Bloody Ice
1 Vision 00
Notas iniciais
Viktor Nikiforov está mal-humorado. Primeiramente, a pessoa que deveria ser seu futuro parceiro está um dia atrasado. Segundo Yakov, seu irritante chefe, alguém ‘especial' vindo do Japão está para vir. Alguém que pertence a uma instituição estranha que possui conexões com todas as polícias do mundo, e esta pessoa parece ser capaz de auxiliar a Unidade de investigação de Crimes Especiais, ao qual ele pertence. Com a chuva torrencial que caía lá fora, a noite não é uma das melhores. E quando ele acha que nada podia piorar, a diretora responsável pela unidade, Lília Baranoskaya, surge gritando.
“Temos um crime. No ringue de patinação de gelo. Nikiforov e Plisetsky devem ir para a cena imediatamente. Popovich e Babicheva devem usar do sistema de câmeras de segurança e ficarem de prontidão para investigação sobre a vítima e pessoas envolvidas.”
Yakov, que só pode grunhir por não poder dar ordens naquele momento, só faz erguer o braço direito.
“Vão.”
E os quatro presentes obedecem, deixando para xingarem a sorte deles quando estiverem fora do alcance de seus superiores.
…
Quando os dois detetives entram no ringue, passando por pessoas curiosas, policiais e a fita de ‘mantenha distância’, não esperavam encontrar alguém patinando tranquilamente.
“Mas. Que. Diabos?” Yuri Plisetsky pergunta, de testa franzida.
“Detetives.” Uma bela policial se aproxima deles, os saudando.
“Anya! É bom te ver de novo!” Viktor exclama, e com isso chama a atenção do patinador, que para e os olha. “Quem é?”
“Ele descobriu o corpo. Seu nome é Yuri Katsuki e ele é do Japão. Segundo ele, está aqui para trabalhar.” Ela responde, olhando para o japonês, que se aproxima deles. “Melhor falar com ele em Inglês. Eu não acho que ele entenda russo.”
“Uau! O nome dele também é Yuri!” Viktor exclama com o seu sorriso em forma de coração, recebendo uma careta do outro detetive.
“Cala a boca, velhote! Não me venha com suas idéias malucas.” O louro grita, pisando no pé de seu parceiro.
Toda a cena cômica é assistida pelo japonês, que não esboça nenhuma reação e não fala nada.
“Por aqui, por favor.” Anya diz, em Inglês.
Os três a seguem até o outro lado da arena, onde ficam os armários. Lá, o corpo de um homem não muito jovem está esparramado em um dos bancos, cheio de facadas no peito. Detetive Nikiforov conta 22 facadas do que aparenta ser a mesma faca. Os peritos tiram fotos e analisam a cena ao redor deles, e a policial decide começar com o que já descobriram.
“Não encontramos a carteira, e nenhum funcionário da arena o conhece, então sua identidade é um mistério. Achamos ser uma vítima de latrocínio. Sr. Katsuki aqui descobriu o corpo há mais de uma hora. As digitais do corpo já foram retiradas e levadas para análise, e já mandei vasculharem as redondezas à procura da faca usada.”
“Bom trabalho, Anya. Yuri…” Detetive Nikiforov se interrompe ao ser olhado pela testemunha e seu parceiro. “Melhor te chamar de Yurio! Assim dá para diferenciar!”
“MEU NOME NÃO É YURIO SEU MALDITO!”
“E Yuri, eu quero falar com você.” Viktor, ignorando seu parceiro, olha para o japonês à sua frente, que afirma com a cabeça.
…
Sozinho com o estrangeiro, Detetive Nikiforov dá uma boa olhada nele. Jovem, provavelmente alguns anos mais novos que ele e tem quase a altura dele, cabelos e olhos aparentemente negros, aparência mediana para um oriental. Ele aparenta ser do tímido, mas estranha o fato dele estar calmo para quem viu um alguém morto. Calmo até demais.
“Meu nome é Viktor Nikiforov. Sou um detetive da Unidade de Investigação de Crimes Especiais.” Isso faz o japonês o olhar com surpresa. “Você pode me chamar de Viktor.”
