Continuamos cavalgando as margens do Kash até onde um paredão de terra se elevava e seguia para o norte. Uma cachoeira barulhenta e fria jorrava lá do alto.

— Por acaso nós temos que escalar até lá? – Questionou Gustav olhando para a caverna de onde a água violenta irrompia de dentro da montanha.

Eu desci do cavalo e me aproximei da margem, ajoelhei-me retirei as luvas e mergulhei as mãos nas águas congelantes e nervosas.

Callyen, sou eu, Charlotte. Eu vim, pois soube só agora que ainda está vivo e também porque preciso da sua ajuda.

— O que você fez? – Sam perguntou assustando vendo a cachoeira se transformar em uma escada.

—Obrigada – Sussurrei para a água. – Eu não fiz nada. – Respondi enquanto calçava minhas luvas e caminhava em direção a escada formada pela cachoeira.

— Charlotte você é uma conjuradora da água? – Gustav perguntou se aproximando de mim.

—É claro que não – Respondi com um risinho e pus o pé no primeiro degrau. Era firme, mesmo a água continuando escorrendo debaixo dos pés. – Vocês vêm?

Gustav suspirou e veio logo atrás, já Sam… esse eu nem olhei a sua reação.

Quando cheguei na boca da caverna saltei até a margem direita e então pude ver Callyen sorrindo. Caminhei até onde ele estava e o abraçei. Eu não gostumava abraçar pessoas, mas saber que ele estava vivo era me fazer relembrar um passado feliz quando eu ainda tinha uma família completa e depois porque ele me dava esperanças em continuar a cumprir minha primeira promessa.

—É bom saber que também está viva. – Disse ele enquanto eu desfazia o abraço.

Ele continuava o mesmo, talvez algumas rugas a mais, porém quase imperceptíveis. Seus olhos azuis e seu cavanhaque eram seu cartão de visitas.

—Quem são esses? – Perguntou ele dando um passo em direção onde Sam e Gustav estavão parados.

—São de Aleil…

—Eu sou Gustav – disse ele me interrompendo e dando um aperto de mão em Callyen.

—Muito prazer em conhece-lo.

—O prazer é todo meu. Nossa… eu nem acredito que estou diante de um conjurador. Você é um conjurador né? Aquela coisa com a cachoeira foi… foi você quem fez, não foi? – Gustav estava eufórico e quase quicava de felicidade.

—Sim para todas as suas perguntas.

—Gustav gosta de fazer perguntas. – Comentei.

—E você? – Callyen perguntou ficando de frente com Sam.

—Sou Sam. – Respondeu ele em seco – E de onde vocês se conhecem?

—Meu pai é amigo de Callyen. – Respondi apressada antes que Callyen falasse algo que não deveria.

—Que ótimo, assim ele também pode lhe ajudar. E será uma grande ajuda já que ele é um conjurador. – Disse Gustav.

Callyen me deu um olhar de você não contou a eles, não é mesmo?

Eu apenas dei um risinho.

—Bom, se vocês são de Aleil certamente estão vindo de lá e presumo que estejam cansados e com fome. – Disse Callyen se pondo ao meu lado.

—Pode apostar que sim. – Disse Gustav e Sam deu um pequeno cutucão em suas costelas.

—Então me sigam.

—É… e nossos cavalos? Logo vai anoitecer e tudo vai congelar lá fora. Não podemos deixa-los morrer de frio. – Sam continuava em tom sério.

—Tem toda razão. Ao lado de onde deixaram os cavalos há uma porta no paredão. Vocês podem deixa-los lá, é quente e tem comida.

Sam apenas assentiu e levou Gustav com ele em direção aqueda d’água que formava novamente uma escada.

—Como soube onde me encontrar? – Perguntou Callyen.

—Usei o chá da verdade no príncipe Jansen e ele me contou que estava vivendo aqui, no único templo que está de pé.

—Chá da verdade? Então o que ouvi sobre você é verdade.

—O que ouviu sobre mim?

—Que depois que foi expulsa do Labirinto você se tornou uma assassina.

—É, é verdade. Mas Callyen não conte nada a eles sobre mim, está bem? A única coisa que sabem é que sou assassina.

—Não contarei. E sobre seu pai me conte depois.

—Ok.

—Sabe, — disse Gustav enquanto saltava na margem ao segura. – Para um conjurador que vive num templo esquecido você tem um… um celeiro bem cheio.

—Obrigado, é que sou prevenido. – Disse Callyen. – Certo, agora vou lhe mostrar os seus dormitórios.

Sam jogou minha mala para mim.

—Valeu.

Seguimos montanha a dentro e ali era quente, iluminado e tinha uma corrente de ar mesmo o lugar possuindo apenas a caverna como entrada e saída. Callyen primeiro deixou os garotos num quarto e seguiu comigo no mesmo corredor só que mais a frente e me deixou.

