Blood Queen
9 Capítulo 9
Antes mesmo de o dia clarear eu estava de pé e pronta para ir à cidade com Sam. Coloquei uma faca em minha bota, pois ir a lugares como um mercado negro exigia precaução e tendo quase certeza que Sam jamais visitara lugares como aquele era melhor se prevenir. Eu também usava minha capa e quando Sam bateu na porta de meu quarto eu percebi que ele também levava uma consigo.
Talvez ele não fosse tão tosco quanto eu imaginava.
Saímos do castelo e uma carroça já nos aguardava, eu não questionei se fora Sam que já havia deixado tudo preparado. Seguimos para a cidade e o sol começava a despontar, o céu estava nublado e havia muita neve acumulado na estrada e isso atrasou nossa chegada à cidade.
—Vai ficar parada ai? – Questionou Sam ao descer da carroça.
Nós havíamos parado em frente a uma loja que vendia temperos. Sam já seguia para o baú da carroça e eu me demorei de propósito para descer.
—Leve isso. – Disse ele me entregando uma pequena caixa com aquelas frutinhas amarela.
Ele também pegou uma caixa e entrou na loja. Segui logo atrás. Colocamos as caixas no chão do fundo da loja e um senhor de cabelos ralos apareceu.
—Bom dia. – Cumprimentou o homem.
—Bom dia Sr. Jullyart. – Respondeu Sam.
—O que vai querer levar hoje? – Perguntou o homem.
—Isto. – Respondeu Sam entregando do lhe um pedaço de papel.
O homem pegou o pedaço de papel e saiu.
Nós fomos até a entrada da loja.
—Por que você e Gustav vêm à cidade todos os dias? – Questionei.
—Pois precisamos de alimentos. –Respondeu ele.
—Eu não entendo. Vocês fazem uma troca de mercadorias?
—Exato. No castelo há uma estufa que fica atrás dos estábulos e que produzem alguns alimentos até mesmo no inverno, mas não produzimos muitos alimentos daí fazemos essa troca com produtos que precisamos e não temos. – Explicou Sam.
O Sr. Jullyart apareceu com uma caixa nas mãos e entregou a Sam que colocou no baú da carroça.
Depois de pararmos em mais três lojas e fazermos as trocas de mercadorias eu já estava ficando impaciente e Sam parecia se demorar de propósito.
—Será que podemos ir ao mercado negro agora? – Perguntei impaciente enquanto tentava subir na carroça. Praguejei. Eu adorava vestidos achava eles lindos, mas usa-los era outra história. Estão sempre atrapalhando a fazer coisas simples como caminhar e subir naquela carroça era o cúmulo.
—Já estamos indo. – Disse Sam se divertindo ao me olhar enquanto subia desajeitadamente na carroça.
—Odeio usar vestidos. – Admiti.
Sam apenas sorriu e estalou as rédeas.
Calculei a distância que estávamos do porto e percebi que não era muito longe para uma caminhada.
—Vai mesmo ir de carroça até o porto? – Perguntei.
—Algum problema com isso? – Notei que Sam estava com um semblante mais relaxado.
—Todos. Se vamos visitar um mercado negro e entrar numa loja de ervas não queremos ser notados como moradores do castelo. A menos que você queira. – Respondi em voz baixa.
Havia muitas pessoas naquelas ruas e mesmo estando numa carroça eu não queria que ouvíssemos nossa conversa.
—Há carroças de todos os tipos naquele porto. – Rebateu ele.
—Mas não uma com insígnia do reino gravada no eixo da carroça e que segue para o mercado negro.
—Tudo bem. – Disse Sam depois de um tempo.
Seguimos por uma rua larga e paramos em frente a uma pequena praça. Sam desceu e foi falar com alguns garotos que estavam por ali. Desci da carroça e aguardei. Sam pagou para que aqueles garotos vigiassem a carroça.
—Pegue sua capa. – Disse quando ele se aproximou.
Sam pegou a capa que ele havia colocado dentro do baú de seguimos em direção ao porto. Eu puxei o capuz de minha capa, pois o porto era movimentado e pessoas de todos os reinos humanos circulavam por ali e eu não queria correr o risco de ser reconhecida por alguém. Sam também colocou a capa e puxou o capuz.
