Bloody Memories

1 Capítulo Único


Estou aqui mais uma vez, mais uma noite, apreciando uma linda lua cheia.

Me deito olhando para o céu, sinto cada folha de grama molhada que umedece minha roupa e que causa um frescor maior junto com a sinfonia do vento que brinca com os galhos das grandes árvores; fazendo-os balançarem de um lado para o outro.

Não sei ao certo o motivo, mas todas as noites eu venho aqui e sempre faço a mesma coisa: olhar estrelas.

Cada vez é uma aventura, nunca se sabe quando passos apressados quebrarão essa calma sinfonia que eu escuto todas as vezes…Essa calma sinfonia, a sinfonia de um cemitério.

Minha mãe sempre dizia que eu devia ter pena dos vivos e não dos mortos. Tenho um certo tipo de conforto aqui, algo que me completa. Deve ser por causa dela que venho aqui todas as noites e deito ao lado de sua lápide.

“Mãe”, que palavra é essa que saiu de tão boa vontade de minha boca, que faz parecer com que eu tenha algum tipo de ligação com algo neste lugar? Eu realmente já tive uma mãe? Tenho vagado alguns dias em busca de respostas as quais eu necessito para seguir em frente. Coisas do tipo: meu nome, idade, o que eu faço aqui e porque eu sinto uma extrema dor por todo meu corpo.

Pareço ter dezessete anos, longos cabelos castanhos claros – que podia até chegar a um tom de loiro mel – , olhos castanhos e alguns arranhões em meu corpo.

Será que sempre foi assim? Minha falha memória, ou seria apenas uma traição de recordações que insistem em me fugir à mente? Uma coisa é a pessoa não lembrar do que comeu na noite passada, mas esquecer sobre tudo, é algo impossível…Impossível, mas aconteceu comigo.

Coloquei as mãos nos bolsos de minha jaqueta preta, esperando encontrar algo. Uma pista, um nome, qualquer coisa que me faça voltar ao normal. Encontrei um pedaço de papel e uma chave que tinha um chaveiro com uma letra “A” nele. Desdobrei o pedaço de papel e vi um endereço nele; o papel estava bem amassado e a tinta da caneta estava meio falha, o que quer dizer que eu não tenho esse papel de agora…Era algo que me pertencia antes.

E esse pingente, seria a inicial do meu nome? Ou seria algo totalmente diferente? Me sinto cega, impotente, inútil…Como é possível eu não lembrar de nada? Não posso dizer que minha memória está completamente apagada porque me lembro de vir aqui, todas as noites, e me deitar ao lado dessa lápide sem nome.

Em uma noite eu ouvi algo que chamou minha atenção: uma garota pequena entrou sozinha no cemitério apenas para colocar flores em uma lápide. Perguntei quem era a pessoa e ela respondera que era sua mãe. Ela havia morrido em um acidente de carro; a garota estava junto, mas nada havia acontecido com ela.

“Mãe”, novamente essa palavra. Seria minha mãe nessa lápide? Não. Algo me dizia que não. E enquanto eu não tivesse certeza de nada, iria confiar cegamente em meus instintos. Aproveitei meu momento naquele lugar e fui olhar algumas lápides; percebi que todas tinham nome de uma pessoa e a data em que morrera…Então por quê aquela lápide não tinha nome?

Questionamentos e mais questionamentos, me pergunto se algum dia eu terei minhas respostas; respostas que são cruciais pra mim. Me sinto andando às escuras, tendo que tatear o ar para não trombar em nada, tão vulnerável e sozinha.

Resolvi ir embora do cemitério e ver até onde aquele pedaço de papel amassado me levaria. Não tinha escolha, eu precisava ir. Não mediria esforços para saber o que aconteceu, mas para isso eu precisava de um plano. Primeiro eu iria até o endereço para procurar pistas e depois vou andar por toda a cidade em busca de alguém que me reconheça. Um papel, uma letra, um plano e várias perguntas; era isso que me mantinha de pé a cada segundo dessa noite que parecia que nunca iria passar.

Saí andando sem rumo pelas ruas que de alguma forma, eram familiares para mim. Passei por alguns becos onde tinham gatos brincando nas latas de lixo e alguns adolescentes bêbados demais para ficar em pé. Cheguei em um prédio baixinho que parecia ter dois apartamentos por andar. Sua pintura toda descascada mostrava que o prédio era velho e ao olhar pela vizinhança, esse não parece ser um bairro movimentado e o prédio nem parecia estar habitado por alguém.

