Blood Royal
3 Natasha
Notas iniciais
Bem, como foi que eu entrei naquela sala, sem cautela alguma para avisar que meu pai havia morrido, na minha frente e eu havia me mantido viva? Como? Eu não tenho ideia de como fiz isso, só me recordo do soldado do palácio, sujeito pelo qual eu nem me recordo o nome. Desde aquela hora eu não me lembro exatamente o que aconteceu, não sei se foi uma impressão minha, mas tudo passou muito rápido. Assim que apareci por aquela porta, Calina desmaiou, eu só a olhei com os olhos arregalados. Sabe como doeu? Parecia que ela e minha mãe me queriam morta, eu não sei se foi impressão ou se era realmente um desejo delas, que tivesse sido a mim, não ele. Por isso, que assim que recolheram minha irmã para a enfermaria, subi correndo as escadas. Nunca fui boa em chorar em público, muito menos na frente da minha família. Por este motivo e mais muitos, quando cheguei na porta do quarto, quase a quebrei com a força que a bati quando entrei no quarto, sim eu entrei correndo, só me joguei na cama, me enrolei aos lençóis espalhados por minha cama, misturando o cheiro de minhas coisas, com meu choro. Pra ser sincera, eu não sei muito bem o que doía ao exato, se era a dor da perda do meu pai, se era minha própria mãe e minha própria irmã gêmea me quererem mortas naquele exato momento ou a sensação de que eu havia falhado e que eu que tinha o matado.
Não sei ao exato quando dormi, só me lembro de ver minha cama coberta por duas cores, preto e vermelho. Acho que o vermelho era do meu sangue, que eu sentia que escorria da minha perna esquerda, sim, eu havia sido ferida, mas acho, acho... Argh, não, eu nunca fui de ter tantas dúvidas, mas sim ter muitas certezas. Vai ver esse é o efeito que a morte tinha sobre as pessoas, as deixar em uma confusão profunda, as fazer se sentirem como nunca haviam se sentido antes, acho que a morte nos transforma em pessoas novas, não sei se para o lado bom, ou para lado mal. Mas essa é uma certeza que eu tenho, ela nos transforma, eu nunca fui assim, acho que se chorei duas vezes na vida, foram muitas, mas é quando me deparei com a situação de estar dormindo, mal conseguindo fechar os olhos de tão inchados que estão por conta de choro, que percebi que meu pai sim, sim ele fazia falta. E muita. Sabe quando você sente um vazio crescendo dentro de você? E que esse vazio vai ficando ao ponto que parece que você vai ser engolida por ele, que nunca mais ser vista, nunca mais ver ser você. Que você deseja sumir da maneira mais correta que consegue, com a morte e se juntar com aquele que você perdeu? Eu não sei se todos já passaram por isso, mas não acho que ninguém mereça essa imensa dor, que não cabem e nunca irão caber dentre as palavras.
“Era tudo escuro, eu segurava sua mão, meus fios ruivos se moviam de um lado para o outro sem o meu consentimento, um sorriso sobre ambos os lábios, nossos olhares se cruzavam. Papai soltou minha mão e entrelaçou seu braço em meu pescoço, estávamos tão felizes, ou quase isso, eu ainda sentia a leve brisa sobre meu rosto. Do nada, tudo virou pó, o sangue começou a aparecer. Ele jogado no chão, ensanguentado, sim, ele já estava morto, mas suas últimas palavras eram inesquecíveis, “Vingue minha morte”. Eu não sabia o que fazer, já vinham homens, eu não sabia o que fazer, minhas mãos com o sangue dele e o meu sangue. Isso machucava mais que tudo...”