—Como você consegue enxergar com isso? – Reclamou ele abaixando o capuz em seguida.
—Com o tempo se acostuma. – Respondi. – Você parece feliz hoje. Está mais falante.
—De fato estou mesmo, afinal em breve me livrarei de você.
—Você diz isso agora, mas tenho certeza que sentirá minha falta.
—Acho difícil.
—Você deveria me agradecer por tornar sua vida mais emocionante.
—Emocionante? – Questionou ele sarcasticamente.
—Sim. Andrya é um reino bom e tudo, mas é monótono. Nada de extraordinário acontece por aqui. Você deveria aproveitar minha estadia por aqui e se divertir enquanto buscamos por livros, ervas e estar sob a minha ameaça de cortar a cabeça de seus amigos.
Sam parou de caminhar.
—Chama isso de emocionante? Ameaçar pessoas e visitar lugares perigosos? – Questionou ele um pouco incrédulo e pasma com o que eu havia dito.
—Sim. – Respondi e continuei caminhando. – E esse lugar perigoso que você mencionou, para mim não passa de um parque de diversões. Já estive em lugares muito piores.
Era verdade. Em Singart há praticamente uma cidade negra que fica no subterrâneo. Lá se compra e vende de tudo, desde de armas a alimentos e coisas exóticas como cabeças humanas em vidro. Certa vez fui contratada por um vendedor de cabeças e ganhei uma miséria por levar uma cabeça de um nobre de Nuska, eu tive que andar por quase duas semanas com aquela cabeça fedorenta dentro de uma sacola e mesmo assim minha recompensa não foi nada.
—O que você é? – Perguntou Sam ao se aproximar de mim novamente.
—Alguém sem importância, mas que quer apenas livrar o pai das masmorras. – Respondi.
—Alguém sem importância não teria um pai preso nas masmorras. – Comentou Sam em tom afiado.
—Se quer continuar com sua língua afiada e melhor calar a boca. – Disse mostrando os dentes.
Continuamos caminhar cada vez mais perto do porto e ali havia muitas casas sujas e que assustavam que não estava acostumado com aquilo. O subúrbio era um lugar temido e ali se escondiam pessoas com caráter duvidoso, mas também haviam pessoas boas que viviam ali por não terem dinheiro para morar em um lugar mais respeitado. Andamos por ruas estreitas e sinuosas até passarmos por uma rua em que as casas de pedra ficavam num nível mais baixo e um forte odor de esgoto e mercadorias estragadas pairava.
Eu parei avaliando o local que parecia esquecido e abandonado. Por ali não passava ninguém e o único barulho que se ouvia era do vento que soprava do mar e alguns gatos reviravam o lixo em busca de comida. Caminhei por mais uma quadra e avistei uma rua estreita de pedra. Sam caminhava logo atrás de mim e tinha o capuz sobre sua cabeça. A rua não tinha saída e as casas eram como a rua anterior, em um nível abaixo. Parei e senti um cheiro de ervas vindo da última casa do lado esquerdo. Caminhei em direção a ela.
—Mantenha a boca fechada e deixe que eu negocie. – Eu disse quase sussurrando.
—Como sabe que está no lugar certo? – Questionou Sam um pouco assustado.
Apenas dei um meio sorriso e desci os degraus que levavam a uma porta velha de madeira. A casa parecia abandonada, mas o cheiro que vinha dali de dentro era pungente. Abri a porta e ela rangeu alto. Entrei e Sam logo veio atrás.
Ali dentro o cheiro das ervas e drogas comercializadas ilegalmente era tão forte que pisquei algumas vezes para não lagrimejar. O local era quente e tinha uma iluminação péssima e amarelada que tornava o ambiente ainda mais hostil. Havia muitas caixas de madeiras espalhadas pelo local que parecia ter sido uma sala de estar antes de se tornar uma loja do mercado negro. Havia um balcão no fundo da sala e atrás dele prateleiras cheias de vidros coloridos e potes com ervas e especiarias exóticas. Um velho esquio e careca entrou na sala por uma vão que supus dar para uma cozinha.
—Em que posso ajuda-los? – Perguntou o velho indo para trás do balcão.
