Bloodlines
8 Capítulo VIII
Capítulo VIII –
Hanji.
Havia cinco anos que Hanji Zoë, agora Hanji Smith, casara-se com Erwin. Os dois se conheceram numa festa de faculdade. Ela cursava história com foco na “época das muralhas”, como os historiadores chamam um período tão remoto no tempo que só se faz menção a ele em velhíssimas cantigas, e ele direito, trilhando os primeiros passos para tornar-se delegado.
Não foi como nas histórias melosas que se conta nos livros. Erwin não derramou bebida nela deixando-a nervosa e Hanji não tropeçou nele por engano, porque nada disso acontece na vida real. Os dois acabaram por se sentar lado a lado enquanto esperavam seus respectivos amigos que, por obra do destino, acabaram por não aparecer, e como não havia remédio, eles conversaram, e não pararam nunca mais.
Erwin e Hanji sentavam-se juntos sempre que possível, discorriam sobre seus cursos nas semelhanças e diferenças. Tagarelavam horas a fio sobre suas aspirações para o futuro e também sobre as tolices cometidas no passado. Falavam sobre política e economia, a lei e a ordem, o tempo e o vento, a vida e a morte. Nem sempre concordavam, mas mesmo suas discrepâncias eram apenas pensamentos levemente diferentes um do outro, nunca encontraram ideias nas quais eram mortalmente opostos e começaram a duvidar que algum posicionamento sobre qualquer assunto que fosse tivesse a capacidade de joga-los um contra o outro.
Entretanto, apesar das constantes provocações do irmão casula de Erwin e das amigas mais próximas de Hanji os dois nunca tiveram tempo para pensar em desenvolver um relacionamento que extrapolasse os respeitosos e tênues limites da amizade. Estavam sempre muito ocupados com o significado das palavras ditas em suas infindáveis conversas para se preocuparem com algo tão bobo quanto os ácidos comentários do “nanico”, como Hanji costumava chamar Levi.
Por isso nem Erwin nem Hanji lembram ou entendem ao certo o que aconteceu. Quando tentam puxar qualquer lembrança mais apurada da noite da formatura dão de cara com uma grossa parede de embriagues que os impede de reviver os pequenos detalhes. Sabem apenas o que seus colegas tiveram a boa vontade de contar. Primeiro eles beberam, e muito, afinal, estavam comemorando. Algumas garotas disseram que depois viram Erwin falar com Hanji num tom galanteador que nunca usara antes. E.… bem... O final da história vocês podem perguntar à pobre Sra. Avdol, que ao entrar na biblioteca na manhã do dia seguinte encontrou uma janela escancarada e roupas espalhadas pelo chão.
Porém, depois de tantos anos, a professora universitária começou a sentir um distanciamento entre ela e seu marido nos últimos dias. Erwin começou a levantar bem cedo, tomar café e sair antes de todos da casa acordassem e quando voltava mal trocava duas palavras antes de se deitar novamente, mas naquele sábado Hanji iria pega-lo, Erwin não sairia de fininho. Ela não permitiria.
—Aonde pensa que vai? – A morena chamou quando sentiu o corpo de Erwin tentar se mexer para longe do seu. –Não são nem seis horas da manhã, e é sábado.
—O que faz acordada?
—Não tente virar a conversa, Erwin Smith. – Com uma rapidez felina Hanji sentou-se no torso de seu marido e curvou-se sobre ele com intenção de pôr um braço de cada lado da cabeça loira para não lhe deixar escapar. A mulher mirou o azul celeste encrustado em dois orbes brancos que compunham as janelas para a alma de Erwin a qual fora conquistada por ela tantos anos atrás. “Não poderá mentir também”. Finda sua teia cuidadosamente executada e capturada a presa Hanji sentia-se triunfante como uma colegial que acabara de tirar nota máxima numa prova.
—Agora me diga, o que está me escondendo?
Num primeiro momento Erwin não reagiu ou disse qualquer coisa, estando demasiado hipnotizado pela atitude rápida de Hanji. É claro, aquele tipo de atitude não era totalmente inesperado daquela mulher a qual sempre teve seus toques acentuados de loucura transmutada numa animosidade e espontaneidade impressionantes a qualquer um. E agora, estando sob ela Erwin só podia pensar que fora sua culpa não prever algo desse tipo vindo de sua amada.
— Não sei do que está falando.
—Sério? Acha mesmo que isso vai colar comigo? – Ele suspirou.
—O que quer que eu diga?
—O porquê de vir agindo tão estranho nos últimos dias.
Erwin queria desesperadamente mentir, de fato, seria muito simples faze-lo, essa era apenas uma das habilidades que se ganhavam junto com os anos trabalhando na polícia, só precisava desviar levemente o olhar e pronto! Estaria livre para contar a mentira perfeita. Poderia dizer que estava trabalhando num caso extremamente importante, ou que ele e todos os seus colegas estavam se encontrando antes do trabalho para se divertirem um pouco e extravasar as tensões do emprego, ou talvez que estava com saudades e andava visitando sua mãe a semana inteira. Tanto faz, qualquer uma serviria, contanto que soasse convincente o bastante.
—Eu... – Ele moveu levemente o foco de seu olhar para a pequena brecha estre os cabelos castanhos ainda despenteados por onde se via o teto tão branco como as leves e macias nuvens que deslizavam despreocupadamente nas manhãs tranquilas de março.
—Ei! Olhe para mim enquanto fala! – Bradou irritada com a atitude do marido. Seria seu segredo tão ruim assim?