Sim, eu acordei muito assustada naquele dia, minha respiração era tão ofegante que parecia que eu tinha corrido uma maratona, meu cabelo mais bagunçado que o habitual, eu não sei como dormi, por conta disso que quando observei o sol já no céu, me assustei. Praticamente me joguei da cama, fazendo que mais sangue se espalhasse pelo chão, eu urrei de dor naquele momento, foi quando me levantei que a dor piorou. Me rastejei até o banheiro, lutando contra minha vontade de gritar, berrar ou esmurrar as paredes, era o dia do enterro dele. Então no banho, coloquei uma toalha na boca, segurando os gritos, fazendo tudo que podia para aquilo melhorar. Os minutos se passavam e a vontade dos gritos abafados ia passando, logo que terminei, me enrolei a uma toalha, peguei o primeiro vestido preto que apareceu a minha vista, como sempre havia feito, vesti um par de sapatilhas, amarrei meus fios em um rabo de cavalo, ´pela primeira vez na vida me entupi de maquiagem, disfarçando as olheiras. Desci as escadas, me esforçando para manter aquele sorriso falso no rosto, para mamãe ver que eu era forte, mas na primeira vez que ele me viu, me deu um abraço, um dos mais fortes que haviam dado na minha vida, ela agradeceu por ao menos eu estar viva. Naquele momento, foi como se tudo tivesse desaparecido, que nada tivesse acontecido, que ainda éramos nós cinco, porém, não era. Em minutos ela teve que me soltar, então tudo retornou, mais uma vez. Soltei minha última fungada e então comecei a cumprimentar a todos os parentes de meu pai.
A hora do caixão foi a mais difícil, não, eu não fiz discurso, ele era meu pai e por este exato motivo eu não sabia o que falar, era uma guerra dentro de mim, minha parte viva contra minha parte morta. Tudo chorava e eu não podia fazer isso, nem mesmo se eu implorasse. Foi quando terminou, que Calina subiu para o quarto e depois desapareceu que eu resolvi fazer o mesmo. Eu já sabia que alguns parentes de meu pai ficariam ali no palácio, nos lembrando que ele partira, que nunca mais entraria por aquela porta. Na minha opinião, aqueles que iriam ficar, são os que tinham inveja do meu pai e que agora que ele faleceu, viram uma oportunidade de se aproveitarem. Não que eu ache que mamãe seria enganada por eles, e aposto que ela tinha essa mesma impressão, mas infelizmente ou felizmente, eles eram a família do amor de sua vida e ela teria que os deixar ficar, na verdade, não teria como obrigação, mas sim ela queria. Sim, ela queria ter uma lembrança dele, um pedaço para se apoiar e conseguir se levantar, eu sei que eu, ou a Calina ou até mesmo o Guilherme não conseguiríamos a fazer se levantar.
No meu quarto, comecei a pensar sobre o que faria para finalmente achar o culpado por aquilo, o que eu iria fazer para conseguir o que queria, a vingança que ele pediu. Foi nesse momento que Calina apareceu no meu quarto e seguida dela, o Guilherme. Eles se abraçavam, mas Gui estava se mantendo forte por nós, eu sabia que a vontade dele era se derramar no chão e poder chorar, mas nosso pai o ensinou a ser um ótimo pai de família e com isso um ótimo irmão. Ambos caminharam até minha cama e se sentaram, Calina se deitou no colo do nosso irmão, já ameaçando chorar, ele gesticulou para que eu fizesse o mesmo. Não, eu não podia negar colo um dia depois que meu pai havia morrido.
Quando me deitei, foi como se tivesse passado. Outra coisa que a morta faz, a gente valorizar as pessoas, nunca dei a importância necessária para o meu irmão, e ele era a pessoa que mais me ajudava. Sabe quando você se sente sozinha no meio da escuridão e do nada aparece uma mão conhecida para te dar o que você precisa e te tirar dali? Que pega um pano, seca suas lágrimas, te dá um abraço e diz que tudo vai ficar bem, mesmo sem ter certeza do que está dizendo...
E foi nesse momento que a janela do quarto se quebrou, não era uma pedra ou algo parecido, era um tiro, com algo em volta. Um pedaço de papel com letras pequenas, tinham algumas palavras em russo, eu tinha medo de ir até lá, então pela primeira vez na vida, Calina tomou a iniciativa. Se levantou, com as mãos trêmulas, mas foi até próximo a a bala, onde o tal bilhete estava. Quando estava voltando para a cama, mais um tiro, ele passou a cinco centímetro de sua barriga, assim nem de raspão. Natasha se esquivou, mesmo não sendo preciso e caminhou até a cama novamente, seus olhos não ameaçavam cair lágrimas, mas eu sabia que ela estava ficando mais forte, aliás, eu sabia que ela não estava ali. Que estava em um mundo só seu, onde tudo era bom, nada de ruim existisse, talvez eu também estivesse, mas não me permitia aceitar esta condição.