—Estamos em busca de algo raro. – Respondi em voz firme e escondendo meu rosto sob o capuz.
—Vieram ao lugar certo. Tenho muitas coisas raras por aqui. – Disse o velho apontando para as garrafas que estavam nas prateleiras.
—Que ótimo. – Sorri. – Então realmente estamos no lugar certo.
—Por um acaso como ficaram sabendo desse lugar? – Perguntou o velho que parecia desconfiado enquanto observava Sam, este por sua vez pareci tremer dentro da capa.
—Viemos de longe, isso basta saber. – Respondi em seco.
—Dois jovens como vocês não parecem que vieram de longe. – O velho estava entrando num jogo que eu conhecia muito bem.
—Pessoas como nós sabemos nos esconder e disfarçar nas sombras, não é mesmo? – Comentei deixando minha voz sair despreocupada.
—Garota não banque a esperta comigo – o velho de apoio sobre o balcão e se inclinou em minha direção – pois esse lugar pode ser muito perigoso.
—Tem razão, esse lugar é perigoso e se acharem o corpo de um velho traficante de ervas sem cabeça ninguém irá se importar. – Eu disse também me apoiando sobre o balcão e ficando próxima do velho, minha voz saiu mais ameaçadora do que eu planejara.
O velho recompôs sua postura sorriu e mostrou seus dentes podres.
Eu coloquei uma moeda de ouro élfico sobre o balcão, — Isso deve pagar. – Disse por fim.
O velho olhou para a moeda em seguida encarou a mim e a Sam que estava a um passo atrás de onde eu estava e eu conseguia sentir seu espanto ao ver aquela moeda.
O velho colocou a mão sobre a moeda para apanha-la e eu aproveitei e puxei minha faca que estava na bota, com uma das mãos eu segurei o braço do velho que estava sobre o balcão e com a mão que empunhava a faca eu a coloquei em seu pescoço. O velho não deve tempo de reagir e arregalou os olhos.
—Eu não estava brincando quando disse que poderia ter sua cabeça cortada. – Eu disse entre dentes.
—Apenas diga o que quer, eu não contarei nada sobre vocês. – A voz do velho saiu trêmula e percebi que ele tinha achado que eu e Sam éramos elfos.
—Quero o chá da verdade.
—Mas é... — Eu apertei mais a faca em seu pescoço. – Tudo bem, tudo bem. Soltei-me que irei busca-lo.
—Nada disso. Diga onde está. – Eu estava adorando aquilo.
—Está dentro de uma caixa que está na gaveta atrás de mim. – Disse o velho quase aos prantos, ele não era tão durão quanto aparentou quando conversávamos antes.
Apenas dei um aceno de cabeça e esperei para que Sam percebesse que eu estava indicando para ele apanhar a erva. Demorou alguns segundos e segurei minha mão para não arrancar de vez a cabeça daquele velho chorão e eu mesma ir pegar a erva, mas Sam entendeu e se moveu até atrás do balcão e procurou pela erva.
Eu mantinha a faca no pescoço do velho e o segurava pelo braço. Sam estava demorando em encontrar, pois havia outras ervas naquela gaveta. Ele pegou dois pequenos sacos transparentes que haviam ervas diferentes e me mostrou, indiquei que era o da esquerda e ele guardou o outro saco e voltou para trás de mim.
—Deveria ser mais gentil com seus fregueses. – Eu disse e dei-lhe um soco em sua face que o fez cair no chão derrubando alguns vidros que estavam nas prateleiras. – Vamos.
Saímos dali andando o mais depressa possível e depois corremos ladeira a cima. Minha respiração condensava e meus pulmões doíam. Sam estava ofegante atrás de mim. Olhei para trás e notei que já estava a uma distância segura. Abaixei o capuz e parei.
—Por que fez aquilo com o velho? Já tínhamos a erva. – Resmungou Sam tentando recuperar o fôlego.
—Sam você é um bunda mole. – Retruquei. –Acha mesmo que se eu soltasse aquele velho ele iria deixar que saíssemos ilesos?
—Sou mesmo, prefiro ficar escondido naquele castelo à por minha vida em risco. E se ele também tivesse uma faca? E se ele vier atrás de nós? – Sam parecia contrariado.