“Yuuri Katsuki.” o japonês se curva. “Eu poderia dizer o mesmo, mas parece que há alguém com o mesmo nome que o meu.”
A voz do japonês o surpreende, e ele, por alguma razão, se sente arrepiado. Viktor Nikiforov percebe que aquele homem está escondendo algo. E faz de sua missão descobrir o que é, mesmo que isso signifique mandá-lo para a.cadeia como assassino. E esse pensamento o faz franzir a testa antes de continuar.
“Não tem problema, eu já achei uma solução para esse problema temporário.” Viktor volta a sorrir. “Mas indo direto ao ponto, pode me descrever como descobriu o corpo?”
O japonês afirma, levantando a mão direita e apoiando o queixo nos dedos, pensativo.
“Eu não vim aqui porque quis. Eu cheguei de viagem hoje de manhã, e dei um papel onde estava escrito para onde eu deveria ir para um motorista de táxi. Ele acabou me trazendo para cá e após eu pagar, ele me deixou aqui. Como eu gosto de patinar, eu decidi entrar no prédio e pedir ajuda, mas ninguém pareceu entender o que eu queria. Paguei para usar o ringue e fiquei usando ele até um pouco mais de uma hora atrás, quando um cara veio gritar comigo,apontando para minha mala. Decidi guardá-la e foi aí que eu descobri o corpo.” O japonês fala, naturalmente.
“Você sentiu medo ao ver o corpo?” O detetive pergunta, o fazendo inclinar o rosto.
“Quem não sente?” O japonês pergunta, não respondendo diretamente a ele.
“É verdade.” O detetive comenta, sem tirar os olhos do outro. “Quem não sente…”
“Ei, Detetive. Eu posso ajudar na investigação?”
A pergunta o pega de surpresa.
“Mas você está ajudando, como testemunha…”
“Não como testemunha. Como suporte.” O japonês o interrompe, o olhando seriamente. “Meu nome é Yuuri Katsuki, e vim de Kyoto, Japão. Sou enviado do Instituto Ichikawa para auxiliar a unidade de Investigação de Crimes Especias com minhas habilidades especiais.”
“Você?! Isso só pode ser brincadeira!!” Viktor exclama, surpreso.
Mas como ele sabia o nome do instituto, que só é conhecido por ele, Yakov e Lília? E ele é japonês…
“Então você tem poderes psíquicos?” O detetive pergunta, recebendo um sorriso do rapaz à sua frente.
“Correto. Se eu tocar em qualquer objeto, eu posso ver as últimas memórias deste objeto e também memórias importantes.” Yuri Katsuki explica, o fitando enquanto ergue as duas mãos enluvadas. “Se você duvida, detetive, eu posso tocá-lo e ver suas memórias.”
Antes que Viktor pudesse responder, a porta se abre e o outro detetive surge.
“Venha comigo. Eles encontraram algo.” Este diz, olhando para o japonês.
Ele agarra o braço esquerdo, puxando com força o detetive de cabelos prateados para fora do aposento e fechando a porta.
O japonês se vê dando risada, aproveitando a solidão para refletir sobre seus futuros parceiros de trabalho. Aparentemente, ele trabalhará ao lado do detetive de cabelos prateados. Um dos motivos da risada é pelo fato do detetive tem um corpo divino, que ele pode perceber quando o viu pela primeira vez e foram andando até onde está o corpo. O outro motivo é pelo fato de curiosamente outra pessoa da equipe tem o mesmo nome dele. Isso vai ser interessante. E se os cálculos dele estiverem certos, eles estão confirmando a identidade dele com Lília Baranoskaya. Agora, quanto a esse crime, existe algo muito peculiar nele.
“Marcas de auto-defesa.” Ele fala, de testa inclinada. “Por que não existe marcas se auto-defesa nas mãos e braços dele?”
Os dois detetives entram no aposento no exato momento em que ele pergunta, surpresos com o que escutam.