Quando se sentou sobre a cama novamente, eu já estava sentada também, Guilherme nos olhava como se certificando que estivéssemos vivas. ‘
''Medo, pânico, perda. Essas palavras eram as únicas que rodeavam minha cabeça, nem mesmo este “ataque” tinha me feito parar com isso, eu estava assustada, é claro, mas não acreditava, meu olhar era pousado sobre a cabeceira, eu não conseguia tirar o olhar de lá, como se algo prendesse. Eu estava parada, nem minha respiração mais eu sentia, não, nada, a dor havia parado, o mundo não tinha ar, nem mosquitos, tudo havia desaparecido, uma melodia ecoava, mas eu não sabia qual era, mas de repente tudo se transformou em preto, mais uma vez. A música se transformou em um rock não tão pesado, mas “My Medicine”, era uma música que mexia comigo, não sei justificar. Mais uma vez sangue, escorrendo por mim, por meu corpo e tudo que me rodeava, era como um ataque terrorista.''
Quando Guilherme me chacoalhou, me trazendo de volta para o mundo, eu me dei conta de que Calina sangrava, pouco, mas acontecia, ela não dizia nada, mas lia e relia o bilhete várias vezes, só depois que a olhei que percebi que ela estava fazendo isso, e sem qualquer nexo. Ignorava o sangue, como eu fazia, mas lia aquilo que a fazia cada vez pior, seus olhos não entregavam o que sentia, só as lágrimas que podiam vir. Ao tentar pegar o bilhete de sua mão, ela me deu um leve tapa, eu não sei exatamente o que foi aquilo, nunca havíamos nos batidos, era a primeira vez em quinze anos. Até Guilherme estava com os olhos arregalados, todos esperavam esse tipo de atitude de mim, não dela, a garota perfeita da casa. Nada dissemos, mas sabíamos que tinha algo de errado, ou melhor, de muito errado com ela.
Quando finalmente abriu a boca, e entregou o bilhete para nosso irmão, ele pegou o papel como se tivesse algum tipo de maldição, óbvio que não tinha, mas faria sentido. Nenhum outro ataque, e nós percebemos que só ocorreu no meu quarto, como se no momento exato, foi quando ele passou o olhar pelas palavras e seu rosto ficou pálido que finalmente entendi que era algo sério. Algo que tinha a ver com a morte de nosso pai, e que para eles estarem assim, não era algo bom. Guilherme fez o mesmo que Natasha, leu e releu com atenção, como se estivesse deixando algo passar ou estivesse lendo errado. Não, eu não tinha mais paciência para aquilo.
Peguei aquele papel da mão do meu irmão, mas foi quando a porta se abriu, todos olhamos para porta, gelamos, não tínhamos medo exatamente dos convidados ou da mamãe em si, mas de que fossem os responsáveis pelo ataque que ocorrera a pouco tempo. Quando vimos mamãe, soltamos um suspiro de alivio, ela não entendeu, mas perguntou o que tinha no bilhete. A mamãe de sempre, sim, ela sempre tinha sido extremamente observadora e detalhista, como diz a expressão “capaz de achar agulha em um palheiro”. Nem esperou que eu respondesse, até mesmo porque não tinha como. Então ela se aproximou e pegou o papel de minha mão, Natasha e o Guilherme me olharam com pânico da reação de nossa mãe. Então ela abriu seus lábios e começou a ler em voz alta. A medida que lia o tal bilhete, sua cor ia ficando como a de todos os outros. Quando terminou, se sentou e mais uma vez leu, em voz alta, para todos do quarto escutarmos:
– O reinado de vocês acabou, sim, acabou, em breve, cada um terá sua merecida morte!
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