—Não me lembro de ter lhe obrigado a vir comigo. – Eu disse tranquilamente e isso pareceu irrita-lo ainda mais.
Ele se aproximou mais de mim. – Onde conseguiu aquela moeda élfica? – Sussurrou.
—Não importa. – Eu me virei e continuei a caminhar em direção a onde havíamos deixado à carroça. – Consegui o que queria e isso é que importa.
—Onde aprendeu a lutar? – Perguntou Sam enquanto voltávamos para o castelo.
—Aprendi com meu pai, ele já foi um grande guerreiro. – Respondi me deixando levar pelas memórias do passado, para quando ele começou a me ensinar a me defender e depois e usar armas.
—Não entendo muito de luta e golpes, mas o pouco de meu conhecimento já percebo que foi bem instruída. – Comentou Sam com os olhos atentos na estrada.
—Isso foi um elogio? – Questionei sarcástica.
—Pense como queira. – Ele pareceu desconfortável. – Você sente falta do seu pai? – Perguntou ele depois de um tempo de silêncio.
—Meu pai é minha única família e meu amigo assim como eu sou a família e amiga dele. Farei o impossível para ter sua liberdade de volta, não suporto o ver sofrer. – Respondi sinceramente.
—Pelo menos você tem um pai. – Disse Sam em um tom de voz que soou muito triste.
—Sam, você tem muito mais do que um pai. Você tem uma família completa com irmãos, pais e amigos, muitos amigos. Não deveria se lamentar por não viver ao lado de seus pais de sangue pelo contrário, deveria agradecer todos os dias por ter pessoas a seu lado que te apoiam e te protegem e principalmente que te amam. – Eu disse e fui verdadeira, pois Sam não conhecia o sofrimento, a fome, a exclusão e a dor da separação de quem se ama.
Sam me olhou espantado de inicio, talvez porque não esperava que aqueles tipos de palavras saíssem de mim. Ele não disse mais nada até chegarmos ao castelo e eu também não forcei nenhum assunto.
Depois do almoço Gustav me abordou na cozinha e me levou até a estufa que ficava atrás dos estábulos. Era um barracão muito grande e quente. O teto de vidro proporcionava uma ótima iluminação. Havia canteiros compridos cheios de legumes e verduras, aos fundos pude notar um pequeno pomar e nas laterais canteiros de rosas vermelhas, amarelas e brancas.
—Este lugar é incrível, não acha? – Disse Gustav arrancando um morango de um canteiro.
—Sim. – Inspirei e pude sentir o aroma das rosas que perfumavam o local. O cheiro da terra molhada e fofa também preencheu meus pulmões, me contive para não me deitar no chão e sentir a terra que parecia gritar por mim. – Nunca vi um lugar como este. – Admiti por fim.
—Charlotte, você realmente quer sair daqui? – Gustav perguntou e me ofereceu um morango vermelho e rechonchudo, aceitei.
—Sim. Aqui é um ótimo lugar para se viver, mas eu quero conhecer outros lugares, as pessoas e os costumes e talvez depois eu volte para morar aqui. – O morango estava delicioso e era verdade, talvez eu voltasse a morar ali.
—Eu também tenho vontade de conhecer o continente e os seres que nele habitam. – Gustav começou a caminhar em direção as rosas, eu o acompanhei.
—Tem realmente curiosidade em conhecer um Orc, por exemplo?
—Talvez de longe, bem longe. – Respondeu ele sorridente. – Mas um elfo eu gostaria de conhecer pessoalmente.
Eu desviei o olhar em direção as rosas, não iria admitir que fosse uma mestiça e que ele estava falando com uma meia elfo.
—São seres que não despertam a minha curiosidade. – Admiti.
—Como não? Aqueles seres de beleza abençoada por deuses e de uma longevidade, força e inteligente merecem ser admirados.
Eu poderia dizer o quanto ele estava errado e descrever como os elfos realmente eram, mas isso não estava em primeiro plano. Sem sentimentos. Sem envolvimento.
