Bloodlines
6 Capítulo VI
Capítulo VI –
Hreidmar: Artes e humanidades.
—Então... – Kuchel disse chamando a atenção dos dois rapazes que tomavam café da manhã com ela. – Aquela amiga de vocês é bem avoada.
—Por quê? – Levi questionou mais interessado na forma como o chá dançava em sua xícara do que na colocação de sua mãe.
—Isso estava no chão da sala. – Ela disse pondo sobre a mesa um pequeno elo de prata, que precisava urgentemente ser polido. O elo era preenchido por pequenos tracinhos hora prateados, hora negros que se entrelaçavam formando um par de asas. Esse elo tinha dois pedacinhos ocos de prata suja dentro dos quais haviam duas tirinhas trançadas de couro escuro que pareciam ter sido roídas e emporcalhadas por todas as traças do mundo.
—Que coisa mais bizarra. – O moreno comentou depois de uma boa olhada na peça.
—Como a senhora sabe que é dela? – Farlan perguntou à Kuchel.
—Não é de Levi ou de Erwin. E sei que não é seu ou de Isabel, e como também não é meu só pode ser dela.
—E quer que devolvamos a ela?
—Sim, por favor.
—O Farlan entrega. – Levi anunciou.
—Eu não. Você que passou a noite inteira jogando com ela. Você devolve. – O moreno bufou.
—Ótimo. – Ele disse agarrando a peça e jogando-a no bolso da calça escura que vestia. – É melhor irmos ou vamos nos atrasar. – Levi bebeu o ultimo gole de chá e foi pegar sua mochila no quarto. Farlan observou o amigo sumir pela porta e após se despedir de Kuchel, — que logo sairia para trabalhar – o seguiu.
Levi e Farlan chegaram à escola por volta das 7:40, e como vinha ocorrendo todos os dias nessas últimas três semanas, Mikasa já ocupava sua cadeira. Levi até começou a se perguntar se a casa da garota ficava nas redondezas. Acabou ficando na dúvida por se recusar categoricamente a perguntar isso a ela.
—Bom dia. – Ele disse casualmente ao tomar seu lugar à frente de Mikasa.
—Você por acaso não encontrou uma pulseira na sua casa, encontrou? – Por um breve instante o rapaz pensou em dizer que sim e fazer logo o que sua mãe pedira, mas ele tinha de admitir, aquela coisa velha pesando em seu bolso o intrigara, e uma parte sua não se sentiria satisfeito até saber exatamente por que raios aquela pirralha tinha algo tão estranho.
O moreno levantou da cadeira para conversar olhando para Mikasa.
—Pulseira? Você não estava usando pulseira alguma ontem. – Nem o próprio Levi sabia que conseguia se fazer de desentendido tão bem. Talvez fizesse isso mais vezes, ao menos assim poderia evitar perguntas imbecis.
—Ela estava no meu bolso.
—Por que raios diabos alguém guardaria uma pulseira no bolso?
—O fecho quebrou. Bem, caiu, na verdade.
—Então não faz diferença. Era só lixo.
—Lixo?! O que quer dizer com lixo?! Aquilo não é nenhum lixo! – Ela levantou o tom de voz irritada com o comentário insolente do nanico a sua frente.
—Não sei como você chama coisas quebradas, mas para mim são lixo. – Levi riu por dentro ao ver o rosto da garota se contorcer de raiva, não só por causa de sua brincadeira, mas porque – pelo que via – raiva não combinava com ela.
—Nanico... se você jogou fora.... — A menina ameaçou.
—Relaxa, eu te compro outra.
—Aquela pulseira... – Mikasa tentou ao máximo não gritar. – Era de alguém muito especial para mim!
—Tenho certeza de que ele ou ela vai entender.
—Levi. – A morena chamou séria e pesarosa, o que logo fez com que as risadas internas que o rapaz dava fossem contidas no ato. – Ele morreu. – Ela completou.
O moreno pensou em pedir desculpas, mas aquilo era algo que fazia tão raramente que seu cérebro protestava violentamente todas as vezes que Levi tentava. Em um lapso ele levou a mão ao bolso sentindo o frio elo de prata e o couro corroído brincarem entre seus dedos. Foi então que teve uma ideia melhor. No mesmo instante a Sr. McCoy entrou na sala cumprimentando a turma. Ele voltou a se sentar.
—Eu e minha mãe vamos procura-la. Peço para a Isabel te avisar se encontramos. – Ele sussurrou.
—Obrigada. – Ela sussurrou de volta pondo a mão no ombro dele em um gesto de genuíno agradecimento.
Na hora do intervalo Levi mantinha sua ideia fixa na cabeça enquanto pensava seriamente em ouvir o eterno conselho de seu amigo e passar a levar o celular consigo na faculdade, afinal de contas, era um saco ter que pedir o aparelho de Farlan todas as vezes que precisava ligar para alguém. Por outro lado, ele raramente fazia ligações.
—Farlan, me empresta seu celular?
—Para quê?
—Preciso ligar para o Müller.
—Por quê?
—Preciso perguntar uma coisa a ele.
—Você deveria...
—Trazer seu próprio celular. Eu já sei todo o seu sermão e você já sabe todas as minhas respostas a ele. Precisamos mesmo ter essa conversa pela enésima vez?
—Quer que eu te espere? – O outro perguntou entregando o celular.
—Não, eu sei que você não quer ficar aqui comigo enquanto...