O delegado tentou, tentou de verdade mentir enquanto encarava os orbes marrons fixos nos seus, mas nenhum som saiu de sua boca, porque apenas olha-la fazia-o sentir por todas as mentiras que contara e contaria durante a vida. Só de pensar em enxergar o menor sinal de raiva ou desaprovação em sua face causava-lhe uma dor inexplicável e por mais que tentasse engoli-la, a angustia demonstrava-se persistente. Talvez fosse esse o legado de pandora às suas descendentes femininas, um inebriante encantamento que quando caí sobre algum homem desavisado torna-se inescapável. E Deus tenha piedade desse coitado se tentar mentir ou enganar sua Pandora. Pobre de Erwin, que, imprudente e teimoso tentaria isso mais de uma vez.
O quarto caiu num silêncio profundo. Se as paredes Azul-Royal pudessem falar elas provavelmente berrariam de ansiedade em saber qual seria a próxima fala, a próxima ação deles. Mas rebaixadas a sua condição de ouvintes passivas tudo o que podiam fazer era aguçar ao máximo a audição, infelizmente para elas Erwin e Hanji permaneceram calados. Ah, desventuradas paredes! Condenadas a ouvir, mas nunca ver. Se tivessem o dom da visão poderiam contemplar aquele momento dantesco em que o sol nascia amarelado dissipando as trevas noturnas com seus com seus raios que cavalgavam por todo horizonte e entravam de supetão pela janela do quarto onde Erwin, imóvel sobre os lençóis cor de vinho e preso pela mulher, perdia toda a cor das faces, tornando-se pálido como um fantasma. Pobres paredes, tudo o que podem fazer é ouvir o nada e rezar para que a brisa não seja a única a quebrar aquele silencio aterrador.
Não havia saída pela direita daquela vez. Não havia trabalho, ou crianças que pudessem desviar a atenção de Hanji, completamente voltada para Erwin. Era melhor contar logo toda verdade. “Estranho” Ele pensou agarrando a cintura dela e girando-os até que Hanji ficasse em baixo dele. Estranho era uma boa palavra para definir toda a confusão que atacava sua mente. Estranho englobava perfeitamente as diversas reações de seu corpo diante aquela situação. Estranho, era como se sentira nos últimos dias. Estranha fora sua decisão de mentir. Talvez ele fosse estranho no final das contas. Mas, quem além daquela mulher com expressão confusa e ao mesmo tempo obstinada haveria de se importar com sua estranheza?
—Eu... tudo o que eu... – As palavras estavam engasgadas em sua garganta embora sua mente soubesse exatamente o que dizer, as frases saiam cortadas, desconexas. Quanto tempo fazia desde aquela tarde no hospital? Uma semana? Duas? Não, um mês... um mês... por Deus! Um mês! Como podia fazer um mês?! Como era possível que ele, o delegado conhecido por ser o mais responsável e determinado num raio de cinco ou seis cidades, tivesse deixado um mês se passar como se fosse apenas uma semana? -Eu não... eu não consigo... juro que não consigo. Hanji. Por favor, não me faça falar! Não me obrigue a dizer em voz alta.
Sua postura, sua voz, seus olhos, tudo em Erwin lhe dizia que seu marido estava à ponto de chorar um maremoto lá mesmo em cima dela e afoga-la com seu pesar. E no fundo Hanji preferia ter morrido com as lágrimas de Erwin inundando-lhe os pulmões a ver o que viu nos próximos segundos. A figura acima da morena tinha os olhos completamente vermelhos vidrados nela, as mãos fechadas em punhos afundavam no colchão dos dois lados de sua cabeça até quase sumirem nas pequenas crateras que formavam. O corpo trêmulo apresentava os pelos eriçados. Mas nenhuma lágrima caiu. Por mais que parecesse querer, Erwin não conseguia chorar. Já chorara demais não suportaria derramar nem mais uma gota de água salgada.
Não suportando mais o próprio peso o delegado se deixou cair lentamente por cima da professora universitária até estar com a cabeça loira enterrada no pescoço quente e macio que tanto mordera e beijara em outros dias mais alegres. Ah... sua esposa tinha um cheiro inconfundível. Nem todas as rosas do mundo conseguiriam cheirar melhor do que aquela pele! O aroma de baunilha trazia consigo tantas boas lembranças, tantas conversas, tantos beijos, tantas noites juntos! Se ele pudesse ficar ali para sempre, se apenas pudesse se aproveitar eternamente da sensação de estabilidade trazida por aquele bálsamo... se ele pudesse, ah, certamente Erwin Smith seria o homem mais feliz de todos se pudesse continuar ali até o fim dos tempos.
Contudo foi a própria Hanji a lhe tirar de seu refúgio enfiando os dedos finos entre os fios dourados e puxando sua cabeça para cima.
—Por favor. – Ela implorou. – Me deixe ajudar.
Era difícil falar. Apesar de já saber a verdade confessar em voz alta afastava a fumaça que abrandava a realidade tornando-a espinhosa, feia e sólida.
—É.… é a minha mãe, Hanji.
—Kuchel? O que com ela?!
—Ela... ela... – Erwin balançou a cabeça em negação. – Ela está morrendo.
Nenhum dos dois conseguiu falar depois daquilo. As bocas abriam e logo em seguida fechavam despindo a incerteza que lhes tomava conta dos corações. Pássaro algum cantou aquela manhã, sequer a brisa perturbava o silêncio e as meninas, que sempre levantavam cedo nos fins de semana se recusavam a acordar. Toda natureza parecia se compadecer por eles que abraçados desejavam ardentemente que aquilo fosse apenas um pesadelo. Porque de pesadelos podemos acordar, mas a feia, sólida e pontuda realidade é inescapável, inalienável e impiedosa.
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