Gustav me contou sobre algumas viagens que ele, Sam e Jansen fizeram para os reinos de Ballard e Nuska, sempre sorrindo ele descrevia as aventuras e acrescentava algumas coisas que eram malucas demais para serem verdade, como quando ele disse que os três mataram um leão com apenas uma pedra, mas antes disso eles caíram de um precipício dentro de um lago no reino de Ballard. Eu fingi acreditar e parecer surpresa com a história, mas sabia que era completamente mentira, pois não há leões no reino de Ballard.
As horas passaram rápido e logo anoiteceu. Depois do jantar me ofereci para lavar a louça, assim eu seria uma das últimas a sair e poderia preparar o chá sem ninguém além de Sam para me monitorar.
Apenas eu e mais três criados ainda permaneciam na cozinha quando Sam entrou e foi para perto da pia onde eu me demorava de propósito com a louça.
—Me ajude com a louça para ir mais rápido. – Eu disse lhe entregando um prato ensaboado.
Sam pegou e começou a enxagua-lo. Permanecemos em silêncio até o último criado sair.
—Você já preparou esse chá alguma vez na vida? – Perguntou Sam secando as mãos numa toalha que estava sobre a mesa.
—Sim, uma única vez e funcionou. – Respondi. – Me dê a erva.
Sam retirou o saco plástico de dentro de seu casaco cinza que estava pendurado num prego na parede próximo a porta que dava ao hall de quadros.
—Espero que realmente saiba o que está fazendo e que tudo que disse seja verdade. – Disse ele ao me entregar a erva.
—Confie em mim Sam, afinal temos um acordo e prometi não ferir ninguém se você não abrir a boca. Eu sempre cumpro com minhas promessas.
—Eu me sinto muito mal em dizer isso, mas confio em você e obrigado pelas palavras de hoje de manhã. –Seus olhos castanhos brilharam.
—Foram verdadeiras. – Sorri.
Era estranho, mas eu me sentia bem com Sam parecia que eu poderia dizer tudo a ele, confiar nele. Um amigo. Ele confiava em mim... Mas o que eu estava fazendo? Sem sentimentos, disse a mim mesma. Era difícil não me deixar envolver por aquelas pessoas, principalmente Sam e Gustav. Um era alegre e sorridente o outro sempre vendo o lado ruim das coisas, mas mesmo assim encarava o perigo.
Caminhei em direção a pia e coloquei uma pequena porção da erva dentro de uma tigela. Havia uma chaleira sobre o fogão, peguei e coloquei um pouco de água junto a erva. Com o cabo que uma colher comecei a amassar a erva.
—Vocês ainda estão por aqui? – A Sra. Mellyn entrou na cozinha.
—Desculpe senhora, mas é que estou preparando um chá para Jansen. – Eu disse ao me virar para olhar a mulher. – Como eu cuidei de minha mãe adoentada, pensei que pudesse ajudar.
—Claro fique a vontade. Sam, não se esqueça de apagar as luzes. Vou me recolher, boa noite.
—Boa noite. – Sorri.
A mulher saiu e eu continuei a amassar a erva que começava a soltar um sumo esverdeado.
—Como consegue mentir assim? – Questionou Sam se aproximando de mim.
—Com o tempo você aprende que precisa interpretar certo papeis para conseguir aquilo que deseja. – Coloquei mais um pouco da água fervente e continuei amassando.
—Será que existe alguém que realmente lhe conhece?
—Meu pai.
—Depois que conseguir liberta-lo, o que pretende fazer?
—Talvez venha morar aqui em Aleil. – Sam se espantou. – Fique tranquilo, pois é apenas uma ideia.
—Espero que não passe de uma ideia.
Eu peguei uma xícara e pus o liquido verde que saiu da erva e acrescentei mais água e coloquei um pouco de açúcar.
—Está pronto. – Eu disse colocando a xícara num pires.
—Vou te esperar aqui. – Disse Sam. – Boa sorte.
Sorri e sai da cozinha e segui em direção ao quarto de Jansen. A cada passo que eu dava meu coração batia mais forte. Esperança.
Tinha que dar certo. Iria dar.
Fiz uma pequena oração ao deus terra que eu nunca havia feito. Tudo o que estava acontecendo estava me fazendo ter uma fé que jamais tive, talvez porque eu jamais precisei de oração aos deuses.