“O que acha, Yurio?” Detetive Nikiforov pergunta, olhando do japonês para o colega.
“Vamos ver se as alegações dele são verdadeiras.” Detetive Plisetsky diz, rangendo os dentes. “Ei, Porco! Pega isso!”
Ele joga algo para o japonês, que pega. Sem não antes franzir a testa para o loiro de olhos verdes, ele analisa o objeto. Um colar dourado, com a letra ‘A’ como pingente e sangue espalhado nele. Ele ergue a mão esquerda na direção da boca e com os dentes, tira a luva preta e, com a palma vazia, deposita o colar nela. O detetive Nikiforov percebe um certo brilho nos olhos dele, que logo some quando ele desliza o colar para a mão direita enluvada.
“Este colar não pertence a vítima nem ao culpado. É um objeto esquecido por um patinador que acabou sendo envolvido no crime. Mas por ele pude entender algumas coisas. Primeiro: Não houve ferimentos de autodefesa porque a vítima já estava desacordada quando recebeu as facadas. Isso já torna o caso um homicídio, não latrocínio. Segundo: Ele foi trazido para cá inconsciente e esfaqueado aqui e depois teve seus pertences roubados.” Ele fala, fazendo os dois detetives se entreolharem. “Eu preciso tocar no corpo ou em um objeto que ele estava usando para ver suas memórias.”
“O que você acha?” Viktor Nikiforov pergunta, de braços cruzados.
“Vamos apostar nele. Quem sabe as coisas se agilizam e podemos ir para casa cedo.” O seu colega grune, fazendo careta.
“Venha. Vamos ver o que você é capaz de descobrir.” O detetive de cabelos prateados fala, sorrindo.
O japonês se levanta e se aproxima deles, sério.
…
Voltando, os peritos estavam preparando para remover o corpo. Quando eles passam por ele, o japonês agarra seu pulso direito, e de repente, começa a tremer, mordendo o lábio.
Nikiforov arregala os olhos e o faz soltar o pulso, o fazendo ir ao chão e agarrando o peito com as duas mãos, completamente suado e pálido. O japonês, que o olha apavoradamente, franze a testa e leva a mão para a boca.
“O assassino é uma mulher. E está aqui.” Ele diz, olhando em volta. “Ela é a perita…”
Yuuri Katsuki se levanta e vai até a perita conhecida por Anya e a agarra pelo pulso.
“Por que você matou seu namorado?” Ele pergunta, ofegante. “Georgi Popovich?”
“Me larga! Do que você está falando?” Ela grita, o empurrando.
Nisso, ele agarra a manga da farda dela, e com o impulso, um objeto cai. E com uma risada, o japonês desmaia, sendo amparado por Viktor.
Plisetsky a agarra pelo pulso e a algema.
“Você está presa. Tem o direito de se manter em silêncio e tudo o que disser pode ser usado contra você.” Ele diz, abrindo um sorriso.
Com o japonês nos braços, Nikiforov olha para o objeto, e vê que é uma carteira. Ele olha para ela, com desgosto.
…
Na delegacia, todos se surpreendem ao saber pela boca dos dois detetives o que aconteceu. Nikiforov deixa o japonês descansar no sofá, e se junta ao pessoal. Georgi Popovich, colega deles, está ali, chorando agoniadamente pela namorada que é a assassina.
“Então, o que aconteceu ali?” Plisetsky pergunta, assim que ele chega.
“Percebi que ele se tremia ao ter tocado no corpo.” Ele responde.
“De fato.” Baranoskaya responde. “Aquele jovem é capaz de ver as últimas memórias de qualquer coisa, ao tocá-lo. Isso significa que ele recebe todas as emoções daquele objeto.”
“Ele sentiu as facadas?” Viktor pergunta, com as mãos na cintura, preocupada.
“Exato.” Lília Baranoskaya responde. “Ler as memórias de um corpo e uma das habilidades que é desenvolvida pelo Instituto Ichikawa, fazendo parte do programa de habilidades extra-sensoriais. Yuuri Katsuki será vital para está unidade. Nikiforov, a partir de agora você e ele serão parceiros. E eu acho que é melhor ele passar um tempo no seu apartamento, até as coisas se acalmarem.”
