Morre gente todo dia, afinal. Nesse exato momento que escrevo, deve ter várias pessoas em vários lugares do mundo sendo despachadas. Fique claro que \"despachar\" é apenas uma forma de dizer as coisas, porque eu não acredito em vida após a morte. Não... Para mim, quem morre vira comida de minhoca e acabou. Não sobra nada. Sua carne se desfaz e os sinais eletricos que transitavam em seu cérebro vão ionizar a TV mal sintonizada daquela velha do andar de baixo que você costumava odiar. Isso se a velha não empacotar primeiro.

Mas não é sobre isso que quero contar, até porque a velha do andar de baixo morreu hoje de tarde, escorregando na merda do pincher (não estou falando figuradamente, apesar daquele cachorro ser um chato) e batendo a cabeça no apoio do sofá de madeira, algo que fez uma sujeira tremenda, justo na hora que eu tinha batido na porta para buscar o cachorro para um passeio remunerado.

Agora o cachorro está deitado no meu tapete. Coitado. Vou levar amanhã para um abrigo. Eu não gosto de cães e ele não vai gostar de ficar comigo.

Acontece que, por algum motivo aleatório e desconhecido, ao meu redor só acontece esse tipo de coisa, sabe? Sempre morre alguém e sempre é uma sujeira desgraçada. E olha que eu nunca matei ninguém.

Tudo começou quando eu tinha seis anos e, que nem o Bandeira, ganhei um porquinho-da-índia. Não me levem a mal, eu gostava dele e foi um bocado chocante. Logo depois de duas semanas na minha antiga casa (que pegou fogo, mas isso é outra história) o roedor tinha descoberto as maravilhas do lar moderno e mesmo que o trancasse na gaiolinha, o maldito dava um jeito de escapar. Até que, em uma fuga desesperada, ele entrou pelo compactador de lixo. Minha mãe deu um berro quando me encontrou sentada no chão da cozinha, com a cara coberta do mesmo sangue espalhado pela pia.

Foi difícil explicar que eu não matei o porquinho-da-índia.

Na escola, eu era o inferno dos outros. Os “esquisitos” andavam perto de mim, achando que isso iria afastar seus bullies, até eles mesmos serem atingidos por uma lâmpada que despencava do nada, ou caírem no meio de uma briga dos caras do último ano. O pessoal mais popular punia seus adversários de popularidade fazendo com que eles sentassem perto de mim. Teve um dia que um garoto saiu da escola com um lápis enfiado no olho. Tão supersticiosos, me chamavam de “encosto” nas fofocas, mas ninguém se atrevia a me ofender publicamente, com medo do que poderia acontecer. Não lamento muito, a escola serviu apenas para ver o que os humanos tem de pior.

Claro que isso foi um tanto aborrecido durante a adolescência, pois já me bastava ser evitada em casa pelos meus pais, cansados de tantas contusões caseiras apenas porque resolveram ver televisão ao meu lado. Minha irmã foi sempre advertida para não estreitar demais o relacionamento comigo e eu lamentava por não ter carregado ela no colo quando era uma bebê. Se bem que depois ela se tornou uma patricinha arrogante e, sorte dela, escapou ilesa dos anos de convivência comigo. Não que eu guarde rancor.

Acho que minha mãe deu graças ao céus quando eu entrei na faculdade de Letras, afinal iria mudar de cidade e bem na época que meu pai ia se submeter a uma série de cirurgias intestinais por causa de uma esfirra que eu esqueci na geladeira.

Por não querer ficar devendo nada a eles, que a muito já tinham se arrependido de ter-me posto no mundo, tratei de arrumar um emprego. Comecei como caixa de um mercado. Obviamente meus colegas fizeram um abaixo-assinado para minha saída depois que o responsável pela padaria perdeu a mão na máquina de cortar presunto, a faxineira se afogou em um balde quase vazio e o gerente se enforcou com a gravata depois de ouvir a esposa comentar comigo que era amante de um empacotador. A vida comercial realmente não era muito interessante, além tinha muitas aulas para lidar. Ainda assim, consegui um emprego de tradução e revisão de textos, que podia ser feito totalmente em casa.

O bom da faculdade é que dá para se evitar ao máximo contato com as pessoas. Isso era bom, porque os acidentes estavam ficando graves: um namorado foi atropelado por um rolo compressor de asfalto enquanto ia buscar uma flor para mim, uma amiga perdeu o couro cabeludo quando fomos a um salão de beleza, outro perdeu os dentes comendo um hamburger e logo eu desisti de relacionamentos, até dos virtuais, depois que durante uma conversa no msn, uma prima distante foi eletrocutada.

Agora que era mais velha, não via com o mesmo desconforto da infância essa vida solitária. Estava convencida que o problema não era meu e sim com as pessoas, azaradas demais. Me formei e então pude me dedicar integralmente à profissão. Não que tivesse um futuro brilhante me esperando e eu não ligava muito para dinheiro. Assim, me tornei responsável pela tradução de sucessos internacionais e por vários projetos da editora. Consegui um emprego de assistente na diretoria depois que a pessoa que me mandava os materiais a serem traduzidos morreu de maneira violenta e abrupta, quando foi feita refém de um assalto e o carro foi esmagado por um cofre que caiu da cobertura do prédio em que eu vivo, uma coincidência muito infeliz.

Claro que eu não iria procurar uma benzedeira, nem me considerar um imã de uruca. Não tinha tal pretensão. As coisas são do jeito que são por um motivo que nada tem a ver com fé. De qualquer forma, não me surpreendi quando o pincher resolveu se jogar da janela. Talvez ele sobreviva, estamos só no quarto andar.

Termino minha história sem um suicídio pelo bem de todos ou qualquer apelo emocional. Estou feliz, tenho uma tradução a terminar e, como sempre, morre gente todo dia.

FIM

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