Parei em frente à porta do quarto de Jansen e dei leves batidas.
—Entre. – Anunciou Jansen dentro do quarto.
Abri a porta. Jansen estava deitado em uma cama de casal grande. Seu quarto era grande. Havia uma lareira ao lado esquerdo e em frente um sofá cinza. Uma escrivaninha a direita da porta estava bagunçada e cheia de papeis e livros. Notei uma pequena sala com algumas cadeiras além do quarto e que havia uma sacada. Um pequeno candelabro pendia do teto.
—Olá. – Eu disse ainda parado sob a soleira da porta.
—Olá Charlotte. Entre. – Disse Jansen se sentando na cama.
Entrei e fechei a porta.
—Eu trouxe esse chá para você. – Eu disse caminhando em direção à cama e parei ao lado direito.
—Obrigado por se preocupar comigo, mas estou melhor. – Sua voz estava rouca e sua pele estava mais pálida que o normal.
—Pois não parece. – Eu me sentei numa poltrona que havia ali. – Tome, não é tão ruim quanto à cor sugere.
—Tem certeza? – Perguntou ele torcendo o nariz e pegando a xícara.
—Absoluta.
Jansen observou o liquido esverdeado e tomou um gole, dois e depois tudo.
—Tinha razão, não é ruim. – Disse ele me entregando a xicara vazia.
—Eu sei, sempre tenho razão. – Brinquei enquanto colocava a bandeja com a xicara sobre uma mesinha de cabeceira.
—Humilde você. – Comentou Jansen sorrindo.
Eu tinha que ficar ali até o chá começar a fazer efeito.
—Gustav me contou muitas histórias sobre as aventuras de vocês. – Eu disse puxando assunto.
—Ele contou sobre o leão? – Perguntou Jansen sorrindo.
—Sim.
—Espero que não tenha acreditado.
—É claro que não, mas tenho que admitir que foi divertido ouvi-lo contar histórias. – Admiti sorrindo.
—Gustav adora inventar histórias, principalmente para donzelas bonitas como você.
—Jansen, você pagou os garotos? – Perguntei me referindo à aposta que ele havia perdido quando tentou me beijar.
—Infelizmente paguei e não valeu, pois você ouviu.
Apenas sorri.
—Você parece irradiar quando sorri. – Comentou Jansen me olhando profundamente.
O chá estava começando a fazer efeito. Todos os elfos possuir um brilho, mas que logo cedo são ensinados a escondê-los para que não fique parecendo uma estrela cadente. Eu também possuía esse brilho, mas era fosco e quase apagado. Humanos não conseguiam ver aquele brilho, apenas elfos e conjuradores conseguiam esse feito, mas como Jansen estava sob o efeito do chá que lhe mostrava a verdade ele conseguia ver o meu brilho que eu havia deixado aparecer de proposito assim que entrei naquele quarto.
—Me admira um príncipe galanteador como você ainda estar solteiro. – Eu disse por fim.
—Gosto de minha vida de solteiro, — ele desviou o olhar para a lareira à frente e seu sorriso desapareceu – pena que isso irá acabar em breve.
—O que quer dizer com isso? – Perguntei.
—Meu pai quer que eu me case com a princesa de Singart. – Jansen encontrou o meu olhar. – Ela é bonita, mas é de Singart.
Então era por isso que o rei pútrido estava indo para Andrya.
—Talvez ela não seja como o pai. – Eu disse.
Não a via há muito anos a última vez que estive em Singart a princesa era apenas um bebê.
—Não é. Ela é o oposto de seu reino.
—Então qual o problema em se casar com ela?
—Não estou preparado para me casar.
—Eu no seu lugar estaria sentindo a mesma coisa. – Eu não via casada e servindo a um marido.
—Pelo menos ela é uma bela donzela. Tive uma conversa com meu pai e há esperanças, pois ele não é tão a favor desse casamento. – Agora eu tinha certeza que o chá estava fazendo efeito, pois primeiro ele disse que o pai estava arranjando o casamento agora já disse que o pai não estava a favor.
Omissão e admissão.
—Jansen, você sabe que há muitos anos Singart e Andrya foram inimigos, talvez um casamento entre os herdeiros seja bom para o futuros de ambos os reinos. – Eu disse já rodeando o assunto em que eu abordaria.
