo. Desde que seu amado Orys foi tão brutalmente tirado de si, débil pela doença que lhe consumia há anos.

― De qualquer forma ― ela encobriu a face com aquele tom impassivo característico antes de corrigir a postura ― Vá vê-lo.

― Sim, senhora ― Rhysand assentiu; sabia que era impossível argumentar contra a mulher que lhe trouxera ao mundo, e que de uma forma ou de outra, tudo terminaria em um ensaiado discurso sobre como deveria agir com responsabilidade, agora que era o chefe da família. Obviamente, ele pensou, que não sou o chefe. Este título, há muito tempo, se deve à rainha. E, de qualquer modo, teria de discutir os planos da segurança real para o Baile de Cavannaugh. Mas não com Rhoe.

Ela deu alguns passos em direção ao filho, então deteve-se, como se, de súbito, uma lembrança lhe atingisse.

― Ah! ― exclamou, sem emoção alguma ― Esqueci de comentar que teremos visitas no castelo, então comporte-se. Nada de me aparecer com um comportamento inadequado às nossas companhias.

Franziu o cenho.

― Desculpe-me?

― Chegou uma carta dos Ashryvers ― aprumou as mãos na cintura ― Concernentes às decisões discutidas no último Conselho.

O coração do príncipe pareceu dar algumas cambalhotas antes dele engolir a bile que lhe subia pela garganta e se encontrar, finalmente, capaz de falar.

― … e então?

― Estão todos de acordo ― Yourën entrelaçou os dedos, virando-se em direção à porta ― Tem alguns meses para encontrar sua esposa entre algumas plebéias ― voltou-se, calmamente, para Rhysand, observando o filho com cautela por baixo dos cílios dourados ― Ou a coroa que coloquei em sua cabeça… rolará.

― Qual delas rolará? A coroa ou a cabeça? ― não havia humor em seu tom de voz. Apenas uma pergunta bastante sincera de um príncipe com sua majestade ameaçada à mulher com poder suficiente para destrui-la com uma simples acusação.

― Ambas.

Naquela noite, Rhysand Galathynius não dormiu. Nem na próxima, ou na outra que sucedeu aquela.

Notas finais
Queria começar com o tópico mais importante de todos: OS COMENTÁRIOS! Pessoal, vocês arrasam! Adorei todos, t-o-d-o-s. Obrigadíssimo. É bastante importante para mim. Segundo: gostaram? Eu gostei! Me apontem quaisquer erros por comentários, porque fiquei tão boba com a beleza dele que às vezes possa ter deixado algumas coisas passarem em branco, iasuhdaisudh Terceiro: queria dizer uma coisinha, antes que eu possa parecer bastante desleixada com as datas com as quais posto: eu não gostaria de fazer da minha escrita algo mecânico, forçado, sem qualquer amor. Escrevo por prazer, não para publicar, não receber reviews, para que os outros amem ou algo assim --essas coisas são como um bônus muito bem vindo e que inspiram a continuar a postar. E para sair uma escrita de qualidade, acredito, apenas escrevo quando bate aquela inspiração, e quando ela vem... então flui tudo como se fosse um desabafo d'alma. Or whatever. Não tenho data, realmente, para postar um novo capítulo, mas nunca vou deixá-los na mão. Espero que sejam compreensivos com isso, e que perdoem os eventuais atrasos. O próximo provavelmente, provavelmente, sai semana que vem. Sinto uma onda de criatividade vindo por aí! :D Até mais!