—Está bem, está bem! Já ganhou. – Ele respondeu se retirando da sala e assim que Farlan bateu a porta o Sr. Müller atendeu o telefone um tanto preocupado, afinal, não era nada normal que Levi ligasse no meio da manhã. Na verdade, não era normal que Levi ligasse para ele.
Isabel caminhava calmamente ao lado de Farlan em direção à casa dos roseirais – apelido dado à casa da garota em função de três enormes roseiras que a tempos morreram – por obra do destino o rapaz acabara por morar duas há duas ruas de distância da casa para a qual a ruiva se mudara ao ser adota, portando, era normal ver os dois indo e voltando juntos da escola e posteriormente da faculdade, assim como era rotina um passar a tarde na casa do outro.
Ao chegarem a garota abriu a porta e pediu que ele sentasse enquanto ela guardava a bolsa e trocava a calça por um short – a primavera começara quente esse ano. Logo após Isabel sumir no corredor do segundo andar sua mãe, Zaila apareceu para lhe fazer companhia.
A mulher negra sentou-se ao lado do garoto sorrindo com seus grandes olhos castanhos enquanto arrumava alguma falha imperceptível em seus cabelos cacheados presos em um coque no topo da cabeça.
—Como vai, Farlan?
—Bem, muito bem, e a senhora? – Por mais que fosse repreendido de novo e de novo pelas mães de seus amigos o rapaz nunca conseguia perder as maneiras que seus próprios pais lhe deram quando ainda criança sempre trate os mais velhos por senhor ou senhora a voz de sua mãe ressoava em sua cabeça.
—Muito mal sabendo que meu futuro genro nunca me escuta. – Ela disse em tom de piada sabendo que aquilo sempre fazia o rapaz corar em vários tons diferentes de vermelho – tons estes que ela sempre procurava empregar em seu trabalho de estilista – mas, além do fato de ser muito engraçado – e muito útil – vê-lo corar, Zaila o fazia porque sabia que Farlan gostava de Isabel além da amizade, e ficava muito irritada sabendo que sua filha era a única que não percebia. – Ora, calma, rapaz, estou apenas brincando – Ela completou dando risadinhas.
—E- Eu, sei. Eu com Isabel...? – Farlan demorou antes de completar a frase se perdendo mais nos pensamentos sobre ela. - I- Impossível! – Ele exclamou por fim – ainda que completamente desacreditado de sua própria resolução.
—Por acaso estão falando de mim? – Isabel questionou descendo a escada.
—O Farlan só estava dizendo o quão bem você está indo no curso. – Zaila mentiu.
—Ah, isso é verdade! Os professores sempre elogiam meus projetos, é claro que nunca tanto quanto elogiam os do meu maninho, mas isso não me incomoda, algum dia serei uma arquiteta bem melhor do que ele! – Eles emendaram a conversa em diversos outros assuntos desde arquitetura, até trivialidades do dia a dia.
Petrus – marido de Zaila – passou pela porta da frente por volta das 18:30 passando as mãos nos cabelos loiros que começavam a se tornar prateados à medida que envelhecia – mais rápido do que o normal graças a seu emprego de engenheiro da construção civil. Ele colocou os óculos retangulares sobre uma mesinha próxima ao sofá branco de onde Zaila se levantou para beija seu rosto – que como o dela mesma – já apresentava marcas da idade.
O patriarca convidou Farlan para ficar e jantar – ele também gostava muito do rapaz – o jovem, porém, recusou, alegando que sua mãe o esperava. Ele se despediu da família Schlüter e da casa dos roseirais – que precisava urgentemente de um novo apelido – se sentindo um tanto imbecil por ainda ficar vermelho com as provocações de Zaila mesmo lidando com elas há anos.
Na manhã seguinte Mikasa acordou mais tarde do que o normal, o que ainda assim era cedo o bastante para chegar a universidade sem atrasos. Ela não apressou o passou na rua, apenas caminhou normalmente até alcançar o topo da imensa escadaria branca do prédio, observou com admiração as imensas colunas de mármore branco que seguravam o triangulo bem aberto que constituía a fachada onde se liam em imensas letras douradas: Hreidmar: Artes e humanidades.
Não se demorando mais do que o usual na entrada. Ela passou pela recepção e subiu até a sala de aula que estava completamente vazia a exceção de uma figura pálida que já sentava no canto agarrado a um caderno onde desenhava.
Ela dirigiu-se a sua mesa onde encontrou um pequeno saquinho preto escrito “Müller, joalheria”. Dentro haviam duas coisas, sua pulseira – agora sem o couro velho e roído que fora substituído por pequeninos elos prateados – e um pedaço de papel branco onde além do número do joalheiro lia-se “me deve uma, pirralha”.
—Eu não te pedi nada. – Ela tratou de falar para Levi.
—Se pedisse não teria graça. – Ele respondeu fingindo indiferença.
A garota pós a pulseira sentindo um enorme alivio por não a ter perdido definitivamente.
—Obrigada. – Disse num sussurro que seria inaudível se ele estivesse alguns centímetros mais longe.
Levi não respondeu, apenas deu um pequeno sorriso para si mesmo enquanto continuava a desenhar. Ambos permaneceram em silêncio até que o resto da turma chegasse. Ele concentrado em sua tarefa de reproduzir uma rosa bem ao lado do par de asas formado por tracinho negros e brancos entrelaçados e ela muito interessada no trabalho do joalheiro.
Fale com o autor