—Eu sei, mas já me decidi e não vou me casar com a princesa de Singart, pois ela é boa e seu pai não. Depois que nos casarmos o velho pode me matar e colocar sua filha de fachada para governar, tendo assim dois reinos em sua posse. – Tinha de admitir que Jansen pensava no futuro.
—Tem razão. De um rei como aquele se deve pensar em todas as possibilidades.
—Você é muito esperta Charlotte. Daria uma ótima rainha. – Disse Jansen me encarando.
Engoli em seco só de pensar no assunto.
—Não chego a tanto. – Eu tinha que parar de enrolar. – Jansen, você sabe o motivo de Singart e Andrya serem inimigos?
—Sim. Você não sabe?
Fiz que não com a cabeça.
—Quando uma ideia maluca partiu sei lá de onde a mais de cem anos que os conjuradores deveriam ser escravizados. Começou então uma caçada aos conjuradores. Andrya possuía muitos conjuradores e quando tudo isso se iniciou nós ficamos ao lado deles, de inicio o reino de Nuska também era do lado dos conjuradores, mas de uma hora para outra mudaram de lado e nos vimos cercados e forçados a lutar contra os outros reinos. Nossos exércitos não estava mais dando conta de conter as tropas inimigas e fomos forçados a mandar todos os conjuradores que estavam aqui para o Labirinto. – Eu conhecia essa história, conhecia o medo e a dor que a caçada causou. Eu era apena suma criança quando isso ocorreu, mas me lembro como se fosse a poucos dias de como o medo pairava sobre os conjuradores, tanto que até hoje aqueles que vivem fora do Labirinto se escondem para que ninguém saiba sobre seus poderes.
—Vocês não possuem mais nada dos conjuradores por aqui? – Perguntei por fim e tentando soar o mais calmo possível.
—Não. Alguns anos após o término da caçada nós enviamos os últimos pertences para o Labirinto. – Jansen estava concentrado nas chamam crepitantes da lareira.
—Você não sabe de outro lugar que ainda tem esses registros e que não seja o Labirinto? – Tinha que haver.
—Tem um templo nas Montanhas de Areia no reino de Nuska. O templo fica na nasceu do rio Kash. Há um guardião chamado Callyen...– Parei de ouvir o que Jansen dizia, pois eu conhecia o guardião. Ele morava na mesma aldeia que eu e meus pais viviam antes da caçada. Callyen era amigo de meus pais e quando a aldeia foi tomada pelos caçadores a sua esposa foi morta, eu fui levada ao Labirinto e não tive mais noticias dele e achei que também havia sido morto ou escravizado, mas estava enganada e além do mais Callyen era conjurador da água. Eu já havia ouvido falar desse lugar, o templo do Kash, mas achava que assim como os outros templos fora do Labirinto estava destruído. Agora eu sabia para onde iria.
—Obrigada Jansen. – Eu disse sorrindo.
—Por que todas essas perguntas? – Questionou ele encontrando meu olhar.
—Preciso libertar meu pai e para isso preciso encontrar conjuradores fora do Labirinto. – Respondi a verdade, pois no dia seguinte Jansen não se lembraria de nada.
—Pai!? Você não havia dito que seus pais haviam falecido ou sei lá o que? – Questionou ele surpreso.
—Menti e eu e Sam nunca havíamos nos visto, apenas forcei ele a inventar uma mentira para entrar nesse castelo e conseguir os livros dos conjuradores, mas como não estão aqui eu seguirei em frente e irei até o templo do Kash. – Respondi.
—Teve haver algum motivo por estar me contando tudo isso, não é mesmo?
—Há sim, esse chá que eu lhe dei é o chá da verdade e faz com que você diga somente a verdade quando está sob seu efeito e na manhã seguinte você não irá se lembrar de nada que conversamos. – Eu estava gostando daquela conversa, Jansen não estava surtando nem fazendo cara de paisagem ou de espanto, mas sim sorrindo.
—Agora vai nos abandonar? – Perguntou ele enquanto me observava levantar e pegar a bandeja sobre a mesinha.
—Sim. É necessário. – Respondi e segui em direção a porta.