O apartamento escrito no papel era o "3C", senti meu coração acelerar quando vi uma porta de madeira no final daquele estreito corredor. Será que eu finalmente teria minhas respostas? Tirei a chave do meu bolso e encaixei-a na porta para girá-la devagar. Era agora, finalmente a hora que eu tanto esperei…

Minha visão ficou totalmente tomada pela cor vermelha.O líquido escarlate aparecia em todos os cantos desse apartamento; no chão, nas paredes, em todos os lugares. Havia algumas manchas em formato de mãos…Poderiam ser as minhas mãos?

Me senti tentada a tocar na mancha da parede para sentir sua temperatura, sua textura, para quem sabe um dia descobrir a causa de sua aparição. Coloquei levemente meu dedo indicador sobre ela e logo em seguida, minha mão toda estava sobre aquele líquido que ainda estava meio quente. Impossível. Digo, como eu não me lembraria disso? Não tem nenhuma explicação lógica para isso.

Ouvi um grito, um grito agoniante que parecia perfurar minha alma. Olhei de um lado para o outro, mas eu estava sozinha naquele apartamento. Você tem que se lembrar, uma voz soava em minha mente. Cada grito, cada lágrima, Sophie…Você foi violada.

Minha cabeça começou a doer, não sentia minhas pernas, meus olhos estavam se fechando a medida que imagens apareciam em minha mente. Uma garota, sozinha, nesse mesmo apartamento, gritando e chorando de dor. Pude sentir sua agonia em cada pedaço de minha pele. A cena não era muito nítida, mas a garota foi largada no chão do apartamento com dois rasgos nas costas que não paravam de sangrar; eram rasgos bem profundos. Estava fraca, mal conseguia ficar de pé...Queria ver seu rosto, queria saber quem era, aposto que ela tem as respostas que eu preciso.

Tentei me levantar mas não consegui; estava paralisada ao chão de alguma forma. Sophie, seria o nome da garota? E o que eu tenho a ver com ela? Acho que não seria hoje que eu iria descobrir; estou fraca demais para andar e ainda tem algo que me intriga nisso tudo.

Tentei me aproximar do velho sofá rasgado que estava escorado em uma parede, mas minha tentativa foi falha, minhas pernas não me obedeciam e meu coração apresentava batidas irregulares.

Para completar minha total falta de sorte, um garoto que aparentava ter mais o menos a minha idade, com alguns centímetros a mais que eu e um cabelo loiro bagunçado, entrou correndo no apartamento. Me viu sentada no chão e foi se aproximando mais e mais de mim.

- Sophie? – o garoto falou.

- Oi? Quem é você e quem é essa Sophie?

- Sophie nem brinque com isso. O que houve? Você sumiu…Suas pernas. Não, não outra vez. Eu já pedi para eles te deixarem em paz.

- Eles quem? Quem é você?

- O que está havendo? Sou eu, Patrick.

Não sabia o por quê de eu estar nesse apartamento, não sabia se Sophie era meu verdadeiro nome, mas algo me dizia que Patrick não estava mentindo. Algo me dizia para confiar nele, algo nele me confortava.

Contei para ele tudo que aconteceu, sobre minha memória, as recordações, o papel, tudo e a cada palavra que saia com dificuldade de minha boca, Patrick mostrou com suas expressões que a situação era bem grave.

- Sophie, me perdoe. É tudo culpa minha. Se não fosse eu, eles não iriam…

- Eles? Mas afinal, quem são esses “eles” que você tanto fala.

- Aqueles que fizeram isso com você. – Patrick falou tocando minhas costas. Exatamente no lugar dos ferimentos da garota da minha memória; ferimentos que doeram muito apenas com um toque. – Ainda dói, não é? Claro que dói. Um Arcanjo não deve ter suas asas arrancadas.

- O que quer dizer com isso?

- Quero dizer que o traidor já está queimando no inferno. O responsável por você estar aqui e hoje, responsável pela perda de suas asas.