“Como assim?”
“Alguém…” Ela fita para Yakov, que dá uma tossida para disfarçar. “Não só deu o endereço errado que era para ser repassado para ele, como também esqueceu de encontrar um lugar para ele ficar. E eu prometi aos superiores do Instituto que cuidaria bem dele.”
“Ele é um adulto. Ele pode se cuidar sozinho.” Plisetsky diz, rapidamente.
“Sim, ele é um adulto. Mas ele está em um país totalmente diferente, com pessoas desconhecidas e carregando um peso que nem mesmo eu posso entender. Além disso, ele é um adulto com limitada experiência de vida. Então exijo um pouco de paciência com ele. No mais. Eu o considero como um filho, então saibam que se algo acontecer com ele, enfrentarão a minha fúria. E tenho certeza que isso vocês jamais querem.”
Todos os 3 ali concordam, ninguém se importando com Popovich, que continua em sua crise amorosa.
Mila Babicheva se aproxima, lambendo os lábios.
“Arranquei tudo da maldita. Ela saia com nosso Georgi e com a vítima ao mesmo tempo. E como a vítima descobriu, ele não aceitou e exigiu que ela acabasse com o nosso Georgi. Como ela não queria, afinal ambos a enchiam de presentes caros, ela fez ele tomar um suco com sonífero, se disfarçou de funcionária do ringue e o esfaqueou, pegando a carteira dele logo em seguida. Ela decidiu usar o ringue porque era onde Georgi gostava de levá-la nos encontros e queria fechar o local de vez.” Ela diz, colocando na mesa a faca ensanguentada e a carteira da vítima. “O sangue da vítima bate com o da faca e as digitais nela batem com a da maldita. “Com isso, não resta mais dúvidas.”
“Muito bem. Declaro caso encerrado.” Baranoskaya fala, sorrindo satisfeita para todos os membros da equipe. “Bom trabalho a todos. Nikiforov, passe meus agradecimentos à Yuuri. Depois podemos decidir como iremos diferenciar os dois Yuris, já que possuem o mesmo nome.”
“Eu decidi chamar esse Yuri de Yurio!” Nikiforov diz, ao lado de Plitetsky, recebendo uma cotovelada logo na cara.
“MEU NOME NÃO É…”
“Ótimo. Você será chamado de Yurio a partir de agora.” Baranoskaya decide, deixando o detetive vermelho de raiva.
…
Enquanto Yuuri Katsuki adormecia no largo sofá da sala de descanso, Viktor se contenta em refletir sobre esse caso. Ele jamais imaginaria que uma colega poderia se tornar uma assassina, e por motivos banais. Ele respira fundo e fita o japonês, que começa a repetir coisas que ele não entende, entre soluços.
“Gomen nasai. Ittai.”
Lágrimas escorrem de seu rosto e Viktor se vê acariciando o rosto dele, com um olhar de preocupação. O japonês se treme e abre os olhos, o fitando.
“O caso?” Ele pergunta, fazendo Viktor dar risada.
“Encerrado, graças a você.” Ele responde. “Lilia me disse que você não tem onde ficar então, se você quiser, pode morar comigo. Acho bem mais prático e seguro para você.”
“Eu não vou incomodar?” Yuuri pergunta, surpreso com a oferta.
“Não, mas tem uma coisa. Eu moro com um cachorro.” Viktor responde, e ele abre um sorriso.
“Eu adoro cachorros.” Ele responde, dando risada.
Ele é tão fofo! Viktor por pouco não abre a boca.
“Certo. Vamos comer primeiro. Depois iremos para casa.” Viktor se anima, estendendo a mão para ele.
Yuuri ergue a mão enluvada até ela, sendo puxado até cair nos braços deles.
“Me desculpe.” Ele diz, mas Viktor apenas sorri.
“Não tem problema. Foi um acidente.” Se afastando do japonês, Viktor não acaba não percebendo o rosto embaraçado dele.
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