—Você não precisa ir agora. – Disse Jansen. Eu já estava com a mão na maçaneta da porta. – Se não me lembrarei de nada amanhã, então talvez pudesse... hmmm, ficar mais um pouco.
Eu o observei ali deitado naquela cama, um belo príncipe. O que eu estava fazendo? Sair e deixar um homem como aquele sozinho num quarto? Não, eu não teria uma outra oportunidade como aquela tão cedo.
Coloquei a bandeja sobre a escrivaninha e fui em direção a cama. Jansen sorria. Me sentei na lateral da cama e os braços de dele envolveram minha cintura e me puxou contra seu corpo quente. Sua respiração estava pesada e olhando ele de tão perto sua beleza era ainda maior. Imaginei quantas garotas não dariam tudo para estar onde eu estava: nos braços do príncipe herdeiro de Andrya.
Senti que uma de suas mãos subiu até minha nuca e eu fui me aproximando cada vez mais de seus lábios até nos encontramos. Sua boca era quente e macia. Seus braços me puxavam cada vez mais para próximo de seu corpo e nossas línguas se entrelaçavam.
Depois de um tempo nos beijando eu sai do quarto e o deixei, pois não passaria a noite com ele. O observei por alguns segundos enquanto estava na soleira da porta e depois sai.
Eu e um príncipe. Nem nos meus sonhos mais malucos havia imaginado algo do tipo. Mas mesmo os beijos sendo maravilhosos eu não me deixaria envolver, pois iria para longe dali e Jansen era um príncipe e eu uma assassina.
Quando cheguei a cozinha Sam estava debruçado sobre a mesa de madeira e quando me viu se endireitou rapidamente.
—Por que demorou tanto? – Perguntou ele esfregando os olhos com as mãos.
—Tive que esperar o chá fazer efeito. – Respondi levando a xícara até a pia e a lavando em seguida.
—Jansen está bem?
—Ótimo. – Respondi e o encarei sorrindo.
Sam franziu o cenho. – Vocês por acaso não...
—Nós não fizemos nada demais. Se quiser pode ir lá perguntar a ele.
—Não precisa. Mas e ai? Conseguiu alguma informação sobre os livros?
—Sim. – Respondi sorrindo de felicidade como há muito tempo não fazia. – Os livros não estão aqui, mas Jansen me disse onde eu posso encontrar informações.
—Meus parabéns. – Disse ele sorrindo e pouco depois o sorriso desapareceu. – Então irá sair daqui logo.
—Sim, pretendo ir depois de amanhã. – Respondi ainda empolgada.
—Que bom, já era hora mesmo.
—Sam, você só diz isso da boca pra fora, mas por dentro está chorando pela minha partida. – Eu me aproximei dele e coloquei a mão esquerda sobre seu ombro. – Mas eu voltarei para visita-lo.
Sam apenas olhou de esguelha para minha mão que pousava em seu ombro e disse – Vá dormir, hoje foi um dia muito longo.
Notei que ele estava incomodado com nossa proximidade, então eu lhe dei um beijo na bochecha sai de perto antes que ele pudesse fazer algo.
—Vá dormir garota e pare com isso. Não somos amigos nem coisa alguma para você fazer isso e além do mais ainda me lembro de você colocando uma faca na minha garganta. – Sam ficou irritado, mas seus olhos me diziam o contrário.
Apenas sorri e acenei ao sair da cozinha. Eu estava muito feliz, tanto em saber que minhas esperanças não eram em vão e também por saber que um velho amigo estava vivo e poderia me ajudar.
Quando entrei em meu quarto apenas me joguei na cama e passei cada momento daquele dia, a adrenalina na loja de ervas, as histórias de Gustav, a confiança de Sam, a esperança renovada ao saber de Jansen sobre os livros e seus beijos.
Todos aqueles momentos que passei naquele castelo seria lembrado por mim para sempre, aquele povo me ensinou que nem todos os humanos merecem ser mortos como animais, pois mesmo sendo falhos eles se respeitavam e tratavam seus semelhantes com igualdade e me ensinaram algo que eu havia esquecido há muitos anos, o valor da amizade.
Sim, eu sentiria saudades daquele reino.
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