- Eu não entendo. – falei assustada. Arcanjo? Eu era um Arcanjo? A mais alta hierarquia dos anjos. Os Arcanjos são os celestiais mais poderosos…Espera, eu estou aqui pensando sobre anjos, enquanto tem um estranho no apartamento e eu nem cogito a possibilidade de ser uma história inventada? Basta, chega de faz de conta por hoje. – Olha, Patrick, eu não sei quem é você, o que você faz e o que pensa que é, mas eu não sou um Arcanjo e penso que eu saberia se eu fosse um.

- Saberia se você não tivesse feito um truque para alterar a própria memória. Eu estava bem aqui, naquele dia. Se eu soubesse dos planos, se eu viesse mais cedo. Não acredita em mim? Vá até o banheiro logo ali. – falou apontando para uma porta meio aberta. – tire sua blusa e veja, veja a marca que tanto te machuca. A marca que prova que eu disse a verdade. A prova de que suas asas foram arrancadas.

Finalmente tinha conseguido levantar do chão, depois de muita luta – e uma ajuda do Patrick – eu estava em pé e fui caminhando lentamente para o banheiro. Me sentia como uma criança quando aprende os primeiros passos: desajeitada e assustada.

Fechei a porta do banheiro e tirei minha jaqueta rapidamente, mas minha blusa não foi tão fácil de ser retirada. Percebi depois que era por causa de um pouco de sangue seco na blusa que se juntou com o sangue da minha pele e fez uma pequena película que era arrancada aos poucos, a medida q eu levantava a blusa. E lá estavam elas, duas aberturas na vertical…Profundas e traumatizantes.

Não consegui conter minhas lágrimas que eram de uma mistura de dor com raiva. Patrick tinha razão, eu era um Arcanjo, mas por quê eu não me lembro de nada?

- Você as viu? – Patrick perguntou cabisbaixo.

- Infelizmente.

- Vai me ouvir agora?

- Sim.

- Então, por onde começar. Você era um Arcanjo muito poderoso, todos te respeitavam Sophie, mas nem todos gostavam de você. Podem ser anjos, mas a inveja ainda é presente entre eles. Um dos Arcanjos, Claus, não gostava do fato de você estar em tal posição. Dizia que você era muito jovem, que não iria saber agir de acordo com os deveres de um Arcanjo. Mas a verdade foi que você se saia muito bem e por causa disso ele convenceu todos de te mandar para uma missão aqui no mundo dos humanos. Entretanto, não havia nenhuma missão, ele mandou seus comparsas que viviam aqui, anjos caídos, para te torturarem e retirarem suas asas da pior maneira possível.

A cada palavra um novo flash vinha em minha mente. Meu nome era Sophie e minhas asas eram lindas…grandes com um tom de azul cobalto misturado com branco e cinza que caiam muito bem com um grande vestido prateado que eu usara quando estava no céu. Me lembro de escolher esse apartamento para dificultar minha localização e ainda sim, um grupo de anjos caídos me acharam. Usaram alguma droga que me impedia de me mover mas que aumentou a recepção de cada nervo sensorial meu. Ei, ela até que é bonitinha. Bem que podíamos nos aproveitar um pouco; o que aparentava ser o mais novo falou. Os outros concordaram mas somente um que disse para nenhum deles fazer nenhuma gracinha e apenas seguir o combinado.

Eles me despiram na parte de cima do meu corpo e me obrigaram a mostrar minhas asas. Precisou de quatro deles me segurando de frente; me comiam com os olhos, até teriam tentado algo mas o líder do grupo já havia falado antes e sua palavra parecia ser a final.

Começaram apenas a fazer vários cortes aleatórios em minhas asas. A mensagem era clara: sofrimento e humilhação para nunca mais poder voltar ao mundo dos anjos. Presa em um lugar que respirava pecado e emanava malevolência.

Depois dos cortes, eles arrancaram minhas asas com as próprias mãos, um puxão atrás do outro enquanto meus gritos e lágrimas eram incessantes. Implorei para pararem, mas ninguém me ouviu. Eles estavam se divertindo; riam mais a cada grito meu que era solto e se animavam com aquele trabalho sujo, cruel, desumano.

Me largaram no chão do apartamento e foram embora, incapaz de me mover, incapaz de parar de chorar. Eu fui violada, eles arrancaram minhas asas…Estava sozinha, completamente sozinha, até Patrick aparecer.