Entrei no quarto. Era um tipo de bolsão escavado na terra. Uma cama simples e bem arrumada ficava no centro do quarto e uma pequena cômoda ao seu lado, havia uma porta que dava para a sala de banho no qual eu entrei e já coloquei a banheira para encher. As paredes e o chão pareciam gritar por mim, mas antes de me “recarregar” eu precisava de um banho. Voltei para o quarto e retirei todas as minhas armas e escondi a espada Grun atrás dos travesseiros.

Depois de horas na banheira eu me troquei e deitei ali no chão do quarto e deixei que a terra encobrisse meu corpo e adormeci.

—Aí está você? – Disse Gustav ao me ver chegando para ao que parecia ser um café da manhã.

—Acabei dormindo, acho que estava mais cansada do que com fome. – Puxei uma cadeira e me sentei.

—Você perdeu um dos bolinhos de arroz mais deliciosos que já comi na minha vida. – Gustav sorria como uma criança em um parquinho.

—Que pena.

—Seu pai é um conjurador, Charlotte? – Sam perguntou. Ele parecia irritado como sempre.

—Não. – Respondi no mesmo tom que ele.

—Meu circulo de amizades não é feito apenas de conjuradores. – Callyen disse calmamente e vi Sam morder a mandíbula de raiva.

—Você vive aqui a quanto tempo? – Perguntou Gustav curioso.

—A pouco mais de um século.

—Século!? – Gustav se espantou – Então você tem tipo, uns… sei lá, uns duzentos anos?

—Um pouco mais. – Callyen parecia se divertir com a curiosidade de Gustav.

—Uau. Se me perguntasse diria que tinha uns quarenta anos, no máximo.

—Conjuradores vivem tanto quanto elfos.

—É Callyen, será que podemos conversar a sós? – Perguntei.

—Claro. – Ele se levantou. – Me acompanhe. – Ele seguiu em direção contraria da correnteza do Kash e subimos alguns degraus esculpidos na terra. Tudo ali parecia mais uma caverna do que um templo. Chegamos num salão com alguns bancos próximos as paredes altas, o teto era abobado e não havia nenhum tipo de vela ou candelabro iluminado o local, porém tudo era claro e quente. No canto esquerdo era a nascente do Kash, água borbulhava fortemente e escorria para seu destino: o mar. Do outro lado havia um altar também esculpido na terra. Era como os do Labirinto: um pedestal era o único objeto e sobre ele flutuavam os elementos. Em uma ponta uma bolha d’água flutuava elegante, ao seu lado esquerdo havia um punhado de terra e ao seu lado direito quase imperceptível estava o ar e entre o ar e a terra estava…

—Não, não, não. – Sai correndo em direção ao altar e parei diante do pedestal elementar. Meus olhos não acreditavam no que viam. – Onde está? – Questionei ainda com os olhos fixos nos elementos. – O fogo… — Eu não consegui terminar.

—Há mais ou menos dez anos a última conjuradora do fogo se foi. – Disse Callyen se pondo ao meu lado. Sua voz era triste.

—Não. Não pode ser. – Me virei para ele. – Mas ainda existem conjuradores do fogo no Labirinto, não é mesmo?

Tinha que ter. Tinha que ter.

Callyen fechou apenas fechou os olhos.

Não. Não.

Minhas pernas começaram a tremer e eu sai do altar e me senti em um banco. Tudo estava perdido. Como eu encantaria a espada com os quatro elementos se um deles já não existia em nosso mundo?

—Charlotte – Callyen se sentou ao meu lado – Me desculpe, mas por que está tão abalada por não haver nenhum conjurador do fogo?

—Porque tudo isso é culpa da caçada. – Eu disse levantando o olhar até onde deveria haver uma chama no pedestal elementar.

—Sei tanto quanto você disso. Ainda sofremos nossas perdas…

—E também porque preciso dos quatro elementos para soltar meu pai. – Confessei.

—Foram os elfos, não é mesmo?

—Sim. Aqueles desgraçados. – Eu me levantei e fiquei de costas para Callyen. – Fiz um acordo com o rei élfico e agora tenho que encantar as quatro gemas da espada Grun com os elementos e lhe devolver a espada. Só assim meu pai será livre.

—A lendária espada Grun se soltou do trono?

—Acho que já estava solta. – Caminhei até a nascente do Kash e pus a mão em suas águas frias. – Meu pai me disse que eu encontraria livros que me ajudariam a encontrar conjuradores fora do Labirinto, já que eu não posso entrar lá. Ele me disse para procurar os livros em Andrya.

—Por isso esses rapazes. – Comentou Callyen quase para si mesmo.

—Não, eles são metidos a aventureiros e não sabem de nada. Acham que vindo atrás de mim viveram aventuras como nos contos.

—Mas sabem que você é uma assassina e mesmo assim a seguiram. Você poderia ao menos dar-lhes uma chance.

—Não. Sam e Gustav mal sabem pegar numa espada… Mas Callyen – Eu me virei para falar com ele – Não encontrei nenhum livro em Andrya e Jansen me disse que eles foram enviados para cá. Mas agora que não há mais conjuradores do fogo, eu… eu nem sei o que fazer.

—Charlotte, esses livros saíram de Aleil, mas nunca chegaram aqui.