- Mas você era um… – falei ao me lembrar de tudo depois.

- Um anjo, um amigo seu. Mas depois de descobrir sobre tudo que aconteceu, eu fiz questão de mandar Claus para o inferno.

- Você fez isso sozinho?

- Melhor pedir perdão do que permissão.

- E o que os Arcanjos falaram?

- Eles me mandaram para cá. Ainda tenho minhas asas, mas estou proibido de voltar.

- E você acha que valeu a pena? – perguntei sem entender. Ele tinha tudo, poderia se tornar um Arcanjo um dia, então por quê desistiu de tudo?

- Bem, eu vinguei minha amiga. Então eu não me importo.

- Onde estão os anjos caídos que fizeram isso comigo?

- No inferno, junto com Claus, mas uma obra minha que faço questão de mostrar.

- Eu realmente não posso voltar?

- Não. Suas asas foram retiradas de forma brutal fazendo-a ser contaminada com a podridão humana. Você não é mais pura e logo não pertence mais ao reino dos anjos.

- E onde estão minhas asas? – perguntei triste.

- Por quê você quer vê-las, Sophie? Não vai adiantar nada, uma vez retiradas de modo brutal, elas nunca mais voltam.

- Você não entende. – comecei a chorar. – Elas são minhas, são parte de mim. Onde elas estão?

- Desculpa Sophie, mas eu não sei. Eu fiquei cuidando de você até…

- Até eu mexer em minha memória e apagar o ocorrido de minha mente. Patrick…o que eu sou agora então?

- Você não é um anjo caído, ainda é um anjo, mas não um arcanjo.

- Então eu posso morrer?

- Não sei ao certo. Acho que sim. – Patrick respondeu passando a mão em meus cabelos como um gesto de despedida. Ele sabia o que eu iria fazer. – Tome pelo menos um banho antes de ir enquanto eu pego roupas limpas para você.

- É, você realmente me conhece. – falei com um sorriso fraco no rosto.

- Conheço dona encrenca, agora vai. – Patrick respondeu com o mesmo sorriso no rosto e uma risada baixa.

~X~

Tomei um banho bem longo com água bem quente esperando que ela levasse consigo tudo de ruim que restava em mim. Fiquei revendo minhas lembranças e pensando no melhor lugar para se esconder uma asa. Um lugar onde ninguém acharia, ninguém além das pessoas que a colocaram lá. Foi ai então que eu obtive minha resposta. Então eu sai do banho, vesti minhas roupas e chamei Patrick.

Ele me levou até o meu destino: o cemitério; onde aquela lápide sem nome despertou minha atenção até quando eu estava sem memória. Acontece que eu não consegui apagar tudo, sempre tem algo que fica, nossas emoções são algo que somente nós conhecemos e ninguém pode tirar os sentimentos de outra pessoa.

Peguei uma pá e comecei a cavar com dificuldade até eu bater em algo que parecia um chão oco. Agachei e terminei de cavar com as minhas mãos, até sentir algo semelhante com uma alça para eu puxar a porta do caixão. Lá estavam elas, sujas, cortadas, minhas lindas asas.

Tateei-as com o zelo e cuidado que eu sempre tive, mas agora elas não estão mais juntas de mim e nunca mais estarão. Não faço questão de ficar em um lugar ao qual eu não pertenço e muito menos onde eu não sou mais o que eu era.

Se é abaixo da terra que os contaminados com a podridão ficam, é abaixo da terra que eu ficarei. Pedi para Patrick enterrar o caixão novamente assim que eu estivesse pronta.

Respirei fundo e entrei no caixão, o caixão que pertencia às minhas asas e que agora também pertencia à mim. Prefiro ficar abaixo da terra onde eu sou eu mesma do que viver uma mentira em cima dela; não faria isso nem se conseguisse. Agora sou assombrada pelos fantasmas do passado, pela sombra do presente e a escuridão do futuro. Então aqui eu fico, com uma adaga na mão e lágrimas no rosto. A parte boa disso tudo é que como eu fiquei mais “humana”, a possibilidade de uma morte era possível. Contei até três, fechei meus olhos e enterrei a adaga em meu peito…meu último suspiro, meu último segundo, minha última lágrima e finalmente poderia por fim em essas memórias sangrentas que me assombram, mas que nunca mais me assombrariam outra vez.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!